A Revolução da Tecnomagia
17 A Cifra Saknussem
Notas iniciais
CAPÍTULO 16
A CIFRA SAKNUSSEM
Reunidos à volta dos objetos, os amigos estavam satisfeitos por terem descoberto o segredo. Agora poderiam estudar as cartas e descobrir que tipo de mensagens Lucius Malfoy poderia ter deixado para Draco.
_Creio que agora poderemos chegar a algo sólido. – disse Borges.
_Exatamente. – comentei – Sabendo aplicar a cifra, chegaremos a um texto lógico.
Como Pansy e Astoria nunca haviam lido os livros de Jules Verne, não estavam entendendo do que se tratava. Então, Pansy perguntou:
_Com licença, Prof. Borges, nós não tivemos muito acesso a literatura trouxa na infância, nossos pais pouco nos permitiam. Como é essa cifra?
_Bem, ela foi utilizada em “Viagem ao Centro da Terra”, para que os protagonistas encontrassem o caminho para iniciar sua expedição. – disse ele.
_Tenho um exemplar no meu baú. – eu disse – Vou pegá-lo e te empresto.
Todos trocaram olhares bem significativos.
_Creio que podemos iniciar. – disse Draco – Kadu, acho que seria bom você buscar seu exemplar de “Viagem ao Centro da Terra”, para nos orientar.
_Certo, Draco. Já volto.
Logo depois eu estava retornando ao Gabinete da Direção, com o livro em mãos.
_Bom, gente, creio que agora será mais fácil prosseguirmos. E também orientar aqueles que não conhecem a história. – disse Borges – Kadu, comece a fazer as honras.
_Certo, professor. – comecei – Jules Verne, um homem à frente do seu tempo, assim como H. G. Wells, criou tantas histórias fantásticas que houve quem pensasse que ele era bruxo. Faleceu em 1905, deixando o legado de um visionário. Devido à “sina do filho único”, li muitos livros de autores trouxas e, entre os de JV, estava “Viagem ao Centro da Terra”. Otto Lidenbrok, cientista, geólogo e professor na Universidade de Hamburgo, também era apaixonado por livros raros. Ao adquirir um exemplar do “Heims Kringla” de Snorre Turleson, crônicas dos reis da Islândia, descobriu que o livro pertencera ao alquimista do Século XVI, Arne Saknussem e, em uma folha que era um marcador de páginas, ele encontrou caracteres rúnicos que se tornaram mais nítidos com o calor.
_Provavelmente algum tipo de tinta invisível. – comentou Hermione.
_Exato. Então, analisando o padrão dos caracteres, descobriu que embora as letras fossem runas, o idioma era o Latim.
_O esperado para uma pessoa culta da época. – disse Neville – Eu li o livro uma vez, quando criança. Mas não me lembro muito bem de como eles decifraram o texto.
_Quando colocado por extenso e transliterado para alfabeto latino, o texto simplesmente não fazia sentido, pelo que me lembro. – disse Harry.
_Sim, estou me lembrando. – disse Rony – Foi quando o Prof. Lidenbrok deduziu que ele havia encriptado o texto e supôs tratar-se de algo muito importante.
_Foi isso mesmo. – disse Draco – Então ficaram pensando em que tipo de sistema Saknussem poderia ter utilizado.
_Aí eles tentaram um sistema de blocos 4x5. – disse Borges.
_E o que é isso? – perguntou Pansy.
_Já vi algo assim, em documentos e até mesmo cartas de amor. – disse Astoria.
_Certíssimo, Astoria. – disse Snape – Primeiro, Lidenbrok pediu ao seu sobrinho, Axel para escrever uma frase, mas não na horizontal e sim em blocos de quatro letras na vertical e cinco na horizontal, incluindo vírgulas e pontos. Então, Axel escreveu em Latim o seguinte:
T O B I A U
A R E S G B
A O L I R E
D , L M Ä N
_Sim. – concordei – O texto era “Ta adoro, bellisima Gräuben”. Era uma outra sobrinha do professor, pela qual Axel era apaixonado.
_Ah, o amor. – brincou Gina, de mãos dadas com Harry – E eu me lembro que, mesmo depois de transcrito em blocos, o texto ainda não fazia sentido.
_Foi quando o Prof. Lidenbrok resolveu dar uma volta para clarear as ideias e Axel ficou com o papel, ainda tentando encontrar algum sentido, até que ele sentiu que as letras se embaralhavam e se invertiam. – continuei.
_Então Axel descobriu do que se tratava, após ler o texto em Latim, invertido. – disse Luna, que também já havia lido o livro – E transcreveu o que encontrou.
_Isso mesmo. – disse a Profª McGonnagall – Ele ficou tentado a queimar o papel, ao descobrir o que era.
_Não é para menos. – comentei – Imagine dar de cara com:
“In Sneffels yoculis craterem, kem delibat umbra Scartaris juli intra calendas descende, audas viator, et Terrestre Centrum attinges, kod feci.
Arne Saknussem”
“Desce pela cratera do Sneffels, que a sombra do Scartaris acaricia nas calendas de julho, audaz viajante, e atingirás o Centro da Terra, como fiz.
Arne Saknussem”
_Ou seja, encontrar por qual chaminé do vulcão Sneffels da Islândia descer, quando a sombra de uma determinada montanha a indicar, nos primeiros dias de julho, a uma certa hora. – disse Pansy – agora, mais do que nunca, quero ler esse livro, quando tiver a oportunidade.
_Sem problemas. – eu disse – Pode levá-lo. Bem, agora que já sabemos a cifra, creio que a lente nos mostrará quais letras das cartas deveremos utilizar.
Com as cartas de Lucius Malfoy agrupadas em ordem cronológica, Draco começou a utilizar a lente. Ela destacava as letras que fariam parte da cifra e após dizer a Hermione quais eram, ela fazia o agrupamento em blocos. Ao término de cada carta, os blocos compunham um texto que era escrito ao contrário. O primeiro texto era assim:
“Há perigos rondando. Aparências enganam. Confie mais em quem você pensava ser seu inimigo. Não terminou com o fim do Lorde, por sinal, foi o começo. Não deixe que sua mãe se envolva. O que ela não souber, não lhe trará risco.”
_Acho que ele já sabia algo sobre o descendente de Voldemort. – disse Gina.
_Provavelmente. – concordou Draco – E ele queria preservar minha mãe.
_Certo. – disse Borges – Deixaremos Narcisa fora o mais que pudermos.
_Entendo. Infelizmente, poderá acabar chegando um momento no qual ela ficará sabendo de algo.
_E isso poderá ser perigoso para ela. – comentei.
_Vamos continuar. – disse Hermione.
“A semente foi plantada. Se Andros ou Ginos, não se sabe. A aversão ao progresso oculta um plano nefasto. As chamas dos oito cumes serão de inestimável ajuda, ainda que não em grande quantidade no principal.”
_Creio que Lucius fala do descendente, que não se sabe se é homem, “Andros” ou mulher, “Ginos”. – disse Harry – Além disso, faz menção à Tecnomagia, ao progresso.
_Isso reforça a infiltração de bruxos das Trevas entre os grupos de protesto dos “Anti-Techs.” – comentou Astoria.
_Nem me fale. – comentei – Descobri da pior forma. Bem, “as chamas dos oito cumes.” Faço uma ideia do que pode ser, mas não entendi muito bem o “não em grande quantidade no principal.”
_Matei a charada! – exclamaram juntos Rony, Gina e Hermione, que haviam chegado à mesma conclusão – E, realmente, são oito.
_Realmente. – concordou Pansy – Os Weasley, é claro. Seriam nove, não fosse pela perda de Fred na Batalha de Hogwarts. Todos são ruivos ou seja, “chamas nos cumes.” E como o Sr. Weasley é meio calvo, o cume principal tem menos chamas. O Sr. Weasley é um dos que mais luta pela aceitação da Tecnomagia, Jorge é bastante habilidoso com ela e toda a família é contra as Trevas.
_Certamente. – disse Minerva – vamos ver mais do texto.
_Certo, Diretora. – concordou Draco – Mais um parágrafo, então.
“Grande importância tem quem de longe vem. Necessitam defesa, pois as Trevas querem seu fim. Um retorno deixará todos espantados. Confiança e união serão as chaves. Não percam o foco.”
Ao término da desencriptação daquele parágrafo, todos olharam para mim, como se eu fosse alguma espécie de enviado.
_Mas por que estão me olhando assim – perguntei.
_Porque há duas pessoas nesta sala que se encaixam na mensagem desse parágrafo, Kadu. Você e o Prof. Borges. – disse Rony – Ambos são brasileiros ou seja, vêm de longe.
_Além disso, são peritos em disciplinas do corpo e da mente, que a imensa maioria dos bruxos ou ignora ou despreza, considerando-as como “bobagens de trouxas”, sem reconhecer sua importância. – comentou Draco – O que nos leva ao restante do parágrafo.
_Creio que precisaremos instruir uma turma de jovens bruxinhos em Defesa Pessoal. E não poderemos nos restringir ao básico. – disse Borges – Como disse Lucius na carta, “as Trevas querem o seu fim”.
_E não somente daqueles que enfrentaram Voldemort no passado... vejam, estou falando o nome dele sem gaguejar. – disse Pansy, fazendo com que todos rissem.
_Realmente. – disse Snape – Todos aqueles que, de alguma forma, assumiram ou venham a assumir posição contra as Trevas acabaram por se transformar em alvos. O Sr. Borges deverá instruí-los e o Sr. Kapplebaum será um excelente adjunto.
_Contem comigo. – concordei – Mas ainda resta descobrir sobre o retorno.
_Seria algum dos Death Eaters? – sugeriu Astoria – Algum que não tenha sido capturado ou morto em combate?
_É uma possibilidade. – disse Neville – Ou também alguém que conheçamos, não obrigatoriamente um partidário das Trevas, pois o texto não especificou. Alguém que possa estar desaparecido.
_Hipóteses, conjecturas, suposições. – comentou Hermione – Um amplo leque de possibilidades.
_Mas não se esqueçam, vocês necessitam ser instruídos. E começaremos a partir de amanhã. – disse Borges – Após as aulas, na Sala Precisa.
_Acabou a moleza. – comentei, com um suspiro – Amigos, vocês vão ver e sentir o que nós passamos, lá na Sepé Tiaraju.
_Assim os jovens vão fazer mau juízo de mim, pensar que sou um instrutor carrasco. – brincou Borges.
_ “Carrasco” seria um exagero, mas as aulas que tivemos aqui já nos dão uma ideia de como o senhor é exigente. – disse Gina.
No dia seguinte, estávamos no corredor do sétimo andar, em frente à tapeçaria de Barnabás, o Amalucado, do lado oposto ao qual aparecia a porta da Sala Precisa.
_Mesmo lá no Brasil, tomamos conhecimento dessa história. Difícil acreditar que alguém acharia possível ensinar balé aos trasgos. – comentei.
_Ele tentou, mas acabou conhecendo a força das clavas. – disse Rony.
_Falando em clavas e trasgos, sempre me vem à memória aquele caso do trasgo no castelo, quando estávamos no primeiro ano. – lembrou-se Harry.
_Nem me fale. – concordou Hermione – Poucas vezes na vida senti tanto medo.
_Soube que Rony e Harry salvaram você. – disse Pansy – Como foi?
_Eu consegui saltar no pescoço dele e enfiei a varinha em uma das narinas (“Eca”, murmuraram os outros). – disse Harry.
_Aquilo o distraiu. – continuou Rony – E por tempo suficiente para eu lançar um “Wingardium Leviosa” na clava dele.
_E, quando Rony suspendeu o feitiço, a clava acertou em cheio a testa do grandalhão, que desmaiou na hora. – concluiu Hermione.
_Aprontando, desde os onze anos, hein? – Borges havia chegado e ouvira a história do trasgo – Mas você também não era fácil, Kadu. Aqueles valentões passaram um ridículo, com você, na Sepé Tiaraju.
_O que você fez, Kadu? – perguntou Luna.
_Quando eu estava no terceiro ano, uns valentões do quinto ano ficavam intimidando os calouros e eu aprontei uma para eles. Utilizei um “Evanesco” nas bombachas deles mas, antes, eu já havia aprontado a peça.
_E o que você havia feito antes? – perguntou Draco, curioso.
_Substituí as cuecas de todos eles por calcinhas cor de rosa, com um feitiço não-verbal. Daquele momento em diante, passaram a ser conhecidos como “A Gangue de Pelotas”.
Todos riram, pois já sabiam o motivo. E, um pouco mais descontraídos, acompanhamos Borges para dentro da Sala Precisa, assim que a porta se abriu. Tais momentos seriam bastante apreciados, pois as instruções pelas quais passaríamos iriam fazer com que as aulas práticas de Defesa Contra as Artes das Trevas parecessem um passeio no parque.
Mas precisaria ser assim, como viríamos a descobrir, mais tarde.
Fale com o autor