A Realidade Das Coisas
1 A primeira vez que abri os olhos
Notas iniciais
Ele corria, corria o máximo que podia naquela imensidão. Ele corria no meio do nada.
Não faz ideia de como ou quando foi parar ali. Mas quando se deu conta, já estava correndo. Ele não conseguia enxergar nada além de uma imensidão negra mas, podia, sentir paredes invisiveis o fechando caso decidisse seguir um caminho diferente da sua rota inicial. Aquilo era um corredor. Não sabia onde estava, mas era um corredor. Podia ver uma leve luz longe, como se houvesse uma passagem ou porta aberta, mas ela parecia nunca se aproximar.Ele ouvia também batidas constantes na sua cabeça, como as batidas de um coração. No começo aquilo quase o deixou louco, mas agora havia se acostumado. E foi justamente ao se acostumar que ele se deu conta: Não se lembrava do seu nome. Não se lembrava de quem era. Mas, graças ao instinto que faz parte do homem, ele queria sobreviver. Ele queria seguir em frente. A luz estava se aproximando mais rápido do que ele imaginara. Atravessou uma porta invisivel e o que veio a seguir o decepcionou: havia apenas escuridão do outro lado. Seus olhos haviam lhe enganado, assim como varias outras coisas já o fizeram.
Na verdade, ele se perguntou se realmente estava vendo algo, se aquilo era real e não apenas um sonho.Independente da sua conclusão, ele logo teve de parar de pensar sobre aquilo. Olhou para o alto e viu uma corda presa a um teto invisivel. Essa corda amarrava uma mulher de cabeça para baixo. Ela tinha cabelos negros e seus olhos revelavam que ela era ou tinha alguma descendência asiática. Possuia também uma marca de nascença que carregava sobre o rosto, abaixo do olho direito. Ele não sabia quem era, mas algo dizia que ela é, ou ao menos já fora, importante para ele. Ele saltou mas logo se deu conta de que não conseguia alcançá-la. Tentou gritar algo, mas percebera que não tinha voz. Sentiu o chão invisivel tremer e se colocou de joelhos sobre ele, mantendo uma das mãos sobre o chão para lhe ajudar com o equilíbrio. Diante da imensidão negra, a mulher presa sobre a corda parecia apenas um pequeno inseto voando pelo céu, e o que apareceu a seguir apenas fez com que ela parecesse ainda mais insignificante.
Uma criatura branca e gigante aparecia, diferente de qualquer coisa que outra pessoa já tivesse visto. a criatura era tão grande que a cabeça alcançava a altura da corda sem esforço. Era também uma criatura gorda e sua pele possuía um aspecto gelatinoso. O pescoço da criatura foi se esticando de uma forma grotesca, e ela devorou por completo a parte superior do corpo da garotaque não teve tempo de gritar. Sangue e o que restara de alguns órgãos caiam sobre o solo invisivel.
- Amatas, você falhou. — Disse uma voz grave, imponente. Falou como se a passagem da boca estivesse parcialmente obstruída, era a voz da criatura. Então, seu nome era Amatas? não se lembrava desse nome, mas agora ao menos sabia o que ele era. Tentou falar mais uma vez e não teve sucesso.
- Pobre imortal em sua prisão de carne — O monstro começava a virar seu gigantesco corpo na direção dele, de Amatas. O monstro não se preocupou em terminar a sua refeição, demonstrando um certo sadismo em exibir o corpo parcialmente devorado. A criatura continuou:
- O quê um faz quando um não acredita em si mesmo? Rejeita-o. O que há a se fazer? O que um faz quando um acaba por interromper a vida alheia? Essa é uma resposta que você conhece. — E Amatas ficou confusou. Sentiu uma forte dor na cabeça e levou as duas mãos até elas, agonizando em silêncio.De repente Amatas reviveu uma cena de seu esquecido passado. ele estava deitado sobre um tipo de cama que era carregada por um homem de branco junto de algumas mulheres. Eles falavam algumas coisas mas ele não conseguia compreender, não conseguia se concentrar. E enquanto estava deitado toda sua concentração ia para que ele repetisse sempre a mesma frase:
- Não fui eu... — E repetiu isso uma, duas, três vezes. Aquela frase era a unica coisa que ele compreendia. E foi gritando essa mesma frase, agora, que Amatasconseguiu se soltar do passado para voltar ao presente:
- Não fui eu ! — Amatas gritou com um certo tom de desespero ao tirar as mãos da cabeça e olhar para a criatura. O monstro retrucou:
- O que um faz quando um acaba por interromper a vida alheia? Separa-se. Assim como você, Amatas. Rídiculo monte de carne. Carne tão frágil. Carne tão saborosa.
- Quem é você? — E Amatas recuperava sua voz aos poucos.
- Erabem é o meu nome — A criatura falava de um jeito lento, arrastando as palavras — E principe da gula é o que eu sou. — A mão de Erabem se esticou rapidamentee segurou Amatas com a sua mão, apertando com certa violência e levando-o para perto do seu rosto. Amatas podia sentir o bafo pútrido da criatura. Sentir o cheiro de restos humanos já em decomposição.
- E você, Amatas, quem você é? O que você é?
- Aquela... Mulher. Quem ela é?
- Minhas perguntas serão respondidas. — E Erabem apertou um pouco mais Amatas.
- Eu não sei... — Amatas lhe respondeu com dificuldade.
- Você não é ninguém. Você não é nada. Sua insignificância vai fazer com que você sofra eternamente. Lembre-se da sua insignificância. — E Erabem abriu a mão, fazendo com que Amatas caísse. O Chão invisivel não estava mais lá e logo ele se via caindo no meio do nada enquanto a imagem de Erabem ia desaparecendo.
Amatas sentia que ia morrer, e acabou por fechar os olhos.
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