A Rosa De Masyaf

15 Revelações


Notas iniciais
Desculpem-me pela demora. Final de semestre é fogo...

A Rosa de Masyaf

Revelações

O retorno para o templo é feito sob um pesado silêncio, cheio de perguntas e inquietações. Assim que chegam ao local onde o Animus foi colocado, a ausência de som é quebrada pelo início do questionamento.

–Então, quem diabos é Daniel Cross? — Desmond pergunta olhando para o pai e para os amigos.

–Por incrível que pareça, ele costumava ser um assassino. — Shaun explica – O assassino, pelo que me contaram. Mas na verdade era um espião da Abstergo, programado para se infiltrar e destruir a organização.

–Como ele sabia que você estava lá? — William questiona – Podemos estar comprometidos...

–Devem ter me pegado xeretando a rede deles e mandaram Cross para ver o que a gente queria. — Shaun responde – Se conhecessem a nossa localização atual, nós saberíamos. Mas vou dizer uma coisa: não é nada bom para expedições futuras.

–Instalei câmeras lá em cima. — Rebecca diz, sentada no computador – Se alguém aparecer, nós vamos ver.

–Cross não foi o único que eu encontrei. — Desmond diz, dessa vez dirigindo o olhar ao pai – Sophie estava lá.

–Filho... — William começa, mas o ex-bartender não o deixa continuar.

–Você encontrou outro artefato? É por isso que Sophie estava lá? — raiva começa a rastejar e a se manifestar na voz do assassino.

–Como você sabe disso? — o líder da Irmandade questiona olhando de modo desconfiado para o filho. Shaun e Rebecca trocam um rápido olhar, atentos a qualquer indício de uma nova briga.

–Eu atendi seu telefone. — Desmond responde e, antes que possa levar uma bronca, continua: — Ela não sabe que fui eu. Eu não disse uma palavra, mas ela sim. Sophie disse que conseguiram tirar um artefato dos templários, um artefato que está com mamãe e Margareth. Ela disse que o levariam para Gail e que ela se juntaria a elas depois de conseguir mais informações. Então?

Um pesado suspiro escapa dos lábios de William antes que o experiente assassino comece a responder:

–Gail conseguiu uma pista acerca de outro Pedaço do Éden localizado em uma célula templária em Nova York. Sua mãe e Margareth se responsabilizaram por recuperá-lo para nós. Eu suponho que Sophie as tenha ajudado.

Outra Maçã? — Shaun questiona de maneira hesitante.

–Eu não sei. — o mais velho responde – Até a última vez que falei com minha esposa, não havia informações sobre o formato do artefato. — William se vira para Desmond – Não atenda meus telefonemas.

–Era da minha irmã. — o mais novo responde de modo petulante – Responda-me: você planejava me contar que Sophie foi capturada pela Abstergo antes de mim?

–O quê?! — a mesma exclamação de surpresa deixa os lábios de Shaun e Rebecca.

–Clay me contou. No Animus. — Desmond elabora ante o silêncio do pai – Ele me contou que eles não deram um número a ela, mas que Sophie foi usada do mesmo modo que eu fui!

–Sem número? — a questão de Shaun é ignorada pelos dois assassinos de sobrenome Miles.

–Isso foi meses atrás. — William responde de modo controlado – Sophie está bem, ela escapou.

–Ela sobreviveu. — o ex-bartender corrige – Outra coisa que Clay me contou foi sobre o fato que Sophie tem uma mente especial, valiosa para a Abstergo. Por quê? O que há de tão especial nela?

–A habilidade de abrir memórias reprimidas sem ter que obedecer uma ordem cronológica, alta taxa de sincronização e certo controle sobre os efeitos colaterais do Animus. — a voz de Shaun, que se encontra em frente ao próprio computador, captura a atenção dos dois assassinos – Entretanto, ela tem um corpo fraco e suscetível a colapsos durante o uso do Animus.

–O quê? — Desmond pergunta intrigado pelas semelhanças entre a fala do historiador e o que foi dito por Clay na Ilha.

–Como você sabe disso? — William completa.

–Durante minha pesquisa no banco de dados da Abstergo, eu encontrei um arquivo sobre um sujeito sem número. — Shaun explica – Não havia menção de número nem de nome, só dizia que o sujeito era do sexo feminino e tinha vinte e quatro anos, junto com outras informações sobre as habilidades desse sujeito no Animus. — o olhar do historiador se volta para o líder da Irmandade – Eu nunca imaginei que esse arquivo pudesse ser sobre a sua filha.

–Um dos relatórios que você me enviou enquanto estiveram na Itália mencionava as memórias de uma antepassada inesperada do Desmond. — William diz encostando em uma das mesas – Anna Auditore da Venezia, certo? Uma garota com a habilidade de ver Altaïr sem a presença de um Animus, algo que Rebecca chegou a sugerir que pudesse ser devido a um efeito de sangramento natural. — os três assassinos assentem – A teoria de Rebecca, embora difícil de acreditar, é correta. — ante as palavras do mais velho, um sorriso nasce nos lábios da técnica e descrença se desenha na face do historiador. — Um trauma, tal como a queda do telhado sofrida por Anna, pode desencadear um efeito de sangramento natural em indivíduos com pré-disposição para tal.

–Como você sabe disso? — Desmond questiona, o tom de voz se tornando mais baixo e suave.

–Porque sua irmã possui a mesma habilidade que Anna. — percebendo a surpresa nas faces dos mais novos, William explica: — Desde pequena, Sophie se mostrou diferente, com uma sensibilidade maior do que a das outras pessoas. — ele olha para o filho – Tenho certeza de que se lembra de quando Sophie caiu da escada quando vocês eram crianças.

–Sim. — Desmond responde – Ela passou mal e perdeu o equilíbrio. — assim que as palavras deixam sua boca, o assassino sente como se tivesse sido atingido por um raio. Imediatamente, ele se lembra da primeira vez que Anna viu Altaïr, o acidente em Veneza. Anna corria pelos telhados e se preparava para pular quando sentiu dor e perdeu o equilíbrio. Quase o mesmo que ocorreu com Sophie.

–A partir desse acidente, Sophie mudou. — William continua – Ela começou a ver coisas que não estavam lá, pessoas e situações. No começo, ela ficou medo, mas, com o tempo, começou a controlar. Ela adquiriu a habilidade de usar esses visões a seu favor. — uma pausa – Como vocês sabem, o efeito de sangramento traz consigo a absorção de habilidades. Sophie usou isso para melhorar suas próprias habilidades como assassina.

–Então o efeito de sangramento natural fez de Sophie uma cobaia melhor para o Animus? — Rebecca questiona.

–Sim. — o líder dos assassinos responde – Um indivíduo que sofre do efeito de sangramento se torna mais sensível ao Animus. Um indivíduo capaz de controlar o efeito de sangramento se torna capaz de controlar as memórias com as quais sincroniza. Mas também se torna mais suscetível a se perder na sincronização.

–E isso aconteceu com Sophie? — Desmond pergunta.

–O tempo que sua irmã passou no Animus não a ajudou. Aumentou o efeito de sangramento e deixou Sophie mais suscetível a crises e colapsos. Deixou-a mais fraca.

–Então é por isso que quando eu estava no Animus, ela tossia? — o ex-bartender pergunta mais pra si mesmo do que para os outros – E em Manhattan, ela não conseguia manter o equilíbrio?

–Não se preocupe. — Desmond levanta o rosto ao ouvir e sentir a mão do pai em seu ombro – Sophie está bem. Ela se recuperou e sua mãe e Margareth estão sempre de olho nela.

–Como ela escapou? — o rapaz pergunta fazendo William respirar fundo.

–Ela nunca falou muito sobre isso, mas pelo que eu pude entender, Lucy viu o que ela e Clay estavam fazendo através das câmeras de segurança e foi vê-los. Quando ela chegou, Clay estava morto e Sophie a atacou. Por algum motivo, Lucy havia levado as lâminas escondidas de Sophie e as devolveu. Sophie deixou Lucy inconsciente, roubou o cartão de acesso dela e abriu caminho para fora da Abstergo.

–Por que ela não matou Lucy? — Desmond questiona.

–Eu não sei. — William responde – Quando voltou, Sophie tentou me avisar sobre Lucy, mas eu não acreditei. — outra pausa – Não pense muito sobre isso, Desmond. Nada de bom resultará disso.

Com isso, William se afasta, deixando o filho com Shaun e Rebecca. E com os próprios pensamentos.

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Pensando em muito ao mesmo tempo, Desmond decide correr um pouco pelos corredores escondidos do templo e queimar um pouco da adrenalina que corre por suas veias. Mas por mais que o assassino corra, escale e pule, ele não consegue apagar a imagem e silenciar a voz da irmã. Não se preocupe comigo, Des. Como ele poderia fazer isso? Ainda mais depois de tudo que descobriu.

Então não é apenas uma semelhança física que Anna e Sophie compartilham, mas também o efeito de sangramento natural. Como ele nunca percebeu? Por quinze anos, ele esteve sempre ao lado da irmã. Eles viviam juntos, brincavam juntos, treinavam juntos e ele nunca notou algo diferente em Sophie. E agora ele conhece o efeito de sangramento, o sente na própria pele e sabe o quanto uma pessoa pode sofrer com ele. Desmond pode apenas imaginar tudo pelo que a irmã teve que passar.

O assassino para ao ouvir passos se aproximando. Ofegante, ele vira o rosto e apenas observa enquanto Clay brinca se equilibrando sobre as rachaduras no chão do templo. O mais velho levanta o rosto e sorri. Desmond não vê um motivo para devolver a ação. Kaczmarek suspira e para de brincar, se aproximando do mais novo.

–Pensando demais? — Dezesseis questiona – Isso pode enlouquecer, sabia?

Sophie... — Dezessete começa, mas para, virando o rosto, incapaz de articular em palavras todos os pensamentos que passam por sua mente.

–Você se preocupa com ela. — Clay afirma.

–Não deveria?

–Ela é sua irmã. Você sempre vai se preocupar com ela.

Vendo Clay se apoiar as costas em uma parede, Desmond se lembra de algo dito pelo pai.

–O que vocês fizeram no dia em que você... Morreu? — o mais novo questiona hesitando um pouco na última palavra – Lucy foi até vocês para ver. — as palavras de Desmond fazem Kaczmarek rir.

–Eu te disse, Desmond: nós chegamos em um ponto em que a minha morte se tornava a vida de Sophie. — Dezesseis responde – Naquela noite, Sophie me ajudou a passar minha consciência para o Animus. Nós sabíamos que Lucy iria perceber que algo estava errado e iria até nós. Até lá, o processo estaria terminado e Sophie deveria aproveitar a visita de Lucy para escapar.

–Você usou a sua morte para ajudá-la a escapar. — Desmond comenta.

–Eu estava perdido de qualquer maneira, mas isso não significava que ela deveria ficar presa na Abstergo. — Clay diz desviando o olhar – Ela era mais útil na Irmandade.

Enquanto observa a leve tensão que parece dominar a figura de Dezesseis, o assassino mais novo se lembra de um pedido. Diga a Sophie que eu fico feliz por ela ter sobrevivido.

–Você se importava com ela. — o ex-bartender diz.

–Ela foi o primeiro membro da Irmandade, depois do seu pai, com quem eu consegui construir algum tipo de relação. — Clay diz voltando o olhar claro e cheio de emoção para Desmond. Nas íris azuis, Dezessete pode ver tanta saudade e desejo que, por um momento, fica paralisado – Ela me ajudou a me adaptar na Irmandade. Quando eu era um noviço, ela era uma mestra. No campo, ela era minha parceira. Fora do campo, ela era minha amiga. E na Abstergo, Sophie era... Minha sanidade. Não que eu espere que você compreenda.

E, antes que Desmond possa impedir, Dezesseis desaparece.

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O ex-bartender tenta ir atrás do fantasma do assassino, mas assim que dá um passo a frente, tudo ao seu redor brilha tomado por uma luz dourada. E então, mais uma vez, Desmond vê Juno.

–O que é um fato? — a mulher questiona — Ele é fixo? Imutável? Tem uma existência certa e só aguarda ser descoberto? Ou será que foi alterado? Aqui descobrimos a resposta e achávamos que ela nos salvaria. — a imagem de um homem usando a Maçã para controlar outros aparece diante de Desmond — Eles eram usados para comandar. Para controlar. Para possuir. Mas logo descobrimos outro uso. Quando havíamos dominado um número suficiente de pessoas e as obrigávamos a acreditar, seus pensamentos tomavam forma. A imaginação se tornava realidade. Se centenas de mentes podiam eliminar uma muralha com um desejo ou criar uma árvore, o que milhares podiam fazer? Dezenas de milhares? Mais? Será que poderíamos alterar o consenso e eliminar a ameaça com a nossa vontade? — a imagem cede lugar a um holograma do globo terrestre — Decidimos lançar uma para o céu, da onde poderia iluminar todos nós. Uma vez colocada, uma frase seria pronunciada: Proteja-nos. Dessa maneira, alteraríamos o consenso. Salvaríamos o mundo. Mas isso nunca aconteceu. Mandamos dezenas delas em direção ao céu, mas não havia como manter o controle. Como direcionar o raio. Como subjugar o mundo. Como dizer as palavras. Embora isso tenha sido estranho e perigoso, o que fizemos a seguir foi pior...

A imagem de Juno some e Desmond volta a caminhar pelos corredores, mas logo a luz retorna e a voz da estranha mulher volta a ser ouvida:

–Nosso primeiro instinto foi viajar para trás. Para mudar o passado. Mas não encontramos uma maneira. Agora, para frente... Podíamos olhar para frente... — a imagem de Juno aparece diante do assassino — Então, aqui, tentamos enxergar para além de nós mesmos e saber o que estava por vir. Primeiro, observamos para saber se nosso trabalho seria bem-sucedido. Mas a resposta era sempre a mesma. Então, mudamos para outras coisas, mas ela continuou. Aquela que você chama de Minerva. Com o tempo, ela também parou de procurar e começou a falar. Ela chamou através do tempo, na esperança de que você fosse salvo. Ela escondeu mensagens onde ninguém as encontraria, a não ser você e aqueles que estivessem nesse lugar...

–Fascinante... — Desmond comenta com um leve tom de sarcasmo na voz — Cansei disso. Todos os avisos enigmáticos. As ameaças... Nos diga o que você quer!

Mas nenhuma resposta é dada por Juno. Nem por ninguém da Primeira Civilização.

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Cansado, Desmond retorna para junto dos outros, mas se mantém afastado, caminhando em silêncio para perto da Porta. O ex-bartender observa a alta e larga construção tentando imaginar o que pode estar atrás dela, o que Juno pode conseguir quando ela finalmente for aberta.

–Nenhum cálculo, nenhuma previsão é imune a falhas. — uma voz familiar diz fazendo um arrepio correr pelo corpo do assassino.

Desmond vira o rosto e sente o coração parar por um momento ao ver o perfil de Anna. O olhar da italiana percorre a Porta como se a estivesse analisando, como se estivesse se fazendo as mesmas perguntas que Desmond.

–E falhas podem levar a novas descobertas, a novos caminhos. — a filha de Ezio continua, agora voltando o olhar para o rapaz — O futuro não é um acontecimento estático, está em permanente mudança, a cada passo que você dá, a cada escolha que você faz. — Com os dedos, Anna acaricia o ombro do assassino — A hora está chegando, Desmond. Mas antes você tem que encontrar o que te levará para além do que eu posso mostrar. Eu só posso levá-lo até um determinado ponto. Alguém mais tem que levá-lo além.

As palavras da italiana fazem Desmond lembrar do que foi dito por Clay, do outro erro que ele tem que encontrar. Anna é um, mas quem pode ser o outro? Sem pensar, o assassino ergue a mão e tenta contornar a face de Anna, sentindo apenas o frio do vazio sob seus dedos.

–Ache-a, Desmond. — Anna diz — Ela está perdida. Como todos os erros.

Ela? — o assassino questiona. O outro erro também é uma garota?

–Quem poderia ser o erro que abre o resto do caminho iniciado por Anna? — Desmond vira o rosto ao ouvir a voz de Clay. Um rápido olhar de volta confirma o desaparecimento da ladra italiana — Quem poderia estar conectado a filha de Ezio? Compartilhar com ela?

O verbo chama a atenção de Desmond e Dezesseis sorri ao perceber que o mais novo começa a compreender. Compartilhar. Olhos azuis. Cabelos negros. Efeito de sangramento natural.

–Sophie... — Desmond diz em um sussurro.

–Sophie. — Clay confirma.

Notas finais
Por favor, deixem comentários. Críticas e sugestões são sempre bem vindas. Obrigada