A Rainha do Castelo de Vidro
1 Prólogo
Notas iniciais
Os cascos do cavalo negro ecoavam pela estrada de terra deserta enquanto o sol se punha, os cabelos extremamente loiros da mulher que o cavalgava balançavam junto a brisa e reluziam seu reflexo na delicada armadura prateada que ela usava. Já fazia dois dias que Emma havia partido do pequeno reino de Katz para cumprir sua missão, e desde então não havia descido do cavalo. O animal começara a cavalgar cada vez mais devagar demonstrando cansaço, o que fez Emma parar no meio do nada, pois ao redor havia apenas floresta. — Tudo bem, garoto! Tudo bem! Nós podemos descansar um pouquinho — ela diz ao desmontar do cavalo, em seguida dá dois tapinhas carinhosos no dorso do bicho e o acaricia. Pega sua bolsa de provisões e retira uma maçã dando para o animal — desculpa, mas só posso te dar essa, eu não sei se falta muito para chegarmos em Azallon e precisamos guardar comida — ela coloca a alça da bolsa esfarrapada em cima do ombro e começa a caminhar enquanto puxa o animal pela corda da focinheira — Que tal eu te dar uma folga e mexer um pouco essas minhas pernas?! — Ela caminha de uma maneira engraçada enquanto parece tentar esticar uma perna de cada vez.
A noite se torna cada vez mais escura, e assim como na noite anterior, Emma conta com apenas a pálida luz da lua para guia-la, enquanto já caminha há cerca de umas duas horas para dar uma trégua para seu cavalo. De súbito um grito agudo vindo de longe, os pelinhos da nuca da loira chegam a se arrepiar de susto, com certeza era o grito de uma mulher. Largando a bolsa no chão, Emma faz sinal para que o animal parasse; ela coloca seu manto negro e cobre a cabeça com o capuz para se camuflar e vai em direção aos gritos que já haviam se transformado em berros desesperados. Após largar a estrada e se atirar no mato ela começa a correr enquanto abre caminho entre as plantas com as mãos, depois de alguns segundos ela finalmente descobre a origem dos gritos: ao longe, um acampamento com quatro cabanas, composto apenas por homens que haviam amarrado uma mulher num tronco. A cena deixou Emma perplexa e ao mesmo tempo com raiva, com muita raiva mesmo. Seja lá o que aquela mulher tenha feito ela não merecia ser tratada daquela maneira, ninguém mereceria, aquilo era covardia, haviam cerca vinte homens ali.
Emma se aproximou sorrateiramente, se escondendo atrás das cabanas para chegar até o local onde todos estavam reunidos. Cada vez que se aproximava os grunhidos dos homens ficavam mais audíveis, até que ela conseguiu ouvir algo que fizesse sentido — Sua bruxa maldita, hoje você vai voltar para o inferno do qual você veio!! — Clamou uma voz grossa e em seguida pode ouvir a súplica da mulher num sotaque forte que não era dali — Por favor, não façam isso, vocês estão cometendo um grande engano! — em seguida ouviu-se um tapa e todos os homens comemoraram.
Ao contornar a última cabana Emma pode ver de perto a situação: a mulher de longos cabelos alaranjados gritava em desespero enquanto um jovem colocava um amontoado de palha aos seus pés, o que levou os homens a mais berros em comemoração. O líder deles chegou bem perto da mulher, que virou o rosto com medo, e então ele gritou — AGORA VOCÊ VAI QUEIMAR, BRUXA!! — Ele se virou para um dos seus homens e ordenou — tragam a tocha! – O jovem que havia buscado a palha, sai da multidão, obedecendo-o.
Antes mesmo do jovem voltar, Emma dispara a correr pondo-se entre os homens e a mulher no tronco, seu capuz cobrindo o rosto, ela puxa a espada e direcionando-a para o líder — Eu acho que ninguém queimará hoje! — Ela diz com veemência. O líder, que era um homem barbado e possuía uma expressão de deboche ri com desdém — Uma mulher? — Ele gargalha — Uma mulher quer me dizer o que fazer ou não com uma vadia de uma bruxa? — Ele gargalha novamente e dessa vez é acompanhado por seus homens — Olha só amorzinho, vamos fazer o seguinte: eu te perdoo por você apontar essa porra dessa espada para mim, você sai da minha frente, eu queimo essa vadia e por fim eu termino de te perdoar lá na minha cabana que tal? — O homem faz um olhar malicioso.
Com toda fúria, Emma crava a espada no peito do homem, atravessando-o, em seguida, ela usa um dos pés para empurrar o corpo já agonizante do líder do acampamento e puxa sua espada enquanto o sangue do homem jorra, sujando a calça de Emma e o chão. E assim o homem que a pouco queria queimar uma mulher sem piedade, cai sem vida no chão — Mais alguém tem algum problema com o fato de eu ser mulher? — Todos se calam. Dois homens vêm aos berros em contrapartida de Emma, ela empurra um com o pé enquanto degola outro, o primeiro tenta ataca-la e tem a mão cortada, ele cai no chão aos berros. Um terceiro tenta surpreende-la pelo lado, mas ela gira a espada e corta seu abdômen e ele cai. Quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez homens no chão, os outros correm temendo por suas vidas. Emma não tem nem sequer um arranhão. Ela observa os mercenários correndo feito meninos enquanto abre um sorriso em seu rosto. Era impressionante como um covarde foge que nem um gato escaldado quando encontra um oponente a sua altura, ou nesse caso, melhor que ele.
Ao finalmente se virar para a mulher, Emma dá de cara com um rosto coberto de lágrimas e extremamente pálido de espanto, a mulher que parecia possuir a pele bem clara havia ficado da cor de uma nuvem ao ver uma mulher derrubar dez homens e espantar outros dez. Emma se aproximou para desamarra-la, assim pode ver melhor sua fisionomia, os olhos eram tão azuis que apenas com a luz da grande fogueira do acampamento podia-se ver que pareciam as águas cristalinas de um rio. Ela ofegava, apavorada com a série de acontecimentos, assim que teve seus pulsos e tornozelos soltos do tronco, ela desabou no chão. Emma se agachou para falar com ela — Você está bem? O que eles fizeram com você? — A ruiva levanta o rosto para tentar responde-la — Além de me deixarem o dia todo amarrada eu levei um tapa, mas nada se compara ao que iriam fazer depois — ela ainda ofegava — Por favor, me leve daqui, eles voltarão com reforços, e apesar das suas habilidades você não vai conseguir deter a todos.
Emma havia escutado a mulher e elas partiram daquele lugar as pressas, algumas horas depois ambas caminhavam em silêncio pela extensa estrada de terra. Na primeira hora a ruiva havia prosseguido montada no cavalo de Emma, pois mal conseguia caminhar devido as horas amarrada naquele tronco, a maneira como aqueles homens a trataram ainda revoltavam Emma, mas depois de um tempo ela pediu para descer do animal e caminhar sozinha.
— Me desculpe, eu não tive a oportunidade de te agradecer — a mulher finalmente se pronuncia fazendo Emma olha-la — Muito obrigada por salvar minha vida — ela sorri e Emma retribui — Qual é o seu destino? — Ela mexe a cabeça indicando a estrada.
— Azallon.
— O que pretende fazer na cidade dos renegados?
— Cidade dos renegados?
— Sim, você não sabia que toda a escória da humanidade vai buscar refúgio em Azallon?
— Ah, meu povo não costuma ir até lá, por isso eu não conhecia a fama do lugar — Emma tenta se explicar — eu só vou lá fazer uma pausa para recuperar minhas energias e minhas provisões, faz quase três dias que eu não vejo uma boa noite de sono e a única cidade habitada ao leste de Katz é Azalllon. E você? De onde você vem?
— Azallon — a mulher ri.
— Mas você...
— Eu sei, eu sei, eu sou uma renegada.
— Me desculpe, eu não queria te deixar sem graça.
— Não deixou, foi até melhor você me conhecer antes de ir para lá, assim ninguém vai querer se meter contigo.
Depois dessas palavras Emma até ficou com medo de pensar no que encontraria nessa cidade e pior ainda, quem era aquela mulher que apesar de possuir boa aparência e ser muito gentil havia sido acusada de bruxaria e acabara de se auto denominar uma escória da humanidade.
— Aliás, qual é mesmo o seu nome? — A ruiva pergunta, tirando Emma de seus devaneios.
— Eu me chamo Emma. E você?
— Zelena.
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