A Rapariga Que Pintava Aguarelas

1 A rapariga que pintava aguarelas


Notas iniciais
Desculpem estar escrito em PT-PT! Agradeço a todos que leram. Se quiserem, me deixem um comentário! :)

A rapariga que pintava aguarelas

Olho em volta. Estou sempre sozinha.

Não me lembro de quando comecei a pintar. Talvez sempre tenha pintado. As cores para mim sempre foram mais do que simples pigmentos, as paletas mais do que suportes, os pincéis mais do que algo para transportar tinta. Não era suposto ser assim. Eu devia pintar porque sim, porque era o que, um dia, me daria algum dinheiro para me sustentar, e não por gostar. É errado ter-me apegado tanto a uma actividade que parece rebelar-se contra mim cada vez que tento realizá-la. É como se as tintas, os pincéis e as telas, que sempre julguei meus amigos, um dia me dissessem: “É inútil. Não serve para nada. Volta para trás, acaba o que começaste. Aqui não é o teu lugar.”

E, se calhar, talvez não fosse mesmo o meu lugar. Talvez eu pertencesse ali, mas ainda estivesse numa fase em que, a todo o custo, me queriam tirar do meu lugar. E eu não ia desistir, como nunca fizera.

Pintar era realmente a minha paixão. Pintar é a minha paixão. Pintar vai sempre ser a minha paixão, e isso incomoda-me de maneira que não consigo expressar. É algo que eu amo mas que ao mesmo tempo me destrói. E aí que reside o meu conflito. Páro ou não páro? Vou em frente, ou deixo-me ficar para trás, enterrando a esperança que sempre tive em realizar os meus sonhos e dar asas à minha paixão?

É das coisas que mais dói.

Mas, dia após dia, pego no pincel grosso, molho-o em água, passo-o nas aguarelas que tenho na paleta, mistura as cores, atiro-as contra a tela. O resultado é sempre o mesmo. As minhas cores são normais. Normal não chega.

Sei que é idiota continuar a resistir. Sei que devo parar. Mas mesmo assim, não páro. Será que eu não aprendo? Continuo a atirar a tinta em pinceladas furiosas contra a tela. Ela bate e respinga, sujando o avental. Não posso parar. Mas ao mesmo tempo, de que é que adianta continuar?

As cores não me compreendem, apesar de eu achar que sim. Em vez disso, elas cada vez mais se distanciam de mim, não me deixam torná-las minhas.

O meu traço é grosso mas, ao mesmo tempo, delicado. Nunca fui uma pessoa de pintar abstracionismos; gosto mais do real, da forma que as coisas assumem no nosso mundo do que das coisas representadas em si. Sim, esse era um dos princípios do abstracionismo. Muitas vezes me disseram para deixar a pintura – era tão difícil conjugar cores e traço que eu própria julguei estar a ser levada à loucura. Depois apercebi-me que a loucura era o primeiro passo a tomar naquele universo fascinante que era o dos artistas. A razão não importava. Mas os meus quadros careciam de harmonia – quer pictórica, quer figurativa -, e isso incomodava-me. Talvez o melhor fosse largar as aguarelas; mesmo querendo dominar aquela técnica, eu também sentia que não era possível algum dia as cores e os pincéis me deixarem fazê-lo. Custava, mas era pelo melhor.

Um dia saí de casa. Não levei nada comigo, pelo menos, nada relacionado ao desenho. Estava farta e queria deixar aquele mundo idiota, inalcançável para trás. Será que era aquele mundo que me perseguia, ou era eu que o perseguia a ele por ser tão fora do meu alcance? Não sei.

Caminhei pelas ruas, ruas com calçadas de maravilhosos tons neutros – cinzas, marrons, vermelho-bordô, castanhos, cinzentos-escuros, verdes-terra. Tentei não olhar muito pra elas, para todas essas cores que, apesar de não serem tão vivas quanto o céu azul que se estendia por cima da cidade, tinham o seu encanto especial. Abanei a cabeça; a partir daquele momento, não ia pensar mais naquilo. Ia olhar para as pessoas, apreciar as paisagens, questionar-me sobre as vidas dos transeuntes, observá-los de longe.

Nesse dia vi muitas coisas: vi lojas abertas, bem decoradas e iluminadas, pulsando de vida com todos os clientes que entravam e saíam delas; vi lojas fechadas, caindo aos poucos, fita-cola tapando-lhes as portas velhas de madeiras, anúncios e cartazes colados nas paredes misturados com alguns graffitis; vi cafés, abarrotados de clientela desejosa por algo fresco naquela solarenga tarde de Sábado, com crianças e adultos e jovens que saíam para se divertirem; vi a descontração na cara dos pedestres, a alegria que impulsionava todos os seus actos, como darem a mão uns aos outros, sorrirem e darem beijos; vi a solidão de alguns, que caminhavam pesadamente por entre as pessoas felizes; vi o azul do céu e as formas das pequenas nuvens que lembravam algodão em rama.

Mas havia algo que não conseguia tirar da cabeça: queria tornar todas estas coisas minhas. Queria reproduzir o sorriso das pessoas, a alegria que emanava; o sol brilhante, iluminando o céu, a sua luz radiante cobrindo a cidade em rebuliço; o ar feliz, quase como se fosse de um filme, que pairava entre todos; os tecidos das roupas, o material dos sapatos, a cor dos cabelos, as pedras da calçada. Eu queria aquilo tudo para mim, e só havia uma maneira de obtê-lo. Infelizmente, essa era a maneira pela qual eu não queria optar. Então tentei, quando cheguei a casa, descrever o que vira, como uma redação da primária: não se comparava, minimamente, ao que havia visto; não produzia nenhum sentimento como a paisagem produzira em mim. Fiquei descontente; apaguei o documento do computador e olhei em volta. Estava sozinha.

De um momento para o outro, eu já tinha a paleta na mão, já tinha aberto uma tela nova, assim como a caixa das aguarelas, já molhava os pincéis em água e pintava. Porquê?, perguntava-me, à medida que as pinceladas iam-se tornando cada vez mais furiosas e impacientes. Com isso, acabei por colocar tons de laranja onde devia ser azul, tons de azul onde devia ser laranja, choros onde devia haver sorrisos. Eu não tinha jeito. Era uma tortura o que me faziam, fossem lá quem fossem que o faziam, mas era, e eu queria ver-me livre dela. Ou será que queria? Não, eu disse, enquanto, com água, apagava a borrada que tinha feito na tela. Escolhi as cores cuidadosamente, misturei os tons meticulosamente, até obter o que queria, e comecei a pintar, com toda a minha atenção virada para ali. Então pintar era a minha salvação, assim como o meu maior terror? A vida era irónica.

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