A Recruta
2 O Objeto
Notas iniciais
O coração de Jemma sentiu uma pontada já bastante conhecida. Havia meses que estava focada em treinar e preparar-se para aquilo, mas no fundo sabia que quando acontecesse isso iria mexer com sua cabeça. Violentamente.
– Você entendeu, agente Simmons? – ele repetiu, voltando a mexer nos óculos. – Ou você quer que eu refresque sua memória?
– Eu sei pra quem eu trabalho. – ela virou-se para ele resoluta, repousando a toalha preta com a insígnia da HIDRA bordada nela. – Apenas me coloque na posição.
– Ótimo. Essa é a missão da sua vida, agente. Falhas não serão permitidas.
– Absolutamente, senhor.
O homem de meia idade se retirou da sala. Passou a mão em seus cabelos bagunçados, mas não havia sinal algum de nervosismo. Ele estava seguro de sua equipe e algo o fazia ter certeza de que tudo correria dentro dos conformes. Passou pela sala de treinamento e atravessou os corredores até chegar ao seu escritório. Ao adentrar, viu uma moça sentada na sua cadeira, de costas para a porta. Ao notar a presença dele, ela virou-se num giro e exibiu um sorriso tão esnobe quanto a própria postura: sentada com os dois braços apoiados nos encostos da cadeira e as pernas cruzadas.
– Quem é você?
– Nossa – ela revirou os olhos em deboche. – Vocês só perguntam coisas desnecessárias...
– Eu entro na minha sala e encontro uma mulher desconhecida num vestido vermelho florido, sentada na minha cadeira... A primeira coisa que me ocorre é perguntar quem ela é.
– E por que não perguntar o que eu posso fazer você? – ela levantou-se da cadeira e seguiu na direção dele.
– Desculpe-me, senhorita, não sei quem deixou você entrar, mas não me lembro de ter contratado nenhuma prostituta, ainda mais a essa hora do dia.
Raina tocou seu colar de brilhantes com a mão espalmada, fingindo ficar ofendida com o comentário.
– Oh, não... Você entendeu errado.
– Então me explique do que se trata, por favor.
– Bem, eu acabei de adquirir algo muito valioso, mas já notei que vocês não são muito bons em lidar com coisas que não compreendem.
– Você está enrolando muito para dizer o que quer.
– Este é o problema com todos vocês. – ela o circulou, andando ao redor dele sem deixar de encará-lo. – Querem pular a parte do raciocínio. Ir direto ao ponto. Não há reflexão. Não há crescimento. Isso é muito pré-histórico até mesmo pra vocês.
– Dona, minha paciência está chegando ao limite.
– Ofereço-lhes a chance de ver as coisas com outros olhos. Deixe-me apresenta-lo ao meu consultor.
– Não estou interessado na sua loucura. Peço-lhe que se retire da minha sala, antes que eu chame alguém não tão educado para fazê-lo.
– Não precisa chamar ninguém. — ela levantou as duas mãos, em rendição. – Deixarei meu cartão sobre a mesa, caso mude de ideia.
– Obrigada pela cooperação. Chamarei uma de nossas agentes para acompanha-la até a porta.
– Simmons. – ele pressionou o comunicador, tocando o ouvido com o indicador. – Venha até minha sala agora.
Raina apenas olhava a sala com uma expressão de tédio, achando tudo aquilo muito ultrapassado. Os móveis bem polidos, as medalhas do veterano enquadradas na parede, os troféus, a bandeira da HIDRA enrolada sobre uma escrivaninha. Aqueles homens realmente não pensavam em algo que não tivesse a ver com a dominação do mundo. Raina, porém, estava muito além disso. E ela não estava mesmo a fim de compartilhar algo tão importante com aquela espécie de gente.
– Simmons, leve a moça até a saída. Houve um pequeno mal entendido na recepção.
Jemma não pôde evitar que seu coração acelerasse. Lá estava a mulher. A própria. Raina em pessoa, com direito a um vestido em vermelho sangue – e óbvio – florido. Lembrou-se do dia em que a mandaram para o xadrez. Um tempo em que as coisas eram menos complicadas.
– Ora se não é a cientista boazinha da equipe do Coulson...
– Acompanhe-me senhorita. – Jemma respondeu friamente, segurando Raina pelo braço, sem uma gota de delicadeza.
– O que você está fazendo aqui, garota? – Raina perguntou, enquanto era praticamente arrastada pelo corredor. – Depois de passar tudo aquilo com o Coulson... Me admira que logo você tenha mudado de lado.
– Não é mesmo? – Simmons deu de ombros, desejando que aquele corredor acabasse o mais rápido possível. – O mundo dá voltas.
– Não esse tipo de volta – Raina tentou encará-la, mas Jemma só olhava para o fim do corredor, que já não estava muito longe. – Você está aprontando alguma, não está?
Jemma apertava mais ainda o braço dela, incomodada com o sorriso sarcástico daquela mulher. Raina parecia sempre saber de tudo, sempre estar acima de tudo, mas não contava com aquela mudança tão brusca.
– Como você foi capaz de deixa-los? – Raina continuou a provoca-la. – Coulson, Skye... O cientista...
– Já chega! – Simmons largou o braço dela e apertou o pescoço da mulher, pressionando-a contra a parede. – Você invade um dos nossos escritórios, o que devo dizer, não é nada fácil... Entra no escritório do nosso Sênior – Simmons soltou uma risada enquanto Raina se contorcia a procura de ar. – Você tem sorte se eu te deixar sair viva daqui.
– O que... O que raios eles fizeram... Com v-você?! – Raina perguntava, quase sem voz.
– Eu não sou mais aquela garota que você conheceu, Raina. – Jemma pronunciava firme, com os dentes cerrados. – Pise aqui mais uma vez sem permissão e você descobrirá o que eles fizeram comigo. Eu tenho minhas ordens, e isso não inclui matar você. Portanto, siga o seu caminho antes que eu desobedeça uma ordem direta do meu Sênior.
– Nem... Mesmo... P-para pôr as mãos n-nisso?
Ela colocou a mão na bolsa e retirou o objeto, que reluzia em linhas e pontos em alto-relevo ao entrar em contato com as suas mãos. Lembrava uma ampulheta, mas tinha um formato prismático.
– Eu não tenho propriedade para me intrometer neste assunto. – ela diminuiu a força no braço, dando espaço para Raina respirar. – Se o Sênior não aprovou o seu Projeto de Ciências, eu não posso tomar isso para mim.
Simmons largou Raina e continuou arrastando-a pelo corredor a passos largos. Raina devolveu o objeto à bolsa, ainda sem entender como alguém podia mudar tanto em tão pouco tempo. A mulher do vestido florido sentia o sangue correr quente nas veias, principalmente na pele em redor ao pescoço. Só agora percebia o quão forte Simmons havia apertado, tanto que as unhas chegaram a cortar superficialmente a pele dela.
– Só lhe direi mais uma coisa, Agente Simmons. – ela pronunciou, quase com nojo daquele nome. – Eu sei muita coisa que lhe interessaria.
– Nada que venha de você me interessa.
– Nem mesmo se isso incluir o passado da sua amiga Skye?
Jemma sentiu as pernas fraquejarem, mas permaneceu andando firme. A menção do nome da amiga a fazia retornar àquele passado tão recente e tão distante ao mesmo tempo, tentando comprometer o seu presente como agente da HIDRA.
– Eu não pertenço mais à S.H.I.E.L.D. – ela virou-se, ameaçando acabar com a raça de Raina naquele exato momento. – Logo, nada disso é relevante. Dê o fora daqui.
As duas chegaram ao saguão e Simmons estava com as mãos na cintura, esperando Raina sair do prédio. Ela não estava mais com paciência para aquela conversa, ao contrário da mulher no vestido, que parecia se divertir com o novo lado da cientista.
– Caso se interesse, também temos a cura para o problema mental do seu amigo...
Raina mal havia concluído a frase quando sentiu seu rosto esquentar bruscamente.
Um soco.
Três.
Seu rosto já estava inchado.
Simmons não estava brincando. Além disso, era um ótimo exercício de treinamento para a manhã. Raina estava no chão, cobrindo o rosto, sangue saindo pelo seu nariz, mas ela não perdia a compostura.
– Pense a respeito, agente Simmons. Preciso encontrar pessoas com a sua visão.
Ela não se deu ao trabalho de começar uma nova agressão. Enrolou os punhos com uma toalha fina e assistiu Raina se afastando do prédio. Sem dúvidas que aquela mulher ficava mais louca a cada vez que a encontrava.
– Conseguiu rebocá-la? – O Sênior a chamava pelo comunicador.
– Sim, senhor. Ela resistiu, mas eu já cuidei disso.
– Muito bem, Simmons. Pode voltar para os seus aposentos. Em algumas horas enfrentaremos a S.H.I.E.L.D. – ele deu uma pausa, esperando confronta-la novamente. – De que lado você está?
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