Roger fizera questão de levá-los à escola, na manhã seguinte. Como se quisesse ter certeza de que tudo o que Hugh Ryan dissera fora verdade. Enquanto os dois meninos conversavam no banco de trás do carro, Roger os fitava pelo retrovisor. Sorriu ao ver que Caleb tentava animar Prince com toda aquela conversa sobre guloseimas gostosas e brincadeiras divertidas.

O Jardim de Infância Betty Green era um edifício enorme, cercado por dois terrenos baldios bem-cuidados. Outrora, fora uma escola muito conhecida e popular para meninas inglesas. Isso foi na década de cinquenta e sessenta. Então, um homem muito rico, cujo nome Caleb sempre esquecia, comprou o prédio, após ele ser abandonado devido a um incêndio que não matara nem ferira ninguém. Reformou o prédio, e fez dele uma escola de alfabetização para crianças de classe alta.

Roger Robston achava todo aquele luxo desnecessário. E deixara aquilo bem claro para o patrão, na noite anterior. Mas, não havia nada a perder.

Quando chegaram à Betty Green, Roger pediu que esperassem por ele. Estacionaram o carro, e cruzaram os portões de grade branca.

A escola já estava apinhada de crianças. Todas pareciam ter a mesma faixa etária que Prince e Caleb. Seus pais chegavam em carros do ano, e os conduziam até os portões. Lá dentro, funcionárias cuidavam delas.

Roger, que estava vestido em seu macacão escuro a qual estava habituado a trabalhar nos serviços pesados da mansão Ryan, estava atraindo muitos olhares curiosos – alguns até mesmo surpresos ou desdenhosos. Mas ele parecia não se importar.

– Venha – disse Caleb a Prince. – Vou te mostrar a gangorra e o escorregador...

Prince assentiu, e ergueu os olhos para o pai.

– Posso ir?

Roger olhou para os lados, dando de ombros.

– Pode, sim. Tenho que conversar com a diretora agora... Vá brincar – mas se comporte!

Prince acenou com a cabeça. Então os dois meninos correram risonhos para o parque que ficava no pátio da escola.

Caleb poderia dizer que aquele fora um dos melhores dias de sua vida. Estava tudo muito bom. A escola já não era mais um problema. Não com Prince por perto.

Fizeram coisas juntos durante todo o dia. Desenharam em papéis coloridos; pintaram as cartolinas brancas com tintas de verdade e pincéis grossos; leram e ouviram histórias infantis, e ainda, os contos dos irmãos Grimm.

A certa hora da tarde, comeram bichinhos de chocolate que a tal mulher gorda que Caleb mencionara fizera, e tiveram de escrever uma carta de boas-vindas à Prince na classe.

Caleb escreveu a sua com lápis azul, pois sabia que era a cor preferida de Prince. Desenhou alguns carrinhos nas bordas do papel, como Prince gostava, e desenhou ainda dois meninos brincando entre algumas árvores.

– Somos nós dois – disse Caleb, quando Prince abriu a carta pela primeira vez. – Estamos brincando no pomar...

Prince sorriu, os olhos negros como petróleo brilhando com seu sorriso. Ele não disse nada. Apenas olhou Caleb com uma admiração profunda, e guardou a carta no bolso, após lê-la com uma certa dificuldade.

Quando já estavam no carro, para irem embora, Prince sussurrou, sem jeito:

– A sua carta foi a que eu mais gostei.

Nos dias que se seguiram, as coisas continuaram perfeitas na escola. Seus pais puderam notar que ambos pareciam mais felizes agora. Andavam sempre às gargalhadas e risinhos, compartilhando segredos que pareciam divertidos e olhares de cumplicidade.

Roger convenceu-se então de que fizera a coisa certa, matriculando Prince na mesma escola que Caleb, enquanto via a alegria dos meninos no banco de trás do carro, certa vez em que fora buscá-los.

– Eu te falei, Roger – dizia Hugh, sorridente. – Eu te falei...

No primeiro final de semana que se seguiu, desde que Prince e Caleb estudavam juntos, os pais de Caleb compraram uma casa de campo, bem longe da cidade grande. Era uma casa muito bonita, clássica, de cômodos espaçosos e perto de vários ipês amarelos, que deixavam suas flores caírem de frente à enorme varanda.

Naquele fim de semana, todos foram para a casa no campo, e todos trabalharam juntos para mobiliá-la. Inclusive Caleb e Prince. Eles se divertiram muito, enquanto ajudavam Roger a arrumar e empurrar os móveis, ou a concertar janelas que estavam estragadas. Essa mudança levou a tarde inteira para ficar pronta. No final, ficaram cheios de poeira, e com as roupas molhadas – eles ajudaram Clarissa a lavar a varanda e alguns outros cômodos.

E, mesmo sem camas montadas, eles dormiram ali naquela noite. Esticaram cobertores e colchões no chão e se aninharam um perto do outro. E Roger começou a contar histórias, até os dois meninos dormirem.

Caleb teve um sonho. Sonho este que levaria pelo resto da vida.

No sonho, o menino estava nos gramados da casa nova no campo, em um dia ensolarado. Estava com Prince.

Ali, à luz do sol ofuscante, Prince parecia brilhar. Sua pele morena estava refletindo de uma forma resplandecente à luz do astro rei, como se ele fosse feito de água. A cada passo que dava, sua luz ia ficando mais forte.

Embora estivesse sorrindo, se afastava de Caleb com uma velocidade assustadora. Estava cada vez mais longe – e sua luz não deixava que Caleb visse mais seu sorriso.

Caleb gritou por ele. Mas de nada adiantou. Tentou correr para acompanhá-lo, mas seus pés pareciam soldados ao chão. Imóvel, ele viu Prince desaparecer ao ponto de virar apenas mais uma parte dos raios de luz que vinham do sol. Parecia ter se juntado à ele.

Prince agora era o sol.

Quando Caleb havia perdido as forças de tanto gritar, acordou.

Apavorado, ele sentou-se no colchão em que estivera dormindo, e olhou para os lados, procurando pelo amigo.

E lá estava ele, dormindo serenamente a uma boa distância. Estava enrolado em seus cobertores, e parecia estar tendo bons sonhos.

Caleb inspirou profundamente, sentindo-se aliviado. Prince continuava com ele. Não havia ido embora. Continuava ali, ao seu lado.

Foi então que Caleb percebera que todos os adultos já estavam de pé. Suas vozes baixas vinham lá da cozinha, juntamente com o cheiro gostoso de café fresquinho. A luz pálida do dia tentava esgueirar-se pelas frestas das janelas de madeira recém-concertadas por Roger – com uma ajudinha dos dois meninos –, e o canto dos pássaros do campo soavam ao longe.

Caleb sorriu e desabou no colchão mais uma vez, tentando esquecer o sonho, e viver aquele dia incrível que já havia começado.

Logo de manhã, Roger os levou até um riacho que corria por perto, enquanto Hugh se enfiava no meio do campo, para poder escrever seu livro com mais tranqüilidade.

– Sabe, Roger – disse Caleb, enquanto o empregado o erguia pelas axilas para poder leva-lo até o outro lado de um brejo sem suja-lo. Prince já estava do outro lado, tentando subir em uma pequena árvore. – Às vezes eu queria que você fosse meu pai...

Roger fitou-o bem fundo nos olhos azuis, deixando-o no chão seco e firme.

– Ora, por quê? Seu pai é um bom homem...

Caleb deu de ombros, assentindo. Começou a caminhar pela trilha, chutando a terra à sua frente.

– É, mas ele não é tão legal quanto você... Ele não brinca com a gente...

Roger sacudiu a cabeça, e olhou aquele menino miúdo e pálido caminhando ao seu lado. Ao lado de seu filho. Ele tinha a mente tão aguçada para um garoto de seis anos! Sempre com aquelas especulações sábias demais para uma criança de sua idade...

Roger sorriu.

– O que seu pai faz por você é muito mais importante que brincar, Caleb – disse ele, serenamente. – Um dia você vai entender.

Caleb olhou para Roger, franzindo a testa por causa do sol. Estava prestes a dizer alguma coisa, mas o sol chamou-lhe a atenção. O fez lembrar-se do sonho que tivera. O menino continuou observando aquele disco alaranjado, de olhos estritos, enquanto caminhava.

– É tão agradável... – disse ele.

– Hmm? – fez Roger.

– O sol – explicou Caleb pacientemente. – É tão agradável...

Roger olhou para o astro, acima de sua cabeça, lá no vasto céu azul claro. Prince fez o mesmo, colocando a mão em concha acima dos olhos.

– Eu sonhei que você ia embora com ele – comentou Caleb, socando de vagarinho o ombro do amigo. – Você virava parte dele.

Prince fez uma careta estranha.

– Deve significar alguma coisa... – começou. – Não é, papai?

Roger sorriu, concordando com a cabeça.

– Claro... Sua mãe deve saber o que significa... Ela cisma que sabe tudo sobre os sonhos...

Prince deu uma risada gostosa, chutando uma pedra para longe da trilha.

– Uma vez ela insistiu para que o Pastor orasse em mim, quando eu sonhei que estava descendo uma escada de costas – riu o menino, sarcástico. – Ela disse que significava que tudo em que eu pusesse as mãos não iria dar certo.

– Sério?

– É...!

Foi assim, conversando e rindo muito, que os três chegaram ao tal riacho. Prince falava sobre outras interpretações de sonho que sua mãe fazia, enquanto Roger e Caleb só escutavam, divertidos, e acrescentando alguns comentários.

O riacho era ladeado por árvores pequenas e de troncos tortuosos. Dali era possível ver a casa da família e os ipês. Dava para ver até Clarissa e Elena varrendo as flores da varanda.

Roger sentou-se na grama verde-esmeralda à beira do riacho, e tirou o chapéu da cabeça. Era um chapéu de pano, que Caleb achava muito engraçado. Parecia muito com o chapéu de pescador. Mas ali, naquele riacho, não parecia haver peixes. Pelo menos nenhum que fosse digno de ser chamado peixe...

Caleb e Prince arregaçaram as barras das calças e entraram timidamente na água gelada e fresca do riacho. As pedrinhas coloridas, que ficavam naquele fundo arenoso, faziam seus pés descalços escorregarem aos poucos.

– Fiquem por aqui – disse Roger, descalçando a botina de couro e tirando as meias furadas dos pés. – Mais pra frente tem uma parte funda, e é perigoso pra vocês.

Caleb e Prince se entreolharam. Roger levantou-se com um ar cansado, e caminhou até a margem do riacho, apontando para onde as águas corriam. Ali na frente, o riacho se alargava, e a água parecia mais escura.

– Estão vendo? – perguntou ele.

Os meninos assentiram.

– Não vão para lá... – disse Roger, sério. Ali, à luz do sol e sem o chapéu, as linhas e rugas em seu rosto pareciam mais acentuadas. Dava-lhe um ar de pessoa sábia e muito vivida. – Entenderam?

– Pode deixar – disse Caleb, sorrindo.

Roger lançou-lhes um olhar desconfiado, e foi se sentar mais uma vez na grama verde, ao lado de seu chapéu e de suas botinas.

Caleb prendeu a respiração e foi entrando cada vez mais na água. Tendo cuidado de não escorregar de uma vez. Era uma sensação tão boa. Diferente da piscina, aquela água se movia ao seu redor, numa corrida desenfreada e incessante, que podia terminar quilômetros a diante – talvez até em outra cidade!

– É melhor tirarem a roupa – disse Roger, que mantinha os olhos atento a eles. – As mães de vocês não vão gostar nada se chegarem lá ensopados.

Eles concordaram. Depois de deixarem as roupas sob os cuidados de Roger, eles entraram mais uma vez no riacho. Só que dessa vez, mais rapidamente.

Caleb sentiu o fôlego escapar-lhe, quando sentou-se no fundo do riacho, e a água chegou a bater na altura de seu pescoço. Levantou-se depressa, respirando com dificuldade. Prince, que estava sentado em uma pedra no meio do riacho, olhava-o com um sorriso divertido.

– Que foi? – disse Caleb, rindo. – Tá gelada!

Prince começou a rir agora.

Caleb agachou-se na água, e com as mãos, começou a jogar água no amigo, para provar que estava dizendo a verdade. Prince exclamou alto, surpreso, e saltou para o riacho, iniciando a clássica guerra de água.

Sentado no gramado, Roger assistia a cena com um sorriso satisfeito nos lábios. Teve de se afastar um pouco mais, para que também não fosse atingido pelos jatos de água que voavam por toda parte, cortando o ar e molhando tudo que estivesse por perto.

– Cuidado, meninos! – advertiu ele, sorridente.

Mas Caleb e Prince não estavam ouvindo mais. Estavam tão envolvidos na brincadeira nova que quase se esqueceram que Roger continuava ali, observando-os atentamente, como uma coruja que vigia seus filhos que ainda não sabem voar.

Caleb nunca se esqueceu daquele dia. Mas, neste mesmo lugar onde se divertira tanto com Prince por diversas vezes, fora também cenário do que quase se transformou em uma tragédia.

Foi algumas semanas depois.

Hugh disse que estava indo para a casa no campo, para terminar o livro. Já tinha ido lá muitas vezes depois daquele primeiro dia; ele gostava de escrever no campo com muita freqüência – afinal, era um dos cenários de seu novo romance.

No entanto, Elena não pôde ir. Teve que fazer uma viagem, à trabalho, como sempre. Então, Hugh pediu para que Clarissa e Roger o acompanhassem. Assim, não ficariam sozinhos na casa com as crianças.

Caleb e Prince ficaram muito entusiasmados com a ideia. Caleb gostava mais da casa do campo do que da casa na cidade. Gostava de acordar ao som dos pássaros, e de abrir a janela de seu quarto e ver um lindo ipê balançando ao ritmo do vento. Gostava de subir nas árvores altas e brincar com Prince de quem atirava pinhas mais longe. Adorava caminhar por horas e horas até chegar ao alto de um morro que ficava um pouco longe da casa, e ver o pôr-do-sol fascinante de lá de cima, acompanhado por Prince e Roger. Mas gostava principalmente do riacho... Era seu lugar favorito.

– Roger! – exclamou Caleb, assim que desceram da caminhoneta do empregado. – A gente vai pro riacho hoje, não vai?

Roger olhou para ele sorrindo, enquanto ajeitava o chapéu na cabeça.

– Agora não vai dar – respondeu, com um ar de sincera lamentação. – Seu pai me pediu para catar lenhas ali perto, nos eucaliptos.

Caleb olhou para onde Roger acenou com a cabeça. Era um pequeno arvoredo de eucaliptos, que parecia muito desinteressante. Em seguida, olhou para Prince, que deu de ombros.

– E depois? – ele virou-se novamente para Roger.

– Depois, eu vou guardar tudo lá no porão. Vai demorar um bocado...

Caleb sentiu-se frustrado. Fez uma careta triste.

– Então quando vamos ao riacho?

Roger deu uma risada estridente, caminhando com passos largos até a varanda da casa.

– Talvez de tardezinha...

Caleb e Prince se entreolharam de novo. Mas, desta vez, Prince interveio.

– Mas nós podemos ir sozinhos até lá, não podemos?

Roger virou-se para encará-los. Ele estava sério agora.

– De jeito nenhum – disse ele, com firmeza. – Lá é muito perigoso pra vocês...

– Mas, pai, a gente fica na parte rasa...

– Não, Prince – cortou o homem, suspirando. – Vão brincar de outra coisa... De tarde eu levo vocês até lá.

E aquela foi a resposta definitiva. Roger deu-lhes as costas, e entrou na casa, fechando a porta ao passar.

Caleb sentiu vontade de xingar. Mas não o fez. Apenas olhou para Prince com um olhar triste. Baixou a cabeça, e começou a se afastar, resmungando. Prince o seguiu, fielmente.

– Do que você quer brincar? – perguntou ele, tentando quebrar o gelo.

Caleb deu de ombros, sem erguer os olhos.

– Eu queria mesmo era ir até o riacho...

– É, eu também.

Caleb ficou em silêncio. Caminhou lentamente até a pilha de troncos de eucaliptos que ficava encostada em uma cerca tortíssima – eles mesmos fizeram na semana passada –, e sentou-se ali.

Prince ficou parado a sua frente, olhando-o com preocupação.

– Você não quer brincar de mais nada? Eu deixo você jogar nozes duas vezes seguidas, se...

– Eu vou até o riacho – interrompeu-o Caleb, decidido.

– Hã?

Prince agora estava de cenho franzido, e olhava para Caleb como se ele estivesse doente.

– Meu pai não deixou...

– Ele não pode mandar em mim! – ralhou Caleb, enraivecido. – Ele é só o empregado! Ele é meu empregado também... Sou eu que dou as ordens!

Aquilo escapuliu dos lábios do menino sem que ele pudesse refrear. Não parou para pensar, e na hora da raiva, descontrolou-se. E, logo, ele se arrependeu de ter dito aquelas palavras tão agressivas, que pareceram ferir Prince como espada de dois gumes.

Prince encarou o amigo, incrédulo. Sua expressão era de quem ouvia um absurdo. Engoliu em seco, e baixou os olhos. Caleb fez o mesmo. Agora sentia raiva de si mesmo também, por ter magoado Prince.

Levantou-se lentamente e não teve coragem de olhar o amigo nos olhos. Fitava os próprios pés, que caminhavam com passos inseguros pelo início do caminho que mais gostava de traçar. O caminho até o riacho. Enquanto caminhava, não sabia, mas estava dando os primeiros passos em direção ao Caleb que se tornaria, anos depois.

Estava quase perto do brejo em que Roger sempre o atravessava em seus braços – já que suas pernas não alcançavam o outro lado –, quando percebeu a movimentação às suas costas. Assustado, olhou para trás, preparando-se para correr, caso alguma raposa aparecesse.

Então, se surpreendeu ao deparar-se com Prince, que estava vindo rapidamente pela trilha sinuosa, de cabeça baixa.

– O que está fazendo aqui? – perguntou Caleb, ácido. – Seu pai não deixou...

Prince ergueu os olhos para ele. Ficaram se encarando por alguns segundos, sem vacilar. Caleb conseguiu analisar cada uma das linhas suaves que compunham aquele rosto corado e inocente, o qual estava acostumado a ver todos os dias de sua vida. Pôde notar a decisão nos olhos negros de Prince, que insistiam em sondá-lo. Caleb não gostava quando Prince o olhava daquele jeito. Nunca sabia o que se passava em sua cabeça, quando ele fazia aquilo. Não que fosse um olhar ameaçador. Não. Era outra coisa... Era um olhar de... lealdade.

Caleb desviou o rosto, sem jeito.

– Você não quer que eu vá com você? – perguntou Prince.

Caleb deu de ombros.

– Só acho que você devia obedecer a seu pai. Não é isso que a Sra. Dugs ensinou? Não está na Bíblia?

Prince assentiu, tristonho.

– Mas não posso deixar você ir sozinho – argumentou, num fio de voz. – E não posso pedir para que volte e brinque comigo de outra coisa... Porque eu sou só o filho de seu empregado. E acho que isso faz de mim seu empregado também...

Caleb franziu a testa, sem entender.

– Não, você não é...

Prince não disse nada.

– Prince, você é meu amigo – disse Caleb, tentando concertar o estrago que fizera minutos atrás. – Você não é meu empregado! Desculpe eu ter dito aquilo... Foi só porque... porque... – ele não soube terminar a frase.

Prince sorriu, com sinceridade, parecendo entender o que Caleb estava querendo dizer. Mas seus olhos estavam marejados, como se estivesse prestes a chorar.

– Tá tudo bem.

– Sério? – Caleb achava que não. Não tava tudo tão bem assim...

– Claro – ele sorriu, e aproximou-se mais. Caleb o fitava, sentindo uma culpa ácida corroendo-o por dentro. Como pudera falar com tanta grosseria com Prince? – Mas o problema agora é como vamos atravessar esse brejo.

Os meninos não tiveram outra escolha, a não ser tirar os sapatos, arregaçar as calças, e atravessar o brejo com os pés descalços. Foi uma trabalheira só. Assim que deram o primeiro passo, seus pés atolaram na lama encharcada e cheia de machas vermelhas e lodosas. Caleb exclamou enojado, e depois riu. Tentou dar outro passo. Ao seu lado, Prince ria abertamente, enquanto tentava caminhar.

Um teve de se apoiar no outro, para poderem atravessar o brejo. Em alguns momentos, Caleb caía, e carregava Prince consigo. Ambos riam nessas situações, já que se sujavam todos de lama. Mas continuavam a se arrastar até o outro lado o mais depressa possível, para que Roger não os visse no ato proibido.

Quando por fim chegaram até o outro lado, estavam quase que completamente sujos. Havia lama em seus rostos, cabelos, roupas, mãos e principalmente nas pernas. Desabaram na terra seca, exaustos, e olharam um para o outro. Incontidos, começaram a rir.

Depois disso, eles correram tão depressa quanto puderam até o riacho. Se Roger saísse para a varanda naquele momento, ainda conseguiria vê-los. E, é claro, não queriam isso.

Fizeram uma corrida até lá. Foi ideia de Caleb. Mas o menino logo desistiu dela, quando percebeu que perderia. Prince corria mais que ele. Sabia disso mais que ninguém.

De um modo geral, Prince era melhor que Caleb em quase tudo. Era mais rápido, mais forte, e não era magricela nem desengonçado. Olhando por esse lado, era Caleb quem devia seguir o amigo. Ser seu subordinado. Porém, não era isso que acontecia. Prince sempre fora submisso a ele, e o admirava mesmo apesar de ele ser mais lento ou mais fraco que ele. Gostava de Caleb do jeito que ele era...

Quando ouviram o burburinho do riacho logo a diante, eles despiram-se depressa, e sem pensar duas vezes, pularam na água corrente.

Caleb estava satisfeito agora. Havia cumprido o seu desejo.

Deitado em uma pedra submersa, Caleb sentia a água fresca contornando-o, à altura dos ouvidos. O sol forte batia em seu rosto branco, fazendo sua pele parecer transparente, e seu cabelo brilhar em tom dourado escuro. Não havia nada de perigoso naquilo. Roger estava exagerando.

Perto dele, Prince tentava montar uma barreira de pedras que achava à margem do riacho. Quando as pedras rolavam juntamente com a água, ele as apanhava pacientemente e as colocava em seu devido lugar.

– Caleb... – começou ele.

– O que? – Caleb continuou de olhos fechados, devido ao sol.

– O que vamos dizer, quando nos virem chegando sujos de barro e molhados?

Caleb demorou um pouco para responder. Não havia pensado nisso.

– Não sei... – respondeu. – Você sabe?

– Não.

– Ah.

Prince ficou em silêncio de novo.

– Você vai mentir para seu pai? – perguntou Caleb, curioso. Estava fazendo aquilo com um pouco de má intenção. Era um teste. Sabia que Prince odiava mentir. Principalmente para os pais.

Prince continuou em silêncio por alguns segundos. Caleb esperou pacientemente pela resposta, um sorriso malicioso formando em seus lábios.

– Não sei. Eu não quero.

Caleb sentou-se na pedra, e abriu os olhos. Prince estava sentado na margem do riacho, e olhava para Caleb com um ar pensativo.

– Acho que meu pai não vai se importar, se vir que estamos bem – disse Caleb. Estava certo daquilo. Se chegarem em casa são e salvos, Hugh nem perguntaria com real interesse onde estavam. Qualquer bobagem que dissesse o convenceria.

Prince forçou um sorriso, mas não disse mais nada.

Caleb desviou os olhos para o curso do riacho. Olhou para a barreira semi-construída de Prince, e mais adiante, o lado a parte de águas mais fundas. Uma ideia ocorreu-lhe naquele momento.

– Prince.

– Hmm?

– Quer ver quem consegue ir mais fundo no riacho? – perguntou, feliz por ter tido uma ideia divertida e tentadora. Esperava que pelo menos nisso, fosse melhor que Prince.

O menino olhou para a parte funda, e depois, olhou para o amigo, fazendo uma careta.

– Mas é perigoso. Eu não sei nadar...

– Nem eu – disse Caleb, dando de ombros. – Mas, só vamos ir até onde dermos conta. Se ficar mais fundo, a gente volta.

Prince acentuou ainda mais a careta, em reprovação.

– Está com medo de perder? – implicou Caleb, sorrindo.

Prince balançou a cabeça, sério.

– Só acho que não devemos fazer isso...

Caleb suspirou, descendo da pedra.

– Por favor, Prince! – pediu ele, de propósito.

Caleb sabia que o seu “por favor” era o ponto fraco de Prince. Ele nunca o negara nada que pedisse “por favor”, de verdade. E nunca negaria. Mesmo quando Caleb pedia algo que ele era totalmente contra, Prince fazia. Era uma fidelidade que perturbava Caleb algumas vezes. Ficava imaginando o que Prince nunca faria, mesmo se ele pedisse “por favor”. Até então, nunca havia encontrado nada.

Prince fez uma cara de choro, e olhou para o lado em que ficava a casa, como que pedindo desculpas ao pai por ceder aos desejos de Caleb. Então, entrou no riacho, com um sorriso forçado.

– Tudo bem.

– Sério? – vacilou Caleb, franzindo a testa. Achava que aquela seria a primeira coisa que Prince o negaria. Mas surpreendeu-se mais uma vez. Devia se acostumar a isso. Sempre se surpreendia com Prince.

Prince sorriu, agora com sinceridade. Olhou para Caleb com os olhos brilhando.

– Por você – disse ele. – Por você, sim.

E era em momentos como aquele que Caleb sentia-se mal, por ser uma má influência. Por tentar corromper uma alma tão inocente quanto aquela. Mas, mesmo quando Prince fazia algo que não gostava, parecia fazer com as melhores das intenções.

Caleb sorriu, e murmurou um tímido obrigado. Então, ambos começaram a caminhar para o lado mais fundo do riacho.

– Não parece ser tão perigoso – dizia Caleb, tentando amenizar a tensão. Mas a verdade era que a água já estava meio palmo acima de seu umbigo. E ele estava sentindo o ar fugindo aos poucos de seu pulmão. Olhou para Prince, que vinha caminhando ao seu lado. O menino estava sério. – Com medo?

Prince fitou-o sem responder. Apenas continuou a caminhar lentamente em meio à água clara e gelada que seguia seu curso indiferente a eles.

As pedrinhas deslizavam sob os pés de Caleb. Ele podia sentir suas pontas e vértices, acariciando de modo agressivo sua pele, enquanto dava passos cada vez mais lentos. A água estava quase à altura de seu peito.

– Caleb... – sussurrou Prince, olhando para a água escura. Ele havia parado um pouco atrás, a água margeando à altura de seu umbigo.

– O que?

– Você ganhou – disse ele com um sorrisinho nervoso. – A gente pode voltar agora...

Caleb riu, sacudindo a cabeça. Continuou a caminhar. Queria ir mais fundo, para poder se gabar depois. A água estava quase encobrindo seus ombros.

– Espere só um pouco...

– Eu vou voltar – disse Prince. – Vem comigo.

– Não! – exclamou Caleb, se divertindo.

Ele deu um passo mais ousado, e olhou para trás – para ver a expressão de medo que Prince exibia. Mas, não teve tanto tempo assim. Seu pé o traíra e pisara em uma extensa superfície lodosa. Não teve tempo de ver o que era. Apenas escorregou.

Então, em fração de segundos, estava submerso. Suas costas se chocaram contra uma pedra irregular que estava por perto, quando caíra. Lembrava-se de ter sentido uma dor fina em uma das costelas, e de ouvir o barulho horrível da água invadindo seus ouvidos.

Apavorado, ele começou a bater os braços e as pernas, tentando subir até a superfície. Mas foi tudo em vão. Não sabia como, mas parecia que ali, a correnteza estava mais forte. E ele estava sendo levado por ela. Estava preso a ela.

Caleb lembrava-se de pouca coisa, depois do momento em que deduziu que morreria. Lembrava-se de não desistir de bater os braços nem as pernas, ainda que se machucasse todo naquelas pedras. Mesmo sabendo que iria morrer, não ia desistir da vida tão fácil assim.

Desespero.

A última coisa que Caleb lembrava-se de ter sentido, antes de acordar em um lugar completamente diferente e desconhecido, foi um choque lanscilante na cabeça.

E foi só.