A Rebelião dos Lobos
1 Irlanda
Notas iniciais
Aproveitamos o final da tarde para fazer uma breve parada para descansar e comer parte de nosso estoque de comida que ganhamos dos marinheiros que nos deixaram no Porto ao nascer do sol. Logo que chegamos à Irlanda, nos juntamos aos marinheiros e nos misturamos na multidão em busca de um mapa e suprimentos para uma viagem que não sabíamos quanto tempo iria demorar.
Um grupo estranhos nós erámos.
Theo e Adam tentavam agir o mais normal possível levando em consideração que tinham os óbvios modos dos Caçadores de Londres. Morgan e Liev andavam lado a lado na rua movimentada do Porto conversando baixinho fingindo ser apenas irmãos felizes por estarem viajando com a família. Eu mesma também estava disfarçada com um longo vestido azul escuro com capuz de mesma cor que um dia pertencera à esposa de um dos marinheiros do Estrela da Manhã que gentilmente me dera de presente para que eu o usasse, provavelmente já imaginando que meu rosto estaria exposto em cada canto do Reino Unido em um cartaz de Procurada por ser uma desertora agora.
Eu não sabia como poderia simplesmente aceitar um vestido de aparência tão elegante sem dar nada em troca. Marinheiros já não deviam ter muito para gastar, e imagino que o baú de onde o homem tirou o vestido era para vender pelo preço mais alto que conseguissem junto com todas as outras roupas bonitas guardadas de forma tão cuidadosa no convés junto aos pertences de todos que trabalhavam naquele barco. Não podia simplesmente deixá-lo perder um pouco de dinheiro necessário, então o entreguei duas moedas de ouro inglesas e saí da sala com o vestido em meus braços antes que o homem começasse a discutir.
Não demorou muito para vesti-lo com ajuda de Liev agora de cabelos levemente escurecidos com uma tinta usada para colorir os cabelos apenas por algumas horas durante eventos temáticos. Nós não tínhamos muito tempo, então juntamos nossas coisas e partimos até a cidade fingindo que erámos uma simples família do sul da Inglaterra de férias na Irlanda.
Segundo nosso acordo, eu e Theo erámos casados e andávamos juntos na rua enquanto Adam lia o mapa que compramos em uma pequena banca do Porto ao meu lado, de forma que eu ficasse entre os dois e Liev e Morgan caminhavam alguns passos na nossa frente como se fossem nossos sobrinhos ou irmãos. Como a única lobisomem qualificada para rastrear, eu estava encarregada de tentar encontrar qualquer rastro dos outros submundanos que teriam fugido para cá nas últimas semanas. Morgan ficara sabendo da chance de que sua família também estivesse na ilha a procura da Cidade da Aurora e logo me deu o colar de rubi que pertencera à sua mãe para que eu tentasse rastreá-la pelo cheiro, embora eu achasse pouco provável conseguir sentir qualquer cheiro daquela alcateia tanto tempo depois em uma cidade tão poluída e movimentada em Cork, ao sul da Irlanda. Mesmo assim, eu aceitei o belo colar por educação e por achar que eu o cuidaria melhor do que um garoto de 13 anos.
Tentando nos manter fiéis às descrições das aparições da Cidade paradisíaca das lendas, caminhamos em direção ao leste até as estradas de terra onde começavam os carvalhos e pinheiros cobertos de neve do inverno gelado do hemisfério norte no ponto mais próximo de onde tínhamos atracado essa manhã.
Foi só ao chegarmos ao limite da floresta e nos certificarmos de que o silêncio só significava que não havia mais nenhuma habitação por perto que finalmente relaxamos do medo não manifestado de que alguém nos reconheceria. Fazia cerca de duas horas que caminhávamos sem parar até Liev reclamar de cansaço e fome e eu me lembrar que ela era a única de nós que não se beneficiava de treinamento militar ou resistência sobrehumana típicas dos submundanos como lobos e vampiros, então pedi que parássemos no primeiro lugar sem ameaças que eu encontrasse para comermos nosso café da manhã e descansarmos por alguns minutos. Suponho que eu não sentia fome porque a lua cheia não estava assim tão próxima e meu lado animal se mantinha quieto na parte mais profunda da minha mente, me dando mais forças para continuar em movimento por mais tempo do que um simples humano, mas ainda controlável, mas mesmo assim aceito o pacote de biscoitos e o cantil de água que Adam me oferece assim que encontramos um tronco caído e algumas pedras grandes o suficiente para servirem de assento improvisado em uma pequena clareira cercada por pinheiros que mantinham o ar frio do inverno quase inexistente, o que era bom para os três humanos que me acompanhavam.
Por estarmos no meio da tarde, concluímos que uma fogueira não chamaria tanta atenção assim e os deixei se aquecer ao redor do fogo enquanto me sentava um pouco afastada para garantir total atenção longe das vozes que sempre eram mais altas para mim enquanto eu olhava o mapa da Irlanda com suas cidades e estradas marcadas no meio dos longos espaços verdes de floresta a procura de qualquer indicação de um lugar ao leste que se mantinha sem registros que pudesse significar ser o exato lugar onde os portais interdimensionais da Cidade da Aurora se abrissem ao alvorecer, mas era difícil achar um único ponto em um mar de florestas temperadas que cobria boa parte do território não habitado da ilha que formava a Irlanda.
—Procurando um lugar para pensar?-perguntara Theo ao se juntar a mim sentando ao meu lado no chão congelado da floresta. Ele ignora meu olhar focado no mapa e o puxa para mais próximo dele, me obrigando a olhá-lo.
—Você é humano, deveria estar lá se esquentando. Não teremos esse benefício quando escurecer.-o alertei tirando o mapa de suas mãos e me arrumando melhor no gelo de forma que eu pudesse deixar o mapa no meu colo.
—Não me importo com a fogueira e com o assunto em que aqueles três estão tão interessados.- Theo me dissera tentando me fazer prestar atenção nele e não no mapa que eu já não deixava ele tocar.
—Que assunto nada interessante eles estão tendo que o grande Inquisidor Theo recusa para atrapalhar uma loba tentando achar uma chance mínima em um país inteiro?-eu o interroguei tentando esconder um leve sorriso esperando que ele entrasse na brincadeira também.
—Coisas de mortais.-ele me explicou com uma risada.-Vai por mim, não é nada que submundanos vão se interessar.
—Eu sou loba, mas ainda sou mortal.-eu o lembrei.-Licantropia me dá sentidos aguçados e a possibilidade de me transformar em um lobo imenso, mas eu ainda envelheço e posso ser morta.
—Envelhece de forma mais lenta.-ele retrucou.
—De fato.-eu respondi sorrindo.-As lições da Inquisição são mais completas do que eu esperava, então.
—O que quer dizer com "mais completas do que você esperava"?-Theo me perguntou franzindo as sobrancelhas. O ato deixou uma pequena linha de pele a mais como uma leve ruga entre seus olhos castanhos. E eu não pude parar de reparar que isso era até adorável.
—Pensei que vocês paravam de estudar teoria quando se juntavam à Inquisição, pensei que a Rainha Vitória não quisesse os sabichões que Romckpay exige.-eu respondi em tom de brincadeira, mas mesmo assim sendo sincera.-Vocês não tem como estudar e serem tão fortes assim ao mesmo tempo.
—Falou a garota que conseguiu esconder sua verdadeira forma da própria Caçada por anos.-ele respondeu depois de gargalhar tão alto que eu acho que até os pássaros de Dublín devem ter escutado.
Achei que ele iria continuar a falar, mas um assobio alto de Adam interrompe qualquer linha de raciocínio que ele devia estar tomando.
—O que vocês dois tanto conversam?-Adam grita já se levantando do tronco seco em que se sentava junto com Morgan e Liev.-Estamos aqui há quase meia-hora, todos já comeram, temos que ir.
—É pra já, Capitão Roberts!-grito de volta fazendo o cumprimento da marinha aos seus superiores.
Enquanto os três se levantam e se limpam da neve e das migalhas do café da manhã há pouco terminado, Theo se aproxima de mim e me beija apenas por alguns segundos e fala apenas para que eu ouça enquanto ninguém nos olha:
—Se quer saber, os Inquisidores tem tempo para fazer de tudo nas curtas 24 horas do dia.
Ele pisca dando um meio sorriso e me ajuda a levantar antes de seguir os três apressados que já seguiam a trilha semi coberta de neve que estipulamos ser a certa para seguir até o extremo leste da ilha.
Devido ao fato de termos recém comido, reduzimos a velocidade da caminhada e nos permitimos um momento de distração com conversas que cortavam o silêncio da floresta junto aos baixos e longínquos sons dos animais que viviam nas áreas mais escuras da floresta, onde nossa visão não os alcançava.
E, assim, eu e minha pequena tropa fiel continuamos nossa missão de encontrar uma lenda em busca de aliados e respostas que pudessem nos ser úteis em um futuro não tão distante assim.
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