A Roda
1 A Roda
Então era isso. Ele havia perdido seu toque.
O homem observava a roda girar sozinha, perdido em pensamentos. A última vez que ele mexera na sua roda de fiar tinha sido após perder o filho. E antes disso, ao ser aprisionado por Zelena. E muito antes, ao perder Belle, Milah, seu pai e incontáveis outras pessoas que passaram por sua vida e desapareceram sem deixar rastros.
Desde então, muita coisa havia acontecido.
...
A primeira vez que ele enxergou alguma mudança real em sua vida foi quando Baelfire nasceu. A visão de seu filho acalentado nos braços de Milah o preenchia com um senso de propósito que estivera ausente desde que ele era um menino. Mas tão breve quanto ele surgiu, rapidamente ele se foi, e Rumple se viu abandonado pela esposa.
Sozinho, manco e com um menino para criar, ele empreendeu uma longa batalha para não ceder ao desespero. Eis que o destino inventou de torturá-lo mais uma vez. A guerra não havia terminado e agora, seu filho seria recrutado.
Rumplestilskin estava cansado de perder as coisas. De perder aquilo que ele mais prezava no mundo. Quando a chance surgiu de mudar seu destino, ele a agarrou com todas as suas forças. Pois um homem desesperado aceita qualquer condição para se livrar da fonte de seu sofrimento. E assim foi que ele garantiu a estadia de seu filho, mas a um custo que para Rumplestilskin, ainda era impossível de calcular.
E a primeira promessa que ele fizera na vida foi a primeira que ele veio a quebrar. O poder ou o pedido do filho? Ora, por que ele não poderia ter os dois? Afinal, Baelfire era só um menino. Ele desconhecia os perigos dessa vida e não sabia o que estava lhe pedindo para jogar fora...
Abandonado pela única família que lhe restava, Rumplestilskin aprendeu o preço de acordos feitos sem ler os termos do contrato.
Ele estava cansado. Cansado de lutar contra o mundo e sair prejudicado. De ver o que ele tinha de mais precioso escorrer-lhe pelos dedos sem ele nada poder fazer para impedir. Por que ele tinha de ser sempre o perdedor?
Não mais. Daquele dia em diante, Rumplestilskin é quem passaria a ditar os termos dos acordos que o futuro lhe resguardava.
...
Os anos se passaram. Rumplestilskin havia se tornado um fiador de primeira, tecendo seus planos e enredando suas vítimas em suas mentiras, entrelaçando os destinos das pessoas de tal forma que compunham uma trama da qual ele era o único dono.
Com incontáveis dívidas em suas mãos, ele detinha uma vantagem. O Senhor das Trevas agora detinha poder, influência e habilidades com que os mortais apenas sonhavam em ter. Mas nem mesmo a capacidade de prever o futuro apaziguava sua maior incerteza: iria ele um dia encontrar Baelfire?
Pois Rumplestilskin sacrificara tudo para rever o filho: o verdadeiro amor, sua humanidade, até sua sanidade lhe seria subtraída quando seu plano finalmente foi realizado pela Rainha Má. E por mais que ele calculasse cada movimento, se adiantasse vários passos em relação aos seus inimigos, tal como num jogo de xadrez, ele sempre perdia para o outro jogador. Não havia jeito, uma vez que seu rival era o destino e era ele quem controlava desde o início da partida o tabuleiro.
Belle havia entrado novamente em sua vida para sair. Seu filho, por quem ele arquitetou as maiores maldades contra pessoas inocentes, acabou sendo morto. Seu próprio pai havia tramado contra Rumplestilskin em benefício próprio, assim como fizera quando ele era apenas um menino indefeso.
E tudo quando ele pensava ter se assegurado de que seus planos funcionariam perfeitamente... uma vez que ele partisse daquela terra de magia, ele encontraria Baelfire e pai e filho estariam reunidos novamente. Ele como um homem normal, Bae como o menino que sempre quis ser. Livres para construírem uma nova família e terem a felicidade que tanto lhes foi negada, e que seu próprio pai foi incapaz de lhe prover.
...
Rumplestilskin removeu um punhado de palha da roda e o contemplava em sua mão.
Nos dias mais sombrios de sua vida, quando nenhum raio de esperança parecia despontar no horizonte, a roda era a única coisa capaz de acalmar seu coração tempestuoso. Sua infância tinha sido como uma planta seca, exposta por tempo demais ao Sol, de forma a ter perdido sua vitalidade e força de viver muito antes de ter uma chance de desabrochar.
Seca e sem vida como a palha. Sem cores, sem graça, sem esperança.
E por longos anos, ele havia sobrevivido; um garoto cujos sonhos foram arruinados cedo demais. Sem família, nem destino certo, ele aprendera desde muito novo a se apegar às poucas benesses que o destino colocava em seu caminho e a nunca deixá-las fugir. Assim o foi com seu primeiro emprego, sua primeira esposa e seu primeiro filho. E dos três, somente o primeiro havia perdurado.
Em todos os momentos incertos, a cada vez que ele caminhava inexoravelmente em direção ao abismo, ela esteve lá: a roda. Fiando memórias infelizes em belas tramas douradas. Transformando remorso e amargura em ideias brilhantes. Enxergando oportunidades onde os outros só viam uma perda de tempo. Pois a roda era a sua mente a girar, aprendendo sozinha a converter o sofrimento passado em lições de vida. Em fiapos de ouro puro, mais preciosos do que qualquer metal que os anões pudessem escavar.
Mas a roda era uma companhia falsa. Não era ela que realizava a transformação. A magia estava no próprio garoto, que se tornou um adolescente, que cresceu e virou um adulto e finalmente aprendeu a sobreviver sozinho no mundo.
No fim das contas, Rumple sempre estivera solitário. Ou assim ele pensava.
Todos que um dia entraram em sua vida vieram a deixá-lo.
A esposa que ele amara acima de tudo,
O filho de quem ele cuidara com o maior zelo do mundo,
Até mesmo a única mulher que enxergara o homem por trás da fera e lhe entregara seu coração...
E apesar de todos os infortúnios, Bae o havia perdoado. Assim como Belle, muito tempo depois. É verdade, não fora uma tarefa fácil convencê-los de sua sinceridade de sentimento, mas por mais que o destino apostasse contra sua felicidade, nada conseguia vencer o amor. E foi assim que Rumplestilskin finalmente se deu conta de que era nele que devia depositar suas esperanças. A força que sempre desprezara e a quem sempre sacrificara em nome das trevas. Pois era no amor que residiam a sua vitória e a sua redenção.
Mas que amor resistiria ao abandono de um pai ou uma mãe?
Rumple se pegou pensando na maldição e nas consequências do que ela tinha causado. Sem querer, ele havia condenado outra pessoa ao mesmo sofrimento ao qual seu pai lhe submetera. Emma Swan crescera em um orfanato, sem nunca por os olhos em seus pais.
E da mesma forma que fora abandonada, ela veio a abrir mão de Henry, que por ironia do destino era seu próprio neto.
Pais e filhos estavam presos numa eterna roda cármica, destinados a crescerem sem o amparo de um lar. Forçados a lutarem pela sua sobrevivência e a encontrarem seu próprio caminho, eles se tornavam presa fácil para as Trevas. Amaldiçoados por um destino fiado pelos dedos de um deus cruel e malicioso, eles eram obrigados a fazer o melhor que podiam com os poucos recursos que tinham à disposição. Heróis de seu mundo particular, eles travavam uma luta diária contra seus demônios internos, recusando-se a ceder à tristeza, à saudade e ao desespero, e ao medo do que o amanhã traria, arrancando seus poucos pertences que lhe eram mais preciosos.
Mas desta vez seria diferente. Baelfire estava para sempre perdido. Mas Henry ainda tinha um futuro pela frente.
O que ele pudesse fazer pelo garoto, ele faria. Ser o pai que nunca foi, ou ao menos a figura paterna sempre presente que ele nunca teve a chance de ser. O ciclo de abandono terminava aqui. Ele poria um fim nesta história.
Rumplestilskin voltou a encarar a roda de fiar. Então era isso. A roda não funcionava mais. Ele havia perdido seu toque. Henry era a sua promessa que interrompia o ciclo e mudava o destino.
Desde que ele havia deixado para trás seus dias de sofrimento e contemplado um novo amanhã possível, Rumplestilskin nunca mais havia conseguido transformar palha em ouro.
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