A Retaliadora

2 Capítulo Dois


Capítulo Dois

Nada de novo fora do front

– Querida, cheguei!

John Richter pendurou o casaco num cabide atrás da porta. Dirigiu-se para a cozinha, onde a mulher, Claire Richter, preparava o jantar, cortando carne sobre uma tábua.

– Oi, querido! – saudou a esposa, enquanto John a abraçava.

– O que temos para o jantar?

– Bolo de carne.

A mesma coisa, de novo. Porém ele não se incomodava. Preferia a rotina pacata de seu lar em contraste à explosiva rotina de seus dias.

– E as crianças?

– Lá em cima!

Richter beijou a mulher e subiu para o andar superior.

Cruzando o corredor forrado de carpete verde, John entrou no último cômodo, cuja porta estava semiaberta.

Lá dentro, duas crianças, um menino e uma menina, brincavam com vários brinquedos. O garoto, mais velho, estava mais entretido com um jipe em miniatura. A garotinha, caçula, alimentava uma boneca de vestidinho rosa com comidinha imaginária.

– Olá!

– Oi, pai – disse o menino.

– Olá, papai – sorriu a garotinha.

John entrou e sentou-se numa das camas.

– E então? – perguntou. – O que fizeram hoje?

– Nada diferente – respondeu o menino, sem tirar os olhos do jipe.

– E você, Kathy?

– Ah, papai! – riu a caçulinha, sonhadora. – Estou tão feliz! Minha filhinha aprendeu a falar!

– Verdade? E o que ela falou?

– “Mamãe”.

– Que lindo, filha.

O menino olhou para o pai, olhar ansioso. Após um instante de incerteza, perguntou:

– Pai, o que acontece quando a gente morre?

– Ora, por que essa pergunta? – John sorriu amarelo.

– É que o valentão da classe dele disse que ele vai morrer se segunda-feira não der dinheiro pra ele! – explicou Kathy, cheia de senso de responsabilidade por dar o aviso ao pai.

– Thomas! – surpreendeu-se John. – Isso é verdade?

– Kathy, sua traidora! – irritou-se o garoto.

– Sua irmã não tem culpa de nada. Ela até fez bem em me contar. Agora, como foi isso?

– Esse cara vem me ameaçando desde o início do semestre. É muito forte. Sempre tenho que dar dinheiro pra ele.

– Como ele se chama?

– Gary Gordon.

– OK. Segunda-feira cedo eu vou te levar na escola.

– Ah, não! Todos vão rir de mim, pai! Vão me chamar de bebê se você conversar com o Gary...

– Não importa o que os outros dizem, Tom. Na vida você não pode se importar com isso. O importante é seu bem-estar e integridade física. O resto é dispensável, entendeu?

– Sim, papai.

– Muito bem. Agora vão lavar as mãos e desçam para jantar.

Os dois obedeceram.

A sala de jantar estava bem iluminada. John sentava de frente para a mulher e Tom de frente para Kathy. Norma que o pai impusera e prestigiava.

– E então, querido? – perguntou Claire, saboreando seu bolo de carne. – Como foi hoje no trabalho?

– Bem, mas estou exausto – respondeu. – Chegou um carregamento de Chicago e eu tive que registrar tudo.

– Que tipo de carregamento?

– Computadores. Você sabe como isso é trabalhoso.

– Eu quero conhecer essa empresa... Como se chama mesmo?

– Transfast Corporation. Responsável por entregas do meio-oeste a toda costa leste do país.

– Procurei esse nome na lista de telefones outro dia e não encontrei...

– É que eles são uma empresa muito nova por aqui. Ainda não colocaram o nome na lista.

– Entendo. Mas você pode nos levar até lá qualquer dia. Quero ver você e o Martinton trabalhando.

– Ah, falando nisso, hoje eu vou me encontrar com ele e os chapas no bar.

– Eu sei. Você sempre sai às sextas.

*

Bar Greenwich, perto do Central Park.

John Richter parou seu conversível na frente do recinto. Desligando o rádio que tocava uma música do Duran Duran, voou para fora do veículo e entrou no ponto de encontro.

Dentro, várias mesas onde homens jogavam poker. Outros cantavam mulheres casadas que ali buscavam refúgio noturno. Erich Martinton tomava um capuccino no balcão, onde o barman preparava um coquetel.

– Ora, se não é o melhor homem da máfia... – vociferou Martinton, enquanto Richter se aproximava. – Realizou um ótimo trabalho hoje.

– Se você não tivesse informado a posição de Krugger, nunca teria conseguido.

– Ora, sente aí, matador, que eu te pago um uísque!

– Escocês?

– Claro. Qual você prefere?

– O Edimburgo.

– OK, barman! Solta um Edimburgo!

E veio o uísque. Richter pegou a garrafa com a bandeirinha da Escócia e encheu metade do copo.

– As coisas não vão bem... – murmurou John após o primeiro gole.

– Que houve?

– Claire quer conhecer a Transfast.

– Ih! A coisa é feia! Que desculpa você arranjou?

– Nenhuma, por enquanto.

– Relaxa! A noite é uma criança. O Enrico e o Steve logo estarão aqui. Está a fim de jogar bilhar?

– Valendo grana?

– Pode ser.

Richter levou novamente o copo à boca. Momento de calmaria. Merecida paz. A bebida escorregava ardente por sua garganta. Ele e a bebida, a bebida e ele.

John Richter. Membro da máfia em Nova York. Mais precisamente a máfia dos transportes. Era especialista em veículos. Apoderava-se de um e nem o diabo parava. Era conhecido como “John Ligeirinho”.

Para a mulher, filhos e mais uma penca de pessoas, possuía um cargo burocrático na Transfast Corporation, empresa inventada por sua mente fértil para lograr os familiares. A mulher pensava que seu melhor amigo, Erich Martinton, também mafioso, trabalhava com o marido no mesmo lugar. Martinton era matador de aluguel, dos bons, dez anos mais jovem que Richter.

Trabalhavam para o Grande Fratello, o principal mafioso italiano na cidade que ocultava deles seu verdadeiro nome. John recebia dele as missões através dos vários telefones públicos pela metrópole. Tinha mais de oitenta anos e grande experiência no ramo, alguns dizendo que operava na Grande Maçã desde que emigrara de seu país após a guerra, nos anos 40.

Richter e Martinton eram amigos íntimos de Grande Fratello, poucos dos permitidos a encontrá-lo pessoalmente. Enrico e Steve, também mafiosos, agiam junto com os dois nas missões, mas não eram tão próximos ao chefe. Sentiam inveja.

Enrico lidava com explosivos. Veio do México e tornou-se conhecido no submundo após mandar uma escola pelos ares em seu país de origem. Steve veio de São Francisco, traficante conhecido.

John trabalhava há pouco tempo para Grande Fratello em tempo integral e por isso teve de mentir para a esposa e os filhos. Antes apenas cumpria missões para o mafioso em troca de boas somas de dinheiro nas horas vagas, pois trabalhava no correio. Richter sabia que sua profissão era perigosa, mas ele tinha que sustentar sua família, pois os tempos estavam difíceis. A experiência adquirida no Exército durante o Vietnã era bem vista por todos os seus companheiros, e as quantias dadas pelo mafioso ajudavam muito.

A pergunta era até quando Richter conseguiria manter a vida dupla... e continuar nas graças de seu patrão e colegas.