A Rainha de Copas
10 Revelações.
O mundo parecia em silencio naquela noite, parecia tudo quieto demais e frio, não por estar chegando o inverno, mas sim por estar dormindo numa cela suja de prisão e ainda vestia suas roupas glamorosas habituais, nunca descia do salto, mesmo que naquele dia, tivesse sofrido tanta injustiça como nunca sofreu na vida, e só podia pensar em uma coisa: Maldito coringa.
Tomou um dos lugares do banco e suspirou, fechando os olhos a repousar a cabeça na grade, com a sensação incomoda de estar usando aquelas malditas algemas ao redor dos pulsos. – E aí bonitinha, soube que você é a dona de uma boate famosa, você dança? Aposto que desce até o chão. — Falou o rapaz a se aproximar dela e lhe observar o rosto.A garota moveu-se, um único movimento contra o rapaz e bateu a cabeça contra a dele com toda a força que pode, fazendo-o cair ao chão e levar a mão ao nariz que agora sangrava.– Hey! Sem briga aí dentro! Está querendo apodrecer mais alguns anos no Arkham? – Desde que vocês não me coloquem na mesma cela do coringa, por que não?– Por que está tão sentida com ele? Não era apaixonada por ele, senhorita Angelique?– Algumas coisas me fizeram mudar de idéia. – Bem, de qualquer maneira, não vai reduzir a sua pena, vamos, é hora da transferência. – Achei que o Gordon ia querer tirar algo de mim antes.– Ele tem coisas mais importantes a fazer, e de qualquer maneira, você não teria muita influência nas decisões do Coringa.– Veja bem como você trata uma dama de coração partido. Posso quebrar o seu nariz pra compensar. Falou a levantar-se e aproximar-se da grade ao vê-lo abrir a mesma.– Aposto que sim, mas eu não dou a mínima para o seu romance com esse louco.– Ao menos um. Sentiu-o puxar a si pelas algemas e gemeu sutil ao senti-las apertando o próprio pulso.– Em silencio enquanto saímos. E não tente nenhuma gracinha. Por que tentaria? Fora presa por vontade própria, pensou. Seguiu em passos calmos junto do outro, logo atrás dele, não tentaria nada, quanto mais cedo saísse dali melhor, se livraria mais rápido dos problemas que deixou para trás, deixaria para trás os próprios crimes, a boate, as pessoas, a cidade, sua vida. Por um momento sentiu a visão embaçar e balançou a cabeça por um instante, cessando os passos e encostou-se na parede, tentando manter-se em pé.– Hey, eu disse sem gracinhas! Falou o outro a segurá-la. Angelique...? O que você tem? Hey!E foi a última coisa que pôde ouvir, antes da estranha sensação escura, aterrorizante de perder o controle sobre o próprio corpo, estava aos poucos dormindo, perdendo os sentidos até desmaiar, mesmo nos braços do rapaz ali. Descerrou os olhos, já em sua cor natural, eram de um castanho claro, quase beirava o amarelo e fitava o teto, sabia que estava deitada em algum lugar, sentia a cama confortável abaixo de si, mas onde poderia estar? Com certeza, não era a cadeia. Confortável era algo que não tinha ligação alguma com a prisão, ou o Arkham. Ao ter-se completamente acordada, sentiu a dor no corpo, porém nada disse, sentia o sabor amargo na própria boca, e estava enjoada. Suspirou e ao fundo podia ouvir os sutis barulhos das maquinas ali no local, mas ao olhar ao redor, reparou imediatamente que não era um hospital, e sim um quarto. Tinha uma porta aberta que dava ao banheiro, um armário e uma cômoda próxima a si, e tudo parecia extremamente caro, pôde notar pelo lustre de cristal no centro do teto. Sentia a agulha na própria veia, recebia soro do pacote posto ao lado no suporte e estranhava até mesmo estar viva, mas não sabia se quer o que havia acontecido. Sentou-se na cama, num movimento sutil e levou uma das mãos a retirar a agulha que incomodava, mas antes que pudesse fazê-lo, ouviu a voz do homem, uma voz diferente de todas as habituais que havia ouvido antes, ele havia passado pela porta. – Não faça isso.– Quem... Quem é você?– Meu nome é Bruce Wayne, eu estou aqui pra te ajudar.– É algum psiquiatra? Médico do Arkham? Onde diabos eu estou?– Você já deve ter notado que está bem longe do Arkham.– Sim, mas... O que aconteceu?O suspiro veio do rapaz que se sentou ao lado dela, pronto para lhe explicar tudo que havia acontecido enquanto estava desacordada e iniciou da forma mais fácil que se lembrava.♥– Onde ela está?! O que eu disse pra você, rapaz?– Eu sei, senhor, você disse sem gracinhas. Mas ela desmaiou, o que eu podia fazer?– Podia ser um truque dela e daquele maldito do Coringa, você sabe que ele costuma fazer essas coisas.– Mas senhor, ela parecia realmente mal, e também, disse que não dava a mínima para o Coringa mais.– Já está na hora de trocar os meus homens... Falou a suspirar. O que houve com ela afinal doutor? Já era pra ela estar no Arkham a três horas.– Bem, ela desmaiou no corredor, então achamos que fosse alguma espécie de droga feita pelo coringa ou mesmo por ela, testamos isso e não deu resultado, também fomos informados de que ela havia se alimentado bem antes de vir pra cá, então comida não é um problema, o que me levou a fazer um exame de sangue, e... Bem, acho melhor o senhor ver por si mesmo o resultado.
– Certo, onde estão os papeis? – Em cima da mesa de centro, junto a ficha dela.O chefe da policia local adentrou a sala médica onde a garota se deitava e pegou junto de sua ficha o laudo médico, ajeitando os óculos sobre o rosto já tão sofrido pelo tempo e observou os papéis. Pôde ver todas as informações sobre a garota naquela pequena folha e o resultado dos exames em anexo.– Não... Isso é impossível! Ela já estava sentenciada a ir ao Arkham, não posso tirar a sentença por causa disso.– Bem, eu acredito que ela vá precisar de muito repouso, eu diria cerca de uns sete meses, é muito arriscado que se levante por agora.– Como isso foi acontecer?– Bem senhor, deve perguntar isso a ela, eu não sei...– Foi uma pergunta retórica, seu idiota. Não podemos mandá-la ao Arkham... Nem mantê-la aqui na prisão. Podemos mantê-la em seu consultório?– Não, eu só tenho essa cama que ela esta utilizando, caso precise atender outro paciente, onde vou colocá-la? Seria impossível.O policial suspirou, pesaroso. – Eu volto logo. E o comissário se retirou da sala, seguindo ao seu escritório, enfurecido, precisava de uma ideia, alguém da policia que se prontificasse a cuidar dela pelo menos por esse período até que ela pudesse cumprir sua sentença. Ao girar a maçaneta, observou a figura já conhecida, vestida de preto próxima a cadeira, imóvel a observá-lo. – Ah... Você vive me assustando. Disse a levar uma das mãos sobre o peito.– Eu posso cuidar dela. – Você? Mas seria muito arriscado cuidar de uma criminosa nesse período. – Ela está sozinha e não há lugar melhor para ficar do que comigo, tenho muitos quartos disponíveis.– Ela é amante do coringa, você sabe, não sabe?– Sei, mas ela está cansada dele tanto quanto qualquer um. Nenhuma alma pode estar perdida assim.– Bem, se você acha que pode cuidar dela, quem sou eu pra discutir. Mas faremos visitas periódicas e ela terá sessões com psiquiatras. – Não há problema, ela estará segura. ♥– E foi assim que você veio parar aqui.– Você se ofereceu pra cuidar de mim durante esse período tão difícil da minha vida, é isso?– Sim, eu tenho muito tempo livre pra ajudar você.– Ok, você só não me explicou uma coisa... O que eu tenho?!– Bem... Eu trouxe a sua ficha médica para que você possa ver.– Então me mostre logo.O rapaz se levantou e seguiu em direção a cômoda próxima, pegando os papeis da garota e entregou prontamente em suas mãos, deixando-a ver por si mesma o exame de sangue junto a uma grande imagem. – O que...? Não... Disse a sentir as lágrimas escorrerem pela própria face. Não é verdade. – Sim, é, a foto está em conjunto pra comprovar. Não sentiu nada durante esses últimos meses?– Não... Falou a observar o exame que mostrava claramente a criança que crescia em seu ventre. – Creio que o pai seja... O Coringa certo?A garota ficou em silencio, preferiu não dizer nada e nem aceitar o fato de que o coringa pudesse ser algo pra ela ainda. Jogou as folhas ao chão e estreitou os olhos. Estava confusa, estressada, queria poder dizer tudo que sentia, mas tudo era estranho demais para si.– Eu quero sair daqui! Eu vou matar aquele maldito!– Angelique, você não pode sair daqui, é arriscado, tanto pra você quanto para o bebê. Aliás, os bebês, segundo o doutor... Você está esperando gêmeos. – Eu não dou a mínima pra essa criança maldita. Espere... O que?!– Mas você precisa estar viva para fazer algo contra ele. Está numa gestação de risco, o médico explicou claramente, não poderá se mover muito e precisará ficar aqui até que essa criança nasça. Parece que você ingeriu altos níveis de gases tóxicos, que eu presumo que seja o gás do riso... Isso afetou a você e as crianças. Caso queira se mover pela casa, eu trarei a você uma cadeira de rodas. – Não vai me tratar como uma deficiente. E você disse, gêmeos?– Não estou tratando você assim. É necessário. Sim, são gêmeos. Infelizmente ainda não foi possível dizer o sexo de ambos.A garota parou, atônita, não, não poderia estar acontecendo. Como pôde deixar tudo chegar a esse estado? Lembrava-se dele consigo, de momentos sutis, invasões, mortes, e em meio a tudo isso, o amor que cultivava. Ah e o amava tanto, tudo que desejava era que ele também pudesse amar a si, mas esse amor estava longe demais pra poder alcançar, era algo impossível até mesmo para si. – Eu não quero... Não quero ficar com essas crianças, se for assim eu prefiro morrer. – Escute, eles não tem nada a ver com o Coringa. São inocentes, assim como você. Eu conheço você, mesmo que na prisão não tenham nenhum registro seu, eu sei quem você é. Seu pai era, um dos maiores traficantes de Gotham, quando as coisas apertaram, eles pegaram todas as coisas e fugiram para a frança, que era o país de origem da sua mãe, eles deviam muita coisa a gente errada e uma dessas pessoas, era o Coringa. – O Coringa? Mas ele me ajudou...– Não. Não sei ao certo porque ele não matou você naquela noite, mas foi ele que colocou fogo na casa dos seus pais. – O que?! Isso... Isso é mentira! Ele cuidou de mim! Ela disse a arregalar os olhos, ofendida. – Ele usou você. Como escudo, contra todo mundo. O único lugar que ele podia ir, era para a sua boate, se esconder por uns tempos, e esfriar a cabeça dos pensamentos doentios. Ele contou a você a respeito da Arlequina?A garota assentiu apenas, observando-o.– Mas disse que ela era... Só uma médica estúpida que o perseguia. Que não queria nada com ela.– Eles já estão juntos à muito tempo. Ele anda enganando vocês duas, não só a você.Ela abaixou a cabeça e uniu as sobrancelhas, sentindo mais lágrimas que lhe deixavam os olhos. Não queria acreditar, não poderia! – Como eu pude ser tão idiota...? – Ele engana todo mundo o tempo todo, não há um pingo de bondade nele, nem de remorso, nunca houve. Mas você não é um monstro como ele, você é diferente.– Como eu posso ser diferente?– Você tem algo que ele não tem. A lucidez, de saber o que é certo e o que é errado. Angelique ergueu a face e o observou, atenciosa às palavras dele.– Você não é igual a ele, assim como seus filhos não serão. Tome um caminho diferente do caminho do Coringa, e vai ver como tudo de ruim na sua vida, vai desaparecer. Você não precisa ser um herói, só defenda a idéia certa.– E se ele vier atrás de mim?– Se ele vier, eu estarei aqui para impedir que ele lhe faça mal. Mas não acho que ele descubra que você espera filhos dele.– Ah, ele vai saber... Ele sabe de tudo, tinha vários informantes pela cidade, mesmo ainda no Arkham, ele vai descobrir...♥O dia estava lindo. O sol iluminava todas as ruas de Gotham, o que não seria bom para um morcego, mas era bom para os moradores que sentiam falta daquele cálido toque sobre suas peles nos dias de trabalho árduo, o que por outro lado era bem diferente no Arkham, por onde o sol adentrava as pequenas janelas acima do refeitório, sem poder ter nenhum momento de recreação, os bandidos e doentes apenas observavam o sol pelas pequenas frestas míseras de luz que tinham, tão monótono quanto uma manhã cinza, se assim poderia dizer.Coringa se sentava na última mesa, sentia uma dor horrível por todo o seu corpo devido ao ultimo desentendimento que teve com um certo cavaleiro de Gotham, porém parecia tranquilo, tinha ao menos alguns momentos de paz dentro dos muros altos do Arkham Asylum. Porém essa paz, como todas, não durava muito e foi quebrada por alguém já conhecido que havia se sentado em seu lado, tentando disfarçar a própria presença, porém, no mesmo instante ele soube de quem se tratava.– Harley, o que você quer?– Então era verdade? Você estava mesmo com... Ela? — Disse a garota com a voz chorosa evidente. Em sua face, tinham vários curativos, assim como o restante de seu corpo e alguns hematomas visíveis em sua pele.– Que? Sim, é verdade. Eu te disse. Mas não me culpe, culpe o Batman que me jogou aqui de novo. Agora sai daqui, hoje tem pudim de morango de sobremesa. – Você sabe que eu fui na enfermaria hoje, não é?– Não, mas e daí? Estou de mau humor, e você sabe que é perigoso ficar perto de mim quando estou assim. Não me obrigue a ir para a solitária após ter chegado há tão pouco tempo. – Bom, ela ficou livre. E sabe o motivo dessa liberdade, que o policial falou pra enfermeira?– Não sei e tenho vontade de matar quem sabe.– Ela está grávida. Ao ouvir a notícia, Coringa ficou extático, tão surpreso que mordeu com força a colher que levara a boca, desviando o olhar à garota a seu lado em seguida.
– Então, o que me diz disso? Ele não respondeu, permaneceu da mesma maneira por poucos segundos, até que o sorriso maníaco e insano aflorara em sua face e o riso pôde ser audível. Começara com um riso baixo que aos poucos havia se transformado em altas gargalhadas que ecoaram pelo refeitório. Todos dirigiram a atenção a ele, que ria sem poder se conter como se fosse se manter desse modo para sempre. O guarda próximo a porta, largou o serviço e caminhou em direção a ele.– Pare de rir assim! Aqui não é lugar para... Antes que pudesse terminar a frase, o palhaço o interrompeu, já havia pego a mão do guarda e a virou, fraturando a mesma, o rapaz gritou, levando a mão livre sobre a mão machucada. Coringa não se intimidou e continuou a gargalhar, os pés dele logo estavam sobre a mesa, em frente a garota e disse alto e claro para todos.– PUNIÇÃO A TODOS POR MINHA CONTA! EU VOU SER PAI!!
Notas finais
Queria agradecer ao Sortudo pela ajuda a escrever esse capítulo.
E volto a dizer que ninguém poderia descrever melhor o Coringa em algumas situações do que você, Sortudo. q ♥
E volto a dizer que ninguém poderia descrever melhor o Coringa em algumas situações do que você, Sortudo. q ♥
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