A Redoma
3 Três
No dia seguinte, Charlie acordou mais disposto e eu só consegui tirar uma pequena soneca. Eu estava com fome, cansado e com sono. Eu não estava preparado para fazer um plantão e nem mesmo pronto para trabalhar como médico naquele hospital.
Contudo, nós saímos dali e fomos em direção a casa dele, pois eu estava com bastante fome e com sono. Charlie notou tanto a minha exaustão que pediu para poder levar minha mochila — e eu também não conseguia carregá-la; estava pesada demais para isso e ele acabou levando.
Mas assim que nós chegamos a sua casa, eu não comi nada e não demorou nem dois minutos para eu pegar no sono quando me joguei no sofá.
Já pela manhã seguinte, eu estava totalmente indisposto.
Quando eu fui para o hospital às oito da manhã, disseram que a minha ajuda não seria necessária até depois do dia posterior do dia seguinte, ou seja, eu folgaria três dias e trabalharia um. Vinte e quatro por setenta e duas. Três dias de descanso e um dia inteirinho trabalhando. Maravilha. Não estou reclamando, se é o que pensa, pois ajudar todas as pessoas possíveis seria ótimo, mas eu não estava preparado para fazer aquele tipo de escala. Mas... eu tinha que me acostumar.
Quando cheguei à casa de Charlie, ele estava na cozinha preparando alguma coisa para comer..
— Bom dia — falei assim que o vi sentando à mesa da cozinha.
— Oi, bom dia! — disse ele um tanto animado e com um sorriso no rosto.
Franzi a testa e puxei uma cadeira, sentando-me ao seu lado.
— Por que tanto entusiasmo? — perguntei, pegando um pão e cortando-o ao meio.
Ele mastigou um pedaço do sanduíche de manteiga de amendoim e geleia de uva e engoliu.
— Vai haver uma visita para as pessoas de Chester’s Mill — disse ele. — Os entes queridos de todos que estão fora dessa redoma virão até o cruzamento da redoma com a Ponte da Rua 6 às dez.
Assenti para ele e mastiguei o pão com queijo que eu tinha preparado.
— Mas qual é o motivo de toda a sua felicidade? — perguntei. — Pensei que você não tinha parente algum.
— Não em Chester’s Mill — respondeu ele. — Eu tenho tios em Westlake. Só meus pais que foram burros o suficiente para ter ficado em Chester’s Mill. Talvez meus tios apareçam.
— Hmmm... entendi. Bem, espero que apareçam mesmo.
— Eu, ahn... — ele pigarreou e logo bebeu um gole de chocolate quente em sua xícara absurdamente grande e larga. — Eu queria que você fosse comigo. Sabe, eu não iria querer ir para lá sozinho.
Franzi a testa para ele.
— Tem certeza? — perguntei, bebendo um pouco do suco de uva que estava à mesa.
— Sim — respondeu ele. — Se você não se sentir à vontade, só ficar lá por perto para me dar apoio moral ou coisa e tal. Eu não quero olhar para os meus tios e dizer que meus... que meus pais... bem... morreram.
Seus olhos começaram a lacrimejar e afaguei seu ombro esquerdo. Ele me olhou e ele já estava chorando.
— Eu vou com você — disse eu. — Se você não encontrar forças, é só olhar para mim que eu vou estar lá por você.
Ele fungou e sorriu um tanto sem graça e corando.
— O-o-obr-obrigado... — gaguejou ele.
Sorri para ele e lhe dei uma piscadela.
Quando deu exatamente nove e quarenta da manhã, Charlie e eu saímos de casa (ele disse que era minha casa, também), e fomos para aquela tal ponte que ele tinha dito que tinha escutado no rádio para encontrarmos seus tios. Mas eu não sabia que teria tanta gente assim naquele lugar.
Primeiro de tudo, muita gente fora da redoma estavam levantando plaquinhas escritas com alguma mensagem ou alguma coisa desse tipo. Muitos carregavam filhos seus lados e em seus ombros e tinha senhoras, e outras pessoas mais velhas. E digo o mesmo pelo lado de dentro da redoma. Muitos do lado de dentro gritavam ou até mesmo choravam desesperadamente por conta de estarem separados de seus entes queridos por conta de uma coisa invisível. Eu até entendo. Por mais que Dale (ou Barbie, tanto faz) e eu não fôssemos tão próximos assim, eu não me via separado dele daquela forma como muitos estavam.
— Tio Fred! — disse Charlie.
Ele saiu de perto de mim e foi direto para perto da linha que exigia uma boa distância da redoma.
Mas tinha algo errado.
Por que o exército estava ali? Por que repórteres estavam ali? Tudo bem, eu aceitava a ideia de repórteres, mas militares? Com certeza isso não está certo, pensei comigo mesmo.
Observei Charlie conversar com seu tio e a esposa (ele tinha trazido um bloco de notas e uma caneta) e seus tios fizeram a mesma coisa. Como eu suspeitava, o tio de Charlie era ruivo como o menino e tinha os mesmos olhos azuis. A esposa também era ruiva, mas não tinha os olhos castanhos. Ambos vestiam roupas sociais, como se tivessem saído de um escritório ou algo assim. E eu fiquei de longe, perto da ponte, observando Charlie com seu tio e sua tia.
Mas eu fiquei de longe. Eu não queria interromper Charlie em uma conversa quando se trataria de um assunto um tanto particular. Certo momento ele olhou para mim e eu assenti com a cabeça para ele. Eu sabia o que ele faria; contaria aos tios sobre seus pais e seria difícil. Como eu disse, eu estava lá por ele, e ele tinha que dar àquela notícia sozinho. Ele se virou para frente, com os olhos lacrimejando, e voltou a encarar os tios.
Mas não foram apenas os tios de Charlie que eu vi por ali, também.
Aquele garoto louro, o Joe, estava lá, junto com aquela menina ruiva que parecia ter a sua idade e aquela doutora Alice que eu havia visto no hospital no dia anterior, junto com aquela moça negra e careca. Mas elas pareceram discutir e a menina de cabelos cor laranja correu dali.
E vi meu irmão, longe dos outros, perto do outro lado do início da ponte, mas eu não fui até ele. Fiquei onde estava — não seria uma boa ideia ser visto no mesmo local que ele, então e fiquei um pouco mais longe de onde eu me encontrava.
Charlie vinha para mais perto de mim com os olhos completamente inchados e lacrimejando.
— Sinto muito — falei para ele quando pus a mão em seu ombro ao afagá-lo.
Ele enxugou os olhos e assentiu para mim.
— Tio Fred disse que eu vou morar com ele assim que essa coisa sair daqui — disse ele em um sussurro.
Senti uma pequena pontada no coração e eu não sabia exatamente o motivo.
Charlie e eu não tínhamos vínculo familiar, mas ele era um garoto bacana e eu não achava que ficar longe dele seria o certo. Ele parecia indefeso demais para deixá-lo com qualquer pessoa que eu não conhecia — tudo bem que era tio dele, mas mesmo assim eu não queria deixá-lo ir.
— Meu tio quer falar com você — disse Charlie, apontando para a redoma.
Franzi a testa para ele.
— Como é? — perguntei.
— Eu falei que tinha um novo amigo que estava cuidado de mim, então ele disse que quer conhecer quem é.
— Hmmm... certo. Vamos lá, então.
— Eu te espero aqui. Ele disse que quer falar com você sozinho.
— Tudo bem.
Charlie me deu o bloco de notas e a caneta e, um tanto desconfiado, fui até o seu tio Fred e sua esposa, passando por todas aquelas pessoas e inclusive meu irmão, mas eu não parei para cumprimentá-lo e nem nada. Estava seguindo o que ele tinha mandado: não era para as pessoas saberem que éramos irmãos, então... eu não tinha que falar com ele. E foi até melhor assim.
Quando parei perto dos tios de Charlie, peguei o bloco de notas que o garoto tinha me entregado e escrevi “Oi”.
Fred (o tio de Charlie) escreveu “Oi” em um papel e logo em seguida ele começou a escrever mais coisas em outra folha.
É um prazer conhecê-lo.Chamo-me Fred e esta é a minha esposa, Rosalie.
Eu assenti para o papel e ele começou a escrever de novo.
Eu agradeço demais por estar cuidado de meu sobrinho.
Mas eu preciso perguntar... quem é você?
Eu assenti para ele e comecei a escrever, e logo em seguida, com um sorriso de lado, mostrei a seguinte frase para ele:
Não precisa agradecer.
Meu nome é Zach e eu garanto que não sou um assassino ou coisa do tipo.
Os tios de Charlie leram o que eu tinha escrito e deram uma leve risadinha. E Fred começou a escrever novamente.
Eu presumo que não seja. Por favor, tome conta dele, está bem
Charlie é muito novo para perder os pais e ele é um tanto sensível.
Eu apenas assenti para ele e não escrevi mais nada.
Os militares começaram a esvaziar a área com os visitantes. Fred e Rosalie foram chamados, mas eles acenaram com a mão para mim e para Charlie que estava no local onde eu me encontrava antes de ir até a redoma.
Agradeço muito, Zach.
Por favor, não deixe que nada de ruim aconteça com meu sobrinho.
Meu irmão não me perdoaria. Prometa-me.
Assenti para ele novamente, prometendo que cuidaria de Charlie, e ambos se foram, e fui me juntar a Charlie que ainda chorava. Mas assim que ele me viu chegar, ele enxugou as lágrimas na camisa azul que vestia e engoliu o choro.
Mas todo mundo ali, depois de algum tempo, começaram a sair dali, pois, do outro lado da redoma, os militares começaram a levar os civis para alguns carros e saindo dali de perto.
Meu irmão, puxando uma jovem um tanto gorducha de cabelos castanhos e roupa preta e branca, foi para mais perto da redoma e chamaram a atenção de um militar.
— Vamos embora — disse eu a Charlie.
Ele assentiu, mas ouvi um som estranho. Quando olhei para ele, ele pôs as mãos na barriga. Prendi o riso quando vi sua cara toda corada.
— Vamos ao restaurante Sweetbriar — disse eu.
E assim fomos, caminhando em pleno dia de sol em Chester’s Mill. Seria até um dia bem bacana e adorável, se não estivéssemos presos dentro daquela cidade, dentro daquela maldita redoma que me cortava do restante do mundo.
Mas por sorte, não demorou muito para chegarmos até ao restaurante.
E lá dentro estava um pouco lotado.
Muitas das mesas já estavam ocupadas e parte do balcão também estava ocupada. Mas por sorte, o segundo andar do restaurante estava vago e Charlie e eu fomos lá para cima, onde pedimos refrigerantes e uma lasanha (já era quase a hora do almoço).
— Seu amigo — disse eu e apontei para baixo, quando vi o Joe e aquela menina com cabelos ruivos.
Charlie olhou lá para baixo e me olhou logo em seguida.
— Vou lá embaixo para dizer oi — disse ele.
Assenti para ele. E logo em seguida ele desceu as escadas.
Mas bastou eu pôr a lata de refrigerante na boca, que eu ouvi o que o rádio disse.
— Aqui é a Julia Shumway com uma transmissão de emergência — disse uma voz feminina e eu sabia que ela não parecia estar brincando. Todos no restaurante ficaram em silêncio. — Sei que esta notícia pode ser difícil de aceitar, mas lhe dou uma palavra que é verdadeira.
A tensão dentro do restaurante ficou impressionante. Ninguém conseguia, nem sequer, se mexer. E era audível o som da respiração de cada um dentro daquele local.
— Às 13h15 de hoje, o exército planeja lançar um poderoso míssil na cidade, para destruir a redoma — prosseguiu a locutora. — Por não sabermos o que acontecerá quando a redoma cair, é imperativo que nos abriguemos.
Míssil? Como assim míssil?, perguntei a mim mesmo. Mas os entes queridos dos outros vieram visitar os que estavam em Chester’s Mill. Como planejavam...
É claro!
Não era um dia de visita. Era um dia de despedida!
Pus-me de pé no mesmo segundo.
— Por segurança, todos os moradores de Chester’s Mill devem ir para a Fábrica de Cimento do Sanders, imediatamente — continuou a locutora. — Por favor, façam tudo o que puderem para divulgar isso.
Mas é claro que eu tinha que ir para lá. Eu tinha que levar Charlie para lá, acima de tudo. Eu prometi ao tio de Charlie que cuidaria dele e assim eu o faria. Comecei a descer as escadas.
— Isso não é um treinamento — finalizou a locutora chamada Julia.
Quando meus pés tocaram o andar debaixo do restaurante, meu instinto foi ter pegado Charlie pelo braço e começado a tirá-lo daquele restaurante e indo para aquele tal lugar que a tal Julia Shumway tinha nos designado. Eu não sabia onde ficava, mas Charlie, com certeza, sabia.
— Vamos embora daqui... — disse eu, girando a maçaneta da porta.
— Ei, espera... — disse Charlie se soltando de mim. — Joe está procurando a irmã dele. Eu preciso ajudar.
— Charlie, eu não posso...
— Por favor! — cortou-me ele. — Olha, a Fábrica de Cimento fica do outro lado de Chester’s Mill. Dá tempo de você e eu nos encontrarmos antes do míssil atingir a redoma.. Eu te encontro na fábrica em vinte minutos.
— Se você não estiver lá...
— Eu vou estar. Vai para casa e pegue alguma coisa, e nos encontramos na fábrica.
Fechei os olhos e suspirei por um segundo.
— Tudo bem — falei. — Se eu não te encontrar lá em vinte minutos...
— Eu vou estar lá — cortou-me ele. — Eu prometo.
Suspirando, eu saí do restaurante e fui direto para casa.
Lógico que eu corri. Eu não era idiota. Não tínhamos muito tempo e eu precisava fazer uma mochila com roupas para mim e Charlie o mais rápido possível. Se nós sobrevivêssemos, não teríamos roupas novas, pois o míssil iria destruir a casa e toda a comida. Mas estaríamos livres para ir para qualquer outra cidade e Charlie estaria livre para ir morar com seu tio em Westlake. Mas se morrêssemos... bem, morreríamos, e roupas e comida seriam as últimas coisas que eu me preocuparia.
E eu tinha que me apressar. Eu não podia ficar escolhendo roupa para Charlie e para mim, como eu estava fazendo naquele momento. Quando chegasse a Westlake, Charlie poderia ter qualquer roupa que quisesse, e quando eu chegasse a minha cidade, eu poderia comprar mais roupa; se eu ainda tivesse meu emprego — e eu sentia que não.
Pegando três blusas, três shorts e três cuecas para Charlie, pus em uma mochila e peguei a mochila que eu tinha com minhas roupas e pus nas costas. Dei uma última olhada na casa, mas eu tinha que pegar mais uma coisa.
Subindo as escadas, peguei todos os porta-retratos que Charlie tinha com seus pais. Eu sabia que ele iria querer alguma coisa que pudesse lembrá-los se a gente sobrevivesse. Eu iria querer... eu acho. Na hora da morte, todo mundo muda, não é mesmo?
De qualquer forma, peguei os porta-retratos contendo as fotos da família de Charlie e as enfiei na mochila. Corri as escadas, pulando dois degraus de cada vez, quase tropeçando quando cheguei ao térreo e quase me causando uma queda que quebraria meu nariz.
Mas eu segui para fora da casa. Já faltavam apenas cinco minutos para encontrar Charlie na tal Fábrica de Cimento e eu não iria ficar mais nenhum minuto sem vê-lo. Eu não sabia de onde vinha toda aquela preocupação, para ser bem franco. Talvez fosse porque Charlie parecia ser um garoto completamente indefeso, ou até sensível, como seu tio havia dito. Eu só sabia que corria como louco para a direção daquela fábrica, mas parecia que nunca que ela chegava.
Mas quando finalmente a avistei (depois de correr quatro minutos exatos), eu adentrei naquela passagem, descendo as escadas de ferro e logo avistei um local que ficava muito fundo da superfície (o que me deu certa esperança de permanecer vivo), pouco iluminado, e repleto de gente.
Chegando perto de uma pilastra que não tinha ninguém por perto, deixei minha mochila e a mochila de Charlie perto da mesma. Eu sabia que ninguém seria louco de pegar minhas coisas. Eu sabia como minhas coisas eram e poderia ir atrás para recuperá-las. E digo o mesmo das coisas de Charlie. Eu as tinha escolhido, então eu sabia como eram.
Mas deixando isso de lado, eu comecei a andar ali dentro, à procurada da figura baixa e de cabelos cor laranja, mas, infelizmente, eu não tinha encontrado. Sentei-me perto de nossas mochilas e olhei meu relógio de pulso, e tinha dado exatamente vinte minutos desde a última vez que vi Charlie. Mas ele já está chegando, pensei comigo mesmo.
Ouvi um barulho vindo das escadas e olhei, mas não era ele. Olhei meu relógio de novo e deu mais dez minutos. Meia-hora sem ver Charlie. Tinha alguma coisa errada.
Quarenta e cinco minutos e nada dele. Com certeza tinha algo errado. E eu não podia ficar ali sentado esperando ele aparecer sem fazer nada. Eu tinha que encontrar aquele garoto e eu não ficaria ali sentado sem fazer nada.
Levantei-me do meu local e, indo pelo outro lado que eu estava (para que ninguém ficasse reparando em mim), eu avistei as escadas. E andei em direção a elas, pronto para ir procurar o garoto que já deveria estar ali a mais de vinte e cinco minutos.
— Para onde pensa que vai? — perguntou ele se pondo à minha frente.
Quando levantei a cabeça, era Barbie. Ele vestia uma camisa de botão cinza e jeans, com seu sapato que mais parecia uma botina.
— Saia da minha frente... — falei para ele, passando do mesmo.
Mas ele se colocou à minha frente.
— Me deixe passar... — tentei passar de novo, mas ele me impediu mais uma vez.
Ele cruzou os braços.
— Você não vai sair daqui — disse ele. — Tem um míssil...
— Eu ouvi o rádio — o cortei. — Agora saia da minha frente para eu poder...
E tentei passar por ele de novo, mas ele me segurou pelo braço com força, o que me fez olhá-lo com raiva e encará-lo nos olhos. Ele me olhou da mesma força.
— Me solta...
— Zach, me escute! — cortou-me ele entredentes. — Eu não vou deixar você sair. Se esse míssil por a redoma a baixo, vai matar a todos nós. E eu não quero ficar longe do meu irmãozinho.
— Belo discurso, Dale — disse eu com raiva. — Agora me solte. Eu preciso encontrar o Charlie...
— Você fica aqui...
— Barbie! — disse alguém e meu irmão me soltou.
E foi a minha deixa.
Assim que meu irmão me soltou, corri escada à cima, pronto para sair daquele local. E assim que cheguei à porta, abri a mesma e corri em disparada por toda Chester’s Mill à procura de Charlie.
Chester’s Mill pode ser pequena, mas há diversos lugares em que alguém poderia se esconder.
As ruas estavam completamente desertas. Parecia que era uma cidade abandonada ou fantasma, pois só tinha uma única vida passando pelas ruas de Chester’s Mill, e esse alguém era eu. Certo, tinha Charlie, Joe e aquela garota de cabelo laranja, mas eu não os via, então eu era o único na rua.
E eu passei pelo Restaurante Sweetbriar gritando o nome de Charlie, mas não deu em nada. Passei perto do lago que tinha naquela cidade, também gritando seu nome, mas eu não vi nem sombra de menino ruivo de olhos azuis. Nem mesmo o encontrei perto da ponte em que tínhamos ido encontrar os tios de Charlie. Tampouco o encontrei aos arredores da escola, nem mesmo perto da prefeitura e muito menos perto da igreja (eu não sabia se Charlie era religioso, mas eu tinha que verificar aquele lugar).
Olhei para o relógio em meu pulso e faltavam apenas quinze minutos para o míssil acertar a redoma e acabar de vez com Chester’s Mill.
Mas eu não podia parar de procurá-lo. Não tinha como Charlie sair de Chester’s Mill, então eu tinha que achá-lo, de alguma maneira. Ele não podia simplesmente ter sumido daquela maneira.
Ainda correndo como um louco e gritando por seu nome, eu fui parar no posto de gasolina, onde estava completamente deserto e sem sombra de vida. Gritei pelo nome de Charlie novamente e eu o vi.
Vindo pela rua oposta onde eu estava, ele corria em minha direção, como um menino completamente desengonçado.
— Você quer me matar de susto, seu moleque? — falei assim que finalmente consegui pôr minhas mãos em seus braços, segurando-o com certa força. — Eu disse vinte minutos...
— Eu sei, eu sei... — cortou-me ele com a voz um tanto trêmula. — Mas Joe e Norrie não conseguiram achar Angie e eu tentei voltar direto para a Fábrica de Cimento.
Suspirei um tanto aliviado por ainda tê-lo em minhas mãos. Mas logo relaxei meus dedos e o soltei.
— Acha que conseguimos chegar ao abrigo? — perguntou ele.
Olhei para o meu relógio de pulso e faltava alguns segundos para dar a hora que disseram que o míssil iria atingir a redoma.
Neguei com a cabeça.
Ele olhou para o céu e apontou para um determinado local. Eu olhei para lá e lá estava o míssil, vindo em nossa direção em uma velocidade incrível.
— Então é isso... — disse eu. — Foi bom conhecê-lo, rapazinho.
— Posso fazer uma coisa? — perguntou ele, segurando minha mão direita.
Eu apertei sua mão e o olhei com afeto, levantando seu queixo. Assenti para ele.
— Pode — falei com um sorriso.
Ele olhou para o míssil e eu fiz a mesma coisa. Faltavam alguns segundos para ele se chocar contra a redoma.
Charlie me olhou e eu olhei para ele.
— O que quer fazer? — perguntei.
— Isso — disse ele.
Ele ficou na ponta dos pés e me beijou.
Quando eu abri meus olhos, Charlie ainda estava à minha frente segurando minha mão e com o rosto completamente corado. Ele escondeu o rosto.
Mas eu trouxe seu rosto para mim de novo, gentilmente, e o beijei, adentrando minha língua em sua boca e entrelaçando a dele na minha. Puxei seu corpo para o meu e alisei suas costas com uma mão e a outra foi direto para sua nuca, entrelaçando meus dedos em seu cabelo. Ele envolveu os braços em meu pescoço e retribuiu meu beijo, como se estivesse com sede e vontade de minha boca. Mas ele não beijava mal, se é o que pensa. Seu beijo era tranquilo e calmo, como o meu. Era uma combinação perfeita.
Mas paramos de nos beijar e ele ficou me olhando, e eu sorri de lado para ele.
— Nós não morremos — disse ele, um pouco contente.
— Eu estou me importando sobre o fato de termos nos beijado — disse eu.
Ele sorriu um pouco sem graça, mas eu afaguei seu rosto, acariciando sua bochecha com o polegar.
— Vamos embora — disse eu, ainda com um sorriso para ele, mas lhe dei um beijinho rápido.
Ele corou mais um pouco, escondendo o rosto, mas deu uma risadinha sem graça.
— Vamos — disse ele.
E de mãos dadas, voltamos para casa.
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