A Raposa e O Dragão
1 Fogo
Capítulo 1 – Fogo
Mayumi estava deitada na grama olhando o céu. Ao seu lado, Hiro, seu irmão mais velho, sorria enquanto apontava para as nuvens e dizia com o que se pareciam.
— Veja! A cara de um cavalo!
— Não é um cavalo! É a cabeça de um dragão. – respondeu Mayumi.
— Como sabe se a cabeça de um dragão é assim se nunca viu um?
— Mamãe me falou como eles são...
— Está bem, então é um dragão. – Ele apontou para outra nuvem. – E aquela ali? Parece com o quê?
— Aquela parece um homem gordo.
— Como o senhor Higgens?
Os dois gargalharam e levaram um susto quando seu pai jogou duas ferramentas ao lado deles.
— Parem de conversa fiada. Hiro me ajude a carregar a carroça para irmos embora. Vai cair uma tempestade e eu quero estar em casa quando ela começar.
— Mas o céu está limpo, papai. – disse Mayumi olhando para as nuvens outra vez.
Seu pai sorriu e falou:
— Confie em seu pai, vai cair uma tempestade essa noite.
Quando terminaram de colocar as sacas de arroz na carroça eles partiram. O arrozal não ficava muito longe da casa onde moravam, mas antes que pudessem avistá-la um senhor gordo de cabelos grisalhos veio correndo em direção à carroça. Mayumi e Hiro deram risadas contidas quando viram que era o senhor Higgens.
— Senhor Katsumoto! Precisa correr! Os cobradores estão em sua fazenda outra vez...
— Mas eles me deram três dias de prazo!
— Acho melhor o senhor se apressar!
— Senhor Higgens, pegue meus filhos e leve para o Hans. Explique a ele o que aconteceu.
— Está bem.
O senhor Higgens desceu Mayumi e Hiro da carroça e o pai usou o chicote para o cavalo correr.
— Vamos crianças! Depressa.
Mayumi grudou na blusa de Hiro que tentava acompanhar a corrida do senhor Higgens pela estrada. Chegaram à bifurcação que levava à fazenda e correram em outra direção até chegarem a uma porteira de madeira. O senhor Higgens subiu as duas crianças na porteira e falou:
— Corram pela estrada até chegarem a um morro e subam pela trilha. Quando acharem uma casa de madeira é lá que o senhor Hans mora. Digam a ele que seu pai precisa dele urgentemente porque os cobradores vieram. Entenderam?
Hiro afirmou com a cabeça e puxou Mayumi para o outro lado da porteira. O senhor Higgens virou as costas e Hiro começou a correr puxando a irmã pela mão.
Chegaram rápido ao morro coberto por árvores e pedras e subiram por uma trilha muito íngreme até uma clareira. Nessa clareira havia uma casa de madeira e Hiro bateu à porta. Alguns segundos depois um jovem loiro de cabelos compridos, olhos verdes como esmeraldas lapidadas e uma cicatriz que cortava o lado esquerdo do rosto da testa ao queixo abriu a porta. Hiro ofegava enquanto falou:
- O senhor é o mestre Hans?
- Sim, o que quer?
- Meu pai pediu pra gente vir pra cá. Os cobradores vieram. Ele disse que precisa da sua ajuda.
- Entrem e fiquem aí dentro. Se vocês mexerem em algo eu corto os dedos de vocês. Não saiam daí.
Mayumi e Hiro entraram e o homem fechou a porta. Mayumi andou até uma cadeira e sentou.
- O que está acontecendo, nii-san?
- Sabe o que é um cobrador? — Ela fez que não com a cabeça. – Esqueci que você só tem oito anos...
- E você tem dez! Isso não significa nada!
Hiro suspirou e falou:
- Eles vêm pra cobrar dinheiro todo mês. Mas esse mês eles vieram duas vezes e o papai não tem dinheiro pra pagar.
- O que vai acontecer então?
- Não sei, mas vou descobrir. Fique aqui.
Hiro andou até a porta e Mayumi choramingou:
- Não, nii-san! O mestre Hans falou pra ficarmos aqui!
- Ele não é nosso pai!
- Não me deixe sozinha!
- Fiquei aqui!
Hiro saiu e bateu a porta. Mayumi ouviu trovões e abraçou as pernas tentando segurar as lágrimas.
Depois de muito tempo ela ouviu a porta abrindo e o mestre Hans entrou acompanhado pelo senhor Higgens, Hiro e seu pai. Hiro entrou em silêncio, meio emburrado e sentou-se ao lado da irmã. O senhor Hans andou até ele e falou:
- Garoto estúpido... – Desviou o olhar para Mayumi e depois para o senhor Higgens – Você pode ir embora, já fez o bastante.
- Eu não sabia... eu achei que não teria problema falar sobre a plantação. Me desculpe.
- Tudo bem, Raymond. Pode ir, amanhã conversamos. – disse o senhor Katsumoto.
O senhor Higgens saiu e o mestre Hans falou:
- Se ele não tivesse aberto a boca, a plantação teria sido esquecida e você teria mais tempo pra juntar o dinheiro.
- Ele não fez por mal, Hans...
- Aí que você se engana. Já te disse uma vez, senhor Katsumoto, ele quer você e sua família fora daqui e está tentando de tudo. Tenho certeza que essa denúncia partiu dele.
- Hans, você sabe que foi graças a ele que eu consegui me estabelecer aqui. Quando cheguei à Maztizer, sem ter onde cair morto, fugido de meu próprio país, foi ele quem me ajudou a convencer o senhor feudal a me deixar viver aqui.
- Ele tinha algum tipo de interesse em vocês. Agora não tem mais e quer vê-los longe. Escute-me senhor Katsumoto, meu pai vive em Farnak, ele consegue arranjar algo pro senhor lá. Pegue sua família e vá pra lá! É longe da fronteira, o povo é hospitaleiro, será muito melhor para vocês.
- Eu agradeço sua preocupação, Hans, mas tudo o que tenho é minha casa e a plantação de arroz. Preciso ficar e aguentar o que tiver que acontecer. Obrigado pela ajuda hoje de qualquer jeito.
Ele abriu a porta da casa e as crianças correram para alcançá-lo.
Depois de alguns minutos chegaram em casa. A casa deles era pequena e simples. Toda de madeira, sem janelas, tinha apenas um cômodo com três camas de colchão de palha, uma lareira e alguns armários. Em completo silêncio eles entraram, comeram o jantar preparado pela mãe e logo depois seu pai saiu carregando algumas sacas de arroz. A mãe de Mayumi levou-a para a cama e deu boa noite. Mayumi não aguentou a curiosidade e perguntou:
- O que vai acontecer mamãe?
- Não se preocupe com esses assuntos, está bem?
- Mas vocês conseguiram o dinheiro?
- Mayumi, não se preocupe com isso. Esse é um assunto que nós adultos vamos resolver. Agora durma que amanhã te levarei ao lago para um passeio, está bem?
- Está bem...
Mayumi deitou e sua mãe foi se sentar perto do fogo para costurar. Hiro continuou emburrado e foi dormir sem dizer nada.
Mayumi acordou e olhou em volta. Seus pais não estavam em casa e Hiro estava sentado olhando para o fogo.
- Hiro? – ela andou até ele
- Papai ainda não voltou. Mamãe foi levar umas roupas que estava costurando e falou pra ficarmos dentro de casa.
- O que aconteceu ontem?
- Aqueles cobradores não sabiam que nós existíamos, agora eles sabem que eu existo. Se acontecer algo eu serei procurado também e não posso mais ficar seguro. Foi isso o que o senhor Hans falou.
- E o que vai acontecer com a gente?
- Eu não sei.
A porta se abriu e os pais deles entraram. A mãe de Mayumi tinha lágrimas nos olhos que tentava esconder em vão e o pai dela começou a contar algum dinheiro em cima da mesa. Mayumi sentou-se na cama outra vez e seu pai deu um longo suspiro.
- Não é o bastante. – concluiu passando as mãos pela cabeça. – Na verdade nem chegamos perto. Preciso de mais tempo.
- Não vai adiantar, Toshiro. O que o mestre Hans falou está correto. O senhor Higgens disse a todos da aldeia para não nos ajudarem. Fez a cabeça de todos contra nós dizendo que estamos aqui como espiões.
- O que vamos fazer, Sayuri?
- Vamos pedir mais um tempo. Se soubermos conversar eles nos darão mais tempo.
Nesse momento eles ouviram batidas fortes na porta.
- Senhor Katsumoto! Viemos buscar o dinheiro. – Uma voz atrás da porta esbravejou.
A mãe de Mayumi correu até ela e cochichou em seu ouvido enquanto escondia-a em baixo da cama:
- Não saia daí. Nós vamos lá fora e já voltamos. – virou-se para Hiro que estava assustado sentado na cadeira. – Faça de tudo para proteger sua irmã.
Hiro fez que sim com a cabeça e ela saiu com o marido e fechou a porta. Era possível ouvir pessoas conversando, mas impossível distinguir as palavras. Então a mãe gritou e a porta se abriu com violência. Mayumi só conseguia ver os pés de dois estranhos entrando na casa arrastando sua mãe chorando e logo em seguida mais dois trouxeram seu pai. Sua mãe foi jogada no chão e amarraram os braços de seu pai. A porta foi fechada eles ouviram barulhos de batidas na porta, pareciam estar martelando. O pai de Mayumi fez sinal para ela sair de baixo da cama e sussurrou:
- Hiro! Venha até aqui. – o garoto correu até lá. – Há um buraco atrás desses pedaços de lenha. É um buraco pequeno só vocês dois vão conseguir sair. Pegue a mão de sua irmã e leve-a para a floresta. Corra o mais rápido possível para a casa do mestre Hans e diga para ele vir o mais rápido que puder. Você me entendeu?
- Sim, mas o que...
- Os guardas vão vigiar a casa, saia com cuidado e não solte a mão de sua irmã. A vida dela está em suas mãos.
Hiro fez que sim com a cabeça e o pai começou a retirar alguns pedaços de lenha do canto da parede. Mayumi olhou para a mãe e viu que ela estava amarrada por uma corda e inconsciente. Sangue escorria por sua testa. O pai disse uma última vez:
- Cuidado para que os guardas não vejam vocês. Eles não vão deixar que ninguém escape. Eu vou fazer barulho aqui dentro para que eles pensem que todos estão aqui. Proteja sua irmã, Hiro. Proteja-a! Agora vão!
Hiro passou com dificuldade pelo pequeno buraco na madeira e viu que havia um monte de feno ali para que ocultá-lo. Mayumi passou e o pai fechou o buraco por dentro. Ela olhou em volta e percebeu que os homens de armadura, talvez dez ou mais, estavam espalhando um líquido na frente da casa e tentando fazer uma fogueira. Num momento de distração deles, Hiro puxou Mayumi e correu até ficar atrás do poço. Os homens estavam na lateral da casa e se eles conseguissem correr mais um pouco já estariam na floresta, mas os guardas com certeza veriam. Ele pensou por um momento e sussurrou:
- Eu vou correr primeiro e vou atraí-los para o campo de girassóis. Se formos juntos pra floresta eles nos verão. Quando eles forem atrás de mim, você corre pra floresta, certo?
- Mas e você?
- Eu sou rápido. Eles nunca vão conseguir me pegar quando eu entrar no campo de girassóis. Você entendeu, Mayumi?
- Quando eles forem atrás de você, eu corro pra floresta.
- Isso. Depois corra até o mestre Hans e me espere lá. – Hiro sorriu – Eu vou te reencontrar, prometo.
E correu. Assim que saiu correndo na direção da estrada os guardas começaram a gritar e correr atrás dele. Mayumi olhou com cuidado para a casa e viu que três guardas ainda estavam na frente da porta olhando para a estrada enquanto outros muitos perseguiam Hiro. Um deles espalhava um líquido pela porta. Então ela disparou para a floresta. Conseguiu entrar sem que nenhum dos homens a visse e se jogou atrás de algumas pedras. Conseguia ver sua casa dali e estava sem coragem de correr para longe. Um dos guardas pegou uma estaca em chamas e jogou na porta da frente imediatamente a frente da casa começou a pegar fogo e o coração de Mayumi disparou. Seus pais ainda estavam lá dentro e a casa estava pegando fogo. Mayumi olhou desesperada para a estrada, mas não havia sinal de Hiro nem dos guardas que o perseguiam. Ela precisava sair dali rápido, mas não conseguia se mover. Seus olhos já estavam cheios de lágrimas e quando o fogo passou para o feno atrás da casa ela levantou-se e correu, não tinha tempo para ficar chorando, precisava procurar o mestre Hans.
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