A Reacionária
1 O HOMEM DE TERNO
Interior de Viena, Inverno de 1963.
O cabo de madeira da enxada parecia congelar a pele das mãos de Lena Goldstein, mas a verdadeira lixa estava em sua garganta, seca pelo ar gélido e pela poeira do campo. Ao seu redor, a terra batida da Áustria profunda refletia o cinza de um céu que nunca clareava.
Lena respirou fundo, sentindo o peso dos olhares sobre si. Os outros trabalhadores locais, com as colunas curvadas pelo cansaço e os rostos castigados pelo rigor, a encaravam com um desprezo silencioso. Havia uma ironia cruel ali. Lena vestia um trapo de algodão outrora branco, manchado de terra fresca, e sua testa ostentava a marca avermelhada do sol de inverno. Ainda assim, a simetria de seu rosto, a pele alva e os longos cabelos loiros que caíam em cascata pelas costas eram a imagem exata do padrão que governava o mundo com punho de ferro. Para os camponeses, ela tinha a cara dos opressores. Para o Estado, porém, o sangue que corria em suas veias — a união clandestina de seu pai, um ariano de Wittenberg, com uma mulher judia — fazia dela uma anomalia. Uma inimiga.
O vento cortante do Leste trouxe o som do papel crepitando. A carta.
Tudo o que restara de Wittenberg foram cinzas, a memória dos pais mortos na revolta da cidade e o rastro de seu irmão, Stefan, levado pela Gestapo anos atrás. Lena acabou vendida a proprietários de terras austríacos, trocando a escravidão camponesa pela promessa de um teto e de não ser enviada a um campo de extermínio. Até aquele momento, a sobrevivência era sua única ambição. Mas o pedaço de papel guardado contra o peito mudava tudo. Stefan jurava estar vivo, operando em uma célula de resistência na Hungria — um dos poucos territórios onde as chamas da insurgência contra o Eixo ainda queimavam ativamente.
A poucos metros dela, na borda do campo arado, o homem que cruzara o perímetro da propriedade permanecia imóvel. O terno de corte impecável e o sobretudo escuro destoavam grotescamente da miséria da plantação. Ele a observava com a paciência de um predador que estuda o comportamento da presa antes do bote. Não parecia um camponês, tampouco um oficial fardado. Era algo mais perigoso: um intermediário.
Percebendo o escrutínio de Lena, o homem deu um passo à frente, ajustando as luvas de couro. Sua voz flutuou pelo ar frio, baixa e controlada:
— Eu não li o conteúdo, senhorita Goldstein. — Ele sustentou o olhar, a expressão indecifrável. — Apenas cumpro o papel de garantir que chegue às mãos certas.
Lena forçou os lábios a se curvarem em um sorriso fraco, filtrado pelo medo. Viver sob o Reich a ensinara que a esperança era a armadilha mais eficiente da polícia secreta. Seria aquela carta um teste de lealdade? Uma brincadeira sádica dos oficiais locais para justificar sua execução?
Ela engoliu em seco, sentindo o volume do papel contra a costela. Cruzar as fronteiras vigiadas até a Hungria era o equivalente a procurar uma agulha em um palheiro continental. As chances de sobrevivência eram ínfimas.
Mas, pela primeira vez em dezoito anos, Lena sentiu o sangue ferver sob a pele. Ela ia tentar.
A família Weber desfrutava de uma riqueza que comprava o silêncio das autoridades no continente. Nos porões de sua influência, operavam um mercado lucrativo e estritamente ilegal de "inimigos do Estado" — dissidentes, órfãos de rebeldes e indesejados que o Reich preferia ver desaparecer, mas que homens como Weber viam como mão de obra gratuita e descartável. Lena era um desses fantasmas. Sabia que sua aparência ariana poderia torná-la invisível fora daquelas cercas, mas o medo de ser caçada a mantinha acorrentada àquela rotina. Até agora.
A silhueta massiva do patriarca, o senhor Weber, surgiu na borda do campo, quebrando o transe da plantação. Ele caminhava a passos pesados, envolto em um casaco de lã escura e gola de pele que barrava o inverno austríaco, exalando a autoridade de quem era dono da terra e das vidas que nela pisavam. Seus olhos pequenos e frios fixaram-se imediatamente na interação incomum entre sua escrava e o desconhecido.
— O que está acontecendo aqui? — a voz de Weber cortou o ar gélido, áspera e carregada de desconfiança. — Você disse que era apenas um comprador.
O homem de terno permaneceu impassível, ajeitando a lapela com uma calma que beirava a insolência.
— Não se preocupe, senhor Weber. Já estou de saída — respondeu, a voz perfeitamente modulada. — Vim apenas entregar uma correspondência para a senhorita Lena.
Weber ignorou o homem e deu dois passos rápidos na direção de Lena, estendendo a mão enluvada.
— Me entregue a carta. Agora.
Lena recuou um passo, instintivamente pressionando a mão contra o bolso do vestido sujo. O vislumbre de resistência foi o suficiente. Com a velocidade de quem está acostumado a subjugar, Weber avançou e cravou os dedos no braço dela, apertando o osso até fazê-la sufocar um gemido.
— Eu mandei me entregar — sibilou ele.
O homem assistia à cena imóvel, os maxilares trancados em uma expressão de crescente desagrado, mas sem intervir. Percebendo o olhar de Lena em direção ao bolso, Weber soltou o braço da garota apenas para agarrá-la violentamente pelos cabelos loiros, puxando a cabeça dela para trás com tanta força que o couro cabeludo pareceu arder.
— Seu lixo imundo. Você não me ouviu? Me dá essa carta!
Lágrimas de dor física e humilhação inundaram os olhos claros de Lena. O mundo girou, o frio do chão parecia chamá-la. Cedendo ao terror, ela enfiou os dedos trêmulos no tecido e puxou o papel.
— Tome... por favor, pegue — implorou em um sussurro.
Weber arrancou o papel de suas mãos e a empurrou com desprezo. Lena colidiu contra a terra batida e congelada, o impacto arrancando o ar de seus pulmões. Ao redor, os outros trabalhadores abaixaram as cabeças, fingindo focar na enxada; a apatia da sobrevivência os tornara cegos por conveniência.
Weber desdobrou o papel, correndo os olhos pelas linhas apressadas de Stefan. Um sorriso cruel e condescendente moldou seus lábios antes mesmo de terminar a leitura. Com movimentos lentos e deliberados, ele rasgou a carta ao meio, depois em quatro, deixando os pedaços caírem sobre o corpo de Lena na lama.
— Esperança? — Weber soltou uma risada seca, que evaporou no ar frio. — O que passa nessa sua cabeça doentia? Que vai fugir para o Leste Europeu? Você é minha propriedade, Goldstein. Se colocar os pés fora deste perímetro, eu mesmo caço você e quebro o seu pescoço. Entendeu?
— Sim, senhor Weber — ela respondeu contra o chão, a voz abafada pelo choro.
Satisfeito, o fazendeiro virou-se para o mensageiro, medindo-o de cima a baixo com o olhar de quem reconhece um intruso perigoso.
— E qual é o seu nome, afinal?
— Thomas — respondeu o homem, sustentando o escrutínio sem piscar. — Thomas Müller.
— Pois escute bem, senhor Müller — Weber deu um passo à frente, diminuindo a distância de forma ameaçadora. — Saia das minhas terras agora ou eu mesmo chamo a polícia local e garanto que você termine em um bloco de cimento. Nunca mais ouse pisar no meu território.
— Naturalmente. Eu já estava de saída — Müller respondeu com uma cortesia gélida.
Weber deu as costas, marchando de volta para a sua casa sem olhar para trás.
O silêncio retornou ao campo, quebrado apenas pelos soluços contidos de Lena. Thomas Müller esperou que os passos do fazendeiro desaparecessem na névoa antes de se aproximar. Ele se inclinou e estendeu a mão enluvada para ela.
— Venha. Eu ajudo você.
Lena olhou para a mão estendida e, depois, para o rosto do homem. A dor cedeu lugar a um rancor profundo. Ignorando o gesto, ela se apoiou na enxada e levantou-se sozinha, limpando a lama do vestido com as palmas das mãos feridas.
— Não preciso da ajuda de nenhum nazi — cuspiu as palavras, a voz trêmula, mas firme.
Müller recolheu a mão, a expressão suavizando-se por um breve segundo em um vislumbre de culpa.
— Peço desculpas. Eu não queria causar problemas.
Lena parou, os pedaços da carta rasgada ao redor de seus pés moldando o tamanho de sua ruína. Ela o encarou diretamente nos olhos, deixando as lágrimas correrem livremente pelo rosto marcado pelo sol.
— O senhor causou o pior de todos os problemas, senhor Müller... O senhor me deu esperança.
Sem esperar uma resposta, ela virou as costas, cravou a enxada na terra dura e voltou ao trabalho.
Thomas Müller caminhou em direção aos portões de ferro da propriedade com a mesma calma de quem passeia por um jardim público. No entanto, ao cruzar a última curva da alameda de cascalho, encontrou o comitê de boas-vindas.
O senhor Weber o aguardava. Ao seu lado, dois capatazes robustos, vestindo grossos casacos de caça, já mantinham os canos de duas carabinas mauser apontados diretamente para o peito de Thomas. O estalo metálico das armas sendo destravadas ecoou no ar gelido.
— O senhor vai me explicar direitinho como veio parar aqui e para quem realmente trabalha — exigiu Weber, a voz agora destituída da arrogância camponesa, substituída por uma frieza militar.
Thomas parou, mas não ergueu as mãos. Apenas olhou para os canos das armas e, depois, de volta para o fazendeiro.
— Eu já lhe disse quem sou, senhor Weber — respondeu Thomas, o tom de voz perfeitamente plano.
— Senhor Müller... se é que este é realmente o seu nome — Weber deu um passo à frente, os olhos estreitados. — Você acha mesmo que sou estúpido? Que vou acreditar que um homem com o seu corte de cabelo e o seu terno veio até os meus campos apenas para entregar uma carta a uma indigente? Você trabalha para a Orchestra?
Ao ouvir o nome da lendária rede de espionagem anti-nazista, Thomas permitiu-se um sorriso sutil, quase imperceptível. Ele deu um meio passo à frente, um gesto suave e conciliador que fez os capatazes tensionarem os dedos nos gatilhos.
— O senhor não deveria ameaçar um homem como eu, senhor Weber — disse Thomas, a voz caindo para um tom quase confidencial. — A sua preciosa rede de influência está por um fio. Como o Reich reagiria se descobrisse que o senhor trafica inimigos do Estado para benefício próprio, sonegando mão de obra das indústrias oficiais de Berlim? E se eu for exatamente o que o senhor mais teme: um inspetor de Berlim, avaliando suas... irregularidades?
Weber contraiu o maxilar, os nós dos dedos empalidecendo em torno da coronha de sua própria pistola.
— Você está blefando.
— Será? — Thomas inclinou levemente a cabeça, mantendo a postura impecável. — Andreas Weber. Cinquenta e seis anos. Filho de um oficial alemão com uma herdeira francesa. Residente de Viena desde os anos 30. Dono das Indústrias Têxteis Weber, uma das maiores fornecedoras de uniformes para a Wehrmacht na Europa Central. Seria uma pena se um relatório confidencial fizesse o Ministério do Armamento cancelar seus contratos e confiscar suas fábricas, declarando-o um traidor da economia alemã.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Weber sentiu o suor frio brotar sob o casaco de pele. No xadrez político do Reich, um homem rico poderia sumir da noite para o dia se caísse em desgraça com a burocracia de Berlim. Matar um homem que sabia tanto seria assinar a própria sentença de morte.
Vencido pelo medo, Weber engoliu em seco e fez um aceno ríspido para os capatazes.
— Abaixem as armas.
Os homens hesitaram, mas recolheram as carabinas. Thomas ajeitou as luvas de couro, a expressão neutra retornando como uma máscara.
— Que bom que pudemos chegar a um entendimento, senhor Weber. Quanto àquela carta... não se preocupe. Faz parte do meu trabalho investigativo mapear as conexões desses subversivos. Passar bem.
Thomas passou pelos portões sem olhar para trás, deixando Andreas Weber estático, consumido pela paranoia sob o céu cinzento de Viena.
Enquanto isso, nas lavouras, o trabalho forçado recomeçara, mas a mente de Lena estava longe dali. Seus dedos machucados cavavam a terra automaticamente, repassando cada palavra que conseguira ler antes de o papel ser destruído.
Uma silhueta se aproximou de seu sulco na terra. Era Martha. Os longos cabelos morenos da mulher estavam presos de forma desleixada, salpicados de fuligem e poeira. Seus olhos castanhos, outrora expressivos, pareciam opacos, nublados pelos anos de submissão e pela perda da dignidade.
— O que foi aquilo, Lena? — Martha sussurrou, desferindo um golpe fraco com a enxada para disfarçar a conversa dos olhos dos guardas distantes. — O que aconteceu? Quem era aquele homem?
— Martha, por favor, não comece — Lena respondeu, sem erguer os olhos da terra, a voz cortante para esconder o tremor no peito. — Eu não quero e não vou falar sobre isso. Seja lá quem enviou aquela carta... essa pessoa morreu para mim há dezoito anos.
Lena cravou a enxada com força renovada no solo congelado. Martha olhou para os pedaços de papel que o vento começava a espalhar pela plantação. Ela engoliu suas perguntas. No mundo em que viviam, saber demais era o caminho mais rápido para uma vala comum. Em silêncio, a mulher morena afastou-se, deixando Lena sozinha com o fantasma de seu irmão e a perigosa faísca que Thomas Müller havia acendido.
A noite desabou sobre a fazenda com o peso de uma mortalha de gelo. No alojamento comunitário, o ar era denso, impregnado com o cheiro de suor, terra e o desalento de dezenas de corpos exaustos. Encolhida em um beliche de madeira áspera, em um colchão de palha que mal acomodava seu corpo, Lena Goldstein encarava o teto no escuro. Seus olhos recusavam-se a fechar. Cada batida de seu coração parecia ecoar as palavras que Weber arrancara de suas mãos.
Com movimentos milimetricamente calculados para não fazer a madeira ranger, Lena deslizou para fora da cama. No beliche ao lado, a respiração de Martha vacilou. Seus olhos castanhos se abriram na penumbra, alertas com o instinto de quem sabe que qualquer movimento fora da hora permitida é sinônimo de perigo. Martha não disse nada; apenas observou a silhueta da amiga se esgueirar em direção à porta de tábuas frouxas.
O vento da madrugada austríaca chicoteou o rosto de Lena assim que ela cruzou o limiar do alojamento. Escondendo-se nas sombras projetadas pelos celeiros e pelas pilhas de lenha, ela avançou com o estômago contraído. Ao longe, a silhueta de um guarda com uma carabina a tiracolo cruzou o perímetro sob a luz pálida de um refletor. Lena prendeu a respiração, achatando-se contra a parede de pedra até que os passos pesados do homem se afastassem.
Quando finalmente alcançou o sulco de terra arada onde caíra horas antes, ela caiu de joelhos. O solo estava congelado, mas Lena cavou a lama com as pontas dos dedos desprotegidos, tateando na escuridão. Um pedaço de papel. Depois outro. O vento já havia levado parte deles, e a umidade da terra começava a borrar a tinta. Ela recolheu as migalhas brancas contra o peito, as mãos tremendo tanto pelo frio quanto pelo desespero, e tentou alinhar os fragmentos sob a luz fraca das estrelas.
As linhas tortas e apressadas da caligrafia de Stefan começaram a se formar em sua mente, como um sussurro vindo do passado:
“Minha pequena Lena... Se esta carta chegou até você, saiba que o milagre é real: eu estou vivo. Naquela noite em que a Gestapo nos separou em Wittenberg, eu jurei que voltaria por você. Consegui escapar do comboio e, hoje, os bosques da Hungria são o meu lar. Há uma cidade aqui, Lena. Um refúgio escondido entre as colinas onde o punho do Reich não consegue nos alcançar. Nós não apenas sobrevivemos aqui; nós respiramos, nós resistimos. Construímos uma vida sobre as cinzas que eles deixaram. Mas a liberdade não tem gosto sem você. Encontre um caminho, minha irmã. Fuja. Eu estarei esperando até o meu último suspiro para que nossa família esteja completa outra vez.”
Um choro sufocado, ruidoso de tanta dor acumulada, escapou do peito de Lena. Ela pressionou os pedaços de papel úmidos contra os lábios, trancando os dentes para que o som do seu pranto não cruzasse o campo aberto. Como ela poderia fugir? O leste era um oceano de arame farpado e cães de guarda. Ela não passava de uma prisioneira sem rumo, segurando as cinzas de uma promessa impossível.
De repente, duas mãos gentis e quentes pousaram sobre seus ombros trêmulos. Lena sobressaltou-se, mas o aroma familiar de carvão e suor a acalmou. Era Martha.
A mulher mais velha ajoelhou-se na lama ao seu lado e a envolveu em um abraço apertado, oferecendo o calor de seu próprio corpo contra o inverno.
— Eu queria poder abrir esses portões para você, Lena... Eu queria tanto ter o poder de te tirar daqui — sussurrou Martha, com os olhos marejados refletindo a dor da amiga.
Lena escondeu o rosto no ombro de Martha, permitindo-se ser pequena por alguns segundos.
— Me desculpe por ter sido cruel mais cedo, Martha... É que eu estou tão cansada. Cansada de fingir que não sinto nada.
— Eu sei, minha querida. Eu sei — Martha afastou-se ligeiramente, limpando uma lágrima que congelava na bochecha de Lena, e olhou ao redor, vigilante. — Mas precisamos voltar agora. Se os guardas nos pegarem fora do alojamento a esta hora, não haverá carta nem amanhã para nós duas.
Martha segurou as mãos feridas de Lena, ajudando-a a se levantar da terra batida. Lena guardou cuidadosamente os fragmentos borrados no fundo do bolso mais interno de seu casaco. A carta estava destruída, mas as palavras de Stefan agora estavam gravadas a fogo em sua memória.
Elas caminharam de volta em silêncio, unidas pelo mesmo medo e, agora, por um segredo perigoso demais para ser carregado sozinho.
O amanhecer não trouxe a promessa de um novo começo, mas o peso sufocante da realidade. O dia mal havia clareado quando um alvoroço vindo do pátio central arrancou os trabalhadores de suas ferramentas. Gritos ríspidos e o som de botas arrastando algo pesado ecoaram pelo campo.
O senhor Weber marchava na liderança, com o rosto contraído em uma máscara de fúria cega. Atrás dele, dois capatazes carregavam um homem pelos braços. Era um dos camponeses do alojamento, um rapaz jovem que costumava trabalhar a poucos metros de Lena. Ele estava desfigurado; o rosto inchado de sangue e as roupas rasgadas mostravam que a captura havia sido brutal.
À medida que os trabalhadores eram encurralados pelos guardas fardados, o silêncio do terror se instalou.
— Olhem para ele! — a voz de Weber trovejou, ecoando contra as paredes do celeiro. Ele apontou para o corpo semi-consciente do rapaz. — Este verme achou que conseguiria cruzar a cerca oeste ontem à noite. Achou que o inverno seria mais clemente do que eu.
Weber não hesitou. Em um movimento fluido e desprovido de qualquer hesitação humanitária, ele sacou a pistola de serviço do coldre e apontou para o peito do jovem.
Um único estampido seco rasgou o ar gélido de Viena.
O corpo do rapaz espasmou e desabou inerte sobre o cascalho. O cheiro de pólvora queimada misturou-se ao ar congelante. Vários prisioneiros sufocaram gritos; o pranto contido de algumas mulheres quebrou o silêncio. Lena sentiu o estômago revirar, levando a mão trêmula à boca para não vomitar. Seus olhos azuis fixaram-se na poça de sangue que se expandia rapidamente pela terra. Poderia ter sido ela. Se tivesse dado um passo além da conta na noite anterior, seria o seu corpo ali.
Martha agiu rápido, postando-se à frente de Lena e envolvendo-a pelos ombros para forçá-la a desviar o olhar.
— Olhe para mim, Lena. Não olhe para o chão. Respire. Acalme-se — sussurrou Martha, com os dentes cravados no próprio lábio para manter a compostura.
Weber guardou a arma, correndo os olhos frios pela multidão aterrorizada.
— Eu não tolero insubordinação. Não há para onde fugir. Vocês não têm um lar esperando por vocês lá fora. O Reich consideraria cada um de vocês um refugo a ser eliminado de imediato. Aqui, sob os meus cuidados, vocês pelo menos justificam o ar que respiram. Lembrem-se disso.
Ele gesticulou com desdém para os capatazes, que começaram a arrastar o cadáver como se fosse um fardo de feno qualquer. Weber virou-se para a massa de corpos trêmulos.
— O espetáculo acabou. Voltem ao trabalho. Agora!
A multidão começou a se dispersar a passos rápidos, empunhando as enxadas com as mãos gélidas. Martha puxou Lena em direção ao sulco de terra mais distante, tentando fazê-la desaparecer em meio ao grupo. Weber, no entanto, permaneceu estático no centro do pátio, com os olhos estreitados, acompanhando cada movimento da garota loira.
Ele estendeu o braço e segurou o capataz mais próximo pelo colarinho.
— Aquela ali. A Goldstein — Weber sibilou, indicando Lena com a cabeça. — Não tire os olhos dela por um único segundo. Se ela respirar torto, me avise.
— Sim, senhor — o guarda respondeu, ajeitando a carabina no ombro.
A quilômetros dali, no coração de uma Viena que fingia viver em paz sob as suásticas, Thomas Müller caminhava a passos largos pelas calçadas cinzentas. Sua mente ainda estava congestionada pelos eventos da fazenda. Ao cruzar uma avenida movimentada, o rugido de um motor e o estridente som de pneus o arrancaram do transe. Um veículo quase o atingiu.
— Olhe por onde anda, idiota! — gritou o motorista, estendendo o punho para fora da janela.
Thomas limitou-se a erguer a mão em um pedido de desculpas protocolar e apressou o passo, adentrando o saguão de um edifício residencial de fachada sóbria. O porteiro, um homem idoso com uma cicatriz de guerra na bochecha, ergueu os olhos do jornal.
— Bom dia, senhor Müller.
Thomas forçou um sorriso diplomático, acenou e entrou no elevador de grade pantográfica. À medida que a cabine subia lentamente, o peso do disfarce parecia escorrer por seus ombros. Ele respirou fundo, tentando dissipar a tensão antes que a porta do quinto andar se abrisse.
Ele caminhou até o final do corredor e girou a chave na fechadura do apartamento 503. Assim que a porta se abriu, o aroma caloroso de café e pão fresco o recebeu. Quase imediatamente, passos pequenos e rápidos ecoaram pelo corredor de taco de madeira.
— Papai! Você voltou!
Uma menina de cabelos claros correu em sua direção. Thomas agachou-se, envolvendo a filha em um abraço apertado e erguendo-a do chão, permitindo-se esquecer por um segundo a podridão do mundo exterior.
Na entrada da cozinha, Jennifer o observava. Seus olhos expressivos carregavam uma sombra de exaustão que nenhuma noite de sono parecia curar. Ela se aproximou, depositando um beijo terno em seu rosto antes de pegar a menina do colo do marido.
— Você conseguiu entrar? — ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro defensivo.
— Consegui — Thomas respondeu, tirando o sobretudo e pendurando-o no cabideiro. — Passei pelos portões do crápula. Conseguimos dados suficientes sobre a cadeia de suprimentos dele. O monopólio têxtil dos Weber vai ruir, Jenny. Não vai sobrar pedra sobre pedra quando Berlim descobrir a fraude de mão de obra.
Jennifer colocou a filha no chão, entregando-lhe um brinquedo de madeira e apontando para o quarto. Assim que a menina se afastou, ela cruzou os braços, o semblante obscurecido pela preocupação.
— Tem certeza de que quer continuar puxando esse fio, Thomas? Você está se arriscando demais por um jogo que não podemos vencer.
— Eu não vou sossegar até expor o que Andreas Weber faz com aquelas pessoas — ele rebateu, aproximando-se da esposa.
— E você acha que o Reich se importa? — Jennifer deu um passo atrás, e sua voz, embora contida, vibrou com uma lucidez cortante. — Você não entende, Thomas? Aququelas pessoas nos campos dele são consideradas subumanas pelo Estado. Inimigos da pátria. Mesmo que você destrua as Indústrias Weber, o governo não vai dar medalhas a eles ou libertá-los. Eles vão prender o Weber por corrupção e enviar cada um daqueles camponeses para os campos de extermínio no Leste para apagar as testemunhas. É trocar seis por meia dúzia. Você está acelerando a morte deles.
Thomas desviou o olhar para a janela, onde a névoa de Viena engolia os prédios. O argumento dela era o fantasma que o assombrava todas as noites.
— Não se o escândalo for grande o suficiente... Não se, no meio do caos da queda de Weber, algumas daquelas pessoas conseguirem uma brecha para sumir. Pelo menos uma.
Jennifer semicerrou os olhos, a intuição feminina captando o deslize na voz do marido.
— Pelo menos uma? De quem você está falando, Thomas? Há alguém específico lá dentro?
Thomas pigarreou, ajeitando os punhos da camisa para evitar o escrutínio dela.
— Não. Não há ninguém específico, Jenny. Estou falando do princípio.
— Você não vai mudar a estrutura deste império sozinho — ela deu um passo à frente, tocando o peito dele. — Eu sei o que você sente. Eu também odeio o que o nosso país se tornou. A Orchestra pode compartilhar dos nossos ideais, mas lembre-se: eles operam nas sombras porque perderam a guerra. O mundo pertence a Berlim agora.
Thomas sustentou o olhar da esposa por um longo momento. A exaustão dele finalmente transpareceu.
— Podemos deixar essa discussão para depois? Por favor.
Jennifer soltou um suspiro pesado. Ela era alemã de nascimento, mas o amor por Thomas e a repulsa silenciosa pela brutalidade do regime a haviam transformado em sua cúmplice mais leal. Sem dizer mais nada, ela deu as costas e voltou para a cozinha.
Thomas a seguiu. Ele se aproximou por trás, envolvendo a cintura dela em um abraço apertado, colando o rosto em seu pescoço.
— Eu não vou desistir daquela gente, Jenny — ele sussurrou contra a pele dela, com uma determinação que parecia flertar com a loucura. — Não importa o preço ou quanto tempo leve. Nós vamos derrubar os pilares deles. Começamos pelos empresários que financiam o Partido. Depois... miramos no próprio governo.
Jennifer continuou mexendo a colher na panela, mantendo os olhos fixos no vapor que subia. Ela não respondeu. Sabia que, no tabuleiro em que o marido jogava, o primeiro erro não resultaria em uma discussão doméstica — resultaria na execução de toda a sua família.
E, na fazenda dos Weber, o relógio de Lena Goldstein já havia começado a correr.
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