A Raposa

1 Capítulo único


Notas iniciais
"Você é a força Que me mantém caminhando Você é a esperança Que me mantém confiante Você é a vida Para a minha alma Você é meu propósito Você é tudo" Lifehouse - Everything

Ando a passos pesados até o túmulo de Renan. Estou com algumas flores na mão; não diria que é um buquê, é apenas algo simples que eu arranjei de última hora.

Ajoelho-me e ponho as flores no túmulo, onde está gravada a seguinte frase: "Aqui jaz Renan de Oliveira Santana, ótimo pai e maravilhoso marido". Para mim, está errada, pois acho que ele é perfeito, tanto como pai quanto marido. "Ótimo" e "maravilhoso" são adjetivos que não chegam nem perto do que ele realmente é. Ou melhor, era.

Eu o quero de volta. Quero o meu homem baixinho de volta, com seus cabelos crespos e sua linda pele escura, que vinha sempre acompanhado de um sorriso com covinhas no rosto, o tipo de sorriso contagiante que fazia sorrir junto, e até mesmo rir. Desejo novamente dançar com ele pela sala de estar, olhando em seus negros olhos e tendo outra conversa agradável. Era incrível o quanto nós tínhamos para conversar, até mesmo quando não havia mais assunto. Nós dois sempre inventávamos algo para falar, só para ouvirmos a voz um do outro. Ah, aquela voz... Alta, suave e grave, tudo ao mesmo tempo.

Toco na lápide com os olhos já marejados, como se pudesse encostar nele de alguma forma. Sei que não posso, mas meu coração insiste em ser esperançoso. Bom, não posso culpá-lo. Esperança é a última coisa que me resta.

Olhando fixamente para a pedra, mexo na bainha do meu vestido preto enquanto sussurro:

— Hoje eu vim para conversar com você, sabe... — Paro, pensando que pode ter alguém vendo a cena ou ouvindo. Decido que não importo, e continuo: — Se estiver me vendo, deve estar tendo uma noção de quão árduo tem sido para mim continuar de pé, sem poder fraquejar nem desistir da vida. Sei que você está me vendo e me ouvindo... Ou pelo menos é o que eu quero acreditar. — Balanço a cabeça, inspirando lentamente. — Bom, tanto faz. Eu tenho me sentindo muito solitária, Renan. A sua ausência tem me matado aos poucos, e ultimamente tenho me sentido tão sufocada que acho que vou morrer fisicamente. Sim, fisicamente, meu amor, pois internamente eu já tenho certeza de que estou morrendo. Faz três meses desde a sua morte, mas todo dia é como se você tivesse morrido há um dia atrás. Ou pior, há uma hora atrás. Talvez até há um minuto atrás.

Paro mais uma vez e novamente respiro fundo, fechando os olhos. Minha garganta já está formando um nó, e não tardará muito para minha dor vir à tona. Sei que se eu continuar falando, não conseguirei conter as lágrimas que tanto acumulei. Entretanto, continuo:

— Hoje o céu está claro e sem nuvens, caso você não consiga ver de onde está, mas para mim é como se fosse um final de tarde nublado, com uma tempestade iminente. Para mim, o tempo está sempre fechado, e está tão difícil sem você e suas frases de auto ajuda... Você se lembra de quando eu vivia te azucrinando por causa de suas lições de moral? Pois adivinha quem precisa delas agora! Como a vida é irônica, né?

Dou um sorriso taciturno e paro um pouco de falar, segurando-me para não chorar. Não posso chorar; não ainda. Preciso conversar mais com Renan. Então, volto:

— A única razão que me mantém viva é a nossa pequena Gabriela. Ela é só uma criança, mas é tão inteligente... Acho que ela já sabe o que se passa comigo. Ainda assim, ela finge que não sabe de nada. É tão madura para a idade que tem, e provavelmente já carrega uma dor tão grande...

Então, eu não aguento e desabo. Ponho as duas mãos no rosto e deixo as lágrimas caírem brutalmente. Soluço, fazendo meus ombros sacudirem, e simplesmente permaneço assim, eu comigo mesma, com minha tristeza, Deus e possivelmente Renan. Tento me recompor e a voz trêmula sai num murmúrio:

— Lembra-se de quando disse que eu nunca estaria sozinha, Renan? Até aí é verdade. Realmente nunca estou. O tempo inteiro tenho pessoas ao meu redor, mesmo quando não quero. No entanto, você me disse que sempre estaria comigo, mas eu não o sinto, Renan, e cada vez mais sinto-me solitária, como se um órgão vital tivesse sido arrancado de mim e eu milagrosamente tivesse sobrevivido. Eu sinto saudades de você, Renan. De tudo seu. Seus olhos, sorriso, até dessa risada estridente — Solto um risinho baixo. — Sinto falta dos seus cabelos grandes e emaranhados, dos seus abraços, beijos, até mesmo dos seus defeitos. Porém, sinto falta principalmente da sua companhia. Por Deus, eu daria qualquer coisa, faria tudo para ter você comigo de novo. Por que me deixou, Renan? Eu te amo tanto e, mesmo demonstrando todo o meu amor, você me deixou sozinha nesse abismo sem fim... Meu amor não foi o suficiente para você, Renan?

Paro de falar, pois minha voz começa a falhar. Minhas lágrimas acabaram há muito tempo. Só fico ali, ajoelhada, olhando para o nada, relembrando o que passei com o amor da minha vida e imaginando todos os momentos que eu poderia ter tido e que jamais terei chance de passar. A vida é tão cruel.

Vejo algo correr na minha visão periférica, fazendo-me levantar num pulo. Olho de um lado para o outro, não vendo nada. Deve ter sido impressão. Dou de ombros e, passando as costas das mãos debaixo dos olhos para limpar as lágrimas, concluo com a voz ainda embargada:

— Bom, tudo o que eu tinha para lhe dizer já foi dito. Só quero que você nunca se esqueça o quanto eu te amei. Por favor, por favor, nunca se esqueça de mim.

Começo a caminhar em direção ao portão do cemitério, mas paro quando ouço um som de alguém correndo. Viro-me lentamente e pulo de susto ao me deparar com uma raposa. Com a mão no coração, ando para trás, me afastando, assustada. De onde essa raposa tinha saído?

Penso em sair correndo assim que ela me cheira, mas ao invés de me atacar, ela levanta a cabeça, como se pedisse carinho. Hesito, pensando que ela poderia arrancar minha mão fora em cinco segundos ou menos, mas por algum motivo, eu abaixo e morosamente ponho minha mão em seu pelo, acariciando-o. Ela parece gostar, pois rapidamente apoia as patas em mim e esfrega o focinho, como um cachorrinho. Lembro-me de certa vez que Renan me contou que amava raposas. Ele disse a mim que eram espertas, e isso me fez olhar nos olhos do animal. Então eu vi dor e compreensão neles como nunca vi nos humanos. Parecia que entendia a minha dor. Parecia até mesmo que sentia a mesma dor que eu.

De repente, entendo: quando Renan havia me dito que sempre estaria comigo, ele não estava mentindo.

Notas finais
"Você nunca vai estar sozinha De agora em diante Mesmo que você pense em desistir Eu não vou deixá-la cair Você nunca vai estar sozinha Vou te abraçar até a dor passar" Nickelback - Never Gonna Be Alone
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!