A Rainha De Roma
21 Capítulo 21 - Accusatio?
Notas iniciais
Boa leitura.
Butch estava realmente magoado com toda a reação de Catherine, além do mais o fato de ela sequer dizer o que tanto a incomodava nele a ponto de ignorá-lo deixava Collins cada vez mais estressado com toda a situação.
Mais uma vez estava ele em seu refúgio predileto, o templo de seu pai. Talvez fosse aquele o único lugar de toda Nova Roma onde os problemas não o atingiam, não havia aborrecimentos nem dor. Só havia paz. Algo extremamente suspeito pra um filho de Mercúrio, diga-se de passagem.
Jake Stevens – seu irmão e Mensageiro Oficial do acampamento – se aproximou de Butch com sua habitual toga branca de adornos dourados e uma espécie de papiro nas mãos. Collins levantou as sobrancelhas em sinal de surpresa quando o outro garoto sentou-se ao seu lado com uma expressão de cansaço e tristeza.
— Aqui, tem uma intimação pra você. Já digo logo que é coisa da pretora.
— Da pretora? M-mas eu não fiz nada...
— Nem sempre esse tipo de coisa é por motivos ruins, cara. Talvez seja pura formalidade... e trabalho extra pra mim, é claro.
— Nossa, qual é a dessa amargura toda?
— Pode não parecer, mas esse trabalho cansa. Eu passo a porcaria do meu dia inteiro correndo pra lá e pra cá porque os otários que estão aposentados no vilarejo não querem levantar a porcaria da bunda do sofá e ir falar com o amiguinho da casa ao lado. – Despejou o Mensageiro. – Daí eu fico igual um idiota entrando e saindo das casas de pessoas que moram a... sei lá, uma quadra de distância. E a mal amada da pretora não designa um pirralho sequer pra me ajudar. No início era divertido brincar de ser meu pai, agora tá irritante.
— Cara, relaxa. Vou ver o que consigo pra te ajudar, afinal sou seu irmão, né?
— Collins, você é o cara. Sinceramente, não sei porque você não foi eleito Centurião Sênior antes... Você sabe, na época que a pretora era da Terceira Coorte.
— É, a pretora teve seus motivos pra eleger a Sara. Agora vai lá, não quero te atrasar e você não quer uma advertência, certo?
— Tudo o que eu não preciso agora é de punição. – Finalizou o garoto, enquanto ia embora com um sorriso maroto nos lábios.
Era algo estranho e, ao mesmo tempo, completamente compreensível, mas todos os filhos de Mercúrio do Acampamento tinham esse tal “sorriso maroto”.
*
— Soph, me chamou? – Perguntou Butch, entrando no Senado. O garoto se arrependeu de ter mostrado tanta intimidade quando se deu conta que os centuriões e senadores de todas as coortes estavam ali reunidos. Sophie Hoodgrow corou e sorriu timidamente diante das palavras do garoto.
— Centurião Collins, o senhor está atrasado e sem suas vestes adequadas para esta ocasião. – Repreendeu a garota, agora visivelmente “recuperada” da situação embaraçosa de momentos atrás.
— Me desculpe, senhora. Acabei de receber o comunicado e achei que seria mais prudente chegar logo ao invés de me atrasar mais ainda.
— Não é justificável. Jane, vá até a Terceira Coorte e traga a toga do senhor Collins, por favor. – Ordenou ela a uma garotinha de uns doze anos que Butch só percebeu a presença após a menção de Sophie.
Assim que se deslocava para sentar-se no local que lhe era de direito, Collins finalmente percebeu que a pessoa de pé ao lado da pretora era uma figura por ele muito conhecida. Catherine Forbes.
— Bom, agora que estamos todos aqui já é possível dar início ao interrogatório da senhorita Forbes.
— Interrogatório? Isso não é grego demais, pretora? – Zombou Octavian, fazendo muitos dos presentes rirem em resposta.
— Sim, é um interrogatório. – Respondeu Hoodgrow, ignorando a segunda pergunta do áugure. – Forbes foi a primeira a encontrar o corpo de Sara Stones e possivelmente viu quem era o assassino.
— E-eu não...
— Calada, só fale algo quando for solicitado.
— Uma ferrata deveria saber disso, não é, querida? – Provocou uma voz feminina, voz essa Butch sequer percebeu de onde vinha. Cath apenas abaixou a cabeça.
“Numa situação como essa, até eu me sentiria meio humilhado.”, pensou ele.
Logo a pequena garota já estava de volta carregando suas vestimentas e, finalmente, ele poderia se pronunciar perante os centuriões, senadores e a pretora. Butch parecia mesmo alguém importante com o tecido vermelho circundando seu corpo por baixo da malha de couro. Talvez até perigoso, tamanha a fúria que guardava dentro de si ao escutar senadores e centuriões zombando da sua menina. Sim, ela era dele e não seriam meia dúzia de mal-entendidos que mudaria isso tão fácil.
— Engraçado como vocês agem como se isso fosse um accusatio, quando devíamos apenas direcionar nossas perguntas sobre a morte da Centuriã Stones à senhorita Forbes. Como a pretora mesmo disse, isso é apenas um interrogatório e não um julgamento. Até onde foi declarado, a senhorita não cometeu crime algum, senhores.
— Olha pra ele, falando bonito. Acho que depois que virou centurião, o Collins tomou vergonha na cara. Pena que ele é da Terceira Coorte.
— Saiba você que eu muito me orgulho de um dia ter sido da Terceira, senhor áugure. E se o senhor não está aqui pra acrescentar, por favor, se retire. – Pronunciou-se Hoodgrow, eloquente.
— A nossa querida pretora está me expulsando do Salão do Senado por falar a verdade? – Perguntou Octavian, cínico.
— Não, estou apenas convidando-o a se retirar para que possamos trabalhar aqui sem as suas intromissões desnecessárias. Ah, e isso é uma advertência formal. Escrivães, tratem de providenciar tal documento e o entreguem ao nosso querido áugure o mais rápido possível.
Começaram então os murmúrios. Butch pode perceber que muitos dos que apoiavam as menções desonrosas de Octavian agora diziam coisas do tipo “bem que ele merecia”, enquanto alguns poucos – provavelmente da primeira e segunda coortes – se lamentavam pelo ocorrido com o áugure.
— Então, agora que podemos continuar sossegados e sem intromissões desnecessárias, prossigamos com o interrogatório da senhorita Catherine Forbes.
— Então quer dizer que a senhorita foi a primeira a encontrar o cadáver da centuriã Stones? Como exatamente foi isso? Por que a senhorita foi a única a encontrá-la em primeira instância? Diga-me, Forbes.
— Bom, uma coisa de cada vez. – Respondeu Catherine, respirando fundo antes de prosseguir com as respostas. – Sim, eu fui a primeira a encontrá-la e a explicação de porque eu estava lá é bem simples: eu era, quer dizer, eu sou a campista designada para cuidar do arsenal da coorte. Sabe, mantê-lo limpo e bem afiado para o uso de todos. E... e-eu fui a u-única p-porque...
— Senhores, senhores... – Neste momento, um garoto que parecia ter uns quinze anos adentrou o Salão do Senado tão rápido como um raio, mas também igualmente ofegante. – Eu sei que é errado interromper uma sessão do Senado, mas o motivo é realmente grave.
— O que está acontecendo lá fora que precisa de todos nós pra ser resolvido? – perguntou a pretora Hoodgrow.
— Senhora pretora, é... é que... – gaguejou Josh Maxwell, um dos sentinelas do Acampamento Júpiter.
— Diga logo o que quer, imbecil. – Cuspiu a pretora.
— Estamos sendo atacados por inimigo fortemente armado e nossas defesas estão caindo sem nenhuma demora.
No segundo seguinte todos os senadores e centuriões corriam para suas coortes para pegarem suas espadas e armaduras de guerra. Ao que tudo indica, a questão “Catherine Forbes” ficará pra depois.
Isso se houver um depois.
O garoto-sentinela não tinha exagerado em nada ao invadir o Senado, o Acampamento estava realmente em frangalhos. Muitas construções já haviam sido reduzidas a pó; já outras, apenas algumas ruínas teimavam em manter-se de pé. Tinha fogo para todo lado, isso era óbvio. O que Butch Collins não tinha se tocado até o momento era quantas baixas eles haviam sofrido; na verdade ele só se deu conta disso quando tropeçou no braço de um dos antigos campistas.
Choque se espalhava pelas veias de Collins enquanto ele se dava conta que aquele braço não tinha um corpo, mais ainda quando via um corpo morto e sem braço a apenas poucos metros dali. Aquele rosto era... conhecido. A face agora desfalecida pertencia a seu desafeto pessoal no acampamento, Peter Smith. Mesmo após tudo o que Smith aprontou pra ele, Butch não deixava de sentir dor pela perda de alguém.
Dai então ele se tocou em que tipo de situação estava. Era hora de correr por sua vida, de defender a Décima Segunda Legião e, acima de tudo, derrotar adversário hostil.
Notas finais
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Bjs da Gabs
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