A Reacionária

15 ESPELHO ABISSAL



Wittenberg, Alemanha — 27 de abril de 1945.

O ar da primavera não trazia o perfume das flores, mas o cheiro acre de fumaça de hulha, carne queimada e poeira de tijolo moído. A vitória alemã na batalha nos arredores de Berlim — conseguida a um custo avassalador pela junção desesperada do 9º Exército com a 12ª Armada do General Wenck — fora celebrada pela rádio oficial como o "Milagre do Reich". Contudo, nas ruas de Wittenberg, o triunfo tinha o gosto da cinza e a cor da miséria. Não havia esperança no olhar da população; apenas a certeza de que a sobrevida do regime estenderia a agonia de um povo esmagado entre o punho do estado e a iminência do colapso.

Patrulhas ostensivas cortavam as vias esburacadas. Blindados com lagartas avariadas e caminhões cobertos por lonas rasgadas transportavam comboios de feridos rumo aos hospitais de campanha. Os cidadãos, com rostos cavados pela fome de meses, observavam a passagem do comboio com uma apatia aterrorizante.

Com um capuz de lã escura cobrindo-lhe a cabeça e os ombros, Mia Goldstein caminhava a passos apressados pela calçada de paralelepípedos, segurando com firmeza a mão das duas crianças. Wilhelm estava de plantão no posto de comando desde a alvorada, e a dispensa racionada de casa esvaziara por completo.

Aos seus seis anos, a pequena Lena mantinha-se colada à saia de algodão da mãe, os olhos arregalados de susto diante da rigidez dos soldados. Ao seu lado, Stefan, com doze anos completos, mantinha o queixo erguido e os ombros tensos, assumindo a postura de protetor da família que o pai lhe confiara.

Ao cruzarem com uma dupla de patrulheiros de capacetes de aço e braçadeiras de vigilância, Lena encolheu-se, apertando ainda mais o tecido da saia materna.

— Não olhe para eles, Lena — Stefan murmurou num tom rasteiro, sem mover a cabeça.

— Por quê? — a garotinha sussurrou, a voz trêmula.

— Porque quem não deve, não encara guarda — Stefan respondeu com a autoridade precoce que os tempos de guerra lhe moldaram. — Mantenha os olhos no chão e continue andando.

De repente, a buzina de bronze de um alto-falante fixado no poste da praça racheou, emitindo a transmissão oficial do Ministério da Propaganda. A voz abafada e triunfal do locutor ecoou entre os prédios carcomidos por estilhaços:

“...Atenção para o comunicado extraordinário do Alto Comando! As forças subversivas foram repelidas nos arredores da capital pela bravura inquebrável das nossas divisões! Berlim permanece inexpugnável sob a bandeira do Reich! A vitória final pertence ao povo alemão...”

Na fila do centro de abastecimento municipal, três quarteirões à frente, um punhado de oficiais de veteranos ensaiou aplausos fracos. A maioria dos civis, contudo, continuou estática, com feições vazias e olhos fundos. A celebração soava falsa, quase fantasmagórica.

Uma mulher de avental puído, segurando uma senha de papel amarrotada, murmurou para a vizinha de fila:

— Repelidos... E o pão de centeio continua sem chegar aos depósitos há quatro dias.

— Cale a boca, desgraçada! — um idoso ao lado sibilou, varrendo a calçada com o olhar pavoroso. — Quer que nos joguem numa cela de triagem por derrotismo?!

Stefan observou os caminhões que passavam. Dentro de uma das caçambas, um soldado jovem — pouco mais velho que ele próprio — chorava abraçado ao próprio fuzil, o corpo todo tremendo sob o impacto da neurose de combate.

O garoto puxou a manga do casaco de Mia, a testa franzida em um vinco de pura perplexidade:

— Mãe... se o rádio diz que nós vencemos a batalha... por que os nossos soldados parecem ter perdido tudo?

Mia olhou para o filho, a dor apertando-lhe a garganta ao notar a lucidez assustadora do menino de doze anos:

— Porque certas vitórias, Stefan... custam mais caro do que uma derrota.

A fila de distribuição de suprimentos ao lado do armazém da ferrovia dobrava a esquina. A poeira subia à medida que a multidão se acotovelava, pressionando as grades de contenção de madeira. Quando Mia e as crianças finalmente alcançaram o raio de visão do guichê, um funcionário de braçadeira oficial bateu a escotilha de ferro com um baque ensurdecedor.

— Suprimentos esgotados por hoje! — o homem vociferou pela fresta. — O depósito está trancado! Voltem para suas casas e aguardem a próxima escala!

A multidão estancou em um silêncio atônito. Um operário de mãos sujas de graxa deu um passo à frente, encostando o peito contra o tapume:

— Esgotado para quem, seu miserável?! O comboio com as caixas de banha e farinha acabou de descarregar nos fundos!

— Ordens do Comando Militar! — o funcionário gritou de volta. — Desocupem o perímetro!

A tensão, acumulada por semanas de fome e humilhação, explodiu como póxima seca. Um homem no meio da multidão berrou a plenos pulmões:

— Para a família dos oficiais nunca acaba nada! Eles comem carne fresca enquanto os nossos filhos roem casca de batata!

— Meu filho mais velho está sangrando no hospital da província e minha família não vê uma fatia de pão há três dias! — uma mulher desesperada prorrompeu em pranto e gritos, investindo contra a grade.

Os quatro guardas da Gestapo que guarneciam a entrada sacaram os cassetetes e engrenaram os cães das submetralhadoras, apontando os canos negros diretamente para a massa de civis.

— Recuem! Três passos para trás ou abriremos fogo por incitação à revolta! — o cabo no comando vociferou, o suor frio escorrendo pelo capacete.

Mia instintivamente puxou Stefan e Lena para trás de seu corpo, usando o próprio peito como escudo. Stefan, contudo, num reflexo cego de proteção, projetou o próprio corpo franzino à frente da mãe e da irmãzinha, os punhos fechados, encarando os canos das armas com um pavor desafiador.

No segundo exato em que a tragédia parecia inevitável, o som rasgado de freios de um veículo de comando cortou o tumulto.

Uma viatura conversível da infantaria estancou junto ao meio-fio. Do assento do carona, envergando a túnica cinza de Capitão do Exército, com as insígnias reluzentes no colarinho e a postura aristocrática que o caracterizava, Wilhelm Goldstein desembarcou.

A multidão recuou meio passo, e os olhares carregados de ódio e julgamento voltaram-se imediatamente contra a farda do oficial.

— Wilhelm?! — Mia exclamou, a voz falhando em choque e alívio.

Um tenente da polícia militar, que acompanhava a escolta da viatura, caminhou a passos largos em direção ao posto, desferindo um golpe de cassetete contra a grade:

— Dispersem essa gentalha agora! Usem a força se necessário!

— Abaixem essas armas! — a voz de Wilhelm cortou o pátio como um estrondo de autoridade, fazendo os quatro guardas hesitarem e baixarem as metralhadoras por instinto.

O tenente girou sobre os calcanhares, encarando Wilhelm com pura insolência:

— Capitão Goldstein... Coloque-se no seu devido lugar. A diretriz de dispersão compulsória veio diretamente do Gabinete de Emergência da província. Não é porque a sua esposa e os seus filhos estão misturados a essa massa que o senhor tem o direito de interferir no protocolo de segurança!

Wilhelm caminhou devagar até parar a escassos centímetros do rosto do tenente. Seus olhos azuis gélidos e a postura ereta impuseram um silêncio sepulcral no pátio. Os populares prenderam a respiração.

— Eu fui bastante claro, Tenente — Wilhelm declarou, a voz pausada, baixa e carregada de uma ameaça mortífera. — Esta população está faminta e busca apenas o direito elementar de alimentar suas famílias. E, nesta cadeia de comando local, quem emite as ordens táticas sou eu. Dê um passo à frente com essa arma e eu o farei responder por insubordinação diante do Conselho de Guerra antes do anoitecer.

O tenente empalideceu. Encarou a rigidez do Capitão, notou o murmúrio de apoio que começava a crescer entre os civis e compreendeu que estava em menor número ideológico. Engoliu a afronta, bateu os calcanhares num cumprimento ríspido e fez um sinal para que seus guardas recuassem para a viatura.

A multidão rompeu em vaias e vaias sufocadas contra o tenente enquanto a viatura se retirava, abrindo espaço para que Wilhelm se aproximasse de sua família.

Wilhelm envolveu Mia pelos ombros, puxando-a para o abrigo de uma arcada de pedra lateral, longe dos olhares curiosos dos populares. Ele ajoelhou-se por um segundo, puxou Stefan e Lena para um abraço apertado e rápido, antes de encarar a esposa com um olhar transbordante de urgência e dor.

— O que você fez, Wilhelm...? — Mia murmurou, as lágrimas finalmente rompendo o controle e escorrendo por suas bochechas. — Você desafiou aquele tenente na frente de todos...

— A revolta é uma questão de dias, Mia... e a estrutura do Reich está ruindo por dentro — Wilhelm confidenciou num sussurro rasgado, os olhos varrendo o perímetro para garantir que não havia ouvidos da Gestapo por perto. — Não há mais como voltar atrás.

— E por que você veio até aqui? Por que abandonou o posto no quartel?

— Porque eu precisava olhar nos seus olhos e garantir que vocês estivessem vivos antes que o cerco se feche — Wilhelm respondeu, tomando as mãos trêmulas da esposa entre as suas. — Escute-me com extrema atenção, Mia... A rede clandestina da Orchestra de Viena já estabeleceu contato com a nossa célula aqui em Wittenberg. Eles sabem que Berlim enviará regimentos da SS e da Gestapo para purgar Wittenberg e conter os levantes civis a qualquer custo. A Orchestra está organizando comboios secreto de extração para retirar os civis e as famílias dos dissidentes antes do massacre.

Mia prendeu o ar no peito, o terror congelando suas feições:

— Uma extração...? E quanto a você, Wilhelm? Você vem conosco?

Wilhelm sustentou o olhar da esposa, e a tristeza que emanava de suas pupilas foi a resposta mais dolorosa que Mia poderia receber. Ele balançou a cabeça devagar:

— Eu sou um oficial de alta patente deste exército, Mia. Se eu desertar junto com o comboio, o meu nome estampará uma ordem de caçada nacional e a SS rastreará a rota de vocês até o inferno. Eu preciso ficar. Preciso assinar os relatórios falsos, atrasar as patrulhas e assumir as consequências burocráticas para garantir que a rota de Viena permaneça limpa.

— Não! Não, Wilhelm! — Mia começou a soluçar abertamente, segurando as lapelas da túnica do marido. — Nós não podemos nos separar! Você nos fez jurar que a família continuaria unida!

— E nós continuaremos unidos, meu amor... na promessa de sobrevivência — Wilhelm respondeu, a voz embargada, erguendo o rosto de Mia e selando seus lábios em um beijo profundo, desesperado e doloroso — o último beijo de uma vida de paz que ficava para trás.

Ele afastou-se devagar, virando-se para Stefan. O garoto de doze anos mantinha os olhos fixos no pai, as lágrimas descendo em silêncio por seu rosto infantil.

Wilhelm apoiou as mãos pesadas nos ombros do filho, encarando-o com o orgulho e a gravidade de um comandante passando o bastão:

— Lembra-se da nossa regra, Stefan?

— Lembro, pai... — o garoto respondeu num fio de voz. — Proteger a Lena... e a mãe.

— Custe o que custar — Wilhelm reafirmou, o tom solene. — Cuide delas. Leve-as para Viena com a Orchestra. Assim que o nevoeiro desta guerra dissipar e eu conseguir limpar o meu rastro, eu irei ao encontro de vocês. Prometa-me que você será o homem da casa a partir deste segundo.

— Eu prometo, pai! Eu juro! — Stefan assentiu com firmeza, batendo o peito.

Wilhelm abraçou o filho, afagou os cabelos loiros de Lena — que chorava sem compreender a dimensão daquela despedida — e colocou-se de pé. Ele ajustou o quepe militar, cobrindo o olhar devastado sob a aba de feltro, deu dois passos para trás e prestou uma última e solene saudação à sua família.

Sob o céu cinzento de Wittenberg e diante dos olhares mudos da multidão de miseráveis, a família Goldstein selava o seu destino. A liberdade prometida pela Orchestra cobraria anos de sangue, separação e cinzas, mas a chama acesa naquela tarde de abril jamais se apagaria no peito dos irmãos Goldstein.

Centro de Viena — Manhã.

A névoa matinal que cobria a calçada da rua central era fria e densa, trazendo o cheiro acre de fumaça de carvão que pairava sobre a cidade. Thomas Müller caminhava a passos apressados, carregando duas sacolas de pardo com mantimentos básicos que conseguira obter no mercado do setor sul antes do fechamento das vias. O peso dos últimos dois dias estampava-se nas olheiras fundas e na postura contida, de vigilância tática ininterrupta.

Ao cruzar a pesada porta de ferro e vidro do seu edifício, Thomas fez o gesto mecânico de virar o rosto para a guarita de madeira do saguão para saudar o velho porteiro — a testemunha silenciosa de suas chegadas e partidas há anos.

O hábito, contudo, travou na garganta.

A cadeira do antigo funcionário estava ocupada por outra figura. Não havia mais o ancião de óculos na ponta do nariz e olhar complacente. No lugar dele, um homem jovem, de porte atlético, cabelos raspados nas têmporas e terno escuro excessivamente justo aos ombros, mantinha as mãos cruzadas sobre o balcão.

Quando Thomas estancou por uma fração de segundo, o novo sujeito ergueu o rosto. Seus olhos eram pequenos, gélidos e desprovidos de qualquer expressão humana, embora um sorriso milimetricamente calculado, totalmente desprovido de calor, rasgasse seus lábios:

— Um bom dia ao senhor, Herr Müller — a voz do homem saiu pausada, com a inflexão ríspida dos quadros da capital. — O turno amanheceu calmo no distrito. Espero sinceramente que todos os ocupantes do seu apartamento estejam gozando de perfeita saúde.

O sangue de Thomas congelou nas veias. Cada palavra pronunciada pelo novo porteiro ressoou na acústica do saguão não como um cumprimento, mas como um diagnóstico de execução: a SD de Dieter Schneider instalara uma sentinela na soleira de seu prédio.

Thomas forçou os músculos do rosto a relaxarem, devolvendo um aceno mecânico com a cabeça, sustentando o disfarce de serenidade que aperfeiçoara na clandestinidade:

— Bom dia. A rotina segue sem novidades. Bom trabalho no seu novo posto.

Sem esperar trégua, Thomas acelerou os passos até a cabine do elevador de pantógrafo. Ao cruzar a pantográfica de ferro e acionar o botão do quinto andar, sentiu os olhos do homem na guarita cravados em suas costas como duas agulhas até o momento em que a grade se fechou.

No interior do elevador, o rangido das correntes parecia ensurdecedor. Thomas encostou a nuca na parede de madeira e soltou o ar do peito num bufar violento, o suor frio escorrendo por sua têmpora. A margem de manobra evaporara.

Ao atingir o andar, Thomas nem sequer esperou o alinhamento completo da cabine. Empurrou a grade de metal, percorreu o corredor a passos largos e abriu a porta do apartamento 503 com um sobressalto, girando a chave na fechadura com força.

No interior da sala, o aroma de sabão de alfazema indicava que a rotina de limpeza transcorria. Jennifer, que passava um pano sobre o aparador de mogno, virou-se assustada com o baque da porta, enquanto Lena Goldstein emergia da cozinha com uma flanela nas mãos.

Thomas soltou as sacolas de mantimentos sobre o tampo da mesa com um ruído abafado, a respiração arfante e o olhar desprovido de qualquer hesitação tática.

— Nós temos que abandonar este edifício agora — Thomas decretou, a voz num tom baixo, ríspido e urgente. — Hoje. Jennifer, arrume as suas coisas. Todos nós vamos sair.

Jennifer largou o pano sobre o móvel e aproximou-se do marido a passos rápidos, levando as mãos aos ombros dele, tentando conter o pavor que começava a tomar conta do ambiente:

— O que aconteceu lá embaixo, Thomas?! Diga-me o que houve!

— O velho da guarita sumiu — Thomas explicou, as palavras atropelando-se na garganta enquanto ele segurava os braços da esposa. — A SD colocou um agente disfarçado na recepção. Ele acabou de me mandar um recado velado sobre os 'moradores do meu apartamento'. O Schneider não está mais apenas especulando, ele trancou o perímetro. O cerco fechou sobre nós.

Lena, que permanecia a dois passos do corredor baixou os olhos devagar. O pavor inicial que a acompanhara nos últimos dias deu lugar a uma clareza fria e dolorosa. Ela deu um passo à frente, a voz saindo firme, quebrando o pânico dos dois:

— Não. Vocês não vão abandonar a sua casa por minha causa. O Thomas não vai arruinar a vida da família dele. Eu é quem preciso ir embora.

Thomas girou sobre os calcanhares, aproximando-se da jovem com o rosto inflamado pela preocupação:

— Ficou maluca, Lena?! As falsificações das suas credenciais de trânsito ainda não chegaram do ateliê clandestino! Se você pisar no centro de Viena sem papéis e com as blitzes reforçadas, a Gestapo vai prendê-la antes que alcance a estação ferroviária! Nós vamos sair juntos. Eu ainda sou um Investigador do Distrito e posso forçar a passagem no posto de saída com a minha credencial de serviço!

— Thomas, olhe para mim! — Lena cortou-o, erguendo o queixo e cravando seus olhos azuis diretamente nos dele com uma determinação absoluta. — O senhor já fez mais por mim do que qualquer ser humano fez em dezoito anos! Você arriscou a sua farda, a sua esposa e a sua filha por uma desconhecida! Eu não vou permitir que a sua história termine numa cela de tortura em Berlim por minha causa. A minha decisão está tomada: vou encontrar o meu irmão na Hungria, custe o que custar. Com ou sem papéis falsos.

Thomas sustentou o olhar de Lena, o peito arfando, as palavras colando na garganta diante da dignidade inabalável da garota que ele resgatara da lama.

Do outro lado da sala, Jennifer observava a cena em silêncio.

A cumplicidade profunda entre os dois, a admiração nos olhos do marido e a intensidade daquele momento atingiram Jennifer como um golpe no peito. Um veneno silencioso de ciúme e exclusão corroeu suas entranhas, misturando-se ao alívio de perceber que a ameaça que pairava sobre a sua família estava prestes a cruzar a porta para sempre.

Jennifer deu dois passos à frente, interrompendo o olhar de Thomas e Lena com uma frieza decidida, o tom de voz caindo para uma polidez distante:

— A Lena está certa, Thomas. Ela é adulta e sabe exatamente o preço das escolhas dela. E nós não temos o direito de atrasar o destino de ninguém.

Jennifer virou-se para a garota, forçando um sorriso cortês que não alcançou seus olhos:

— Venha comigo ao quarto, Lena. Vou ajudá-la a organizar as últimas peças na mala para que você possa partir.

Lena encarou Thomas por mais alguns segundos — um adeus silencioso e repleto de gratidão impresso em sua expressão —, assentiu com a cabeça para Jennifer e virou-se, acompanhando a dona da casa pelo corredor escuro, deixando o Investigador a sós com o peso sufocante da própria impotência.

Arredores de Viena, Galpão de Carga da Antiga Serraria — Naquela mesma manhã.

A claridade cinzenta e fria da manhã mal rompia as frestas da madeira gasta do mezanino. No canto mais escuro do cômodo de contenção, Heinrike Weber permanecia encolhida sobre o catre de palha. O vestido de algodão cru que vestia parecia um insulto ao seu passado de seda e veludo, mas a postura da viúva, mesmo destruída pelo choro da noite anterior, guardava uma altivez ríspida, quase animal.

O som arrastado da tranca de aço cortou o silêncio.

Joseph Bauer adentrou o recinto carregando uma pequena bandeja de madeira com duas mangas amarelas e uma maçã. O odor doce e fresco da fruta madura impregnou imediatamente o ar úmido e mofado da cela.

— Bom dia, senhora Weber... — Joseph saudou, a voz grave e pausada, sem qualquer traço de zombaria.

Heinrike não respondeu. Manteve os olhos fixos na parede de tábuas, o peito subindo e descendo num ritmo controlado.

Joseph ignorou a mudez da prisioneira. Caminhou com passos calmos até a mesa de canto, sentou-se na borda de madeira e sacou da bainha do cinto uma navalha tática de lâmina longa e afiada. Com movimentos firmes e metódicos, começou a descascar a manga. As tiras finas da casca amarela caíam sobre a bandeja enquanto o aroma da fruta se tornava mais denso.

Heinrike virou o rosto devagar. Seus olhos castanhos, cercados por olheiras profundas, travaram na lâmina de aço que brilhava sob o feixe de luz da janela.

Sem erguer a cabeça, Joseph captou a direção exata daquele olhar predatório. Um sorriso sutil, quase imperceptível, moldou o canto de seus lábios:

— Não me diga que a senhora está calculando a distância até o meu pescoço, senhora Weber? — ele comentou, mantendo o tom terrosamente calmo. — Aconselho a recalcular as variáveis. Eu passei anos na frente russa. Os meus reflexos não guardam qualquer semelhança com a lentidão do seu falecido marido.

Heinrike engoliu em seco. A voz dela saiu baixa, rouca, mas carregada de uma urgência desesperada:

— Me deixe sair daqui, Bauer... por favor. Eu não tenho nada para entregar a vocês.

— A senhora vai sair — Joseph respondeu, fatiando um pedaço suculento da manga e deixando-o sobre a madeira. — A única questão que o Conselho precisa responder é: que tipo de ameaça a senhora representará no segundo em que cruzar aquela porta?

— E qual é o plano de vocês?! — Heinrike ergueu a voz, a altivez aristocrática voltando às feições como uma máscara. — Manter-me encarcerada nesta cela de ratos até que eu desenvolva uma paixão conveniente pela causa da Orchestra? Acham que vão me converter pelo cansaço?

Joseph parou a navalha. Olhou diretamente nos olhos da mulher, sustentando uma gravidade absoluta:

— Eu quero que a senhora confie em nós, Heinrike. Mas para que essa rede arrisque a própria vida para lhe dar uma nova identidade lá fora... eu preciso saber exatamente de que lado a senhora está.

Em um movimento calmo, Joseph girou a navalha na mão e estendeu o cabo de madeira na direção de Heinrike, oferecendo a arma na palma aberta.

Heinrike paralisou. Olhou para o cabo da faca, olhou para o rosto calmo de Joseph e sentiu a adrenalina rasgar suas veias. Ela deu dois passos curtos e envolveu os dedos no cabo de madeira.

Joseph sorriu levemente. E foi no milissegundo exato daquele sorriso que Heinrike agiu.

Num surto cego de fúria e desespero, a viúva projetou o corpo para a frente com toda a força que lhe restava, golpeando com a lâmina diretamente contra a carótida do veterano.

Joseph, contudo, não piscou.

Com a velocidade de um combatente calejado, ele esquivou o pescoço para a esquerda, usou a mão esquerda para desviar a trajetória do pulso dela e cruzou a direita por cima, travando a articulação de Heinrike em um golpe de imobilização preciso. Ele girou o corpo de Heinrike com violência, prendendo-a de costas contra o seu peito e dobrando o braço dela para trás num ângulo doloroso.

A navalha escapou dos dedos trêmulos de Heinrike, caindo com um estalo seco sobre o assoalho.

— É... eu realmente nutria a esperança de que a senhora fosse mais inteligente do que isso — Joseph murmurou ao pé do ouvido dela, a voz fria como o inverno de Viena.

Ele empurrou Heinrike para a frente com firmeza. A mulher cambaleou e desabou de joelhos sobre o chão de concreto, arfando de dor e frustração.

Joseph abaixou-se, recolheu a navalha e a limpou no tecido da calça antes de guardá-la na bainha. Em seguida, pegou a bandeja de frutas intocada.

— Pela audácia de achar que um veterano de guerra se deixaria degolar, a senhora passará o dia em jejum.

Ele girou sobre os calcanhares e cruzou a porta de aço.

— Seu miserável! Volte aqui! — Heinrike esbravejou, levantando-se num salto e lançando-se contra a porta. — Me deixem sair daqui! Seus malditos! Achem que são santos, mas são cães! Me deixem sair!

Os murros desesperados de Heinrike ressoaram como marteladas no metal pesado. Do outro lado, Joseph desceu a escada de madeira do mezanino com passos calmos, ajustando o cinto.

No piso inferior, dezenas de operários e camponeses libertos das Indústrias Weber pararam o que faziam. Com pratos de sopa nas mãos e cobertores sobre os ombros, todos ergueram os rostos, assistindo em um silêncio estarrecido ao homem da resistência descer do andar superior enquanto os gritos furiosos da antiga patroa ecoavam pelas vigas da serraria. Joseph nem sequer olhou para os lados; apenas cruzou o pátio e sumiu no corredor de suprimentos, deixando o desespero da viúva afundar na poeira da própria derrota.

Residência da Família Schulz, Bairro de Grinzing — Naquela mesma manhã.

O tilintar da colher de prata contra a xícara de porcelana parecia desproporcionalmente alto na sala de jantar. O aroma do café forte e do pão de centeio recém-assado cobria a mesa, mas a atmosfera entre os três ocupantes era de uma rigidez asfixiante. A claridade fria da manhã atravessava as cortinas de renda, projetando sombras longas sobre o piso de madeira polida.

Erich mantinha os olhos cravados na própria xícara. O uniforme do Exército continuava pendurado no cabideiro do hall, substituído por um suéter sóbrio de lã escura. No entanto, a postura do jovem permanecia tensa, a espinha rija contra o encosto da cadeira.

Da cabeceira da mesa, o Sr. Schulz não tocou na refeição. Mantinha as mãos repousadas sobre a toalha de linho, o olhar gélido e inquisidor fixado na face do filho.

— Há quarenta e oito horas você não cruza a porta de entrada desta casa, Erich — a voz do patriarca cortou o silêncio, baixa, arrastada e carregada de uma gravidade perigosa. — E a nossa conversa daquela tarde continua inacabada.

Erich respirou devagar pelo nariz, girando a xícara no pires sem erguer os olhos:

— O senhor já tirou suas próprias conclusões sobre os relatórios do distrito, pai. Eu não sou obrigado a moldar minhas respostas para encaixá-las no julgamento que o senhor decidiu fazer.

— Você tem a audácia de ser evasivo comigo sob o meu próprio teto?! — o Sr. Schulz deu um soco pausado na mesa, fazendo a louça estalar. — Vai negar abertamente que o seu nome está manchado com essa corja de ratos que é a Orchestra?!

— Eu não... — Erich começou, tentando manter o tom sob controle.

— Cale a boca! — o pai o interrompeu num rosnado ríspido, o rosto corando pelo sangue quente. — Eu estou a um milímetro de colocar as suas malas na calçada e renegá-lo como filho.

A mãe de Erich, até então encolhida no canto oposto da mesa, soltou um arfar de choque. As mãos trêmulas largaram o bule de leite, e ela encarou o marido com os olhos arregalados de horror:

— Ficou louco, Helmut?! O que está dizendo?! Ele é o nosso único filho!

— Eu não solicitei a sua intervenção, mulher! — o Helmut Schulz rebateu sem sequer olhar para a esposa, a voz escorrendo veneno. — O seu filho é um desertor! Um traidor que teve a covardia de olhar nos meus olhos e mentir para o próprio pai sobre o que fez naquela mata!

A mãe de Erich baixou a cabeça, engolindo o choro e apertando o guardanapo contra o colo, incapaz de sustentar a violência do marido.

Erich colocou-se de pé num movimento brusco. A cadeira de carvalho rastejou para trás com um som estridente contra o assoalho. Ele projetou o corpo sobre a mesa, cravando as pupilas diretamente nas do patriarca:

— Vou para o meu quarto.

— Pense muito bem antes de chamar aquele cômodo de 'seu', Erich — o idoso respondeu, sem recuar um centímetro, sustentando o olhar do filho com um desprezo visceral. — Eu não tolerarei a sombra de um desertor envergonhando a farda e a honra deste sobrenome debaixo do meu teto.

Um silêncio sepulcral e denso desabou sobre a sala de jantar. O ódio represado entre pai e filho pulsava no ar como uma carga elétrica preste a explodir. Erich travou o maxilar, puxou o ar com força e girou sobre os calcanhares, caminhando a passos largos em direção ao corredor dos quartos.

O som da porta de madeira batendo no andar superior ecoou por toda a estrutura da casa.

Na sala, a mãe de Erich levantou-se num impulso, a voz falhando em um desespero abafado:

— Você não pode expulsar o nosso próprio filho de casa, Helmut! Para onde ele vai?! O que a polícia vai fazer com ele se estiver na rua sem posto?!

Helmut virou-se devagar para a esposa. O tom de sua voz caiu para um tom rasteiro, cortante e terrivelmente lúcido:

— Mantenha a sua voz baixa. A casa é minha, e a lei nesta província é implacável. Você porventura esqueceu como o Tribunal de Berlim lida com as famílias de traidores da pátria?

A mulher estancou, a respiração presa na garganta.

— Se o nome de Erich for vinculado formalmente àquela milícia — o pai continuou, inclinando o corpo na direção dela — não será apenas ele a enfrentar o paredão de execução. A Gestapo confiscará cada marco desta propriedade, os seus bens serão expropriados e você terminará os seus dias num campo de triagem para parentes de insurgentes. Se ele escolheu o lado errado nesta guerra, ele não vai arrastar esta família para a vala comum junto com ele.

A mãe de Erich encarou o marido em silêncio. A palidez de seu rosto era absoluta. Pela primeira vez, a ameaça da guerra deixara de ser uma propaganda no rádio para se instalar no coração de seu próprio lar, revelando que o cerco da paranoia já não deixava espaço para a compaixão — nem mesmo entre pai e filho.

Mansão da Família Weber, Sala de Estar Principal — Horas depois.

A penumbra da tarde invadira o opulento salão de estar da mansão. Onde outrora Andreas Weber recebia a elite industrial austríaca sob o brilho de lustres de cristal e o aroma de conhaque importado, repousava agora uma atmosfera de abandono e cinzas. Móveis cobertos por lençóis de proteção, móveis de mogno arranhados pela perícia e o cheiro persistente de fumaça e cera fria davam ao ambiente o tom de um mausoléu prematuro.

Dieter Schneider permanecia de pé junto à imensa lareira de mármore apagada. Ajustava devagar a fivela do relógio de pulso, o sobretudo cinza-chumbo perfeitamente alinhado, mantendo a postura ereta e a expressão impassível que o caracterizavam.

O som metálico de esporas e botas de couro marchando sobre o piso de taco anunciou a chegada.

O Major Hormählen adentrou a sala de estar. Não trazia a compostura de costume; sua farda ostentava o cansaço do dia, e o cenho franzido denotava uma irritação mal disfarçada. Logo atrás dele, dois praças da Gestapo mantinham-se a passos curtos, portando fuzis e ostentando braçadeiras pretas.

Hormählen estancou no centro do tapete persa, cruzando os braços e cravando um olhar ríspido no homem da SD:

— Eis a escolta operacional que posso disponibilizar para a sua diligência fora do perímetro, Schneider. Dois agentes da minha guarda pessoal.

Schneider nem sequer piscou. Virou a cabeça devagar, varrendo os dois praças de cima a baixo com um olhar clínico, quase desdenhoso, antes de voltar suas pupilas gélidas para o rosto do Major.

— Se eu não conhecesse a fundo o seu zelo burocrático, Hormählen... juraria que o senhor está orquestrando uma sabotagem deliberada contra o meu inquérito — Schneider comentou, a voz num tom terrosamente calmo, desprovida de qualquer alteração de ritmo.

— Meça suas palavras, Investigador — Hormählen cortou-o num rosnado baixo. — O efetivo sob meu comando está mobilizado em patrulhas de varredura por toda a província.

— O meu requerimento por um contingente de escolta foi assinado e protocolado neste gabinete há exatamente quatro horas, Major — Schneider rebateu, dando um passo lento à frente, reduzindo a distância entre os dois. — Eu deveria ter deixado esta propriedade antes do meio-dia. E o senhor me retorna após todo este tempo entregando apenas dois praças recém-recrutados? Isso não parece escassez tática; parece a birra pueril de um oficial tentando disputar o controle de uma jurisdição que já perdeu.

Hormählen inflamou o rosto, o rubor subindo-lhe pelo pescoço. Ele deu meio passo na direção de Schneider, a mandíbula travada:

— Pense o que bem entender nos seus relatórios para Berlim, Schneider. A realidade tática do terreno é esta: a sua escolta limita-se a estes dois homens. Se a cota não satisfaz o seu padrão de exigência aristocrático, faça a sua reclamação por escrito diretamente à Chancelaria.

Sem aguardar resposta, Hormählen girou sobre os calcanhares com uma brusquidão militar e marchou de volta em direção ao corredor dos gabinetes, o som de seus passos ecoando até desaparecer.

Schneider acompanhou a retirada do oficial com uma indiferença cirúrgica. Não havia irritação em suas feições, apenas a confirmação fria de um diagnóstico esperado.

Um dos praças da Gestapo, visivelmente desconfortável com a tensão entre os superiores, deu meio passo à frente e bateu a continência com hesitação:

— Quais são as suas determinações, Herr Investigador? Para onde devemos deslocar a viatura?

Schneider caminhou até a mesa de canto, tomou seu chapéu de feltro e colocou-o com extrema precisão sobre os cabelos loiros, ajustando a aba com a ponta dos dedos enluvados. Ele virou o rosto devagar para o guarda, um leve e terrível esboço de sorriso moldando seus lábios:

— Para o centro de Viena, soldado. Tenho uma visita cortesia para prestar a um amigo de profissão.

Apartamento dos Müller, Centro de Viena — Pouco depois.

No interior do quarto, a penumbra trazia um silêncio quase sagrado. Jennifer fechou o fecho de metal da mala preta de couro surrado, onde acomodara dois conjuntos de roupas sóbrias, um par de sapatos sobressalente e um envelope de papel pardo contendo marcos alemães e notas húngaras.

Lena permanecia de pé diante do espelho da penteadeira. Ajustou a gola do sobretudo longo de lã preta, alisou o tecido pesado e calçou as luvas de pelica escura, cobrindo cada centímetro da pele das mãos calejadas pelo trabalho forçado. Ela ergueu a cabeça e encarou o próprio reflexo.

— A transformação é impressionante, Lena — Jennifer comentou, o tom mudo, aproximando-se para ajeitar a lapela do casaco. — A sua postura mudou. Ninguém que a cruzar na rua enxergará a garota dos relatórios de busca.

— Espero que os guardas da estação enxerguem o mesmo que você, Jennifer — Lena murmurou, a voz falhando num sopro de ansiedade contida.

Três batidas curtas, cadenciadas e secas ressoaram na porta de entrada.

A atmosfera no apartamento congelou instantaneamente. Jennifer travou a respiração, e Lena colocou a mão sobre o peito, onde o coração disparara num ritmo desordenado. Na sala de estar, Thomas Müller aproximou-se da porta com passos mudos, a mão repousada na empunhadura do revólver sob a jaqueta. Ele encostou o rosto no olho mágico.

Do outro lado do metal, no corredor mal iluminado, estava Franz Krüger. Ao seu lado, mantendo-se estrategicamente no ângulo cego da escadaria, estava uma mulher jovem, loira, de estatura e porte físico notavelmente semelhantes aos de Lena. Ela trajava um sobretudo escuro de corte idêntico, trazia o capuz dobrado sobre a cabeça cobrindo parte do rosto e segurava uma mala de couro do mesmo modelo.

Thomas destravou a tranca dupla e abriu a porta até a metade.

— Entre rápido — Thomas ordenou num sussurro ríspido.

Franz e a mulher cruzaram o limiar, e a porta fechou-se com um clique abafado. Thomas varreu a desconhecida com um olhar clínico e rigoroso:

— Esta é a substituta que você conseguiu na rede?

— É a Greta — Franz respondeu, mantendo a voz baixa e pragmática. — A estrutura física é idêntica e os traços da linha do maxilar passam pelo olhar rápido de uma sentinela. Quando subimos pelo elevador, o agente disfarçado na guarita me viu entrar acompanhado por uma mulher de sobretudo escuro e mala de couro. Quando eu descer em seguida com a Lena vestindo o mesmo figurino e o capuz alinhado, para a contagem visual do vigia será exatamente a mesma pessoa saindo. A Greta permanecerá no seu apartamento até a noite para manter o número de ocupantes intacto.

Jennifer emergiu do corredor trazendo a mala de viagem, entregando-a nas mãos enluvadas de Lena. A dona da casa sustentou o olhar da jovem por dois longos segundos, e a frieza que demonstrara momentos antes dissolveu-se em uma compaixão sincera e dolorosa:

— Que a sua jornada seja segura, Lena. Fique atenta a cada detalhe.

— Obrigada por tudo, Jennifer... — Lena respondeu, a voz embargada, envolvendo a mulher num abraço rápido e apertado. — Eu jamais saberei como pagar pelo que você e o Thomas arriscaram sob este teto.

Em seguida, Lena deu dois passos até Thomas. O Investigador de trinta anos mantinha a coluna ereta, mas a tensão em seu rosto era evidente. Lena aproximou-se e envolveu o peito dele num abraço de despedida, descansando o rosto contra o ombro da jaqueta dele:

— Você foi o meu protetor quando eu não tinha nada além de medo, Thomas. Nunca esquecerei o seu nome.

Thomas fechou os olhos por um segundo, retribuindo o abraço com uma firmeza paternal. Ao afastar-se devagar, uma lágrima solitária e imperceptível traçou um rastro rápido por sua bochecha antes de ele enxugá-la com o dorso da mão.

— Está chorando? — Indagou Lena, incrédula.

— Não diga bobagens, garota... Apenas siga o plano — Thomas disse, a voz ligeiramente rouca, forçando o tom profissional enquanto indicava a saída. — Vá direto para a Estação Central sem olhar para os lados. No fundo da sua mala há um envelope com um passaporte de emergência e um endereço em Budapeste. O contato da Orchestra estará esperando no café da plataforma três.

— O tempo acabou — Franz interveio, ajustando a jaqueta e conferindo o relógio. — O agente da guarita faz a ronda de corredor a cada vinte minutos. Precisamos aproveitar a janela.

A mulher chamada Greta retirou o capuz e acomodou-se em silêncio numa das cadeiras da sala de estar, assumindo a posição de permanência. Lena puxou o capuz de seu próprio sobretudo, cobrindo a testa e sombreando a metade superior do rosto, exatamente na mesma angulação em que Greta entrara.

— Vamos — Franz murmurou, abrindo a porta do apartamento.

Lena deu um último olhar para o casal Müller, pegou a alça da mala de couro e pisou no corredor de carpete.

Saguão do Edifício — Dois minutos depois.

O barulho metálico das correntes do elevador de pantógrafo anunciou a chegada ao térreo. Quando a grade de ferro correu para o lado, Franz Krüger deu o primeiro passo para o saguão, mantendo uma postura relaxada, porém firme. Logo atrás dele, com a cabeça levemente inclinada para baixo e a mala de couro presa na mão direita enluvada, Lena caminhava a passos medidos, controlando o ritmo do peito para não trair o pavor que a consumia.

Atrás do balcão de madeira da guarita, o falso porteiro da SD levantou os olhos do jornal. Seus olhos gélidos varreram a dupla que cruzava o hall. Ele observou a mulher de sobretudo escuro, notou a mala de viagem, conferiu o capuz que ocultava os traços superiores e fez a associação imediata com a figura que vira subir acompanhada minutos antes.

O homem abriu um sorriso terrivelmente polido, inclinando a cabeça com uma falsa cortesia funcional:

— Tenha um excelente dia de trabalho, Herr Krüger. E um bom passeio à sua acompanhante.

Franz nem sequer diminuiu o ritmo dos passos; apenas ergueu a mão num gesto displicente de despedida sem olhar para trás:

— O mesmo para o senhor. Mantenha o saguão em ordem.

Lena não emitiu um único som. Manteve os olhos cravados no piso de mármore e acompanhou Franz através da pesada porta de ferro e vidro do edifício.

O ar gelado da manhã de Viena atingiu o rosto de Lena como um choque de realidade assim que eles pisaram na calçada. Sem hesitar, Franz conduziu-a até o sedã escuro estacionado junto ao meio-fio, abrindo a porta do carona para que ela entrasse. No segundo em que a porta do veículo fechou-se e o motor engrenou, Lena encostou a nuca no estofado e soltou o ar que prendera nos pulmões, enquanto o carro acelerava pelas ruas cobertas de neblina rumo à estação.

Estação Central de Viena — Pouco depois.

O saguão de embarque da estação era um abismo de vapor cinzento, chiados de caldeiras e o eco distante de apitos de locomotivas. O ar cheirava a fuligem de carvão e metal queimado. Patrulhas ostensivas da Gestapo e soldados do Exército circulavam entre as plataformas com fuzis em riste, abordando viajantes, checando malas e retendo dezenas de passageiros para interrogatórios sumários.

Contudo, ao lado de Franz Krüger, que ostentava a túnica impecável e a insígnia reluzente de Investigador Pleno do Distrito no colarinho, o espaço ao redor parecia abrir-se num corredor de imunidade absoluta. Os guardas apenas batiam continência ou desviavam o olhar diante da autoridade da credencial.

Junto ao estribo de ferro do vagão de passageiros do trem com destino a Budapeste, Lena estancou por um segundo. Ajustou o capuz do sobretudo preto e apertou a mala contra o corpo, o peito arfando sob o peso daquele último passo.

Ela virou-se devagar para Franz, encarando-o com uma gratidão imensa:

— Se cuide, Herr Krüger... Por favor.

— Se cuide você, senhorita Goldstein — Franz respondeu, mantendo o tom baixo e a postura ríspida de um oficial de serviço. — Quando o trem cruzar a fronteira de sopé, o pesadelo de Viena fica para trás. Não olhe para os lados.

Lena assentiu com a cabeça, subiu os degraus de ferro do vagão e desapareceu no corredor interno de madeira.

Franz acompanhou a partida até que a locomotiva soltasse o primeiro silvo de vapor, fazendo as rodas de aço rangerem contra os trilhos. Ele girou sobre os calcanhares, abriu caminho entre a multidão de passageiros e caminhou de volta ao pátio externo. Soltou um suspiro longo, um leve e imperceptível sorriso de alívio rasgando seus lábios enquanto ele adentrava o sedã e arrancava pelas ruas cobertas de neblina.

Apartamento dos Müller — Minutos depois.

Três batidas pesadas, violentas e impacientes socaram a porta de carvalho do apartamento 503, fazendo a madeira estalar na armação de ferro.

O som seco fez Thomas erguer-se do sofá num salto, o corpo em prontidão tática imediata. Na sala, Jennifer travou o movimento das mãos sobre o colo, e a jovem Greta, mantendo a postura instruída por Franz, ajeitou-se no estofado da poltrona.

— Já vai! — Thomas projetou a voz com autoridade, caminhando até a entrada e abrindo a porta sem demonstrar hesitação.

No corredor mal iluminado, a figura alta e cinzenta de Dieter Schneider ocupava o limiar. Mas desta vez ele não estava só. Logo atrás dele, dois praças da Gestapo portando submetralhadoras mantinham as mãos sobre as empunhaduras de couro.

— Herr Schneider... — Thomas saudou, a voz perfeitamente modulada, mantendo o corpo como barreira funcional. — A que devo a honra de mais uma visita? E vejo que desta vez veio com escolta de combate.

— Mil perdões pela inconveniência do horário, Herr Müller — Dieter respondeu, a voz num tom macio, mas desprovido de qualquer calor, enquanto tirava devagar a luva de couro preta da mão direita. — Mas o meu dever em relação ao inquérito exige que eu elimine até a última das minhas dúvidas operacionais.

— Suas dúvidas? — Thomas franziu o cenho com uma perfeita dose de perplexidade profissional.

— Digamos que um passarinho civil que operava como vigia neste quadrante decidiu cantar para a inteligência da SD — Dieter disse, dando meio passo à frente, obrigando Thomas a recuar um centímetro. — Ele alegou ter testemunhado uma jovem loira, de traços específicos, adentrar este edifício na companhia de um dos seus colegas... e não ter registrado a saída de nenhuma mulher até a alvorada. Eu adoraria ouvir o esclarecimento formal sobre a presença dessa jovem.

Thomas manteve as pupilas cravadas nas de Dieter sem piscar. Em seguida, deu meio passo para o lado e indicou com a mão a figura de Greta, que permanecia sentada na sala de estar ao lado de Jennifer, vestindo o sobretudo escuro e segurando uma xícara de chá.

— O seu 'passarinho' refere-se à senhorita Greta? — Thomas indagou com uma leve ironia na voz. — Ela é uma colaboradora da secretaria distrital e esteve aqui a meu pedido para organizar relatórios do caso Weber durante a madrugada.

Greta levantou o rosto devagar e ofereceu a Dieter um aceno discreto e polido com a cabeça.

Dieter encarou a moça no sofá por dois longos segundos. O contorno do maxilar, a cor dos cabelos e o sobretudo escuro correspondiam milimetricamente à descrição visual colhida pelo vigia. Um sorriso sutil e perigosamente árido moldou os lábios do homem de Berlim.

Ele virou o rosto para os dois agentes da Gestapo no corredor e deu a ordem sem alterar o tom de voz:

— Vasculhem cada cômodo do apartamento. Armários, sótão e assoalhos.

— Não creio que uma varredura armada no meu lar seja uma medida necessária ou profissional, Investigador... — Thomas interveio, a voz endurecendo um tom.

Dieter deu um passo largo, aproximando o rosto a milímetros da orelha de Thomas. O cheiro de tabaco e couro do homem da SD era sulfuroso. Ele murmurou num tom rasteiro, cortante e terrivelmente confidencial:

— O senhor porventura estaria contestando um procedimento padrão da SD, Herr Müller? Ou estaria ocultando inimigos declarados do Reich sob o seu próprio teto?

— Isso é uma acusação formal gravíssima, Schneider — Thomas sustentou o olhar gélido, o queixo erguido.

— Se não há nada a esconder, a verificação de rotina dos meus homens não trará o menor prejuízo à sua reputação, certo? — Dieter rebateu, os olhos azuis faiscando de expectativa predatória.

Thomas ergueu as duas mãos em um gesto calculado de rendição e paciência burocrática:

— Pois bem. Faça como achar conveniente. Mas enquanto os seus praças reviram os quartos, o senhor não gostaria de se acomodar e aceitar uma xícara de café quente? A revista pode ser demorada.

Dieter encarou Thomas por mais um segundo. Um sorriso frio de canto de boca rasgou suas feições — a expressão de um enxadrista que aceitava um movimento ousado no tabuleiro.

— Seria uma indelicadeza recusar, Herr Müller.

Dieter retirou o chapéu de feltro, caminhou com passos cadenciados até a sala de estar e acomodou-se na poltrona principal, cruzando as pernas com extrema elegância, enquanto o som abafado de botas militares e portas de armário sendo escancaradas começava a ecoar pelo corredor dos quartos.

Os dois praças da Gestapo moveram-se pelo apartamento como cães de caça farejando presas invisíveis. O som seco de portas de armários sendo escancaradas, colchões deslocados e assoalhos vistoriados com a coronha das submetralhadoras ecoava pelo corredor dos quartos, quebrando a paz do lar dos Müller.

Na sala de estar, a cena era de uma quietude sufocante.

Dieter Schneider permanecia acomodado na poltrona de couro, pernas cruzadas com elegância, saboreando pequenos goles do café preparado por Jennifer. Seus olhos gélidos varriam cada detalhe do ambiente — desde a postura rígida de Thomas junto à janela até a compostura impecável de Greta na cadeira oposta. Jennifer mantinha-se de pé perto do aparador, as mãos entrelaçadas, o peito subindo e descendo num esforço sobre-humano para ocultar a adrenalina que lhe queimava as veias.

Vinte minutos se passaram. Vinte minutos em que cada tique-taque do relógio de parede soava como uma contagem regressiva para a morte.

Finalmente, os passos pesados dos dois soldados retornaram ao hall de entrada. O praça no comando da varredura bateu os calcanhares diante de Dieter, o semblante frustrado:

— Nenhuma irregularidade encontrada, Herr Investigador. O apartamento abriga apenas os residentes declarados e a senhorita. Não há vestígios de fundos falsos, documentos ocultos ou terceiros no perímetro.

A notícia caiu na sala como um golpe silencioso. Jennifer soltou o ar imperceptivelmente pelo nariz, e Thomas sustentou a postura ereta, sem deixar que o menor traço de alívio traísse seu autocontrole.

Dieter não demonstrou surpresa ou desapontamento. Ele apenas pousou a xícara de porcelana sobre o pires na mesa de centro, produzindo um tilintar metálico e limpo. Acomodou as luvas de couro na mão esquerda, colocou-se de pé num movimento lento e caminhou em direção à saída, onde pegou seu sobretudo cinza-chumbo e ajustou o chapéu de feltro sobre os cabelos loiros.

Thomas acompanhou-o até o limiar da porta, mantendo a voz perfeitamente modulada na autoridade que o cargo lhe conferia:

— Como eu disse, Schneider... a polícia do distrito opera sob o rigor da lei. O seu 'passarinho' apenas viu a chegada de uma colaboradora e formulou ilações levianas.

Dieter estancou no corredor. Girou devagar sobre os calcanhares, ajeitando a aba do chapéu com a ponta dos dedos. Um sorriso árido, cortante e terrivelmente consciente desenhou-se em seus lábios finos — o olhar de um caçador que, embora tivesse perdido a caça na fresta do tempo, sabia exatamente qual trilha ela tomara.

Ele aproximou-se um passo de Thomas, baixando o tom de voz:

— Parece que eu me enganei. Estranho... Por que não costume me enganar.

— Todos cometemos erros, Schneider. — Disse Thomas.

Dieter sorriu e disse: — Tem razão, senhor Müller. Desculpe o inconvincente. Nos vemos por aí.

Então deu as costas, fez um sinal com a mão para os dois praças da Gestapo e caminhou a passos cadenciados pelo corredor, deixando para trás um rastro de gelo e a incerteza no olhares dos presentes.