A Rainha Dourada.
4 Do outro lado.
Notas iniciais
Todo o universo parecia se consumir numa luz azul.
Não haveria lugar em toda terra como aquele. O campo gramado baixo, vasto e orvalhado, na noite que fielmente se erguia, a naturalidade com que a luz da lua penetrava entre as nuvens, quase tão místico e embriagante quanto Mirkwood. A postos, detrás da campina, pairava uma floresta igualmente misteriosa, mas frutífera e saudável: seu aspecto era compativelmente visível.
Gandalf observava maravilhado o que acabara de acontecer. Alívio, era o que sentira, ao notar a textura delicada das gramíneas e o cheiro contrastante do lodo anterior ao de flores numa recente primavera. Bilbo não se detivera mais, aproximando-se igualmente fascinado, o olhar percorrendo o céu impecavelmente desenhado; nada parecia real.
– Ora, aí estão vocês. — acercou Ori, com um sorriso gentil. — Thorin, Fíli. Onde está Kíli?
O loiro ergueu-se prontamente, suspirando confortável ao ver o irmão nas proximidades. Kíli passava as mãos nos braços para retirar as folhas que lhe grudaram as roupas, alheio, quando Tauriel envolveu-o nos braços com uma espada miúda em seu pescoço.
Todos deram um passo a frente, Thorin entreabriu os lábios em um sinal de alerta.
– Não vou matá-lo. — deliberou. — Todavia, se não for me dito neste momento onde estamos e como chegamos aqui, serei forçada a feri-lo até que o faça.
Fíli alarmou-se, ante a Gandalf, que já tomava seu lugar autoritário. A noite se principiava e alguns uivos perigosos eram audíveis.
– Seja razoável, cara mellon, o que lhe seria benéfico causar a este jovem anão qualquer dano?
– Por favor, minha senhora, não o machuque. — a piedade da voz de Fili era surpreendente. — É meu irmão mais novo que detém como refém.
– Akhûn ghurâl (teste para um homem), provando sua nobreza para com a família... — sussurrou Balin. — principalmente diante de uma mulher elfica.
A ruiva apertou levemente a lâmina, Kíli já não se movia, estupefato.
– Não será você, anão, nem suas palavras, que irão me impedir.
– Mas talvez, possa eu? — questionou uma voz melodiosa.
Inesperado, talvez, fosse o termo correto a identificar o que transcorrera ali. Caminhando solitária e deliberadamente indefesa, uma jovem mulher, seus lindos cabelos dourados formando cachos para fora do capuz cinzento e puído. Não se sabia de onde havia surgido, apenas que se postara ali. Num átimo, Bilbo pôde ver as pequenas criaturas a que julgou serem fadas voarem de encontro a ela, cochichando entre si num ruído delicado e quase imperceptível.
– O que é você? — perguntou Bifur, estonteado com a áurea harmoniosa que emanava dela.
– Pergunta curiosa. — seu tom continuava contido, apesar de bem imposto. — O que eu sou? Bem, sou aquela que caminha nas sombras, procurando o nada, encontrando tudo.
Fíli continuava, implorando desesperadamente:
– Por favor, senhora elfa, solte meu irmão!
– Por que prendê-lo, amotiná-lo dessa forma, se nem ao menos pode encostar em sua pele com pouca ternura? — questionou a estranha, caminhando afervente. — Considero sua postura, não menos honrosa do que sempre teve de ser, mas vejo em seu coração... — ela parou, os olhos desfocados. — Não há desejo em machucá-lo. Entre nós, não precisará fingir. O que há de errado em ser complacente, afinal?
Tauriel hesitou, os olhos esverdeados fixos na mulher, a expressão tenra da outra a confundir suas expectativas. Aos poucos afrouxou o aperto, até que Kíli soltou-se completamente dela, caminhando de costas ao olhar da agressora, parando prontamente ao lado do irmão mais velho.
– Onde estamos? — perguntou agressivamente, guardando a adaga.
– Caminhantes distantes vocês são... que não encontraram, ao certo, o que haviam de buscar...- as fadas tomaram seus postos em direção a Baggins.
– Isso não responde a pergunta dela. — arguiu Dwalin autoritário, sua feição notavelmente incomodada.
Thorin não desviara o olhar, um minuto sequer, de Gandalf para a estranha senhora.
– Há uma questão desconhecida para mim, a que tenham atravessado o portal de Vallerie, não deveriam saber agora onde deportaram?
– Estávamos encurralados, não havia escapatória senão atravessá-lo. — Bálin achegou-se a ela, tomando-lhe uma das mãos enluvadas numa atitude bastante suspeita. — Somos apenas um grupo de anões perdidos, guiados em indisposição por um...
– Um mago? — a moça completou, um sorriso gentil iluminando seu rosto. — Devidamente fascinante, tenho dito, hmm...
Gandalf deu um passo a frente, ainda que a expressão continuasse a mesma.
– Meu nome é Gandalf, o Cinzento. Sou um dos cinco Istari, guardiões da Terra-Média. — reverenciou-a, não recebendo a cortesia em retorno. — Talvez pense que fui eu o responsável por todo esse embaraço. — disse, em tom de desculpas.
– Na verdade, não. — completou, caminhando. — A criatura que veio a mim não compartilhava da sua luz.
Bilbo alarmou-se, quieto, dada a declaração: mesmo oculto sob a magia do anel, havia outras maneiras de persegui-lo. Respirando profundamente, acalentado pela companhia, seguiu de encontro à jovem. Balin retornou ao perímetro, dando-lhe espaço.
– Sou Bilbo Baggins. Eu abri o portal. — declarou em uma única vez.
– Eu sei. Mas elas foram a seu encontro. – a moça sorriu novamente. — Fico surpresa que seja um anão o transgressor desta magia inócua, dada a concepção que muito apreciam das coisas mundanas.
Thorin ralhou os dentes, enquanto Tauriel soltou um muxoxo baixo de satisfação.
– Epa, é que, er, bem, eu não sou um anão. — corrigiu num segundo. — Sou um hobbit, do Shire.
– Oh! — a outra parecia estritamente constrangida. — Espero não ter lhe ofendido, mestre Baggins, mas para mim não faz qualquer diferença! — gargalhou com gosto tirando o capuz, revelando as formas femininas num misto de delicadeza e vivacidade.
Seus olhos, tão graciosamente iluminados pela luz do luar, não possuíam qualquer instância. Estáticos e esbranquiçados. Alguns arfaram de indignação.
– Por favor, perdoem-me a descortesia. — prontificou-se, numa alta curvatura com as mãos ao peito, respeitosa. — Sou Estérela, por fim, chamam-me apenas de Ester.
– Thorin Oakenshield, filho de Thráin, filho de Thrór. — finalmente, o futuro rei sob a montanha tomou a palavra. — Sou herdeiro ao trono de Erebor, e líder desta companhia, pedindo em seus nomes, encarecidamente, – era perceptível o esforço que fazia a aparentar falsa gentileza. — que nos diga onde estamos.
Ester piscou duas vezes, antes de responder:
– Sejam bem-vindos a reino de Dragon Forest, e sua fortaleza austera, Windmill Plains, herdeiro de Erebor e sua companhia.
Os anões se entreolharam, confusos. Bilbo continuava boquiaberto. Tauriel, antes na defensiva, encarava a jovem abismada, digerindo suas palavras como uma história de fantasia.
– Não acredito que seja possível. — declarou a elfa, ajoelhando-se no campo, cabisbaixa. — Em toda a nossa existência, vocês foram tratados nada além de uma lenda embaraçosa da criação de uma mente furtiva...Oh, por favor, me perdoe!
– Sou tão real quanto pode me ver, ou me sentir. — a loira acariciou ternamente o topo da cabeça da outra, os olhares se cruzando. — Levante-se, criatura de Erú. Eis que são irmãos entre os nossos, e fazemos parte de teu mundo.
– Vocês compactuam com elfos? — protestou Fíli ruidosamente.
– Não. Compactuamos com almas, e cada uma é preciosa particularmente de uma forma. — acrescentou. — E por tal, ofereço-lhes meus préstimos.
O jovem anão calou-se, envergonhado.
– Vocês não precisariam se preocupar, pelo que sei, anões são grandiosos e ansiosos guerreiros. Entretanto, as matas ao sul são densas, mesmo para os mais experientes. Meu velho pai é o senhor de uma pequena estalagem a caminho daqui, onde encontrarão abrigo e comida fresca.
– É tudo o que pedimos. — Kíli animou-se.
– Será um bom momento para clarear as ideias. — disse por fim, recolocando o capuz, as fadas guiando-lhe. — Sigam-me.
Não demoraram muito a deslocarem-se, um a um: treze anões, um hobbit, uma elfa e o mago. A claridade provida pela lua não foi desmerecida, apesar da sensação instável de insegurança. Gandalf não poderia dar-se mais que satisfeito, estando ali, exatamente onde esperava estar, sem ao menos saber como teria parado por aquelas terras. Além disso, o encontro com Estérela foi uma pretensão doce do destino, e sentia intimamente que ela conhecia suas intenções, de alguma forma.
Aportaram-se diante de uma pequena construção em madeira, muito simples e peculiar. Tochas com fogo podiam ser vistas à distância, flutuando no ar como se voassem. Bilbo achou intrigante, algo que provavelmente veria uma única vez em sua aventura: e também em sua vida. O portão dianteiro não negava à estalagem um menor senso de conforto, o local parecia quente e animado, vozes pairando nas janelas, garrafas jogadas ao chão, não muito diferente de Bree, mas absolutamente mais extraordinário.
Ester dispersou as fadas, ao abrir a porta principal, revelando o interior caloroso a barulhento.
– Estejam a vontade, não há sequer um inimigo dentre nós. — alertou. — Espero que não sejam os primeiros.
Thorin considerou o aviso com decência, lançando um olhar fumegante aos companheiros. Adentraram, um tanto apreensivos, desfazendo-se desse sentimento assim que perceberam que ninguém, em absoluto, notou ambas presenças. Gandalf sorriu.
– Sentem-se! — pediu a jovem com afeto, e todos tomaram seus lugares a uma mesa imensa no meio do salão, sem qualquer divisória. Quando em vez, um ou outro estranho sentava-se, esfarelando um pedaço de pão murcho, ou apoiando a caneca de cerveja cheia até o topo.
A elfa ruiva deu meia volta, afastando-se. Kíli acompanhou-a, para total desaprovação do tio.
– Fique ao meu lado. — considerou o jovem anão. — Sei que não ia me fazer mal, de qualquer maneira.
– Não se preocupa? — havia sinceridade em sua voz.
– Não mesmo. — interpôs ainda. — Você estava apenas agindo como a capitã da guarda de Mirkwood, o que lhe compete, concorda?
– Mantenho minha posição, mas sinto que foi surpreendida.
O pequeno riu diante da suspeita declaração da elfa, sua beleza embalsamando-lhe os olhos.
– Nenhum de nós vai lhe julgar por menos do que você é de verdade.
– E o que sou, afinal?
– Uma guerreira, — respondeu com um tom grave. — cumprindo ordens de seu senhor. — acrescentou.
– Então não receia as minhas atitudes? Não me condena por a pouco, tê-lo apreendido e ameaçado?
– Repito: sei que não ia me fazer mal.
– Como?
– Se o quisesse, usaria uma lâmina afiada, não uma adaga de cortar bolo.
Tauriel sorriu acerca da percepção audaciosa de seu refém, aceitando a sugestão de permanecer a seu lado diante da companhia, mesmo que tivesse outra opção de escolha.
Fale com o autor