A Redoma
1 Um
EU JÁ ESTAVA FICANDO DE saco cheio de Chester’s Mill e para piorar, meu irmão tinha partido naquela manhã e me deixou para trás. Bem, ele disse, em um bilhete, que voltaria para me buscar, mas eu não queria ficar. Eu sentia falta de casa, porque lá eu podia fazer alguma coisa e me distrair. Aqui, eu não fazia nada e era completamente chato.
Com esse emprego novo do meu irmão ― o que eu não sabia qual era ―, ele sempre ficava fora por alguns dias e me levava quando podia, e, como eu estava ali, aquela foi uma das oportunidades de ele me levar. Tínhamos uma relação boa, eu e ele, eu acho. Bem, já brigamos (e ainda brigamos) várias e várias vezes e uma delas foi quando perguntei de seu emprego novo ― e ele não me contou qual era, mas ele sempre falava para fingirmos que não éramos irmãos se eu quisesse continuar vivo, e como eu queria, tinha que obedecer a essa observação idiota; ele era bastante agressivo.
De qualquer forma, eu tinha ido ao Restaurante Sweetbriar, de uma senhora chamada Rose, daquela pequena cidade para tomar meu café da manhã. Não tinha muita gente ali, apenas umas quinze comigo. Alguns senhores, senhoras, mães com filhos pequenos comendo algumas panquecas e alguns adolescentes. Sentado em uma mesa comendo panquecas com um suco de uva para acompanhar, ele me ligou.
— Ei, e aí? — disse eu assim que atendi sua ligação.
— Ei, onde você está? — perguntou ele.
— Restaurante Sweetbriar — falei.
— Certo — disse ele.
— Era só isso?
— Não. Escute, eu vou sair da cidade e volto para te buscar depois.
— Você já disse isso em um bilhete.
— Pensei que não tinha visto o bilhete.
— Hmmm, O.K..
— Certo — disse ele depois de um pequeno silêncio que se propagou entre nós.
Não tínhamos muitos assuntos para discutir, eu e ele. Morávamos juntos, mas não nos falávamos muito. Estranho, eu sei.
Mas ele prosseguiu:
— Estou saindo porque aconteceu um problema e preciso de orientações...
E a ligação caiu. Eu jurei ter escutado o som de uma freada, mas isso não foi o que mais me preocupou.
O chão começou a tremer e, juntamente com ele, fez todo o restaurante tremer também. Eu não era estúpido, um terremoto estava acontecendo e eu não ficaria ali dentro para ver tudo desabar em cima de mim.
Algumas crianças começaram a chorar, alguns adultos ajudaram alguns senhores a irem para fora do restaurante, e as mães com suas crianças saíram também, e eu também saí.
Lá fora, o terremoto estava fazendo as ruas tremerem e uma forte ventania começou a surgir ali. O sino de uma igreja começou a tocar, mas eu sabia que aquilo era causado pelo terremoto. E tudo isso parou segundos depois quando um estrondo forte, alto fez a terra tremer pela última vez.
A rua estava repleta de gente espantada. Algumas famílias, algumas crianças, juntamente com alguns adolescentes e alguns adultos, que estavam por ali, olhavam para o céu. E quando olhei para o céu, tinha um acúmulo de fumaça preta; como se algo tivesse explodido.
— Eu vi! — disse uma criança.
— Eu também! — disse outra criança.
— Foi um avião — disse um homem perto de mim.
Que diabos?, pensei.
— Mas como um avião pode ter explodido do nada? — perguntou outro homem ali perto.
— Talvez tenha sido uma bomba — disse o homem ao meu lado.
— Frank, não seja idiota — disse o outro homem.
— Não estou sendo idiota, Ray — disse Frank completamente raivoso.
— Bomba? Em Chester’s Mill? — debochou o homem de nome Ray.
— Tudo pode acontecer nesse mundo.
— Nada de estranho acontece na pacata Chester’s Mill.
— Não é o que me parece.
Frank e Ray encerraram a conversa e começaram a andar rumo ao fim da rua à esquerda. Algumas crianças voltaram a fazer o que estavam fazendo e algumas famílias voltaram para o restaurante. Mas algo estava errado. Se uma cidade era tão pacata assim, como poderia ter tido um “atentado”, digamos assim, naquela droga de cidade?
Tirei meu celular do bolso e disquei o número de meu irmão para poder falar com ele, mas sem sucesso; meu celular estava sem área. Totalmente sem área, o que era bem estranho, porque ele tinha me ligado há dez minutos atrás.
Voltei para o restaurante, paguei o que consumi e saí do local, ainda com o celular à mão para caso de ele me ligar quando voltasse à área, vagando atrás de meu irmão.
Ele e eu estávamos em uma espécie de esconderijo para dentro da floresta — não me pergunte o porquê, porque ele não me disse, uma vez que ele não dormia comigo naquela casa e sim em seu carro — e o ruim era que estava bem longe de onde eu estava. Mas, fazer o quê?
Honestamente dizendo, eu não sabia o que estava fazendo ali. Eu queria ir para casa, sair daquela chata e tediante cidadezinha chamada Chester’s Mill. Mas, pensando melhor, eu poderia sair dali, pois eu já era maior de idade e tinha dinheiro comigo. Seria fácil. Eu pegaria um ônibus e sairia dali, meu irmão que se dane. Já estava aturando aquela cidade por tempo demais — a verdade era que eu já estava de saco cheio dela.
Então estava decidido: eu sairia dali. Pegaria minhas coisas, meu dinheiro e adeus Chester’s Mill.
Continuei caminhando para o nosso/meu tal esconderijo, mas algo curioso me fez parar. Algumas árvores estavam caídas e totalmente quebradas, e tinha uma rachadura em forma de linha no chão. Mas o mais curioso de tudo era a borboleta parada no ar — ela não batia asas; como se ela estivesse presa em uma teia de aranha, mas eu cheguei perto o suficiente para ver que ela não estava presa coisíssima nenhuma; ela só estava parada. Como se estivesse pousada em uma parede invisível.
Aproximando-me mais dela, tentei tocá-la, porém ela voou. E eu não contive a curiosidade, e toquei bem no local em que a borboleta estava pousada.
O choque veio de imediato e fez minha mão recuar no mesmo segundo. Não tinha sido tão doloroso, mas foi desconfortável e, bem, doeu um pouco. Toquei naquilo novamente — hesitando, é claro — e não senti nada, mas pude ver um brilho azulado contornando minha mão. Porém não fiquei com a mão ali por muito tempo, pois eu não sabia o que aquilo poderia fazer comigo.
Mas bastou ter aquele pensamento e senti algo estranho em minha mão que segurava o celular; o celular começou a aquecer e a tremer em minha mão. Larguei meu celular no chão e, segundos depois, ele explodiu.
Olhei para aquilo de olhos arregalados e não entendi nada. O que tinha acontecido, afinal? Como meu celular poderia ter explodido do nada? Por que ele tinha explodido, afinal? Que merda de cidade é essa que faria isso? Mas bastou eu olhar para frente e por minha mão naquele treco de novo e eu deduzi que tinha sido aquilo. Antes de eu tocar aquilo, meu celular não tinha feito nada, mas bastou eu tocá-la que ele explodiu. Então, realmente só podia ser aquilo.
Frustrado, virei-me para o lado para seguir meu caminho, mas ao ver que a casa que servia de esconderijo estava partida ao meio, eu paralisei.
— Que diabos...? — e minha voz falhou.
Corri até a casa, mas ao tentar atravessar a sala, me choquei contra aquela parede invisível.
Por sorte, minha mochila estava ha meu alcance e ela continha apenas algumas roupas e meus óculos escuros. Por azar e frustração, comecei a socar e chutar aquela coisa, pois o restante de minhas roupas e todos os meus documentos estavam em uma mala há quatro passos de mim e eu não podia pegá-las. Dando um último soco e pontapé naquela coisa, virei-me para a porta e saí dali.
Eu já estava de saco cheio de Chester’s Mill, agora, acrescentando mais aquilo? Eu estava completamente com raiva, ou ódio, daquela cidade. Pacata? Nada acontecia aqui? Era completamente mentira, não? Se não acontecesse nada, eu teria minhas coisas e estaria bem longe daqui, pensei comigo mesmo enquanto já chegava perto do centro da cidade. Mas eu ainda tinha dinheiro e algumas roupas comigo. Eu podia e iria sair dali. Nada poderia me impedir, nem mesmo uma miserável parede invisível.
Assim que cheguei ao Restaurante Sweetbriar, avistei uma multidão em frente ao local. Todos estavam com os semblantes completamente horrorizados, preocupados e chocados. Bem, não me surpreendia nada, pois, já que aquilo era uma cidade em que nada acontecia ter uma parede invisível era completamente fora do comum, certo? É, sei que sim.
Alguns diziam que houve uma queda de energia. O hospital estava sem energia, o restaurante também e mais algumas outras partes da cidade também estavam sem energia. Aquilo já não estava me surpreendendo. Algo estava errado, isso era bem claro no rosto dos cidadãos de Chester’s Mill.
— Correção — disse uma policial. Ela tinha cabelos pretos, pele azeitonada e era mais baixa do que eu. — Quase toda a cidade está sem energia. Não sabemos o que aconteceu aqui, mas peço para que todos mantenham a calma.
Não adiantou ela dizer aquilo, pois todos que estavam ali começaram a protestar. Mas o protesto não adiantou muita coisa e a polical voltou para a viatura e deu partida dali. Alguns voltaram para o restaurante/lanchonete e eu fui um deles.
Sentei-me em uma das mesas desocupadas bem no canto do local e comecei a olhar o cardápio.
Eu fazia isso mais para me distrair, pois eu não estava com fome. Esperaria para ver o que realmente tinha acontecido com aquela cidade e, como eu não tinha mais local para ir, ali era o único local que poderia “abrigar-me” até eu encontrar uma maneira de encontrar meu irmão.
Mas todo mundo parou de fazer o que estava fazendo, inclusive a garçonete que era bem bonita e a dona do restaurante, para prestar a atenção no rádio — que eu não sabia como poderia transmitir uma estação e estar funcionando se a luz da cidade tinha acabado; eu tinha que parar de pensar nisso, eu ia acabar me estressando ainda mais.
— Está é uma transmissão de emergência. Então, por favor, escutem com atenção. — disse a voz de um homem no rádio. — Sou o Vereador Rennie. Big Jim Rennie. Mas isso não é uma propaganda de carro.
A dona do restaurante aumentou o rádio. Ela era uma senhora que aparentava ter uns cinquenta anos, que vestida de uma blusa de manga xadrez verde com branco e calça jeans, um pouco alta, com cabelos louro-brancos.
— Por favor, parem o que estão fazendo e ouçam — prosseguiu o Vereador Rennie. — Temos uma situação séria na cidade e é importante que todo motorista que esteja me ouvindo pare seu carro agora.
Todos ali dentro não pareciam nem respirar, todos só prestavam atenção no rádio e no que o Vereador estava dizendo.
Podia ser referido àquele treco invisível que eu tinha tocado. Talvez eles tivessem descoberto que aquilo estava presente ali. Não seria tão ruim assim se todos soubessem, agora, o que estava presente naquela cidade ex-pacata.
— Não sei se o que aconteceu foi um ato terrorista ou divino, mas os manterei atualizados — disse a voz do Vereador no rádio e depois ele não disse mais nada.
Carro... avião explodindo... a freada do carro do meu irmão... Ele só poderia estar no hospital!
Tendo aquele pensamento, levantei-me de onde eu estava e, saindo do restaurante, segui para o hospital — após pegar informação de onde ele se localizava, é claro.
Não foi tão difícil assim chegar ao Chester’s Mill Clinic.
Era um grande hospital para uma cidadezinha como Chester’s Mill, mas aquilo não foi o que realmente me surpreendeu. Muitos e muitos carros estavam parados ali com gente ferida. Uns ferimentos piores que os outros. Alguns não tinham seus membros, outros só sangravam e um estava totalmente partido em dois em uma maca. Eu tinha estômago para ver aquilo, só não dizia o mesmo dos outros feridos, pois alguns vomitaram e simplesmente entraram mais em pânico do que já estavam. Causa perdida para aquele cara partido em dois, pensei.
Mas o hospital não parava de receber e receber gente. Parecia que todos tinham resolvido se ferir ou passar mal naquele dia. Porém, eu consegui identificar uma pessoa com facilidade ali.
Cabelos cor de palha igual aos meus, com um topete da hora, forte, com barba e um pouco mais alto do que eu. Aquele era o meu irmão. Mas ele não estava só. Carregava alguém em seus braços e uma moça que parecia um pouquinho menor do que ele com cabelos cor laranja. Os três adentraram no hospital.
Eu não entrei, fiquei esperando do lado de fora, perto de algumas árvores um pouco longe da entrada do hospital. Ele disse que não era para sermos vistos juntos e eu não queria brigar com ele agora. Era capaz de sair sangue um do outro se brigássemos, mas eu não queria isso. Chega de brigas por hoje. Ele não era o culpado, o culpado de tudo isso era Chester’s Mill, não ele.
Mas ele não demorou muito tempo lá dentro e ele apareceu dois minutos depois. Ele foi até um latão de lixo, tirou um cigarro do bolso — pois é, ele fumava — do casaco que vestia por cima da blusa preta e o acendeu. Pensei em ir até ele, mas uma garota apareceu.
Era a garçonete do restaurante. Pequena, loura e bonita. Ela pegou um cigarro dele, acendeu e começou a fumá-lo. Eles conversaram por um bom perídio, mas tudo foi interrompido por um carro parando bem ao lado deles e uma mulher gritando por socorro.
Os gritos por socorro foram audíveis, mas não a conversa.
Uma mulher alta, negra e careca saiu do lado do motorista, abriu a porta e começaram a tirar uma menina de cabelo cor de laranja e uma loura que usava óculos do carro. A garçonete as ajudou e as quatro foram para dentro do hospital, deixando meu irmão sozinho.
Mas ele veio caminhando em minha direção e, adentrando mais para as árvores, deixei que ele caminhasse para perto de mim sem que ele percebesse e que ninguém notasse que eu estava ali.
— Ei — disse eu, saindo de trás de uma árvore.
Meu irmão deu um pulo de susto e me olhou. Ele soltou o ar.
— Jesus, garoto... — disse ele. — Assim você me mata de susto.
Em meio aquele ódio que sentia, sorri de lado. Ele estava com a sobrancelha direito cortado, com a calça jeans suja de sangue e com uma aparência suja. Estranho, não por ele estar coberto de sangue, mas porque ele nunca foi de estar com a aparência suja.
— Pensei que você estava saindo da cidade — falei.
— E eu estava, até vacas entrarem em meu caminho me fazer perder o controle do carro e um treco invisível...
— Você também sabe disso? — o interrompi perguntando.
Ele me olhou com a testa franzida.
— Como você sabe disso? — rebateu ele.
Franzi a testa para ele.
— Toquei na coisa — falei. — Me deu um maldito choque.
Ele assentiu e sorriu de lado.
— Deu a mim também quando toquei — disse ele.
— Sabe o que é isso?
Ele deu de ombros.
— Não faço a mínima ideia.
— Sabe por quanto tempo isso pode ficar por aqui? — perguntei pondo as mãos no bolso.
Ele negou com a cabeça.
— Também não sei — ele olhou para minha mochila no ombro. — Estava pensando em sair daqui?
Ele veio até a mim e tentou pegar minha mochila, mas eu lhe empurrei, de leve, com a mão para ele se afastar.
— Sim — disse eu. — Estou farto de Chester’s Mill.
— O que foi que eu disse para você?
— E desde quando você decide tudo por mim? Tenho idade o suficiente para fazer o que quero... Dale — pronunciei seu nome com desdém e com certa raiva.
Eu estava cansado de ele querer me proteger e ser o mandão de tudo. Ele não era nada disso, eu sabia me cuidar muito bem. Eu tinha minha vida e ele a dele. Só morávamos juntos, mais nada. Nem nos falávamos direito, que dirá um tomar conta do outro. Nem nunca chegamos a compartilhar nada de nossas vidas em nossos trabalhos — ideia dele e eu também decidi não dizer nada sobre o meu.
— Você mora comigo, então faz o que eu digo... Zachary — disse ele pronunciando meu nome da mesma forma que eu fiz com o dele. — Para onde estava indo?
— Para casa, ora — disse eu. — Estou cansado de Chester’s Mill. Quero ir para casa e vou...
— Ah, não vai, não... — disse ele debochadamente. — As saídas da cidade estão bloqueadas por conta dessa coisa invisível.
Assenti com raiva.
— Ótimo — disse eu. — Era tudo o que eu precisava saber.
— Por que não foi para o esconderijo?
— Porque essa coisa conseguiu partir a casa ao meio.
Ele me olhou com os olhos arregalados.
— Como é? — disse ele.
— É, pois é. É verdade — disse eu. — Estou sem moradia — ajeitei minha mochila no ombro. — Mas eu me viro.
— Você pode...
— Não, não posso — o interrompi antes que ele fizesse um convite para dormir com ele em seu carro. — Eu me viro, já disse. Deve ter alguma casa por aqui que deve ter ficado sem seus donos. Eu fico com alguma delas.
— O.K. — disse ele assentindo.
Assenti de volta, mas seu machucado na sobrancelha estava me deixando intrigado.
— Você precisa de alguma coisa para ajudar a fechar isso — indiquei sua sobrancelha com o indicador. — Quer algo para isso?
Ele deu de ombros.
— Não, obrigado. Eu me viro — disse ele.
Começamos a caminhar em silêncio.
Como eu tinha dito, não éramos muito de conversa. Meu irmão e eu nunca fomos de conversar bastante e eu também não me incomodava muito com isso. Ele era bastante agressivo quando chegava em casa após seu serviço e já até brigamos feio por conta disso — ele estava com raiva e só por que eu tinha perguntado, sem querer, sobre seu serviço ele partiu para cima de mim e começamos a nos socar; mas isso é outra história.
Tá, meu irmão não era tão agressivo assim. Ele tinha seus momentos de raiva, que na época, era bem pior do que hoje, mas ele também tinha seu lado, digamos, sensível e amigável. Sempre que brigávamos, ficava um clima bem ruim entre a gente, mas ele sempre era o que quebrava esse clima ruim e ninguém podia mexer ou brigar comigo além dele. Em um caso, ele arrumou briga com um cara que tentou brigar comigo e o outro cara acabou parando em um hospital. E ninguém podia se meter com ele, eu também não deixava. Só eu podia brigar com ele e mais ninguém. Mas apesar de tudo, um defendia o outro dos outros. Não sei dizer ao certo o que isso significava, mas isso acontecia. Esquisito, eu sei.
Porém, estar preso ali com ele era um pouco chato, pois não tínhamos um vínculo de irmãos muito forte, mas eu não ligava para isso e tampouco ele — eu tinha certeza disso. E não iríamos conversar muito, mas era bem melhor estar com ele ali do que completamente sozinho.
Meu irmão estava sem suas placas de identificação militar e eu sem meus documentos, então seria mais fácil para nós fingirmos para os outros que não tínhamos nenhum vínculo sanguíneo — mas o difícil seria esclarecer a semelhança, mas tudo bem.
Eu e ele éramos bem parecidos. Os olhos, os cabelos, quase a mesma altura, ambos quase tão fortes quanto o outro... é, seria mesmo difícil esclarecer a semelhança, mas eu acredito que isso era o de menos.
Sim, meu irmão era um ex-militar. Serviu bem a sua posição lá — a qual eu não sabia —, mas ele saiu faz alguns anos, onde trabalhou como cozinheiro e várias outras coisas, mas, agora, eu nem sabia qual era o seu novo emprego, mas o pagavam bem. Eu era estudante de medicina e não tinha um emprego na área, eu trabalhava em um escritório de advocacia. Também me pagavam bem.
Ele não era chamado por todos como Dale e sim como Barbie. É, eu sei, mas era um apelido por conta do Barbara que nós tínhamos como sobrenome. Dale Barbara, então Barbie. Eu era Zachary Barbara, mas todos só me chamavam de Zach mesmo. Bem, era bem melhor do que ser chamado pelo nome de uma boneca.
De qualquer forma, Barbie (pois é, eu também o chamo dessa forma e ele preferia assim) e eu paramos de caminhar quando chegamos à casa partida ao meio que servia de esconderijo para mim.
Apontei para a casa.
— Viu? — perguntei debochadamente.
Ele olhou para a casa, completamente espantado.
— Que diabos...? — a voz dele falhou e ele me olhou.
Dei de ombros.
Ele assentiu.
— Certo, vai procurar uma casa para você e eu fico em meu carro — disse ele.
— Ficou louco? — perguntei semicerrando os olhos para ele. — Ninguém daqui sabe sobre a gente. Você está sem sua placa de identificação e eu sem meus documentos. Podemos encontrar um local seguro juntos. Quando isso acabar, a gente pode ir embora de fininho e ninguém irá perceber.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não vou arriscar — disse ele. — Você procura um lugar e eu volto para o carro.
— Barbie... — protestei revirando os olhos.
— Vai, Zach — disse ele sério e apontando para atrás de mim.
Suspirei e, deixando meu irmão para trás, fui atrás de alguma casa nova para poder morar.
Bem, tinha muitas casas em Chester’s Mill, para início de conversa.
Eu tentei entrar em uma, mas quando cheguei perto, um casal tinha saído de lá. Tentei outra, mas uma senhora idosa estava chorando lá dentro e eu não iria invadir sua casa. Tentei mais uma e tinha uma mãe com um garoto que aparentava ter nove anos; eu também não iria invadir a casa deles.
Fiquei vagando pelo o outro lado da cidade. Nada de nenhum lugar bom. Todas as casas em que eu pisava para dar uma olhada, sempre aparecia alguém para tirar minha ideia de tomar a casa.
Algumas pessoas simplesmente apareciam do nada quando eu olhava para a janela de algumas casas, o que me impedia completamente de tentar invadir ou fazer qualquer outra coisa com as casas. Aquilo realmente estava me deixando completamente frustrando. Eu sempre conseguia arrombar maçanetas — aprendi quando criança — e eram apenas pessoas que me impediam. Era frustrante não poder fazer nada a respeito.
E nem ali parecia fora do pânico também. Muitos estavam nas ruas completamente chocados e chorando, pois tinham perdido alguém durante o terremoto e essa coisa que tinha partido alguma parte da cidade. Eu tiraria proveito disso, já que alguns morreram, eu podia matar alguns, mas não iria arriscar.
Barbie não sabia, mas eu tinha meus truques. Eu sabia e tinha estômago e sangue frio para matar alguém, porém eu não iria matar porque não teria como eu enterrar o ser que eu matasse. Eu não arriscaria isso, pois seria tão arriscado que se eu fosse preso, duvido que meu irmão não fosse à delegacia para me dar um grande sermão e brigarmos — ele bem o tipo dele.
O dia estava começando a virar noite e nada de casa vazia para mim. Era totalmente frustrante não encontrar um lugar, pois a casa/esconderijo que eu tinha encontrado estava completamente vazia e parecia abandonada. Uma cidade como Chester’s Mill teria que ter mais de uma casa vazia e abandonada, não?
Mas, por sorte, eu encontrei uma casa vazia quando a lua veio ao céu.
A casa tinha três andares, era banca e bem grande. Era bem escondida de algumas casas, o que a fazia ficar completamente sem vizinhos na redondeza dali. Parecia estar vazia e, quando fui tentar arrombar a maçaneta, a porta estava destrancada.
Ao entrar, tinha um hall de entrada pequeno e parecia que a casa era toda de carpete. À esquerda ficava a sala de estar e à direita ficava a cozinha. Mais adentro, tinha uma espécie de sala de jantar e uma com lareira e tevê de 52 polegadas, com um sofá enorme e que parecia muito confortável. Ali tinha um tapete — eu não sabia o porquê ter um tapete se a casa era revestida de carpete, mas não reclamei — marrom parecia ter ar-condicionado e aquecedores. Bacana, pensei.
Subindo às escadas, o segundo andar parecia ter cinco quartos e todos pareciam ser do mesmo tamanho; todos tinham banheiros. O corredor era repleto de pinturas e alguns porta-retratos com fotos de um casal ruivo com um bebê ao colo da mãe. Outra foto o garoto tinha uns oito anos e estava com um bastão e roupas de beisebol. Em outra ele parecia ter quinze ou dezesseis anos e estava sorridente com os cabelos laranja rebeldes segurando uma fita azul com um projeto mecânico ao lado dele. Ele não era feio, era até bem bonito e o garoto parecia ser bom em ciência ou com máquinas, sei lá. Eu estudava ciência, não mecânica.
Subindo às escadas para o terceiro andar, descobri o maior quarto da casa. Era o dos pais do garoto, pois tinha uma enorme cama de casal com um dossel incrível e o maior banheiro que eu já tinha visto. As janelas do quarto davam para ver as ruas à frente da casa, o quintal grande — porém com o cercado quebrado por conta daquela porcaria invisível — e em outras direções da rua. Eu poderia dormir ali, seria bem melhor do que um sofá sujo que eu era obrigado a dormir naquele esconderijo.
Jogando minha mochila no chão do banheiro, tomei o maior banho que eu podia. A água estava numa temperatura tão boa que eu quase tinha esquecido que tinha que sair do banho após ter me ensaboado e lavado meu cabelo devidamente.
Quando saído banheiro, me arrumei com roupas novas de minha mochila e pus a roupa suja em um cesto de roupas sujas, que estava totalmente vazio, que tinha ali no banheiro.
Saindo do quarto e, descendo as escadas, encontrei o garoto da foto bem de frente para a porta do quarto dos pais com o taco de beisebol nas mãos, pronto para me dar uma tacada.
Levantei minhas mãos para o alto na mesma hora.
— Ei, calma, calma... — disse eu. — Você não precisa fazer isso, carinha.
Ele me olhou com certo espanto e tristeza no olhar.
— O que faz em minha casa? — perguntou ele com uma voz assustada.
— Eu pensei que não tinha ninguém em casa, por isso entrei — disse eu ainda com os braços levantados para ele. — Não quis te prejudicar. Não sou daqui e não tenho nenhum lugar para dormir.
Ele me olhou e fitei seus olhos azuis, ele pareceu pensar um pouco sobre o assunto, talvez vendo uma maneira de como me dar uma tacada sem que eu morresse — ele não parecia que era capaz de matar nem uma mosca, que dirá alguém. Ele abaixou o taco e abaixei minhas mãos. Mas, segundos depois, ele levantou o taco e minhas mãos voltaram para o ar.
— Você não vai me assaltar, não vai? — perguntou ele franzindo a testa.
Balancei a cabeça negativamente.
— Claro que não, garoto — disse eu.
Abaixei as mãos devagarzinho e lhe estendi uma.
— Sou Zach — disse eu.
Ele hesitou, mas pegou em minha mão.
— Sou Charlie — disse ele. — Bem, você não parece um cara que irá fazer qualquer coisa comigo.
Sorri de lado.
— Como pode ter certeza? — perguntei.
— Porque você não tirou o taco de minhas mãos e nem me nocauteou — observou ele.
Pensei por um segundo.
— É, verdade — ri.
Ele sorriu de lado.
Bem, se ele estava aqui, seus pais deveriam estar por perto, não?
— Onde estão seus pais? — perguntei olhando para o andar debaixo.
— O carro deles se chocou contra aquela parede invisível sobre a cidade quando eles estavam indo para Westlake. Acabei de voltar do local do acidente — disse ele segurando o choro. — Westlake é a cidade ao lado de Chester’s Mill — disse ele assim que franzi a testa quando ele disse o nome da cidade.
Assenti para ele.
— Sinto muito — disse eu.
Ele fungou, mas não chorou, e assentiu para mim.
— Agora sou só eu nessa casa e mais ninguém — acrescentou ele tristemente.
— Nenhum parente? — perguntei.
— Nenhum.
— Nem irmãos?
— Não.
— Sinto muito mesmo. Eu posso ir embora se quiser...
— Não, espera... — pegou em um dos meus braços quando comecei a descer as escadas. — Você pode ficar. Será bem melhor para mim. Não sei se aguentaria enfrentar isso tudo sozinho.
— Mas você mal me conhece.
— Eu sei, mas você não vai me matar, vai? — ele me olhou nos olhos, quase chorando.
Neguei com a cabeça.
— Então... — disse ele e me soltou. — Pode ficar. Não sou uma pessoa ruim. Você está sem moradia e eu estou sozinho. Pode ficar aqui.
Segurei em seus ombros e olhei em seus olhos.
— Obrigado... de verdade — disse eu e o soltei.
Ele assentiu para mim.
— De nada — disse ele.
Meu estômago roncou e fechei os olhos, completamente envergonhado.
— Desculpe — disse eu. — Não como desde o café da manhã.
Ele riu.
— Tem bastante comida na geladeira e nos armários — disse ele. — Podemos descer e comer.
— O.K. — disse eu e descemos rumo à cozinha.
Charlie e eu não ficamos conversando sobre seus pais, pois quando eu perguntei se ele queria falar, ele disse que não estava totalmente pronto para tal coisa. E eu também não seria o cara que tocaria na mesma tecla.
Ele perguntou sobre mim e as únicas coisas que eu disse era que tinha vinte e dois anos, tinha um irmão, mas que ele não estava na cidade comigo. Eu menti, eu sei. Mesmo aquilo me deixando desconfortável, mas eu não poderia dizer a verdade para ele, pois eu não sabia o que Barbie poderia fazer com Charlie; essa tinha sido a razão para eu não ter dito a verdade. Também tinha dito que tinha um emprego, estudava e mais nada. Mas que tudo tinha mudado quando tinha pisado em Chester’s Mill, tudo virou do avesso. Quando ele me perguntou como eu tinha parado ali, menti outra vez dizendo que estava apenas de passagem, que um amigo tinha me dito que o local era bastante bonito e bom de se estar se quisesse paz; ele riu com isso.
Contudo, deu mais de meia-noite. Charlie tinha dito que eu poderia dormir no quarto dos pais, mas eu neguei e disse que estaria bem confortável em um dos outros quartos e que ele dormisse na cama dos pais. Ele não reclamou e logo, depois de um banho, foi-se deitar na cama dos pais.
Em um dos quartos — que tinha uma cama de casal superconfortável, mesinha de cabeceira, ar-condicionado, aquecedor, computador, estante repleta de livros e tevê —, depositei minha mochila no chão e caí na cama. Eu só percebi que estava tão cansado quando me deitei na cama.
Mas o sono não demorou muito a chegar e eu dormi como uma pedra.
Fale com o autor