A Reacionária
8 ANTES DA CHUVA
Wittenberg, Alemanha — Inverno de 1943.
O inverno daquele ano cobria os telhados góticos de Wittenberg com uma camada espessa de neve suja, mas o gelo não era capaz de frear a urgência da guerra. As avenidas centrais fervilhavam com o som ríspido de correntes de pneus contra o asfalto úmido, o burburinho tenso de civis apressados nas filas de racionamento e o eco distante de canções militares que saíam dos alto-falantes dos postes. O medo, camuflado pela rotina, ditava o ritmo da massa.
No meio da multidão compacta que se espremia pelas calçadas, Stefan Goldstein, aos dez anos de idade, avançava como podia. Seus nós dos dedos estavam brancos pelo frio enquanto ele puxava a mão pequena de sua irmã de quatro anos, Lena. A garotinha, envolta em um casaco de lã remendado, chorava aos berros, as lágrimas congelando em suas bochechas rosadas. Eles haviam se desencontrado do pai há menos de dez minutos, bastando um solavanco do fluxo de pedestres perto da praça do mercado para que a silhueta protetora de Wilhelm desaparecesse na névoa.
Stefan sentia o estômago queimar de pânico, mas mantinha o queixo erguido, os olhos castanhos vasculhando desesperadamente o mar de sobretudo escuros. Alguns adultos passavam e lançavam olhares desconfiados para as duas crianças sozinhas, mas ninguém parava; a apatia da sobrevivência ensinara a cidade a ignorar o problema alheio.
Desesperada e assustada pelo barulho, Lena soltou-se do aperto do irmão e correu em direção à via, tentando cruzar o meio-fio de uma vez. O rugido de um motor cortou o ar. Um veículo militar preto surgiu da curva, os pneus cantando no gelo enquanto o motorista fincava o pé no freio.
Em um reflexo puro e visceral, Stefan projetou o corpo para a frente, agarrou Lena pelo colarinho do casaco e a puxou de volta para a calçada um segundo antes de o pára-lama de metal cortar o espaço. O veículo passou raspando, espirrando água suja e neve derretida contra as botas deles.
— Lena! Devagar! Segure a minha mão e não solte! — Stefan sibilou, a voz trêmula de adrenalina enquanto ajoelhava-se por um instante para firmar os ombros da irmã, tentando conter o choro dela com o próprio corpo.
A movimentação brusca e o quase acidente na avenida, contudo, foram o estopim para o pior cenário. Do outro lado da rua, dois oficiais da Gestapo, vestindo os temidos casacos longos de couro escuro e quepes rígidos, pararam a patrulha. Seus olhos astutos travaram nas duas crianças. Com passos medidos e autoritários, eles cruzaram a via, a mão direita de um deles repousando casualmente sobre o coldre da pistola.
— Ei... vocês dois aí — o primeiro policial anunciou, parando a um metro de distância. A sombra de sua silhueta cobriu as crianças. — O que está acontecendo aqui? Vocês estão sozinhos?
Stefan levantou-se devagar. Seus olhos fixaram-se nas insígnias prateadas no colarinho do homem e na águia imperial estampada na farda. Aos dez anos, o menino já possuía uma compreensão dolorosa do que aqueles símbolos significavam para a sua família: o sumiço de vizinhos, os sussurros na cozinha e o choro contido de sua mãe à noite.
Instintivamente, Lena recuou, escondendo o rosto atrás das costas de Stefan e agarrando o tecido de sua calça curta.
— Onde está o pai de vocês, garoto? — o agente repetiu a pergunta, o tom endurecendo, desprovido de qualquer calor humano.
Stefan usou o próprio corpo franzino como um escudo para a irmã amedrontada. Seu coração martelava contra as costelas, mas ele forçou os músculos da face a se estabilizarem em uma expressão neutra, engolindo o terror que subia pela garganta.
— Não estamos perdidos, senhor — Stefan respondeu, a voz saindo surpreendentemente firme, moldada por uma esperteza que a necessidade lhe roubara da infância. — Nosso pai é um oficial. Ele mandou esperar exatamente neste ponto. Já está voltando.
O policial semicerrou os olhos, inspecionando o corte de cabelo de Stefan e a firmeza de sua postura. Ele ajoelhou-se até ficar na altura do menino, trazendo consigo o cheiro forte de tabaco e couro curtido.
— Um oficial, é? — o homem sorriu, um esgar cínico e incrédulo. — Bem, as ruas não são seguras para os filhos dos oficiais hoje em dia. Talvez nós devamos acompanhá-los até a central para checar os registros e ajudar a encontrar esse pai.
— Não é necessário, senhor policial — Stefan insistiu, dando um passo sutil para trás, mantendo Lena protegida. — Ele conhece o caminho. Já está vindo.
O agente soltou um suspiro ríspido, perdendo a paciência. Sem dar mais explicações, ele estendeu a mão enluvada e segurou o braço de Lena, puxando-a de leve para fora da proteção do irmão.
— Larga ela! Não toca nela! — Stefan explodiu, avançando e tentando empurrar o braço do homem com as mãos nuas, esquecendo o perigo em nome do pacto de sangue.
O segundo oficial deu um passo à frente, sacando o rádio portátil do cinto com um clique estrepitoso.
— Central, aqui é a patrulha do quadrante quatro. Temos duas crianças sem identificação ou acompanhamento no centro da avenida principal. Vou conduzi-las para a triagem de menores...
— Há algum problema de segurança por aqui, senhor policial?
A voz veio de trás, cortando a calçada como um comando militar de alto escalão. O tom era grave, cortante e emanava uma autoridade absoluta.
O agente da Gestapo que segurava o rádio estancou o movimento. O outro, ainda agachado, soltou o braço de Lena imediatamente e ergueu o corpo com uma rapidez militar. Ao girarem, depararam-se com Wilhelm Goldstein. Ele vestia a farda cinza-escura de oficial sênior, impecavelmente alinhada, com a Cruz de Ferro reluzindo contra o tecido do peito e o quepe projetando uma sombra severa sobre seus olhos azuis e penetrantes. Sua postura era a de um homem que comandava regimentos, não de quem respondia a patrulhas de esquina.
O policial que ia acionar a central bateu os calcanhares das botas instantaneamente, erguendo o braço no cumprimento oficial antes de empalidecer.
— Herr Capitão! — o homem gaguejou, ajeitando o quepe com os dedos trêmulos. — Apenas... patrulha de rotina e cumprimento dos decretos de segurança de menores. Estas duas crianças pareciam sem rumo na calçada após o quase incidente com o veículo, e eu...
— Acontece que estas duas crianças são meus filhos — Wilhelm o interrompeu rispidamente, a voz ecoando fria pelo cascalho da calçada. Seus olhos azuis fixaram-se nos guardas com um desprezo cirúrgico. — E eu não tolero que subordinados do distrito toquem nos meus herdeiros ou questionem a disciplina da minha família. Ficamos entendidos?
— Perfeitamente, senhor. Minhas sinceras desculpas — o guarda recuou um passo, envergonhado e paranoico diante do peso das condecorações de Wilhelm. — Estávamos apenas seguindo o protocolo de Berlim para a segurança do centro. Passar bem, Herr Capitão.
Os dois agentes da Gestapo giraram nos calcanhares e apressaram o passo, misturando-se rapidamente à multidão para escapar do escrutínio do superior.
Assim que as fardas de couro sumiram na névoa, a rigidez militar de Wilhelm desmoronou. Ele ajoelhou-se imediatamente no chão coberto de neve suja, abrindo os braços. Lena, cujos prantos haviam cessado pelo choque da aparição do pai, correu e jogou-se contra o pescoço dele, escondendo o rosto na gola de lã do uniforme. Stefan soltou uma lufada longa de ar, sentindo o peso do mundo escorrer por seus ombros de dez anos, e abraçou a cintura do pai.
Wilhelm envolveu os dois em um abraço apertado, colando o rosto nos cabelos loiros da caçula antes de pousar a mão direita, firme e calorosa, sobre a nuca de Stefan.
— Você foi extremamente corajoso, Stefan — o patriarca sussurrou, a voz carregada de um orgulho legítimo e emocionado. — Você se postou diante deles e protegeu a sua irmã. Agiu como um verdadeiro soldado.
Stefan ergueu os olhos, sentindo o peito inflar com uma dignidade que nenhuma opressão estatal conseguiria arrancar dele. O elogio do pai curou o medo.
Wilhelm afastou-se ligeiramente, olhando nos olhos do filho mais velho com a gravidade de quem transmitia um testamento em vida:
— Escute-me bem, meu filho. Não importa o que aconteça nas próximas curvas desta guerra... não importa o quão sombrio o mundo lá fora se torne. Fiquem sempre juntos. Proteja a Lena, Stefan. Prometa-me.
Stefan olhou para o semblante vincado do pai, depois para o rosto pequeno de Lena que o observava com total confiança. Com um sorriso sutil e um aceno de cabeça firme, ele selou o pacto silencioso.
— Eu prometo, papai. Nós nunca vamos nos separar.
Centro de Viena, cinco dias depois — Inverno de 1963.
A claridade pálida do sol da manhã cortava as cortinas da sala, iluminando o apartamento da família Müller. Thomas permanecia sentado no sofá de couro, desdobrando o jornal diário com movimentos firmes. O tempo e os dias de repouso forçado haviam jogado a seu favor: ele já estava sem os curativos, restando apenas cicatrizes discretas que começavam a fechar. Mas os olhos fixos nas manchetes de Berlim encobriam a verdade que ele ocultara meticulosamente de Jennifer: ele estava de volta ao caso. E, desta vez, ele iria até as últimas consequências, mesmo que a própria cúpula da Orchestra tivesse decidido recuar e engavetar a investigação.
O silêncio do ambiente foi quebrado pelo toque estridente do telefone na mesa lateral.
Thomas levantou-se em um impulso rápido. A dinâmica de seu corpo havia melhorado consideravelmente; as pontadas nas costelas já não o paralisavam como antes. Ele puxou o pesado gancho de baquelite preta do aparelho, respirou fundo e sibilou, acreditando que se tratava da voz que o convocara no Kranzler:
— Eu disse para não me ligar nesta linha...
— Senhor Müller? — a voz do outro lado desabou em tom de estranhamento. Era Franz. — Como assim? O senhor não falou absolutamente nada sobre eu não te ligar.
Thomas pigarreou, recalculando a postura de imediato enquanto limpava o tom de voz para manter a máscara familiar caso Jennifer estivesse por perto.
— Perdão, Franz. Eu pensei que era outra pessoa, uma cobrança do distrito administrativo. O que você quer?
— Eu passei essa semana inteira debruçado sobre esse caso dos Weber, senhor Müller — Franz desabafou, a voz saindo baixa e frustrada através do chiado metálico da linha. — Mas estou apenas arquivando relatórios estéreis. O conselho e a diretoria regional estão fazendo pouco caso do material que coletamos. Só querem usar os dados para contenção política. Eu realmente não sei se nós iremos conseguir derrubar o Andreas Weber com essa apatia deles.
Thomas calou-se por alguns segundos, os olhos fixos na fresta da janela.
— Não vai dizer nada, senhor Müller? — Franz indagou, incomodado com a mudeza do mentor.
— Eu preciso conversar com você pessoalmente — Thomas sentenciou, o tom de voz caindo para uma seriedade confidencial e definitiva. — Para isso, preciso que me encontre no centro, próximo à estação de trens. E garanta que vá sozinho.
Antes que Franz pudesse questionar a mecânica do encontro, Thomas bateu o telefone no gancho, cortando a transmissão.
Do outro lado da cidade, na cabine telefônica pública, Franz Krüger ouviu o sinal de ocupado ecoar em seu ouvido. Ele afastou o aparelho, bufou forte diante da arrogância habitual do detetive mais velho, mas permitiu que um sorriso sutil moldasse seus lábios.
— Esse cara... — resmungou o jovem espião, ajeitando a lapela do sobretudo antes de marchar em direção à calçada.
Fazenda das Indústrias Weber, arredores de Viena — Naquele mesmo instante.
O ar gélido e cortante do dia pesava sobre os campos da fazenda, anestesiando as mãos, mas não a mente dos trabalhadores. Lena Goldstein trabalhava ao lado de Martha, as duas movendo-se em um ritmo mecânico entre os sulcos da terra arada. Cinco dias haviam sido capazes de estabilizar, pelo menos na superfície, a rotina pesada da lavoura após o terror da madrugada no alojamento. No entanto, Lena sentia em cada fibra do corpo que algo estava prestes a acontecer; era uma intuição corrosiva, ela só não conseguia decifrar quando viria o golpe.
Aproveitando o instante em que o capataz do quadrante se afastava para checar o peso de um cesto, Martha inclinou o corpo na direção da jovem, desferindo um golpe fraco com a ferramenta para camuflar o diálogo:
— Os murmúrios no refeitório dizem que o soldado Erich foi solto da solitária hoje cedo — Martha soltou o sussurro, os olhos maduros vasculhando o chão.
Lena estancou os dedos por um breve segundo, o pulso acelerando. Ela olhou sutilmente ao redor, varrendo o perímetro com a esperança silenciosa de encontrar a silhueta do guarda entre os demais soldados fardados que vigiavam o algodão. Nada.
— E por que ele não voltou para este quadrante? — ela indagou, a voz tensa, quase sumindo no vento de inverno.
— Eu não sei, Lena. Mas sinto que eles não querem que a bota dele fique patrulhando o perímetro interno de alojamentos — disse Martha, a gravidade em suas feições fazendo a garota loira ficar pensativa. — Pelo menos, é o que parece.
— Será que eles... desconfiam de alguma coisa dele? — Lena inquiriu, engolindo em seco o pavor de que a conexão dele com a Orchestra tivesse sido descoberta.
— Seja o que for que eles desconfiam, eu acho que não veremos o soldado Schulz por aqui tão cedo — Martha sentenciou, baixando o corpo novamente sobre o trabalho e deixando Lena imersa em uma rigidez paranoica.
Quartel do Destacamento, Fazenda Weber.
A poucos metros dali, no bloco administrativo de concreto, Erich Schulz permanecia sentado na sala de espera de frente a uma pesada porta de ferro. Ele girava o quepe militar entre as mãos, os nós dos dedos empalidecendo enquanto aguardava ser chamado para o acerto de contas com o capitão que comandava aquele destacamento.
O clique metálico da fechadura ecoou no corredor. A porta de ferro se abriu e o soldado Meyer cruzou o umbral. Trazia um curativo cobrindo o maxilar e os olhos fixos no chão, retirando-se a passos rápidos sem lançar um único olhar na direção de Erich.
— Schulz. Entre — a ordem ríspida veio do interior do gabinete.
Erich levantou-se em um salto automático, bateu os calcanhares e caminhou em direção à sala. Ao adentrar o recinto, o Capitão Fischer tomou seu assento atrás da mesa de carvalho. Erich permaneceu estático, em pé próximo à porta, com a espinha rígida. Fischer ergueu os olhos cinzentos e fez um aceno ríspido para que o subordinado se acomodasse na poltrona à sua frente.
— Então, Schulz... O que exatamente o motivou a servir ao exército do Reich? — indagou o capitão, fixando suas pupilas cirúrgicas no rosto machucado do jovem.
— Senhor, o desejo ardente em servir à nossa Pátria-Mãe — Erich recitou o dogma com firmeza militar.
— E o que mais? — o capitão insistiu, inclinando-se ligeiramente para a frente, caçando qualquer desvio nas reações físicas do soldado.
— Sou filho de um combatente veterano que marchou com honra na segunda guerra, senhor. Então, vestir esta farda é uma honra para a minha linhagem.
Fischer soltou um suspiro curto, destituído de qualquer humor, e cruzou os dedos sobre a mesa.
— Você foi educado sob as diretrizes do Estado, Schulz, portanto entende perfeitamente que existem duas classes exatas de pessoas neste mundo: o sangue puro e o sangue impuro. As pessoas de sangue impuro não merecem a nossa atenção, muito menos a nossa proteção. Eles são, por definição, inimigos da nossa pátria. Você entende isso perfeitamente, soldado?
Erich respirou curto, sentindo o ar sumir do peito.
— Sim, senhor.
— Então, com essa lógica em mente, você compreende que a senhorita Goldstein é nossa inimiga natural e não deve, sob hipótese alguma, ser poupada ou protegida pelas suas botas. Correto?
— Sim... senhor — Erich respondeu. A palavra engasgou em sua garganta, um milissegundo de hesitação que não passou despercebido.
— Você realmente acredita em minhas palavras, Schulz?
— Sim, senhor capitão.
— Ouça-me bem, Schulz. Eu não quero ter que te punir de novo — Fischer declarou, a voz caindo para um tom perigosamente calmo e ameaçador. — O tenente Klein não tem o menor interesse em te colocar na sela de isolamento outra vez. Mas não ouse comprometer a nossa posição estratégica nesta província por causa de um paixonete carnal com o refugo do galpão. Não cometa o mesmo erro catastrófico que o pai dela cometeu no passado.
Erich franziu o cenho de maneira sutil, o estômago contraindo-se.
— Senhor?
— O Capitão Wilhelm Goldstein era um homem honrado, Schulz — Fischer revelou, recostando-se na cadeira de espaldar alto. — Um soldado impecável, portador da insígnia militar de grande bravura e honra nos primeiros anos da ascensão. Mas ele se deixou levar pelos impuros ao quebrar o protocolo e se envolver romanticamente com uma judia. Infelizmente para ele, as leis de Berlim são implacáveis; ele foi formalmente declarado inimigo da pátria e executado sumariamente junto com a esposa pelas patrulhas da SS.
O capitão apontou o dedo indicador rigidamente na direção do subordinado, fixando-o com um olhar de predador:
— A senhorita Goldstein possui o sangue daqueles que são biologicamente impuros aos olhos da nossa pátria. Se você esticar a corda e cometer o mesmo erro que o pai dela cometeu no passado... o mesmo fim exato acontecerá com você. Você está perfeitamente ciente da gravidade da situação, soldado?
Erich arregalou os olhos sutilmente na penumbra do escritório, o sangue congelando em suas veias. Ele engoliu em seco, processando o tamanho do segredo que acabara de desenterrar.
— Sim, senhor — declarou, a voz vazia de emoção.
— Dispensado, soldado. Volte para as linhas de patrulha externa.
Erich levantou-se rapidamente, bateu os calcanhares e caminhou em direção à saída. Ao fechar a pesada porta de ferro atrás de si, ele marchou pelo corredor cinzento com o pulso acelerado. Ele agora possuía informações cruciais que mudariam completamente a sua percepção sobre tudo: Lena não era apenas uma cativa comum; ela carrega uma história muito maior do que ele imaginava.
Mansão da Família Weber, arredores de Viena — Algumas horas depois.
O som do vento alpino fustigando as vidraças coloniais era a única companhia de Heinrike Weber. Com o estômago contraído pelo pânico e as glândulas salivares secas, ela vasculhava o escritório particular de Andreas. Cada ranger da madeira sob suas botas parecia o prenúncio de passos no corredor. O canivete tático dado por Thomas pesava contra a sua coxa, oculto sob as pregas do vestido de seda, funcionando como um lembrete gélido e constante de que não havia mais volta.
Seu marido não estava na propriedade, o que facilitava a busca, mas a paranoia a fazia olhar para trás a cada dois segundos. Heinrike agia com rapidez metódica: tateava atrás dos livros de capa dura nas estantes de mogno, inspecionava o verso dos retratos oficiais do Partido e revirava os fundos das gavetas da imensa escrivaninha de jacarandá. Ela já havia reunido uma quantidade considerável de papéis — memorandos de transporte rasurados e balancetes informais —, o suficiente para comprometer a integridade financeira de Andreas perante as auditorias econômicas de Berlim.
Ela deslizou os dedos trêmulos pela última gaveta lateral da mesa, pressionando as juntas de madeira do fundo. Um estalo oco revelou um fundo falso. No interior da fresta oculta, não havia maços de dinheiro ou relatórios, mas uma única chave de latão, pesada e de segredo complexo.
Heinrike pegou o metal frio, fechando a mão ao redor dele antes de guardá-lo no bolso interno do casaco. Respirou fundo, recompôs a postura, ajeitou o caimento do vestido e abandonou o recinto a passos firmes, trancando a porta de carvalho atrás de si.
Centro de Viena — Naquele mesmo instante.
No salão privativo do Kaiser Club, o estalo seco das bolas de marfim contra o feltro verde ditava o ritmo da conversa. Andreas Weber controlava o jogo de sinuca com uma calma arrogante, deslizando o taco entre os dedos enquanto analisava os ângulos da mesa. A poucos metros dali, Hans von Becker permanecia estático, observando os movimentos do companheiro de negócios com os braços cruzados e o semblante obscurecido pela gravidade das últimas atualizações da capital.
— Há registros circulando no alto escalão da SS de que Günther tem avançado de forma agressiva nas tratativas para uma ofensiva real contra as suas cercas, Andreas — von Becker começou, a voz caindo para um sussurro ríspido, garantindo que o som não passasse das vidraças vigiadas pela Gestapo. — Você compreende o objetivo final dele?
Andreas apoiou a ponta do taco no chão de madeira polida e ergueu os olhos, exibindo um sorriso raso e condescendente.
— Eu sei exatamente o que ele quer, meu caro von Becker, e já estou devidamente preparado — Andreas comentou, limpando o canto da boca com um lenço de linho. — Aquele sujeito pensa que é intocável e tem mais força do que eu simplesmente porque herdou parte da influência burocrática que pertencia ao ministro Himmler. Mas ele não passa de um burocrata arrogante que subestima o peso do setor privado. Está tudo sob controle. Se ele mover um único dedo contra o meu consórcio, um dossiê completo sobre os desvios de verba dele chegará diretamente às mãos da Chancelaria do Führer.
— Você perdeu o juízo? — von Becker deu um passo à frente, as feições contraídas pelo pavor. — Se a Chancelaria abrir uma investigação oficial sobre essa província e interceptar o volume de mão de obra oculta que você gerencia naquelas terras...
— O Günther sabe perfeitamente o tamanho do prejuízo que terá se tentar confiscar a senhorita Goldstein — Andreas o cortou, a voz mansa, tipicamente diplomática e implacável. — Ela é o calcanhar de Aquiles dele nesta auditoria.
— Mas você é ingênuo a ponto de achar que ele não encontraria uma brecha jurídica na Suprema Corte? — von Becker insistiu, ajeitando o anel de sinete no dedo. — As nossas leis de custódia para descendentes de traidores são deliberadamente subjetivas. Basta que ele tenha um único aliado de farda dentro do tribunal para que, com uma única canetada técnica, o Estado decrete a posse compulsória da garota e passe o trator por cima de suas fábricas por quebra de segurança nacional.
Andreas semicerrou os olhos, caminhando ao redor da mesa de sinuca até parar a poucos centímetros do aliado.
— O Ministro não é o único homem neste império que conhece a mecânica desse jogo — Andreas sibilou, o tom de voz caindo para uma frieza cortante. — Eu jogo xadrez com a burocracia de Berlim desde antes de ele aprender a assinar um memorando naquele palácio ministerial. Não subestime a minha lista de contatos na capital. Sugiro que o senhor se concentre exclusivamente nos seus negócios e deixe o perímetro das minhas indústrias em paz.
Von Becker soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça em sinal de profunda desilusão.
— Você continua o mesmo arrogante de sempre, Weber. Está disposto a arriscar a nossa segurança e colocar todo o consórcio em risco por causa de uma disputa de egos idiota entre você e o Ministério do Interior.
Andreas diminuiu a distância milimétrica até que seu peito quase tocasse o terno de von Becker, fixando-o com um olhar puramente ameaçador.
— Eu acredito ter sido bastante claro quando ordenei que se preocupasse apenas com os seus negócios... Hans.
O uso do primeiro nome, desprovido de qualquer título aristocrático ou formalidade, atingiu o homem como uma bofetada social. Von Becker travou o maxilar, os olhos faiscando de indignação com o insulto.
— Não ouse repetir o meu primeiro nome nesta mesa. Eu nunca lhe dei esse direito de intimidade, Andreas — declarou Hans von Becker, a voz vibrando com uma rigidez aristocrática impecável.
Andreas soltou uma risada ríspida, dando de ombros enquanto gizava a ponta do taco com total indiferença.
— Sugiro que mantenha a memória fresca, von Becker. Esqueceu-se de quem costurou o acordo financeiro junto à intendência militar para garantir que as suas fundições permanecessem sob o seu controle privado e não fossem canibalizadas pelo Estado? Fui eu. Portanto, não me amole com os seus temores burocráticos. Ou então seu primeiro nome será o menor de seus problemas.
Hans von Becker permaneceu estático por cinco longos segundos, engolindo a seco a humilhação diante do homem que financiava sua estabilidade. Soltando uma lufada de ar quente e ríspida, ele pegou seu chapéu de feltro sobre o balcão, virou as costas de uma vez e retirou-se do salão privativo, batendo as portas de vidro ao sair. Andreas manteve os olhos fixos na mesa, inclinou o corpo sobre o feltro verde e desferiu mais uma tacada cirúrgica.
Estação de Trem de Viena — Entardecer.
O vapor denso e acinzentado das locomotivas a carvão subia em colunas pesadas, misturando-se à névoa do final da tarde e obscurecendo as plataformas de ferro. Franz permanecia estático em um canto afastado, as mãos enterradas nos bolsos do sobretudo, os olhos vasculhando a movimentação de passageiros e soldados da patrulha que transitavam pelos trilhos. Ele mantinha o chapéu ligeiramente abaixado, usando a escuridão das vigas estruturais para não levantar suspeitas.
Passos firmes ecoaram no concreto úmido. Thomas Müller surgiu da penumbra. Sem o gesso visível ou os curativos que marcavam seu rosto dias atrás, ele trazia a gola do casaco erguida e um leve, quase imperceptível sorriso de canto.
Franz desencostou-se da parede de tijolos e foi direto ao assunto, a voz baixa batendo contra o barulho dos eixos metálicos dos trens:
— Eu realmente sinto muito pelo o que fiz no seu apartamento, senhor Müller... Fui forçado pelas circunstâncias.
Thomas ergueu a mão direita sadia, cortando o pedido de desculpas com um gesto ríspido.
— Não perca o nosso tempo com isso agora, Franz. A minha prioridade mudou completamente.
Franz franziu o cenho, avaliando a postura renovada do mentor.
— O que é tão urgente para nos fazer correr o risco de conversar nesta estação?
— Eu estou de volta ao caso Weber — Thomas revelou, inclinando-se ligeiramente na direção do rapaz. — E estou investigando o perímetro com o apoio de uma aliada de última hora. Uma peça interna.
— O quê? — O choque desarmou a expressão fria de Franz. — Ficou maluco?
— Por que a surpresa? — Thomas ironizou, sustentando o olhar do jovem espião. — Você realmente acreditou que as ameaças daquele conselho de velhos da Orchestra seriam capazes de me parar? E vamos ser honestos, rapaz... você não sabe mentir. No instante em que pisou na minha sala, eu soube perfeitamente que cada palavra sobre clemência e recuo não vinha da sua cabeça, mas deles.
Franz engoliu em seco, desviando o olhar por uma fração de segundo antes de insistir:
— Senhor Müller, a diretoria central...
— Esqueça a diretoria — Thomas o interrompeu de forma definitiva, o tom de voz assumindo o comando burocrático de sempre. — Eu preciso que você execute uma tarefa paralela para mim. Consiga os antigos camburões de transporte camuflados da Orchestra. Preciso de homens operacionais, balaclavas e armamento de infantaria.
Franz deu um meio passo para trás, os olhos arregalados.
— O quê? Como o senhor espera que eu desvie essa estrutura sem o aval da célula? E o que exatamente você está planejando fazer com isso?
— Converse diretamente com o Joseph — Thomas instruiu, a voz firme e rasteira. — Ele gerencia os contatos históricos da rede, os antigos veteranos e dissidentes dos anos 40 que não se curvam à covardia desse novo conselho. Eles vão conseguir o que precisamos. Nós vamos invadir aquela propriedade e resgatar aquelas pessoas, Franz. Cada uma delas.
— Thomas, você perdeu o juízo de vez — Franz sibilou por entre os dentes, o pânico operando sob o tom sussurrado. — Está sugerindo que a gente ataque a fazenda principal dos Weber, um perímetro abafado de soldados da Gestapo e capatazes armados, usando fuzis velhos e homens cansados da reserva? Isso não é uma operação, é um suicídio estatístico.
— Não se o ataque for cirúrgico e houver uma brecha na segurança — Thomas rebateu com uma lucidez aterradora. — Eu encontrarei a minha aliada hoje à noite para recolher as provas contábeis definitivas. Amanhã cedo, vou encaminhar um novo dossiê, muito mais robusto e violento, diretamente para Berlim.
— Mas nós já tentamos a rota burocrática antes e o senhor quase terminou morto em um beco! — Franz relembrou, a frustração escalando. — O Andreas Weber é praticamente intocável dentro do Ministério do Interior por causa dos contratos de fardamento.
— O alvo desta nova denúncia não é o empresário Weber, Franz — Thomas explicou, os olhos brilhando com a frieza de quem armava o xeque-mate. — O alvo agora é o próprio Ministro Günther von Bismarck.
Franz estancou, processando o impacto daquela mudança de curso.
— Como é?
— Quando esse dossiê chegar à Chancelaria e ligar Günther von Bismarck às contas da Suíça e ao desvio de trabalhadores, o jogo muda — Thomas disse, sem desviar os olhos de Franz. — O Führer não perdoa esse tipo de traição. Berlim fará o resto.
Franz permaneceu em silêncio. Thomas deu mais um passo.
— A Gestapo da capital vai descer naquela fazenda. Günther cairá. Weber ficará ocupado demais tentando salvar a própria pele.
Um lampejo atravessou o olhar do jovem.
— ...e é aí que entramos.
Thomas assentiu.
— No meio do caos. Com os camburões. Tiramos todos de lá.
Franz permaneceu imóvel por longos dez segundos, a testa franzida enquanto desmontava e reconstruía a mecânica do que acabara de ouvir. A ideia era de uma audácia assustadora e, apesar de flertar diretamente com o impossível nas atuais circunstâncias do Reich, era a única rota lógica capaz de quebrar o tabuleiro.
— É uma jogada violenta, Senhor Müller... — Franz admitiu, ajeitando o chapéu enquanto um brilho de determinação renovada surgia em suas pupilas.
— É a única jogada que nos resta. Vou pegar algumas coisas por aqui agora. Sugiro que saia daqui agora e me encontre na cafeteria mais tarde, temos trabalho a fazer. — Thomas sentenciou, virando as costas e sumindo entre o vapor da plataforma, deixando o jovem espião sozinho com o peso do novo cronograma.
Centro de Viena, noite — Horas depois.
No silêncio do apartamento, Jennifer Müller folheava as páginas rígidas do jornal diário. Sentada na poltrona da sala, ela desviava o olhar a cada instante para observar a pequena Birgit, que empilhava blocos de madeira sobre o tapete com uma calmaria alheia ao mundo. Jennifer soltou um suspiro longo ao correr os olhos pelas manchetes triunfantes do Reich: estatísticas forjadas que celebravam uma inflação controlada e o crescimento exponencial da indústria bélica. Na superfície da propaganda, o império operava com uma perfeição cirúrgica; sob o verniz, contudo, a realidade era moldada pela fome silenciosa nas periferias, pela perseguição implacável a dissidentes e por uma censura que asfixiava qualquer lampejo de verdade. A maioria esmagadora da população urbana já havia se acomodado ao horror anestésico, aceitando a paz em troca da submissão. Jennifer odiava aquela dormência, sabia que não pertencia à engrenagem dos conformados, mas possuía uma lucidez dolorosa sobre o perigo de reagir.
Ela olhou para a filha por mais um segundo, forçou um sorriso terno e acolhedor para acalmar o próprio peito e voltou à leitura. No instante em que prendeu a folha cinzenta entre os dedos para mudar de página, a borda afiada do papel cortou a ponta de seu indicador direito. Uma linha fina de sangue vivo brotou da pele. Jennifer sufocou um gemido de dor e levou o dedo à boca para estancar o fluxo de ferro antes que pingasse no tapete limpo.
Erguendo-se rapidamente, ela caminhou até o banheiro e abriu o armário de espelho atrás da pia. Puxou a caixa metálica de primeiros socorros, aquela mesma que usara para limpar os cortes de Thomas dias atrás. Mas ao erguer a tampa de metal, seu coração falhou uma batida.
Acomodado entre as gazes e os frascos de antisséptico, repousava o envelope pardo com o lacre de cera rompido — o exato arquivo que Heinrike Weber havia entregado a Thomas na cafeteria. Jennifer conhecia cada milímetro daquela maleta médica; havia revirado seus itens dias atrás e o documento não estava lá. A conclusão a atingiu com a força de um soco: a rendição de Thomas era uma farsa e aquele registro era recente.
Com os dedos trêmulos, Jennifer puxou o envelope e despejou o conteúdo sob a luz fria do banheiro. Ela começou a folhear os papéis um a um, documento por documento, certidão por certidão, até que as fotografias em preto e branco começaram a deslizar por suas mãos. Seus olhos travaram ao focar na imagem industrial de Lena Goldstein. Jennifer permaneceu estática, paralisada pelas feições da jovem loira que a encarava através do papel gasta. O silêncio do banheiro tornou-se asfixiante. Ela soltou uma lufada de ar quente, ríspida, misturando mágoa e pavor pela obsessão suicida do marido, recolheu o arquivo com precisão mecânica e o devolveu exatamente ao mesmo lugar, fechando o armário para que Thomas não suspeitasse de que sua trégua doméstica havia desmoronado.
Fazenda das Indústrias Weber, arredores de Viena — Naquele mesma noite.
No escuro sufocante do alojamento comunitário, Lena dormia o sono pesado da exaustão quando o toque suave de uma mão em seu ombro a arrancou do esquecimento. Ela abriu as pálpebras sobressaltada, mas o feixe estreito de uma lanterna militar direcionado para o chão revelou as feições do soldado Erich Schulz.
— Lena... acorde — Erich sussurrou, a voz rasteira sumindo entre os roncos dos camponeses ao redor.
— Erich? — ela indagou, a voz embargada pelo sono, o coração disparando enquanto um sorriso instintivo moldava seus lábios rachados ao ver o aliado fora da cela de isolamento.
— Venha comigo. Mantenha o silêncio. Tem alguém do outro lado que precisa ver você — Erich ordenou, girando o corpo sutilmente para indicar a saída.
Lena deslizou para fora do beliche de madeira com movimentos milimetricamente calculados, esquivando-se da palha para evitar acordar Martha ou os demais trabalhadores. O ar da madrugada austríaca do lado de fora do galpão era uma lâmina de gelo; ao cruzarem o limiar, Erich despiu-se de seu casaco pesado de campanha e o estendeu para a jovem.
— Vista-se. O inverno está implacável esta noite — ele murmurou.
Ela vestiu a lã espessa, sentindo o calor do uniforme militar camuflar seus trapos cinzentos. Mantendo-se colados às sombras projetadas pelos celeiros e pilhas de lenha, os dois avançaram em um ziguezague paranoico, cronometrando os feixes dos refletores das torres para não serem interceptados pelas patrulhas da guarda interna. Caminharam até o limite extremo da ala oeste, o ponto mais afastado e escuro do perímetro, onde a vegetação nativa engolia a cerca de arame farpado.
Do outro lado da barreira de metal, três sombras humanas aguardavam estáticas na penumbra da estrada de terra. O ambiente era fracamente iluminado pelos faróis baixos de um sedã escuro, cujas lentes haviam sido parcialmente cobertas para evitar os rastreadores aéreos. À medida que Lena encurtou a distância, protegida pela escuridão do perímetro, as silhuetas ganharam rostos.
Thomas Müller liderava o grupo, com o sobretudo escuro fechado até o pescoço. Ao seu lado, Franz Krüger mantinha a vigília da estrada com os braços cruzados, enquanto Heinrike Weber, vestindo roupas aristocráticas que contrastavam tragicamente com a lama do acostamento, apertava as mãos contra o xale. Os três eixos da conspiração — a promotoria, a resistência e a mansão — estavam formalmente unidos no mesmo quadrante de arame.
Thomas Müller deu um passo à frente, aproximando-se das farpas de ferro. Ao fixar os olhos na jovem escrava que ele cruzara no campo dias atrás, permitiu que um sorriso legítimo e calmo desarmasse a rigidez de seu semblante.
— Olá, senhorita Goldstein — Thomas saudou, a voz mansa e firme ecoando na quietude da madrugada. — É um privilégio inestimável reencontrá-la novamente.
Lena sustentou o olhar do investigador, sentindo as lágrimas frias congelarem em suas bochechas, mas o sorriso que se formou em seus lábios era o primeiro sinal real de liberdade.
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