A Resistência
16 15- Julia: O novo membro da Elite
Após falhar miseravelmente em falar ou com meu pai, ou com Nicolas, eu encontrei Kamila no saguão de entrada. Ela esfregava o rosto, e eu pude ver lágrimas. Eu queria fazer o mesmo, mas pela primeira vez eu entendi como era ser Alex (no caso, a irmã mais velha). E a sensação era assustadora. No nosso aniversário de 14 anos, enquanto Nicolas e Kamila estavam afastados, ele me fez uma pergunta interessante.
_Alguma vez já sentiu vontade de estar no meu lugar?
Eu franzi a testa.
_Como assim?_ Eu sabia o que ele queria dizer. Ele me deu seu olhar de reprovação, como sempre quando eu fazia uma pergunta da qual eu sabia a resposta. _Sim. Quero dizer, sabe a importância que você tem pra gente.
O fato de ser nosso aniversário fez 50% do trabalho de falar a verdade. Os outros 50% foi trabalho da culpa que eu sentia quando mentia pra Alex.
_E daí?_ Ele perguntou.
_E daí que é você quem manda depois do papai, e ele não te questiona.
Ele suspirou e sorriu.
_Você deveria agradecer por ele questionar vocês. É a forma dele de proteger as pessoas.
Ele deu um sorriso sofrido, mas eu não consegui entender o que aquilo queria dizer na época. Hoje eu entendia.
Kamila me trouxe de volta das minhas lembranças
_Descobriu algo?
Eu balancei a cabeça negativamente.
_Seja lá o que for, é bem sério._ Eu disse.
Ela olhou pros lados, suspirando. Dava pra ver que aquela situação havia mexido com ela.
_O que vamos fazer agora?_ Indagou.
De todas as formas de interpretar aquela pergunta, eu escolhi a mais fácil.
_Eu não estou com a mínima fome. Acho que vou voltar a dormir.
Kamila concordou comigo e subimos pra dormir.
Fomos liberados dos treinamentos naquela tarde, por falta de concentração. Não tínhamos muito o que fazer, então fomos pro refeitório e jogamos o emocionante jogo que Damas é. Caladas, sem fazer nada além de olhar pro tabuleiro e pensar. Ficamos ali até de noite, até que o resto do pessoal veio pra jantar. Mas, antes de começarmos a comer, o Marechal apareceu, e a seu lado estava Nicolas. Silêncio perturbador no refeitório.
_Então, como vocês sabem, a Resistência perdeu um membro hoje._ Disse o Marechal. _Após um ataque de Alex Linz, do qual esse jovem ao meu lado, Nicolas Linz, me salvou, eu tentei dar uma chance a Alex de se desculpar. Mas ele preferiu manter seu orgulho.
A menção ao nome Linz fez um pequeno alvoroço no refeitório. O Marechal o conteve ao levantar a mão.
_É preciso muita coragem pra enfrentar seu próprio irmão, e é por isso que estou aqui hoje._ Alguns segundos de silêncio. _Nicolas Linz, a partir de hoje, você faz parte da Elite.
Surpresa, tanta que era quase palpável. O motivo era porque os membros da Resistência precisavam de anos pra ganhar a confiança do Marechal e virarem Elite. Nicolas havia conseguido em menos de dois meses.
O Marechal pegou um uniforme da Elite em seus pés e o jogou a Nicolas. Eu pedi silenciosamente para que ele não o colocasse, mas ele o fez. O Marechal nos liberou para comer. Nicolas se dirigiu diretamente pra porta do refeitório.
_Espera aí!_ Falei pra Kamila, e fui atrás de Nicolas.
_O que você pensa que está fazendo?_ Eu falei, quando o alcancei na escada.
Ele franziu a testa, fingindo surpresa.
_O que quer dizer?
Eu balancei os braços energicamente.
_Fazer o que você fez com o Alex, virar um membro da Elite, ficar todo convencido... Devo continuar?
Ele semicerrou os olhos.
_Papai pode acreditar em Alex, mas eu o desmascarei. Você viu o que ele fez com o Marechal. Viu a verdadeira face dele, e ainda o defende.
Ele começou a subir, mas eu falei antes que ele sumisse do alcance de minha voz.
_Então é assim? Você vai trair Alex depois de tudo o que ele fez por você, depois de tudo o que fez por nós?
Ele olhou pra mim por cima do ombro. E então, subiu rumo à ala da Elite.
Eu sentei na escada, e chorei ali mesmo. Eu sempre tentava me conter, mas daquela vez não dava. Alex havia nos deixado, Nicolas também, e eu já havia guardado coisa demais só pra mim mesma.
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