A Reacionária

17 QUANDO A TERRA CEDE



Estrada Militar a Leste de Wittenberg — 7 de maio de 1945.

O cheiro de óleo queimado e chuva ácida subia do motor superaquecido do caminhão pesado Opel Blitz. Na caçamba fechada por uma lona grossa e impermeável, a escuridão era quase total, cortada apenas pelos filetes de luz cinzenta que entravam pelos furos de bala e pelas frestas das tábuas de madeira. O ar era rarefeito, impregnado com o suor azedo de doze prisioneiros amontoados e o ferro seco do sangue que escorrera dos pulsos feridos de Stefan.

O garoto de doze anos mantinha os joelhos colados ao queixo, sentado sobre a carcaça de uma roda sobressalente. As algemas de aço pesado prendiam-lhe os braços para a frente, o metal congelando-lhe a pele. Ele não tremia pelo frio. O choque da execução dos pais ainda anestesiava seu sistema nervoso, transformando a dor física em uma névoa distante.

Em sua mente, o eco dos quatro disparos no quintal de casa continuava soando em marcha contínua. Ele fechava os olhos e via as botas do coronel von Raden; via a manga da camisa de sua mãe manchada com a ponta da agulha de osso; via a promessa muda que deixara cravada nas tábuas do assoalho onde Lena estava escondida.

O comboio reduziu a marcha ao entrar em uma curva fechada cercada por pinheiros densos e ravinas de cascalho úmido. Na cabine dianteira, os dois soldados da Gestapo fumavam e praguejavam contra o barro que travava o eixo traseiro.

A explosão foi súbita, violenta e ensurdecedora.

Uma mina improvisada, enterrada sob a lama da rodovia, detonou sob a roda dianteira esquerda da viatura de escolta que abria caminho cinquenta metros à frente. O impacto ergueu o veículo leve no ar em uma bola de chamas alaranjadas e estilhaços de lataria que voaram contra a copa dos pinheiros.

Antes que o motorista do caminhão dos prisioneiros pudesse engatar a ré, uma saraivada ríspida de disparos automáticos cortou o arvoredo. Projéteis de grosso calibre perfuraram os pneus dianteiros do caminhão com silvos estridentes de borracha rasgada, fazendo a pesada estrutura derrapar descontrolada e tombar sobre o flanco direito na vala de drenagem da estrada.

Na caçamba, os cativos foram lançados uns contra os outros em um emaranhado de gritos e ossos estalando. Stefan bateu a têmpora contra uma das travessas de ferro, sentindo o gosto metálico de sangue na boca, mas manteve os olhos abertos.

Do lado de fora, a fuzilaria era metódica, fria e implacável. Os dois guardas da cabine mal conseguiram empurrar as portas antes de serem crivados por rajadas curtas disparadas a curta distância. O som característico de submetralhadoras MP-40 em disparos cadenciados não indicava rebeldes desorganizados ou guerrilheiros; era a cadência de choque de uma unidade militar de elite.

A lona traseira foi arrancada com um puxão violento. Três homens entraram na caçamba sob a fumaça de pólvora. Todos trajavam os sobretudos compridos de couro negro e as balaclavas escondiam seus rostos.

O homem que liderava o resgate ergueu a lanterna tática, varrendo os rostos ensanguentados dos prisioneiros até fixar o feixe brilhante diretamente nas feições de Stefan. Ele consultou uma pequena caderneta com uma fotografia escolar anexada, guardou-a no bolso e apontou para o garoto:

— Este aqui. O filho do Capitão Goldstein.

Um dos outros dois homens sacou um alicate corta-frio pesado e quebrou o elo central das algemas de Stefan com um estalo metálico.

— O que... quem são vocês? — o menino balbuciou, a voz rouca, tentando se apoiar nas tábuas quebradas da caçamba. — Para onde estão me levando?

O que parecia comandar aquela tropa agarrou Stefan pelo colarinho do suéter rasgado, arrancando-o da caçamba com uma força que não admitia réplica, jogando-o nos braços do soldado na estrada:

— O seu nome civil foi apagado nos registros de Wittenberg, garoto. A partir deste segundo, para o comando de Berlim e para o mundo, você morreu na explosão desta rodovia. A nossa ordem precisa de novos sangues para nossa causa. Ande, se quiser continuar respirando.

Stefan foi empurrado para o banco traseiro de um sedã preto camuflado que aguardava na trilha dos bosques. Enquanto o veículo acelerava no sentido sul, deixando para trás o caminhão em chamas e os corpos abandonados no asfalto, o garoto olhou pelo vidro traseiro para as colinas de Wittenberg que sumiam na fumaça. Ele estava vivo, mas fora tragado por outra engrenagem do mesmo monstro.

Residência da Família Goldstein, Wittenberg — Quarenta minutos após a partida do comboio.

O silêncio na propriedade dos Goldstein fora quebrado pelo grasnar dos corvos que sobrevoavam o pátio de serviço dos fundos, atraídos pelas poças escuras que a garoa fria espalhava entre os paralelepípedos.

A porta arrombada da sala de visitas continuava aberta, batendo suavemente ao sabor do vento da tarde.

Debaixo do assoalho da despensa, Lena Goldstein tremia incontrolavelmente. Suas pernas estavam dormentes, os olhos ardiam pelas lágrimas secas e o cheiro de cal úmida parecia sufocá-la. Ela ouvira o silêncio desabar após os tiros; ouvira o caminhão partir com o irmão; mas a ordem de Stefan permanecia gravada a fogo em seus ouvidos infantis: não saia até ouvir as três batidas da colher de prata.

As horas passaram, mas as três batidas nunca vieram.

A fome e a sede finalmente romperam a barreira do pavor. Com dedos miúdos e ensanguentados pelo atrito com a madeira, a menina de seis anos empurrou a saca de batatas vazia, ergueu o alçapão e rastejou para fora do buraco como um animal ferido.

A sala estava deserta. Os papéis do seu pai estavam espalhados pelo chão; a xícara de sua mãe repousava partida ao lado do aparador.

Instintivamente, atraída pela claridade cinzenta que vinha dos fundos, Lena caminhou pelo corredor estreito da cozinha e cruzou a porta de serviço que dava para o pátio.

Ao pisar na lama do jardim, ela parou.

Os corpos de Wilhelm e Mia Goldstein já haviam sido recolhidos pelo serviço funerário municipal em sacos de lona crua, empilhados na caçamba de uma carroça de madeira que aguardava junto ao portão dos fundos. Mas dois homens ainda permaneciam de pé no centro do pátio, ao lado de um automóvel luxuoso Mercedes-Benz preto com placas particulares da Baixa Áustria.

Um deles era o oficial da intendência do distrito, segurando uma prancheta com o inventário dos bens confiscados da residência. O outro homem destoava por completo da rudeza militar daquele cenário.

Era um cavalheiro de cerca de cinquenta anos, com postura aristocrática impecável, cabelos grisalhos penteados para trás com pomada brilhante e traços refinados que denotavam linhagem nobre e riqueza secular. Vestia um sobretudo de casimira das indústrias mais famosas da Europa naquele momento, forrado com pele de marta, luvas de pelica costuradas à mão e segurava uma bengala de jacarandá com castão de ouro puro.

Era Andreas Weber, o magnata do império têxtil que vestia toda as fardas da Europa central.

Ao ouvir o som dos passos desajeitados da criança contra o cascalho molhado, Weber virou-se devagar. Seus olhos castanhos, gélidos e desprovidos de qualquer traço de empatia, desceram sobre a menina suja de fuligem, os pés descalços e os olhos azuis arregalados em choque.

— Ora, ora... — Weber murmurou em um tom suave, arrastado, quase musical, dando dois passos lentos. — O inventário do tribunal declarou que a prole feminina havia sucumbido a uma doença. Parece que os seus funcionários em Wittenberg são tão incompetentes na contagem de cabeças quanto na gestão das linhas de montagem, capitão.

O oficial da intendência empalideceu, sacando a pistola de serviço com uma pressa desajeitada:

— Um erro crasso no relatório dos guardas, Herr Weber! Eu mesmo cuido da eliminação do elemento neste instante...

— Guarde essa arma ruidosa, imbecil — Weber cortou com um gesto desdenhoso da luva de pelica. — Não seja tão primitivo. Olhe para a estrutura da garota. As feições são limpas, os ossos são direitos e a idade é perfeita para o adestramento nas minhas fazendas particulares.

Weber aproximou-se de Lena. Apoiou a ponta da bengala de ouro no queixo sujo da menina, erguendo o rosto dela para a claridade da tarde, examinando seus traços com a indiferença de quem avalia uma peça de porcelana em um leilão de espólios.

Lena tentou recuar, mas a imponência do homem e o cheiro doce de tabaco e lavanda que emanava de suas roupas a paralisaram.

— Ela é a filha do traidor Goldstein, senhor — o oficial ponderou, hesitante. — O tribunal determinou a extinção do patrimônio familiar.

Weber retirou do bolso interno do sobretudo um maço espesso de notas de cem marcos imperiais com o carimbo do Reichsbank, envolto por uma cinta de papel timbrado da sua própria corporação industrial. Ele jogou o maço com desprezo no peito do oficial, que o apanhou no ar com olhos cobiçosos.

— Este imóvel ainda pertence ao estado, mas como sabe, sou um dos interessados em comprar a propriedade — Weber comentou, virando as costas e caminhando de volta para a porta aberta do Mercedes. — A garota vai comigo como parte do inventário. Coloque-a no banco dianteiro ao lado do meu motorista. E certifique-se de que a certidão de óbito por febre tifóide permaneça intocada nos arquivos centrais. A partir de hoje, a menina Goldstein deixou formalmente de existir.

Lena foi agarrada pelo braço e arrastada para dentro do veículo blindado. Quando o motor potente roncou e o carro deslizou pelas ruas desertas de Wittenberg, a menina olhou pelo vidro fumê uma última vez para a casa cinzenta onde seus pais haviam tombado. O destino dos irmãos Goldstein fora selado no mesmo dia, sob a mesma garoa: Stefan fora tragado pelos labirintos da resistência secreta, e Lena fora comprada como gado para o império de Andreas Weber.

Apartamento dos Müller, Centro de Viena — 1963. Presente.

O som do couro sendo esticado ao limite rompeu o silêncio tenso da sala de visitas.

Thomas Müller empurrou a porta do apartamento 503 com um movimento brusco, entrando com a respiração arfante e o casaco de lã cinza úmido pela névoa da rua. Ele acabara de cruzar o centro da cidade após o embate devastador com o velho Schulz em Grinzing, onde a prisão de Erich acendera o pavio da contagem regressiva para a queda de toda a rede.

Ao cruzar o pequeno corredor que dava para a sala, Thomas estancou.

No centro do tapete geométrico, duas malas de couro marrom — as mesmas que Jennifer trouxera de Hay-on-Wye no dia do casamento — estavam fechadas, com as fivelas de latão apertadas e as alças alinhadas para transporte. Sobre o aparador de mogno, repousava a aliança de ouro de Jennifer, colocada com precisão cirúrgica exatamente em cima da chave reserva da fechadura principal.

Jennifer estava de pé junto à janela aberta, vestindo seu casaco de viagem azul-escuro, as luvas de lã preta já calçadas, os olhos fixos na linha dos telhados molhados de Viena.

— Jennifer... — Thomas balbuciou, dando dois passos cautelosos à frente, como quem se aproxima de um explosivo com o detonador armado. — O que significa isso?

A mulher virou-se devagar. Não havia lágrimas em seu rosto; a dor e o medo dos últimos dias haviam sido substituídos por uma lucidez glacial, polida e implacável.

— Significa que o espetáculo acabou, Thomas — ela respondeu, a voz num tom plano, cristalino e assustadoramente calmo. — O táxi para a estação oeste já foi chamado. Ele estará no meio-fio em cinco minutos.

— Ficou louca?! — Thomas avançou, estendendo as mãos para segurar os ombros da esposa, mas ela recuou um passo com uma rapidez que o desarmou. — O Erich foi capturado pela Gestapo! As viaturas estão montando barreiras em todos os distritos periféricos! As ruas estão sob vigilância máxima! Se você for para a estação ferroviária com essas malas agora, os agentes do Fischer vão pará-la na triagem de passageiros!

— Eles não têm o menor interesse em mim, Thomas — Jennifer rebateu com um sorriso amargo, apontando para a própria mala. — Eu sou apenas Jennifer Roberts, filha de Morgan Roberts. Uma dona de casa medíocre, filha de um comerciante de tecidos aposentado de Hay-on-Wye, cujos registros civis são impecáveis e sem a menor mancha política. A Gestapo está caçando os heróis da resistência. Está caçando a garota que você escondeu sob este teto. Está caçando você.

— Eu fiz o que era necessário para cumprir uma dívida de honra, Jennifer! — Thomas ergueu o tom de voz, o desespero rompendo a armadura de investigador. — Você sabia desde o início que a minha vida profissional exigia sacrifícios que eu não podia detalhar!

— Uma dívida de honra?! — ela deu um passo à frente, os olhos faiscando com um desprezo contido há anos. — Você nunca teve uma vida comigo, Thomas! Você teve um disfarce! Eu passei seis anos deste casamento tentando decifrar o que havia por trás desse seu olhar vazio, dessa sua frieza impecável que nunca se abalava com nada! Eu achei que você era apenas um homem traumatizado pela guerra... Mas a verdade é muito mais sórdida: você nunca esteve nesta sala. Você nunca me amou. Eu fui apenas o álibi perfeito para que o respeitável Investigador Müller mantivesse a fachada de homem de família enquanto jogava xadrez com os fantasmas do passado!

— Isso não é verdade! — Thomas segurou a alça de uma das malas, tentando impedi-la de se mover. — Eu construí este lar para proteger você! Cada mentira que contei, cada noite em claro foi para garantir que a sujeira deste regime não tocasse a sua vida!

— Pois a sua sujeira acabou de inundar a minha sala! — Jennifer desferiu um tapa seco na mão dele, fazendo-o soltar a alça da mala. — O seu 'amigo' investigador esteve aqui dentro revirando os meus armários de roupa íntima com canos de metralhadora! O Erich está sendo triturado na Morzinplatz neste exato instante! E você ainda tem a audácia de fingir que está no controle de alguma coisa?!

Uma buzina dupla soou na rua lá embaixo, ecoando através do poço do saguão. O táxi chegara.

Jennifer pegou as duas malas com as mãos enluvadas. Sua postura era reta, rígida como ferro forjado. Ela caminhou até a porta aberta, parando a centímetros de Thomas, fitando-o com uma tristeza definitiva:

— Eu espero sinceramente que a sua dívida de honra valha o preço das cinzas que você vai encontrar quando esta guerra acabar, Thomas. Porque aqui... você não tem mais nada para salvar.

— Jennifer, por favor... — Thomas deu um passo, a voz falhando num sussurro quebrado. — Não me deixe sozinho nisso...

Ela não respondeu. Puxou as malas para o corredor escuro, virou as costas e desceu a escadaria a passos firmes.

A pesada porta de carvalho do apartamento 503 bateu com um estrondo monumental, sacudindo as molduras dos quadros e fazendo a aliança de ouro sobre o aparador de mogno vibrar com um tinido metálico e fúnebre.

Thomas permaneceu imóvel no centro da sala vazia, ouvindo o som do motor do táxi acelerar na calçada até desaparecer no murmúrio do tráfego da capital.

Distrito Central de Viena — Pouco depois.

A caminhonete velha de repolhos freou bruscamente junto ao meio-fio da esquina entre a Rua Herrengasse e a Praça Minoritenplatz, a três quarteirões dos edifícios governamentais da intendência.

Heinrike Weber abriu a porta enferrujada da cabine com um empurrão do ombro, descendo para a calçada úmida com as pernas dormentes e a respiração curta. Ela virou-se para a janela do motorista, onde o velho camponês a encarava com seus olhos desconfiados:

— Vá direto para a chefatura de polícia, dona — o homem resmungou, cuspindo o fumo de corda na sarjeta. — O centro está cheio de patrulhas armadas. Se alguém me vir com essa carga parada aqui, apreendem o meu veículo.

Heinrike ajeitou as dobras do casaco rasgado, puxando os cabelos desgrenhados para trás da orelha com a ponta dos dedos sujos de barro:

— Eu agradeço pela condução, senhor. Quando eu reaver a administração dos meus bens na comissão de herança, o seu nome constará na lista de indenizações da família Weber.

O velho soltou uma risada rouca e engatou a primeira marcha, soltando uma nuvem de fumaça cinzenta pelo escapamento:

— Prefiro que os santos me guardem da generosidade dos grandes, mulher. Passe bem.

O veículo arrancou, deixando Heinrike sozinha na calçada larga de paralelepípedos.

A mulher deu três passos em direção à avenida e percebeu a estranheza do ambiente. Operários de capas de borracha, secretárias com pastas de couro e lojistas varrendo a entrada dos comércios passavam por ela. A viúva de Andreas Weber, outrora a mulher mais elegante dos salões de ópera de Viena, parecia um espectro saído de um bombardeio clandestino: o vestido manchado de graxa e terra, o rosto cavado pelo cansaço, os sapatos partidos na sola.

Contudo, Heinrike não conseguiu esconder quem era por completo. Puxou a coluna para a vertical, ergueu o queixo pontudo com uma altivez desafiadora e marchou pelo passeio público como se desfilasse sobre o mármore polido de seu próprio palacete.

Foi essa contradição — o contraste gritante entre as roupas miseráveis e a postura aristocrática — que chamou a atenção de um policial civil postado na esquina da livraria.

O guarda, com as mãos cruzadas sobre o cinto de couro e o quepe levemente inclinado, franziu o cenho ao ver aquela mulher maltrapilha caminhar como uma nobre. Ele estreitou os olhos, a dúvida estampada na face. Levou a mão devagar ao coldre da baioneta, hesitante, tentando associar aquele rosto às fotos borradas dos boletins de busca recebidos na troca de turno.

Heinrike sentiu o peso do olhar fixo.

Seu coração deu um salto violento no peito. O pavor gelou suas têmporas. Ela tentou desacelerar os passos, desviando os olhos para a vitrine de uma alfaiataria do outro lado da rua, mas percebeu que o policial dera dois passos lentos na sua direção, sem tirar os olhos dela, desconfiado. As pernas de Heinrike ameaçaram fraquejar. A perspectiva de ser presa por ter matado o marido e pela fuga dos camponeses pareceu uma sentença iminente.

Antes que o guarda pudesse interpelá-la ou pedir seus documentos, a porta lateral de um imóvel comercial — uma antiga livraria com tábuas cobrindo parte da fachada — abriu-se suavemente.

Um homem vestindo sobretudo cinza de bom corte deu um passo para fora. Numa manobra fluida e perfeitamente natural, Franz Krüger envolveu os ombros de Heinrike com o braço direito, puxando-a para junto do seu peito com firmeza, como um marido carinhoso que acolhe a esposa no meio da calçada.

— Ah, querida, finalmente você chegou! Estava ficando preocupado com a sua demora — Franz disse em tom audível, a voz calma, inclinando o rosto para beijar o topo da cabeça desgrenhada de Heinrike, usando o próprio corpo para ocultar as manchas mais visíveis do vestido dela.

Heinrike paralisou, mas Franz apertou-lhe o ombro com um toque rígido, um sinal mudo e imperioso para que ela não reagisse.

O policial congelou a poucos metros de distância. Viu o homem bem-vestido abraçar a mulher com familiaridade, ouviu a conversa doméstica e relaxou a postura. A desconfiança dissolveu-se na banalidade da cena; ele balançou a cabeça, desfazendo a tensão no rosto, convencido de que se tratava apenas de um casal excêntrico ou de alguma discussão que não lhe dizia respeito. O guarda deu meia-volta e seguiu seu patrulhamento pela praça.

Franz manteve o abraço protetor por mais dois segundos, conduzindo Heinrike para o portal escuro da livraria com passos calmos. Assim que cruzaram o limiar, ele a empurrou suavemente para dentro e bateu a porta de carvalho, correndo a tranca de ferro com um estalo seco.

O silêncio empoeirado do imóvel os envolveu.

Heinrike recuou dois passos, encostando as costas contra uma estante de livros vazia, a respiração entrecortada e as mãos trêmulas pela descarga de adrenalina.

Franz virou-se para ela, ajustando a gola do sobretudo. Ele espiou rapidamente por uma fresta no compensado da vitrine para garantir que o guarda continuava se afastando, destravou a pistola Walther P38 que mantivera oculta no coldre sob o paletó e guardou-a com um movimento prático.

Ele cruzou os braços, encarando a viúva com um olhar misto de exaustão e profunda ironia:

— A senhora tem um talento impressionante para escolher as piores rotas de caminhada de Viena, senhora Weber. Se anda por aí encarando a polícia com esse queixo erguido enquanto veste trapos, o Bauer teria economizado trabalho mantendo a tranca daquela cela reforçada.

Quartel-General da Gestapo, Morzinplatz — Sala de Comando do 2º Andar.

O ar da sala de reuniões estava saturado pela fumaça densa dos charutos holandeses do Major Hormählen.

Sobre a imensa mesa de mogno escuro, mapas táticos dos arredores de Viena estavam abertos sob pesos de latão, cercados por relatórios de patrulha e cinzeiros transbordando bitucas esmagadas. O Major mantinha-se de pé junto à janela, as mãos cruzadas nas costas da túnica, observando o pátio interno onde viaturas blindadas eram abastecidas para as buscas da tarde.

Dieter Schneider permanecia sentado na cabeceira da mesa. O sobretudo cinza-chumbo repousava dobrado no encosto da cadeira; ele segurava uma xícara de porcelana com café preto, mantendo os olhos fixos na pasta de couro que continha o inquérito sumário de Erich Schulz.

A porta de duas folhas abriu-se com uma batida seca.

O Capitão Fischer entrou na sala, batendo os calcanhares numa saudação enérgica, o rosto rígido sob o quepe condecorado:

— Apresentando-se, senhores. A primeira rodada de inquirição preliminar na carceragem subterrânea foi concluída pelos oficiais de plantão. O soldado Schulz mantém a versão absurda de que perdeu o distintivo na ravina durante a retirada sob fogo de morteiro.

Hormählen virou-se da janela com um brilho de ferocidade nos olhos, batendo com a mão aberta sobre a mesa:

— É óbvio que ele vai manter essa mentira enquanto tiver todos os dentes na boca! Ordene que o destacamento de choque desça para a cela 4 imediatamente! Duas horas no cavalete com eletrodos nas têmporas e nós teremos os nomes dos colaboradores dessa rede clandestina, a rota de fuga da viúva e o paradeiro dos sabotadores!

— Não haverá cavalete, Major — a voz de Dieter soou baixa, tranquila e cortante como um bisturi cirúrgico.

Fischer e Hormählen paralisaram, encarando o homem de Berlim como se ele tivesse acabado de blasfemar contra o Estado-Maior.

— Como disse, Schneider?! — Hormählen deu dois passos largos na direção da mesa, as veias do pescoço inflando sob o colarinho. — O rapaz é a única testemunha material que temos nas mãos! Ele esteve dentro da fazenda e sumiu! O distintivo dele foi colhido por você na lama daquele cativeiro!

— E ele apresentou uma justificativa aparentemente tática perfeitamente coerente com a doutrina de infantaria — Dieter respondeu, pousando a xícara sobre o pires sem produzir o menor ruído. — O terreno estava sob bombardeio de saturação. A perda de equipamentos individuais durante recuos desordenados é uma ocorrência corriqueira documentada em centenas de diários de campanha. Se nós o submetermos à tortura física sem evidências diretas, o tribunal militar do regimento anulará o processo por quebra de competência, e o pai dele, que possui conexões sólidas com veteranos da velha marinha imperial, moverá recursos que exporão as fragilidades deste inquérito perante a Chancelaria.

Dieter pegou a caneta de tinta-tinteiro de prata e assinou o termo de soltura provisória na última folha do processo:

— Mande soltar o soldado Erich Schulz imediatamente, Capitão Fischer.

Fischer empalideceu, o queixo tremendo de indignação militar:

— O senhor está ordenando a libertação de um traidor sob suspeita formal de conspiração contra a segurança da província?! Isso é uma afronta direta à disciplina da infantaria, Herr Investigador!

Dieter levantou os olhos azuis devagar. Não havia raiva em suas feições; apenas uma autoridade tão absoluta e predatória que fez o capitão recuar meio passo involuntariamente:

— Eu não estou sugerindo, capitão. Estou determinando na qualidade de delegado plenipotenciário do Ministério da Segurança do Reich. O soldado Schulz não possui valor algum amarrado a um cano de esgoto na Morzinplatz cuspindo confissões forjadas para estancar a dor. Mas nas ruas... com a mente consumida pelo terror de ter sido desmascarado, ele é um rastreador involuntário perfeito. Cedo ou tarde o jovem soldado irá nos levar diretamente para o buraco na parede onde se encontra os ratos. Apenas, deixe-o achar que está livre.

Dieter empurrou a pasta assinada na direção de Fischer:

— Liberte o garoto, senhores.

Fischer olhou para Hormählen e percebeu o ódio que crescia no major da Gestapo.

— Devolva a ele a sua farda e a sua liberdade aparente. Mas coloque quatro homens à paisana do destacamento de vigilância da SS colados na sombra dele vinte e quatro horas por dia. Cada passo, cada esquina, cada ligação telefônica. — Disse Hormählen, bufando.

— Entendido, senhor. O prisioneiro será colocado na calçada em dez minutos.

Fischer saiu, fechando a porta com força.

Dieter sorriu de canto, pegou seu sobretudo cinza e levantou-se com a elegância aristocrática que mantinha mesmo nas entranhas do covil da Gestapo. A primeira peça do contra-ataque estava posicionada no tabuleiro.

Apartamento dos Müller, Centro de Viena — Fim de tarde.

A penumbra da sala de estar parecia mais espessa do que a neblina que cobria o Danúbio lá fora.

Thomas Müller estava jogado na poltrona de veludo verde, onde Dieter Schneider se sentara dias atrás. A camisa branca de linho estava desabotoada até o peito, amarrotada, com as mangas arregaçadas de forma desleixada; a gravata escura fora jogada no chão junto com os sapatos de serviço. Na mão direita, ele segurava um copo baixo com três dedos de conhaque barato; a garrafa de vidro lapidado descansava quase vazia sobre a mesinha de centro, ao lado do cinzeiro com duas pontas de cigarro apagadas.

A casa cheirava a ausência. Sem Jennifer. Sem Birgit.

O relógio de parede de carvalho continuava seu curso monótono — tique-taque, tique-taque —, mas cada segundo batia na mente de Thomas como o eco de uma sentença irrevogável.

Ele olhou para o aparador de mogno. A aliança de ouro de Jennifer ainda estava lá, brilhando sob o reflexo fraco do poste de luz da rua que atravessava a vidraça.

Thomas levou o copo aos lábios, sentindo o ardor do álcool descer pela garganta sem queimar o frio que se instalara em suas entranhas.

Ele esvaziou o copo de um gole só, largando o vidro sobre a madeira com um baque surdo. Recostou a cabeça no espaldar da poltrona, os olhos pesados pela exaustão e pelo conhaque, deixando que a escuridão da sala engolisse o restante de seus pensamentos.

Antiga Livraria Central, Porão Comercial — Naquela mesma hora.

A claridade fraca da lamparina a querosene projetava sombras compridas e dançantes sobre as estantes repletas de livros velhos e caixas de papelão mofadas.

Heinrike Weber estava sentada sobre um engradado de madeira, sustentando uma xícara de lata contendo chá preto fumegante entre as mãos trêmulas. Ela bebia em pequenos goles gulosos, o calor da bebida descendo pelo peito e trazendo uma fagulha de vida às suas feições exaustas.

Franz Krüger permanecia encostado na coluna central de ferro fundido do porão, limpando o mecanismo de alimentação da sua submetralhadora desmontada com uma flanela embebida em óleo fino. Seus movimentos eram mecânicos, tranquilos, com a paciência solene de quem aprendeu a viver à sombra do perigo.

— O plano de fuga de vocês foi uma piada de mau gosto, Krüger — Heinrike quebrou o silêncio. Sua voz ainda estava rouca, mas tentava recuperar o veneno aristocrático que usava como escudo. — Vocês sequestram a minha pessoa após a morte do Andreas, colocam a cidade sob estado de sítio e agora acham que vão derrubar um império que governa da França aos Urais distribuindo panfletos em becos enquanto escondem inimigos do estado num galpão abandonado na floresta?

Franz nem sequer levantou os olhos da culatra da arma:

— A morte do seu marido não estava no plano, senhora Weber.

— O Thomas me deu um canivete e disse para usá-lo em caso de emergência. O que acharam que eu faria? Que usaria para cortar maçãs? — Heinrike soltou um riso seco, sem humor, e encarou o fundo da xícara. — Eu servi ao Reich. Eu jantei com os homens que assinam as ordens de execução. Sei exatamente como a engrenagem funciona. Vocês não passam de poeira nos dentes dessa máquina.

Franz passou a flanela devagar sobre o metal frio, a voz saindo baixa e compassada:

— A senhora serviu à mesa do Reich enquanto a comida era farta, senhora Weber. Mas nunca olhou para as fundações da casa. Apenas aproveitou o teto decorado enquanto durou.

— E o que isso quer dizer? Que sou alienada? — Heinrike ergueu o queixo, os olhos faiscando. — Eu fui inteligente. Aceitei o mundo como ele é, com os donos que ele escolheu. A diferença é que hoje eu sei que perdi tudo. E você continua achando que vai vencer.

— Eu sei que o Reich vai cair — Franz disse simplesmente. Não havia fanatismo em seu tom, apenas uma convicção tão sólida quanto a pedra do porão. — Não porque somos muitos, mas porque o mal tem uma fome que devora a si mesma.

Heinrike soltou uma risada amarga, balançando a cabeça desgrenhada:

— Você é jovem, Krüger, e a sua ingenuidade chega a ser patética! O Reich não vai se devorar. Ele tem divisões blindadas, tem a SD, a SS, a Gestapo, o Ministério da Propaganda moldando as crianças desde o berço! É um sistema esmagador. Ele sobreviveu a guerras, expurgos e sanções. Ele continuará aqui muito depois de o seu corpo apodrecer em uma vala comum. Nada muda nesta terra. Nunca mudará.

Franz parou a flanela. Encaixou o ferrolho da arma com um estalo metálico, seco e definitivo, que ecoou pelas abóbadas de tijolo do porão. Ele encarou a viúva com olhos castanhos, serenos e desprovidos de raiva.

— A senhora confunde o tamanho de um colosso com a eternidade dele — disse ele, dando dois passos calmos na direção dela e guardando o pano no bolso. — O Império Romano parecia eterno até que os bárbaros dormissem dentro de suas portas. Os czares pareciam intocáveis até que os próprios soldados se recusassem a atirar na multidão com fome. Nenhum regime construído sobre o medo e a mentira consegue sustentar a própria estrutura para sempre. Ele vai ficando pesado. Vai rachando por dentro.

— Rachando? — Heinrike apontou para o teto, para a cidade acima deles. — Eles estão na minha porta! O Estado inteiro está caçando a mim e a você! Onde está a racha, Franz?

— A racha está no fato de que até a senhora, que colheu os frutos desse império, precisou matar para não ser engolida por ele — Franz respondeu, baixando os olhos até os dela, cortante como uma lâmina. — A força que você vê lá fora não é lealdade. É cansaço. E quando o cansaço do povo ultrapassa o limite da sobrevivência, ele se transforma em fúria em uma única noite.

Heinrike sustentou o olhar do agente, mas a garganta secou. A calmaria inabalável daquele homem a perturbava mais do que qualquer ameaça da Gestapo.

— E o que faz você pensar que viverá para ver esse dia? — a voz dela vacilou ligeiramente. — O que te faz ter tanta certeza de que não vai morrer amanhã no meio do barro?

Franz deu um leve sorriso no canto dos lábios. Um sorriso triste, mas cheio de paz.

— Eu posso não ver, senhora Weber. O Bauer pode não ver. O senhor Müller também não. Mas isso não importa.

Ele se curvou ligeiramente, aproximando-se da altura dela sentado no engradado:

— A ideia já foi plantada. E quando a fé na liberdade toma conta do coração de um homem, nenhuma divisão de tanques, nenhuma ordem de Chancelaria e nenhuma farda preta consegue trazê-lo de volta à servidão. O seu Reich já morreu, senhora Weber. Ele só esqueceu de deitar.

Heinrike ficou em silêncio. A xícara de lata esfriava entre suas mãos, e pela primeira vez desde que a fuga começara, ela não encontrou réplica.

Franz virou-se de costas, pegando o casaco:

— Descanse. Pela manhã, colocaremos a senhora num caminhão rumo à fronteira. A sua ilusão acabou hoje. A nossa luta continua.

Residência da Família Schulz, Bairro de Grinzing — Início da noite.

O portão de ferro do jardim rangeu ao ser empurrado devagar.

Erich Schulz caminhava a passos lentos pelo caminho de cascalho. A túnica do exército fora-lhe devolvida pelos carcereiros da Morzinplatz, mas as divisas de infantaria haviam sido arrancadas dos ombros, deixando apenas as marcas desbotadas do tecido cinza-oliva. Seu rosto estava pálido, com o hematoma roxo na têmpora destacando-se sob a luz fraca do poste da entrada, e as mãos tremiam levemente com a adrenalina tardia da soltura arbitrária.

Ele sabia que estava sendo seguido. Sentira o olhar pesado dos dois homens de sobretudo escuro que desembarcaram do bonde na mesma parada e que agora permaneciam estacionados na esquina oposta sob a copa dos plátanos.

Erich empurrou a pesada porta da frente, que não estava trancada.

Ao cruzar o hall de entrada, o som de passos apressados veio da copa. Sua mãe irrompeu pelo corredor, com o rosto inchado de tanto chorar, as mãos desajeitadas alcançando o corpo do rapaz com um desespero cego:

— Erich! Meu Deus... Meu menino!

Ela envolveu o filho num abraço apertado, cobrindo o rosto ferido dele de beijos e lágrimas quentes, soluçando convulsivamente contra o peito da túnica militar:

— Eles soltaram você... Eles não mataram o meu filho! Graças aos céus! Você está inteiro... Você está vivo!

Erich retribuiu o abraço da mãe com suavidade, segurando seus ombros com mãos firmes:

— Eu estou bem, mãe. Acalme-se. Está tudo bem agora.

Pelo ombro da mãe, os olhos de Erich ergueram-se e travaram no fundo do corredor.

Junto à porta da sala de visitas, o velho Schulz permanecia de pé. O patriarca não usava o cachimbo; vestia o casaco puído de lã escura, as mãos enfiadas nos bolsos, o rosto cavado pela vergonha e pela culpa. Seus olhos marejaram ao ver o filho de pé, respirando, intacto após as garras da Gestapo. Ele deu meio passo à frente, os lábios trêmulos ensaiando uma palavra, um pedido de desculpas, uma bênção paterna que lhe ficara presa na garganta durante toda a tarde.

Erich sustentou o olhar do pai por dois segundos inteiros. Não havia ódio em suas feições; havia apenas uma indiferença monumental, gélida e definitiva — a frieza de quem assistira à própria condenação ser negociada sobre a toalha de linho daquela mesa de jantar.

O rapaz não disse uma única palavra ao patriarca. Desvencilhou-se gentilmente do abraço da mãe, passou direto pelo pai como se cruzasse a sombra de um móvel velho e subiu os degraus de madeira da escadaria em direção ao seu quarto.

O som da porta batendo no andar superior ecoou pela casa silenciosa, deixando o velho Schulz desmoronado no corredor, sozinho com a própria decadência moral.

Quarto de hotel de Dieter Schneider, Bairro de Alsergrund — 23h45.

A chuva fina e constante tamborilava contra a vidraça embaçada do terceiro andar.

Dieter não dormia. Vestindo apenas as calças sociais e uma camisa preta de gola alta, ele estava curvado sobre a escrivaninha de madeira, cercado por dezenas de pastas de prontuários com o selo do Departamento de Pessoal da Polícia do Distrito de Viena. A fumaça de seu cigarro subia em uma espiral perfeita sob o cone de luz da luminária de metal.

Ele cruzara os dados da fuga de Lena com as ordens de liberação de veículos daquele distrito três vezes. Tudo apontava para uma conivência interna; tudo convergia para o homem que o recebera com café e frieza no apartamento 503: Thomas Müller.

Dieter abriu a pasta de couro marrom contendo o dossiê completo de serviço de Müller.

Ele começou a folhear as páginas amareladas com a ponta dos dedos enluvados, murmurando as datas para si mesmo com a precisão de um auditor:

Nome: Thomas Müller. Nascido em Linz, 14 de setembro de 1933. Alistamento na polícia territorial em 1952. Promoção a Investigador Júnior em 1956. Condecoração de serviço em 1960...

Dieter parou a folha no ar. As sobrancelhas loiras uniram-se num vinco profundo de desconfiança profissional.

Ele puxou a folha de antecedentes civis para a frente da lâmpada.

Não havia nada antes de 1951.

Nenhum registro de nascimento paroquial original — apenas uma segunda via expedida por um cartório militar destruído por bombardeios em 1945. Nenhum histórico escolar de ensino fundamental em Linz; nenhuma matrícula em colégios secundários da província; nenhuma lista de vacinação civil; nenhuma menção aos nomes dos pais além de duas certidões de óbito emitidas sob a rubrica genérica de "Baixas Civis por Conflito Bélico".

Dieter deu uma tragada profunda no cigarro, os olhos azuis faiscando na penumbra do quarto com a excitação predatória de um cão de caça que acabara de farejar sangue fresco na folhagem.

Dieter encostou-se no espaldar da cadeira de palha, soltando a fumaça lentamente pelo nariz, o sorriso cortante e perverso desenhando-se em seus lábios finos:

— Como um homem sem passado consegue se tornar o investigador mais eficiente do distrito de Viena em plena vigência da purga de quadros? Quem construiu a sua certidão nos porões daquela guerra, Thomas? Ou melhor... quem você realmente era antes de vestir essa túnica de cinza?

Ele puxou a gaveta lateral, sacou um memorando confidencial do Ministério da Segurança e começou a redigir a ordem de exumação completa dos arquivos confidenciais do regimento de Wittenberg de maio de 1945.

Apartamento dos Müller, Centro de Viena — Alvorada do dia seguinte.

A luz cinzenta e gélida da manhã penetrava pelas cortinas entreabertas da sala, iluminando a poeira que dançava no ar.

Thomas Müller acordou com o corpo todo moído. Dormira de mau jeito no sofá de veludo, ainda com as roupas do dia anterior amarrotadas e manchadas pelo conhaque que secara na gola. A cabeça latejava com uma enxaqueca violenta provocada pela ressaca e pela exaustão nervosa; a boca tinha o gosto amargo de cinzas e fel.

Ele sentou-se devagar na borda do estofado, esfregando os olhos inchados com as duas mãos trêmulas, tentando afastar a vertigem que lhe turvava a visão. A casa continuava em silêncio absoluto — o silêncio fúnebre do abandono deixado pela partida de Jennifer.

Batidas secas, violentas e impacientes socaram a madeira da porta de entrada.

O impacto fez Thomas erguer-se num salto instintivo. A mão direita desceu imediatamente para o coldre sob o sovaco, mas os dedos encontraram apenas o tecido amarrotado da camisa: ele deixara a arma sobre a bancada da cozinha.

Thomas puxou o ar com força, respirou fundo pelo nariz para recuperar a postura e caminhou a passos pesados pelo corredor. Ele não olhou pelo olho mágico; já não se importava com o que o aguardava do outro lado do ferro. Girou a chave dupla com um estalo seco, puxou a maçaneta de latão e escancarou a porta, preparando-se para encarar os canos das metralhadoras ou o sorriso sádico do homem de Berlim.

Mas o corredor estava vazio de soldados.

De pé diante da soleira, sob a lâmpada amarelada do teto, estava Lena Goldstein.

Ela não vestia o capuz de disfarce; não trazia a mala de couro que Jennifer lhe dera. Vestia o sobretudo longo de lã preta empapado pela garoa da madrugada, as mechas de cabelos loiros coladas na testa pálida, os lábios arroxeados pelo frio de quem viajara a noite inteira em trens clandestinos de carga.

Em sua mão direita enluvada, amassada pela força dos nós dos dedos brancos, estava a carta lacrada com cera vermelha que a idosa judia lhe entregara nas catacumbas de Budapeste.

Thomas arregalou os olhos. O sangue sumiu completamente de seu rosto, a respiração travando na garganta como se tivesse acabado de ver a ressurreição de um fantasma:

— Lena...?! O que você está fazendo aqui? Meu Deus do céu, você deveria estar em Budapeste! O refúgio...

Antes que ele pudesse completar a frase, Lena deu um passo largo à frente, cruzando o limiar da casa como uma tempestade contida.

Ela ergueu a carta amassada diante dos olhos dele, cravando suas pupilas azuis em chamas diretamente no fundo da alma de Thomas, as palavras saindo de sua garganta com uma ferocidade dilacerante que cortou o apartamento como uma navalha:

Você mentiu para mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.