A Raposa e a Humana

1 Capítulo Um.


A jovem bela de longos cabelos castanhos e uma pele macia, com olhos da cor púrpura, cor que significava estar ligada ao mundo místico, cor comum dentro de sua família, observava seu reflexo no vidro de uma loja, se imaginando como ficaria com a jaqueta escura com longo capuz, a que usava já era velha. Abaixou o olhar indo para o celular conectado ao fone que estavam em seus ouvidos, exclusivamente tocando Lithium da banda Nirvana, a hora era próxima da que lhe foi pedido para chegar em casa, menos de 20 minutos para as 20h:00.

Guardou o aparelho no bolso da jaqueta e iniciou sua caminhada, pelo menos era isso que iria fazer, se uma outra pessoa não tivesse esbarrada nela e ambas caíssem juntas, encarou a responsável pela sua queda, uma jovem talvez 1 ano mais nova que ela, cabelos em um tom de roxo escuro que podia se assemelhar a um azul marinho, passavam dos ombros e eram bem cuidados, seus olhos eram em um chamativo tom de rosa, com certeza usava alguma lente para mudar a cor, ela jamais tinha visto uma cor como aquela, sua pele era da mesma tonalidade que a sua e agora exibia um machucado na bochecha esquerda, a queda foi a responsável.

-Olha por onde anda, garota.-

Foi o único comentário que a garota fez enquanto se levantava e corria para onde quer que fosse. Reiko apenas suspirou e se levantou, tirou a poeira da jaqueta e pegou o celular do chão, um arrependimento surgiu naquele momento, a tela estava danificada e não estava mais ligando, ela recolocou os fones em seus ouvidos e nada se escutava. “Legal, agora preciso de dinheiro para arrumar meu celular, que maravilha” pensou e guardou o aparelho novamente no bolso e tratou de andar na direção de sua casa, sentindo o tédio de não escutar nenhuma música, olhava para os lados e via várias pessoas conversando em seus celulares. Um desejo? Que tropeçassem.

Depois de pelo menos quinze minutos andando finalmente chegou onde precisava para estar em casa, na longa escadaria que dava ao templo de sua família, e que logo atrás do mesmo tinha sua casa. Reiniciou seus passos sem ritmos para que chegasse ao fim da escadaria. Pouco antes de chegar ao final foi capaz de escutar algumas tossidas, pareciam estar acompanhadas por fortes dores, de fato uma curiosidade cresceu e se interessou em saber quem era o responsável por aquilo. Terminou a subida e seu corpo por um momento paralisou, a menos de cinco metros estava um corpo, e ela reconheceu, era uma das amigas de sua mãe, uma boa mulher excelente no pôquer, aquela hora deveriam estar jogando, a mulher tinha um cano atravessado em seu peito, sua garganta estava cortada e ela demonstrava um enorme cansaço. Ela sentia o forte cheiro de sangue. A mulher se esforçou e olhou em sua direção, seu olhar implorava por ajuda, mas ambas sabiam que nada daria para ser feito, Reiko se aproximou dela e percebeu que suas mãos tremiam, nada conseguiria fazer, pensou em tentar tirar o cano mas não sabia que poderia agravar a situação da mulher.

-O que aconteceu?- Reiko questionou.

-Parecia uma menina, mas era um monstro, foi atrás de sua mãe.- A mulher respondeu com dificuldade.

Depois da resposta a mulher sorriu e deixou uma lágrima escorrer, tinha dado seu ultimo suspiro e se esforçado para viver, para somente alertar a menina sobre o perigo que sua mãe estava correndo, ela tinha abraçado ao desejo de ajudar e no final das contas conseguiu. Reiko a agradeceu mentalmente e desejou que a mesma agora tivesse paz, ela olhou para o templo e pode ver que as portas estavam abertas, como se estivessem dizendo para que ela entrasse. “Que seja, será feito” ela pensou enquanto andava a passos ritmados, não queria fazer ruídos para dizer que estava na área. Se esgueirou no templo e ficou atrás de uma parede, tinha visto uma pessoa vasculhar uma parte, talvez procurando por ela. “Se eu aprendi algo com jogos, é melhor que eu use agora” foi o que pensou e mexeu nos bolsos a procura de qualquer objeto, o que encontrou foi seu celular e retirou a bateria dele, respirou fundo e jogou para uma objeto próximo, um vaso antigo com desenhos de raposas. Ela conseguiu escutar os passos firmes do sujeito, estava se aproximando para checar o que tinha acontecido, ela respirou fundo e tentou manter a calma, o sujeito do tamanho de um armário passou por ela e foi na direção do vaso quebrado e se agachou. Com passos silenciosos se aproximou dele, agradecia mentalmente por não ter iluminação naquela área, e assim que ficou perto dele a mesma agiu com rapidez, segurou ele e o jogou contra a parede e chocou a cabeça do mesmo contra a mesma, sem demonstrar piedade alguma.

O que aconteceu?Bom, o rapaz desmaiou. Não conseguiu se segurar e deixou um sorriso escapar, ela arrastou o corpo para um canto ainda mais escuro, se tivesse mais pessoas que estivessem vasculhando iriam descobrir que ela estava ali se o corpo ficasse visível. Porém era só aquele homem mesmo, durante todo o caminho de exploração não encontrou mais ninguém, a pessoa que estava fazendo isso confiava demais naquele sujeito. Finalmente chegou a um corredor que dava a uma área aberta, um bom local para relaxamento, era difícil para ela ir naquele lugar, afinal era ali que o corpo de seu pai estava enterrado. Ela passou pela entrada e continuou andando por mais alguns minutos, até encontrar sua mãe sentada em uma cadeira, suas mãos estavam amarradas, sua boca selada com um pano velho, o que ela mais tinha era ferimento e uma poça de sangue se formava do sangue que pingava.

-Mãe!- Reiko falou preocupada.

Ela se aproximou mais um pouco mas parou, mais perto pode ver fios ligados aos pulsos de sua mãe, e a mulher estava mexendo sua cabeça como se dissesse para não se aproximar. Ela deu mais um passo e nesse movimento a mulher gritou de dor, uma forte descarga elétrica em seus pulsos, em breve perderia sua consciência, se já não a tivesse perdido.

Escutou um “Tsc Tsc” e olhou em volta procurando o responsável por aquele som, mas não foi necessário muita procura, afinal a responsável se revelou após jogar uma pedra em sua direção, estava no galho de uma árvore, um lugar que dava para ter uma visão quase geral de toda aquela área. Ela reconheceu a pessoa quase que na mesma hora, a garota com quem tinha esbarrado no caminho, mas não dava muito tempo de diferença das duas, e se tivesse corrido o caminho todo deveria ao menos estar suando.

-Porque?- Reiko perguntou. –Que mal ela te fez?-

-A existência dela já é um mal a mim.- A outra respondeu com um olhar gélido. –Seres que louvam a droga de uma raposa estúpida, que de vez em quando adquirem suas habilidades, vocês são estúpidos.-

-Não sei do que esta falando, mas solte a minha mãe..- Reiko pediu.

A outra garota não deixou de rir com aquele pedido, ela desceu daquela árvore e andou até as duas, Reiko pode ver o olhar que sua mãe exibia naquele momento, era medo, puro terror exibido em seus olhos. Enquanto a menina se aproximava, Reiko notou um colar no pescoço dela, com o dizer Jady, um belo nome mas não sabia se era o dela, poderia ser de qualquer outra pessoa.

Enquanto a garota se aproximava, Reiko se afastava pouco a pouco, não sabia o que ela poderia fazer e nem queria descobrir, estava apenas preocupada com sua mãe. Jady retirou do bolso da bermuda jeans que usava um pequeno apetrecho com um botão, ela o apertou e no mesmo instante a mulher gritou dolorosamente, outra descarga elétrica em seus pulsos. Reiko estava para se aproximar mas viu o olhar de ameaça que a outra garota lhe lançou, sentia o perigo e queria ajudar sua mãe, ela não recuou e foi a luta. Se agarrou em Jady porém antes de fazer qualquer coisa ela foi jogada para longe por uma força sobrenatural, estava agora a pelo menos quinze metros de distancia das duas, olhou para sua mãe que já estava mais que exausta, e depois para a inimiga que não deixava de sorrir.

-Reiko.- A mãe dela. –Fuja.-

-Cale a boca, raposa.- Jady enfurecida.

Nesse momento a mãe de Reiko deu seu ultimo suspiro, afinal a jovem inimiga fez seu ataque, suas unhas mais que se esticaram, ficaram afiadas como facas, e com elas a mesma atravessou o peito da mulher mais velha, ela ainda tinha chances de sobrevivência, mas ao segunda golpe que foi rasgando de baixo para cima, as chances praticamente desapareceram.

Jady deixava durante todo o processo um sorriso estampado, se deliciando com a sensação, ela retirou as unhas de dentro do corpo e chutou o mesmo o deixando caído em qualquer lugar, lambia suas unhas encharcadas de sangue enquanto olhava para a jovem que estava dolorida depois do golpe. Ela inspirou e depois foi liberando o que acumulou de seus pulmões, enquanto o ar saia pela boca, era visível breves mudanças em seu corpo, a grande maioria de seus dentes estavam se tornando presas afiadas, sua pupila como se muitos da família dos felinos estavam ficando verticais, e por ser uma criatura do sobrenatural sua força crescerá depressa, assim como velocidade que era algo pertencente a sua raça.

-Quem, ou melhor, o que é você.- Reiko perguntou assustada.

-Uma Nekomata.- Jady respondeu. –E a pessoa que vai te matar.-

A garota se aproximou depressa e agarrou Reiko pelo pescoço e a jogou contra uma árvore, se deliciou quando escutou o corpo dela bater contra o duro tronco, a pegou mais uma vez e perfurou seu peito com as garras mais uma vez, e adorou quando ela gritou pela dor que sentiu, seus olhos iam ao sangue que escorria e pingava, esperava que ela pudesse ser mais resistente que a mãe, afinal procurava graça desde o momento que chegou.

Retirou as garras do peito dela e lambeu o sangue, o mesmo gosto que o da mãe, e mais uma vez perfurou só que em outra parte, suas garras eram como facas e aquele corpo era como manteiga, cortar era fácil porém o gosto era ruim. Reiko já não sentia mais as dores, ela não era forte como sua mãe que tinha agüentado tanta coisa, ela era fraca e isso acabaria com ela. Seus olhos se encaminham para a lua cheia e em silencio a vislumbra enquanto recebia outro golpe em seu peito, de sua boca um pouco de sangue escorria. Ela abaixou seu olhar e foi além da pessoa que lhe atacava, visualizou a dezenas de metros uma criatura branca lhe observando em silencio, uma raposa que mantinha-se ereta.

-Inari...- Reiko sussurrou.

As duas se olhavam por um longo tempo e em certo momento a garota concordou com alguma coisa, não tinha nada a perder com o acordo proposto, poderia também ser apenas uma alucinação antes de sua morte. Ela escutou a raposa correr em sua direção e focou na exibição de suas caudas, Inari era uma deusa e sua família a venerava, e ambas criariam uma ligação para lutar com aquela pessoa responsável pela morte de sua mãe. Ela teve a raposa dentro de seu corpo, a dor da ligação corpórea era enorme mas agüentou firme, sentia a energia de Inari percorrendo seu corpo e lhe dando forças, capacidades além do sobrenatural. Seu corpo respondia a novas habilidades, estava se curando depressa dos ferimentos, e houve apenas poucas mudanças em seu corpo de forma física pelo menos, algumas delas foram o crescimento de duas presas que antes eram seus caninos, e ao topo de sua cabeça existia agora duas orelhas felinas do mesmo tom que seu cabelo. Antes de receber o próximo golpe de Jady ela agiu, segurou uma das mãos dela com a nova força que tinha e se deliciou com o som dos ossos se quebrando. Segurando uma das mãos dela avançou até seu pescoço e lhe infligiu uma mordida, um breve instinto selvagem, ela aplica força naquele momento e esperava romper qualquer parte importante daquela área, somente quando a Nekomata lhe socou com a outra mão que ela parou de morder, o golpe a atordoou e Jady se afastou. A mesma movimentava a mão quebrada, suas habilidades de cura estavam falhando, nem mesmo uma simples mordida curava, ela olhou para Reiko limpando sangue de sua boca e mantendo contato visual, ela tinha um breve olhar de um animal selvagem, porém um que controlava seus instintos mais selvagens. Seus olhos poderiam estar lhe enganando, mas jurava estar vendo uma aura alaranjada cobrindo o corpo da menina, uma aura com o formato de uma raposa, e atrás algumas caudas se formado. Era realidade o que Jady estava vendo, era o corpo de Inari criando sua ligação com o de Reiko, uma das inúmeras provas que estava sendo um verdadeiro sucesso.

-Eu vou te destruir, gatinha.- Reiko dizia seria.

Jady não deixou de sorrir diante da ameaça, ela rosnou e avançou até a nova inimiga, suas garras a mostra com a intenção de uma outra perfuração, porém agora em um local diferente, sua cabeça era a prioridade, separar do corpo e talvez queimar, essa era sua intenção no momento. Reiko avaliou a situação e agiu, não precisou de muito esforço para ir ao lado direito, se esquivando do ataque, segurando o braço da Nekomata e efetuando uma joelhada no cotovelo, ela a escutou gritar de dor e sentiu prazer naquele grito, a gata não tinha mais suas habilidades de cura, ela sabia a razão afinal era ela, a mordida tinha feito isso e foi para essa intenção. Finalmente terminou aquele combate com um golpe sem misericórdia, atravessou o peito da gata com suas mãos nuas apenas providas de garras, perfurou o coração com elas e manteve um olhar profundo sem piedade para Jady, que deixava sangue escorrer pela sua boca e um sorriso se formar, estava se esforçando para dizer algo.

-Maneki...neko, possuído por...Bakeneko.- Jady falava com extrema dificuldade. –Ajude-o.-

“Manekineko” Reiko lembrava-se de quem era, sua mãe vivia lhe contando histórias a respeito, era uma espécie de gato divino responsável por Sorte, existiam dezenas de estatuas a seu respeito, e pelo que sabia de Bakeneko, eram gatos monstros, uma espécie de demônio se assim poderia se pensar. E pelo que a Nekomata havia dito, um Bakeneko possuiu Manekineko, o deus gato da boa sorte, por um momento ela pensou o que de pior poderia acontecer. Afastou o pensamento e viu o corpo da gata cair sobre o chão gélido, talvez estivesse apenas cumprindo ordens. O último pedido da gata ela iria realizar, afinal a mesma pediu a sua ajuda e não tinha como não realizar. O cheiro de sangue era forte e foi então que percebeu que ainda não tinha retornado a ser humana, não poderia andar por ai com mudanças tão claras como aquelas orelhas.

-Inari, por favor, desfaça isso até um outro momento.- Reiko pediu.

Foi um pedido?Foi. Houve respostas?Claro que não. A garota coçou brevemente sua cabeça e se sentou na grama, relaxou ao máximo que podia e foi ao fundo de sua mente, sentindo toda a energia de Inari, ela construiu uma espécie de poço e com esforço colocou toda aquela energia em excesso lá dentro e o fechou, a raposa divina podia ser poderosa mas ninguém iria mexer com seu corpo, e se um poço profundo não fosse o bastante, que fosse dois para segurar tamanha energia, não queria nem saber o que Inari achava daquilo, que fosse perigosa, Reiko agüentaria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.