A Rosa Dourada
17 Sob a Benção do Estranho
Notas iniciais
p o n t a t e m p e s t a d e
A carruagem ia de um lado para o outro pelo terreno acidentado. Alix estava levemente enjoada por conta dos solavancos e sua avó não estava em melhor forma, estava pálida e parecia que vomitaria sobre ela a qualquer momento. Viagens já não eram da mesma forma para Lady Jeyne, contudo aquela era necessária, tanto para a Florent quanto para sua família.
De sua pequena janela ela já conseguia ver as muralhas cinzentas de Ponta Tempestade, se erguendo imponentes e gigantes. Ela sempre ficava deslumbrada com a enorme fortaleza, por mais que já tivesse vindo várias vezes.
Uma leve garoa caía, nada muito forte, contudo qualquer um que vivesse nas Terras Tempestade saberia que o céu nublado significava uma tempestade próxima. Ela esperava que o temporal chegasse quando ela estivesse protegida sobre o teto Durrandon. Alix tinha planos, planos delicados e perigosos, tinha de ser cuidadosa. Não poderia contar com a avó como sempre fazia, estaria sozinha, dependia de si mesma.
— Por que está tão quieta? — Jeyne questionou olhando para sua bela neta.
— Apenas estou pensando na guerra... — O que não era uma mentira, a guerra dominava seus pensamentos ultimamente.
— Ora minha querida, já disse para pensar em outras coisas. Não podemos fazer nada pelos Florent mesmo que quiséssemos. — A mais velha pegou nas mãos macias da neta com carinho.
— Sim, a senhora tem razão. Vou focar na Corte e em fazer uma boa impressão. — A mentira saiu facilmente.
— Isso mesmo, os Sete sabem como a megera do Rochedo não gosta de nós. Tenta fazer a cabeça de Lester contra mim e principalmente contra você, mas não se preocupe, eu mesma irei cuidar de seu casamento. Em menos do que alguns meses você estará casada com um príncipe. — A Senhora de Pedraverde falava tudo com grande animação, divagando sobre um futuro grandioso para sua neta preciosa.
— Claro vovó...
Alix aguardou pacientemente enquanto se aproximavam dos portões maciços da fortaleza, a garoa continuava fraca e ela agradeceu aos deuses por isso. Chegar molhada não era sua ideia de boa impressão.
A carruagem passou rapidamente pela guarita, neta e avó desceram da carruagem com a ajuda de um cavaleiro. Esperando no pátio do castelo estava a Rainha da Tempestade, junto de sua filha e alguns nobres. Alix suspirou, não suportava aquela mulher e ela também não gostava dela, uma péssima combinação.
— Vossa Graça! — Ela se curvou levemente perante a rainha e a princesa Roxanna.
— Oh Eleanor, que saudade! — Jeyne exclamou se dirigindo até a rainha, beijou sua face com alegria. Nem se dignou a se curvar, afinal Jeyne nunca deixaria de ser uma princesa. — Como é bom revê-la, já faz séculos que não viemos até aqui.
— Igualmente, meu coração se alegra em receber todos aqui. — A rainha disse com falsidade, não tinha a habilidade de Alix ou da avó.
Qualquer um com o mínimo de inteligência perceberia a completa mentira que era aquele encontro. Alix aguardou enquanto Jeyne e Rolland cumprimentavam os nobres mais importantes, ela preferia entrar de uma vez, mas entendia a importância daquilo. Se quisesse ser rainha teria de aprender a suportar momentos como aquele.
Roxanna se aproximou dela e a morena sorriu, a presença da princesa era muito agradável. As duas poderiam se considerar amigas, bordavam juntas e fofocavam sobre a Corte, nada de muito especial para damas como elas.
— Alix, que bom que veio nos visitar, Ponta Tempestade é tão sem graça sem você. É uma pena que mamãe não me deixe visitá-la, pelo menos tenho Karyn para me fazer companhia.
— Karyn Fell?
— Sim. — Alix virou-se para trás onde a moça estava observando. — Meus pais deixaram que eu permanecesse na Corte, eu pretendia te enviar um corvo, contudo soube que viria para Ponta Tempestade então quis manter a surpresa.
— Isso é maravilhoso. — Alix disse.
— É sim, venha Alix, tenho tantas coisas para te contar! — A jovem princesa a puxou levemente pelo braço.
— Não seria melhor falar com a rainha primeiro? — A Florent questionou a contragosto.
— Oh, mamãe será que posso ir à sala de costura com Alix e Karyn?
Eleanor virou o rosto para a filha, lançou um olhar cortante para Alix. Não gostava que a princesa ficasse com ela, contudo concordou com a cabeça, tinha de manter a boa imagem na frente da corte.
As três damas seguiram rapidamente para dentro da fortaleza circular. A sala de costura era um ambiente amplo e grande, comportaria cerca de cinco dezenas de damas. Tinha três grandes janelas que deixavam a luz entrar, como aquele dia estava cinzento e frio a lareira estava acesa. Elas três sentaram em frente às chamas alaranjadas.
— Fiquei sabendo que seu tio foi rejeitado por Giulia Selmy é verdade? — Karyn cochichou com um sorrisinho ácido.
— Sim... — Ela concordou com um aceno.
— Ora este ai vai morrer solteiro. — A jovem Fell ria com uma mão em frente à boca.
— Não diga isto Karyn, isso seria terrível, a casa Estermont ficaria sem um herdeiro depois de Galeon!
— Tem razão princesa, foi maldoso de minha parte. — Karyn se desculpou, mas não parecia arrependida.
Ela começaram a bordar e fofocar sobre diversos assuntos, desde o clima chuvoso até como Lady Swann havia engordado. Alix esperou pacientemente até tomar a palavra mais uma vez.
— E onde está o rei? Não o vi no pátio...
— Oh, ele foi caçar, levou vários lordes e Edric. Eles voltam está noite. Meu irmão ficou muito feliz em saber que você viria, ele disse para não contar, mas ele comprou um belo vestido verde para você com um colar de esmeraldas. É lindo!
— O príncipe foi muito gentil em pensar em mim. — A morena disse com um pequeno sorriso.
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A noite havia chegado e com ela a tempestade. Ela não conseguia distinguir os rostos de sua janela, mas podia ver que era uma grande comitiva no pátio, provavelmente o rei. Ela precisava de Edric, sem ele tudo iria por água abaixo. Esperava que ele não fosse ir atrás de qualquer prostituta como normalmente fazia de acordo com Karyn, precisava falar com ele, convencê-lo.
Ela acreditava que já se passava da meia noite, deveria estar na cama, contudo havia esperado pacientemente pelo príncipe e não seria agora que iria dormir.
Alix foi até a porta, onde colocou o ouvido sobre a madeira áspera de pinheiro. Não tardou muito para ouvir passos, não conseguiu distinguir quantas pessoas eram, mas continuou ouvindo. Duas vozes foram ouvidas, ela reconheceu a do rei e a de Edric. O que eles falavam continuou um mistério, uma porta foi fechada no final do corredor e batidas vieram para a sua.
Ela sorriu, pois como imaginava Edric viria até a ela o mais rápido possível. A Florent ajeitou os cabelos e o roupão, tinha escolhido um com um grande decote em “V”. Abriu a porta vagarosamente e tentou manter uma face de sono, o príncipe sorriu ao ver seu rosto.
Edric tinha as botas sujas de lama e o corpo molhado pela chuva, todavia isso não impediu que seus lábios fossem contra os de Alix. Um beijo cheio de paixão e desejo guardado. Ela não impediu mesmo que isso fosse muito inapropriado para uma dama como ela, tinha de ter ele em seus encantos, preso na luxúria que era a paixão.
Fazia tempo que não sentia as mãos fortes de Edric sobre si, toda vez que o via parecia que ele ficava mais forte, deveria estar no sangue Durrandon. Ele já havia beijado ela várias vezes, antes eram apenas brincadeiras que deixavam o príncipe a flor da pele, agora era algo necessário para ela.
— Como senti sua falta Alix... — O príncipe dizia enquanto beijava seu pescoço, soltando sua respiração quente sobre ela, isso a fazia se arrepiar por inteira.
Alix permitiu que o príncipe passasse dos limites que ela sempre colocou. Ele passou as mãos sobre seu corpo a beijou como nunca, mas por fim quando colocou a mão em locais indevidos ela o empurrou.
— O que foi? — Ele perguntou evidentemente chateado por ela o ter empurrado.
— Eu sou uma lady, não posso deixar você me violar dessa forma!
Ela sentou-se na ponta da cama e o príncipe foi para perto dela, começou a brincar com seus cachos negros enquanto ela mantinha uma face emburrada.
— E quando poderemos passar por essas formalidades?
Finalmente o ponto que ela precisava.
— Ora, obviamente só irei fazer essas coisas com meu marido!
— Pois bem, eu me caso com você, eu te amo loucamente Alix. — Edric disse beijando sua mão. — Vamos noivar amanhã!
— Não percebe que sua mãe nunca deixaria que isso acontecesse? Ela me odeia Edric e nunca deixaria que eu me casasse com você.
— A decisão não é dela e sim minha, irei me casar com você e ponto final.
— Continuo achando que ela não irá permitir, a menos que... Não, não é uma ideia boba...
— O que? Pode me dizer!
— A menos que nos casássemos escondidos, poderíamos ir a um septo e realizar a cerimônia amanhã mesmo. — Alix olhava diretamente para os olhos claros de Edric, ela sabia que ele faria isso, estava estampado em sua face.
— Pois bem, que seja, nos casaremos amanhã.
Alix estampou um sorriso de ponta a ponta e beijou o príncipe com vigor.
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