A Retaliadora
3 Capítulo Três
Capítulo Três
Não mexa com os Ritcher, só com os Martinton
O conversível de John Ritcher parou na frente da Escola Fundamental Saint Patrick, particular, e por sinal a melhor da cidade. O dinheiro de Grande Fratello permitiu que os filhos de “John Ligeirinho” tivessem a melhor educação possível, talvez para não seguirem o mesmo caminho do pai.
Talvez não, com certeza – pensava Ritcher aquele dia.
Manhã nublada de segunda-feira. Em pouco tempo começaria a chover. John olhava para Thomas, sentado ao seu lado no carro. O garoto estava preocupado.
– Qual deles, filho? – perguntou o mafioso, apontando para alguns garotos que brincavam no pátio bem arborizado.
– Aquele longe dos outros meninos, perto da árvore – respondeu Tom.
– Você vem junto?
– Prefiro ficar aqui. Depois eu desço.
– OK.
Ritcher saiu do veículo e, com as mãos nos bolsos do casaco preto, se aproximou de Gary Gordon.
– Hei, você é o Gary? – perguntou num pretenso tom amistoso
– Interessa? – rebateu grosso o garoto de fisionomia heterogênea em relação às outras crianças, conhecido repetente.
– Muito.
– Você é o pai do “Tom Mijão”?
– Ah, você até colocou um apelido nele? – John insinuou um tom de brincadeira.
– Sim, e daí?
– Olha garoto, me respeite...
– E se eu não quiser?
John levantou o casaco e mostrou o coldre com a 9mm por um curto momento. Estava indo para o trabalho e a pistola era ferramenta indispensável.
– Escuta aqui, seu pivete. Meu pai me ensinou que ninguém mexe com a família Ritcher, entendeu bem? Se você voltar a dirigir qualquer palavra ao meu filho, eu disse qualquer palavra, eu pego você. Não importa onde você estiver. Eu caço você até seu coração parar de bater e esse seu couro de porquinho estiver esfolado fora do corpo, ouviu bem?
Gary estava pálido. Concordou apenas com um movimento da cabeça.
– Muito bem!
John voltou rapidamente para o carro.
– Pode ir – sorriu o mafioso ao filho. – Esse cara não vai mais ser problema.
– Mesmo?
– Pode confiar.
Thomas saiu do conversível. Começava a chover.
– Vá logo ou pegará um resfriado! – preocupou-se o pai.
– Obrigado!
– De nada. Até mais.
– Até!
O conversível acelerou e dobrou a esquina.
*
Ritcher atendeu ao telefone na frente do Banco da Reserva Federal de Nova York. Chovia muito, e ele foi obrigado a proteger-se com uma capa.
– Siga para o Café Juliette – ordenou Grande Fratello, o sotaque italiano ribombando pela linha telefônica. – Martinton o espera lá.
– Vou no meu carro. Estarei lá num piscar de olhos!
De fato, em pouquíssimo tempo John entrava no acolhedor Café Juliette, a poucas quadras da Prefeitura. Martinton estava sentado lá no fundo, meio escondido. O assassino acenou para o melhor amigo:
– Hei! John!
Ritcher percorreu o recinto e sentou-se de frente para Erich. Logo veio a charmosa garçonete que sempre se mostrava simpática.
– O que vão querer, rapazes? – sorriu ela.
– Dois capuccinos – respondeu Martinton.
– Vou providenciar.
– Ainda se mantendo afastado do álcool, hem? – riu John.
– É necessário. Ele atrapalhava o serviço.
A ameaça feita por Grande Fratello de fazer Erich acordar com os peixes se ele não abandonasse a fama de pé-de-cana com certeza o motivara a abandonar a bebida naqueles últimos meses.
A moça saiu rebolando após anotar o pedido num bloquinho de notas.
– São em momentos como este que você queria ser solteiro como eu, não é, John? – riu Erich enquanto observava a garçonete se afastar.
– Sou feliz com Claire e as crianças.
– Mas não faz mal flertar de vez em quando, sem compromisso... – disse o mafioso, acenando para a funcionária.
– Vamos ao que interessa. O que o chefe quer?
– Há um carregamento de armas chegando na cidade. Dos bons.
– Que tipo de armas?
– Rifles e metralhadoras. Vão abastecer aquela lojinha na Rua Madison.
– Aquela loja é o paraíso. Tem de tudo lá.
– O chefe quer o caminhão. Precisa abastecer os capos.
– Moleza. Por onde e quando vai chegar?
– Estará entrando na Avenida Montgomery, no Bronx, ao meio-dia.
– Certeza?
– Você sabe que minha precisão nunca falha.
A charmosa funcionária trouxe os capuccinos, quentes e tentadores, assim como sua pessoa.
– Encontre-me lá pelas onze e meia na frente da Loja Bertz – disse Ritcher. – Quero cumprir logo o maldito serviço.
– Esse é o John Ritcher que eu conheço. Você não quer ir antes até a mansão do velho? Ele quer muito ver você.
– Bem, ainda é cedo. Vamos dar um pulinho até lá.
Os dois mafiosos terminaram as bebidas e saíram. Martinton acenou mais uma vez para a garçonete ao cruzar a porta. Ela corou.
Estava parando de chover. O conversível de Ritcher parou na frente da Mansão Bertolucci – pertencente ao condottiere da máfia, Luigi Bertolucci – rotineiro ponto de encontro com o Grande Fratello, situada na área mais rica da cidade. A propriedade era cercada por um muro alto e cães ferozes auxiliavam os seguranças, de paletó e chapéu, a zelarem pelo patrão.
Martinton saii primeiro do veículo e se aproximou do portão. Ritcher fez o mesmo enquanto Franccesco, responsável pela entrada, abriu caminho para os visitantes. Vestia casaco marrom e chapéu preto, além de óculos escuros.
– Bom dia, senhores – saudou o mafioso. – Foi bom ter vindo, John. Grande Fratello quer vê-lo. E, Erich, não fume na presença dele hoje... Está num daqueles dias.
– Certo – resmungou Martinton, arrancando o cigarro que tinha na boca e o atirando a contragosto para junto do muro.
Os dois bandidos seguiram por um caminho pavimentado que terminava na mansão depois de poucos metros; enquanto um manobrista, sob os olhos de Franccesco, se encarrega de estacionar o conversível de Ritcher dentro da propriedade. Na frente da casa havia, junto a algumas árvores, uma bela fonte com esculturas femininas. À esquerda da residência era possível ver uma grande piscina e, à direita, uma ampla quadra de tênis.
Dois mafiosos armados com submetralhadoras guardavam a porta de entrada da mansão. Ritcher e Martinton entraram sem problemas, ganhando um luxuoso hall todo forrado de carpete vermelho. Uma escada junto a uma parede levava ao segundo andar e, no primeiro piso, era possível avistar a bela sala de estar através de uma porta que estava sempre semiaberta.
Logo um sujeito de terno e cabelos grisalhos se aproximou, saudando-os. Tratava-se de Bertolucci, o condottiere:
– Sejam bem-vindos, senhores. Deixem os chapéus no vestíbulo, sabem como é o Fratello. Ele os aguarda na sala de estar e, como é um dia chuvoso, a lareira está acesa.
– Obrigado, Mario – disse Martinton.
Grande novidade. A lareira sempre estava acesa, até em dias de calor intenso. Os dois mafiosos penduraram seus chapéus e seguiram na direção da fabulosa sala de estar.
Grande Fratello estava acomodado numa poltrona, em frente ao fogo, fumando um charuto cubano, dos bons. Sobre uma mesinha estava a caixa com a gravação “Charutos Oriente” em letras douradas. Tinha cabelos brancos e uma cicatriz no rosto. O costume de só ele poder fumar nos locais em que se encontrasse, detestando quando qualquer um de seus homens acendia um mísero cigarro, precedia-o.
– Bom dia, senhores – saudou o mafioso, de costas para os dois. – Belo dia para algumas mortes, não acham? Chuvoso, frio...
– Com certeza, senhor – concordou Erich. – O sangue combina muito bem com a lama.
– Cale a boca, Martinton! – irritou-se Grande Fratello. – Não pedi sua opinião!
– Sim senhor.
– Ritcher, você quer um charuto? É um presente de Villa, aquele traficante que produz ópio em Cuba. Nós distribuímos e abocanhamos uma boa parte dos lucros, além de cortesias como esta.
– Não senhor, obrigado – recusou John.
– Muito bem. Como vai a família?
– Bem, obrigado.
– Passe aqui daqui a dois dias e darei algum dinheiro. Eu adoro aquela sua filha... Ela se chama Kathy, não?
– Sim, senhor.
– Ela se parece muito com a minha pequena Maria, morta pela polícia nos anos 50. Tempos bons aqueles... Cuidava de um depósito de contrabando em Boston. Acabara de chegar da Sicília e cuidava da tortura dos traidores...
– Não falaríamos sobre a missão, senhor? – perguntou Martinton, sem querer que o chefe adentrasse suas costumeiras divagações de memórias.
– Sua impertinência mostra-se útil ao menos uma vez, Martinton, já que havia esquecido tal ponto. Quero que vocês roubem algumas armas para nosso arsenal. Munir os caporegimes. Enrico e Steve os auxiliarão. Sei que Ritcher sozinho já é suficiente para obter sucesso, mas tenho que utilizar os inúteis que estão sobrando, não?
– É sim, senhor... – riu Erich, debochado.
– Pare de imitar hiena, Martinton! Você está vendo mais alguém rir aqui?
– Não, senhor, mas...
– Cale a boca! Na Sicília nós arrancávamos as unhas de bajuladores como você! Demonstre seu valor lá fora como Ritcher e terá meu respeito! Tem sorte de ser neto do grande Edgar Martinton, ou estouraria seus miolos na primeira oportunidade!
– Bem, nós já vamos indo, senhor... – disse Ritcher, querendo evitar uma discussão em que o parceiro perdesse a cabeça.
– Boa sorte na missão.
– Obrigado.
John e Erich deixaram a mansão. Este último estava furioso, e seu parceiro percebeu tal coisa.
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