A Rainha Curvada

2 O Príncipe Antoine


Notas iniciais
Se vocês gostaram do primeiro capítulo este segundo será ainda melhor! Vamos enfim conhecer o famoso príncipe.

A carruagem chegou ao castelo trazendo consigo duas pessoas que não poderiam ser mais diferentes. Lucienne tinha a mesma empolgação de uma criança que pela primeira vez vai a um parque, explorava com os olhos cada detalhe, passava a mão com deslumbramento pelas cortinas de tafetá da carruagem e pelo corrimão da escada na entrada. Já Arabella mantinha os olhos vidrados e as mãos juntas, com nervosismo crescente. Quando a mãe lhe apontava alguma coisa ela fingia estar prestando atenção, limitando-se a assentir com a cabeça.

Quando subiram a enorme escadaria e passaram pelas guardas qualquer preocupação ou distração de antes sumiram. Os lustres pendurados incidiam suas luzes sobre os vestidos das damas, refletindo nas pedrarias e nas joias. Uma mesa que devia ser maior que toda a casa de Arabella se estendia de uma ponta a outra, cheia de aperitivos. Outra mesa menor ficava do lado esquerdo, próxima à orquestra. Nessa havia uma cascata de chocolate que encheu os olhos de Ella. O salão era gigante. O piso parecia ser feito de ouro puro, tão dourado quanto os cabelos de uma moça que acabara de entrar e já se dirigia a alguns convidados, saudando-os.

Ella observou cada detalhe, pensando em como alguém poderia ter tanto dinheiro assim. Duas escadas davam a volta até se juntarem em um patamar central, onde havia pelo menos uma dúzia de dignitários e oficiais do governo. Lucienne não tirou os olhos dali.

Uma música alegre preenchia o ambiente, e Lucienne começou a dançar no ritmo. Ela parou quando um garçom muito bem engomado e polido apareceu carregando uma bandeja de prata com taças contendo um líquido azul.

—O que é isto? – Ella apontou, tímida, perguntando para a mãe.

—Ora, minha tola filha, isto é um vinho legítimo das terras distantes do Oriente. – ela pegou uma e entregou outra para a filha, tomando um grande gole antes de continuar: — É feito com especiarias únicas, não encontrará nenhuma igual no mundo. – ela piscou para o garçom, acenou com a cabeça e o dispensou.

—É forte! – Ella comentou, experimentando a bebida.

—Duas dessas e você beija o príncipe sem pensar. Tome cuidado! – Lucienne avisou, puxando Ella pelo braço e apresentando as pessoas que considerava importantes. – Está vendo aquele ali?

—Quem? – Ella procurou na multidão para onde a mãe apontava com as unhas bem-feitas.

—Aquele barrigudo, com cabelos sebosos.

—Estou sim. Quem é ele?

—Aquele é o Major Fabrice. Ele é responsável pela vigilância nas fronteiras. Serviço muito importante. Ótima pessoa para ter contatos. A senhora sentada naquele banco, com as mãos nas coxas, está vendo?

Ella observou atentamente a mulher de cabelos encaracolados, muito claros, nariz empinado e uma pinta no queixo. Não gostou muito dela.

—Ela é a irmã da rainha Ivny. Mulher poderosa, dona de terras e casada com um conde. Mora há dias de viagem daqui, perto da Floresta das Fadas. Não vai querer arranjar nenhum tipo de confusão com ela.

Lucienne parou de falar por um instante, colocou a taça vazia em uma bandeja e pegou outra taça de um garçom que passava por elas.

—Dizem que Madame Camille odeia o príncipe.

—Mas ele é sobrinho dela! – Arabella exclamou, tomando outro gole do vinho.

—Certamente. Mas nem sempre laços familiares são sinônimos de amor.

Ella pensou em como sua mãe dizer aquilo era irônico ao extremo, mas ignorou e continuou escutando Lucienne.

—O casal observando a cascata... – apontou com a cabeça para um casal de braços dados. A mulher franziu o rosto, olhou ao redor e meteu o dedo no chocolate, rindo com o marido, um homem austero de bigodes salientes e sobrancelhas grossas. -... são os pais da rainha. A mulher é totalmente selvagem, e o marido não fica muito atrás.

—Pais da rainha? Não parecem ser muito velhos.

—E não são mesmo. A rainha teve Antoine quando ainda era muito nova. Ela se casou na sua idade e deu à luz não muito tempo depois. Por isso seus pais são jovens. Seja amiga deles, dizem que a rainha costuma confiar em quem seus pais confiam.

—E aquela moça? – Ella apontou.

—Qual? Não estou vendo.

—Aquela que está encostada na mesa principal pegando os canapés. De cabelos castanhos e encaracolados, presos por uma fita amarela. Está usando um vestido da mesma cor.

Lucienne franziu o rosto e virou o resto do vinho, deu um soluço e falou: — Essa é a prima do príncipe. Não sei ao certo seu nome, mas creio que seja Nessa, um nome tão ridículo quando ela. Não bate muito bem da cabeça.

Ella simpatizou com a garota. Nessa comia os canapés com uma fome voraz, não se importando com os olhares lançados pelas damas e senhores próximos. Sua boca estava suja, mas ela simplesmente desandava a continuar comendo. Um canapé caiu no chão; Nessa agachou, pegou, assoprou e colocou na boca. Era o que Arabella teria feito. O chão daquele local brilhava tanto que ela duvidava ter uma partícula de poeira sequer.

Lucienne escarrou, o vinho surtindo efeitos: — Não seja como ela. Se eu souber que se comporta desse jeito terá muito mais que olhares reprovadores. Sorte a dela que é da família real, ou jamais teria sido convidada. Se eu tivesse um parente desses me envergonharia.

Ela pegou outra taça de vinho, e Arabella aproveitou a deixa para deixar sua taça na bandeja, sentindo a cabeça leve demais. Subitamente as trombetas soaram na orquestra e uma voz retumbante atravessou o salão.

—Senhores, senhoras e senhoritas! Saúdem a Vossa Majestade Máxima, o Rei Maximilian Filaud!

Os convivas batem palmas sob a entrada grandiosa do rei. O homem era enorme, tinha os ombros largos feito armários e portava uma capa que se arrastava pelo chão. Os músculos do rosto tinham ao mesmo tempo a firmeza de um governante e a flacidez de alguém que já vira muita coisa na vida. Seu bigode negro estava bem aparado e se arrastava pelas faces angulosas. Os olhos eram azuis, inquietantes, tão diferentes dos olhos de Alexander, Ella pensou. O rei não desceu as escadas, em vez disso seguiu para o centro do patamar superior. Dali observou o povo e apoiou as mãos de dedos grossos antes de dizer, com uma voz grave e rouca, autoritária:

—Boa noite!

Todos os presentes responderam, Lucienne de forma um pouco mais estridente.

—É uma honra tê-los hoje, aqui, nesta data tão especial! – Ella não sabia porque, mas sentia que não era uma honra tão grande assim. – Meu querido filho, Sua Alteza Real, o príncipe Antoine, terá hoje a oportunidade perfeita para encontrar uma moça adequada e de bons modos para servi-lo como esposa.

—Servir? – Ella sussurrou, sendo calada por um olhar cortante da mãe.

—Todos vocês devem estar se perguntando por que não escolhemos alguém da realeza para fazer par com meu filho. E a resposta para isso é bem simples. – ele ficou em silêncio, abriu os braços abarcando todo o salão e depois de um olhar significativo falou: — Não há ninguém da realeza que já não esteja casado.

Todos riram, e Ella não entendeu o motivo para tanta graça, mas por bem achou melhor acompanhar.

—Meus primos distantes da Itália estão todos casados, algum com maia de uma esposa, e seus filhos compartilham da mesma predisposição. Sendo assim, após muito conversar com meus representantes e conselheiros, julgamos ser mais bem-visto que Antoine encontre uma moça dentre as mais humildes e preparadas.

Houve um murmúrio coletivo, no qual o rei contemplou o que havia incitado. Uma disputa pela mão do príncipe. Isso me parece muito familiar. Pois bem, Maximilian assentiu, satisfeito, e com um sinal da mão fez todos se calarem.

—Esta noite talvez uma de vocês venha a se tornar a próxima rainha, quem sabe? – ele ergueu uma das sobrancelhas.

Lucienne não se aguentava de euforia. Estava na quinta taça de vinho oriental e soluçava constantemente. Se virou para Ella com os olhos lacrimejantes e as bochechas vermelhas. Tentou falar, mas só saíram soluços.

—Agora, sem mais delongas, quero apresentar a vocês a razão deste baile e o motivo de minha existência! Sua Alteza Real, o príncipe Antoine.

O príncipe não era nada como Ella havia imaginado. Não tinha cabelos loiros e penteados para trás e nem rosto perfeito. Embora o sorriso fosse branco e alinhado, os cabelos lhe caíam em ondas até a altura dos ombros, e eram da cor de tronco de árvore. Usava um traje simples, mas elegante, com insígnias demais para alguém tão jovem, e os braços eram musculosos, Ella percebeu quando ele os levantou para cumprimentar os convidados, prostrado ao lado do pai.

Algumas moças quase desmaiaram. Uma ou outra realmente o fez, e tiveram de ser levadas às pressas para fora pelos pais descontentes e envergonhados. Lucienne acenava, tentando chamar a atenção do príncipe. Ella, por outro lado, se encolheu, desejando que ele não a visse. Ficaria completamente desconfortável caso ele resolvesse olhar na sua direção.

—Ele é mudo? – Arabella perguntou, cutucando a mãe.

—Claro que não! Ele está falando alguma coisa com o rei. O que será?

—Sinceramente, não me interesso. – Ella deixou a mãe e as jovens alvoroçadas para trás e caminhou até a mesa de aperitivos.

Nessa ainda estava ali, beliscando de quando em quando. Estava mais preocupada em experimentar tudo que pudesse do que em prestar atenção ao primo.

—Pelo visto você não curte nada disso, ou estou enganada? – Nessa perguntou, assustando Arabella.

—Eu? Impressão sua. – ela fingiu estar ocupada com as rodelas de... aquilo era caramujo? – Só não acho que o príncipe seja tuuudo isso.

—Você deve ser a única a pensar assim. – Nessa desencostou da mesa e chegou perto de Arabella, esticando a mão suja de comida para cumprimenta-la. – Eu sou Nessa, prima de nosso digníssimo príncipe. Como é seu nome?

Arabella esticou a mão e devolveu o cumprimento, sem nojo: — Meu nome é Arabella, mas pode me chamar de Ella.

—Vou te chamar de Bella, então. Combina com você. – Nessa parecia estar sendo extremamente genuína, e aquilo fez o coração de Arabella se comprimir no peito.

—Eu não pareço ser a única que não gosta desses eventos. – Ella falou, pegando um punhado de salames em rodela.

—Para falar a verdade detesto tudo que envolva a realeza. Irônico, não é? Sou da realeza. Pode ver que nem uso joias ou vestidos chiques. Esse aqui que estou – Nessa levantou a saia do vestido amarelo, revelando os sapatos simples, sem adornos – usei no casamento de tia Temeret, uns dois anos atrás. – ela deu de ombros. – Tanta gente passando fome por aí, por que eu me daria o trabalho de ter luxos?

—Então você deve ter ficado muito surpresa quando chegou em Sussaud.

—Por quê?

—Porque Sussaud é o melhor reino para se morar. Não passamos fome e as crianças não precisam pagar pela escola até os doze anos, quando já sabem ler e escrever. Além disso, a biblioteca é pública e o teatro oferece várias atrações gratuitas. Posso dizer com orgulho que é um bom lugar para se morar.

Nessa ergueu as sobrancelhas, desconhecendo tais informações. Em seguida, voltou a se recostar na mesa e falou enquanto observava o salão, alheia às palavras do príncipe: — Se um habitante não tivesse me falado isso eu jamais acreditaria. A bondade do rei vai até certo ponto, e não acho que envolva alfabetizar crianças e oferecer espetáculos aos pobres. Seja como for, me alegro por saber disso. Obrigada.

—Não há de quê. – Ella enfiou alguns salames na boca, nervosa, e voltou a atenção para o príncipe. – Do que ele está falando?

—Parece que vai tirar algumas moças para dançar e anunciará sua escolha amanhã mesmo.

—Escolha de quê?

—Ora essa, de com quem irá casar! O que mais seria?

—Ele não conhece nenhuma de nós, como pode se casar com alguém que nem conhece?

—Pelo visto não entende nada sobre a realeza. – Nessa revirou os olhos. – Não existe casamento por amor entre príncipes e princesas. Todos os casamentos são arranjados, visando interesses políticos ou de guerra. No mundo da coroa nada é à toa.

Arabella ignorou Nessa e tentou focar nas palavras de Antoine, reverberando pelo salão. Sua voz macia chegou até onde elas estavam, com um pouco menos de intensidade, mas ainda assim soando verdadeiras:

—Procuro uma esposa para compartilhar meus dias, e ela está neste salão. – a orquestra fez um rufar de tambores teatral. – Maestro, por favor, toque a quinta marcha.

O maestro fez como ele pediu, e imediatamente soaram cornetas e violinos, embalando os convidados em uma mistura de sons agudos e graves, lembrando a Arabella uma disputa por qual som chegava mais longe. O príncipe começou a descer as escadas, devagar, olhando atentamente pelo salão à procura das moças que lhe saíam mais aos olhos.

Chegou em uma jovem particularmente bela, com lindos traços orientais. Os olhos puxados eram negros e os cabelos lhe escorriam pelas costas. Ela vestia um quimono estupendo, com cristais descendo pela cauda. Sorriu para o príncipe, e este lhe retribuiu o cumprimento, tirando-a para dançar.

—Pelo visto meu tio ordenou que ele tirasse uma estrangeira para dançar.

—Ordenou? O príncipe dança com quem ele quiser.

—Nossa, você é mesmo muito tapada quando se trata de jogos políticos. Antoine só está dançando com ela porque Maximilian mandou que dançasse, para que os representantes orientais não se sentissem ofendidos. Isso é óbvio.

A segunda moça tinha a pele da cor de chocolate, e os cabelos desciam em cachos, se enrolando nas orelhas e na bandana roxa que lhe cobria metade da testa.

—Já sei – Arabella começou, estralando os dedos. – Ele está dançando com ela porque há representantes africanos por aqui, não é?

Nessa a olhou com diversão: — Não sei se dou risada ou sinto dó de você. Essa moça é filha do príncipe da Namíbia. Ao contrário da japonesa, essa Maximilian não precisou ordenar somente para manter as aparências. Temos estreitas relações com a Namíbia no comércio de diamantes. Olha, se por um acaso muito terrível do destino acabar sendo escolhido por Antoine acho melhor devorar os livros de história o quanto antes.

—Eu gosto de ler, mas não me interesso por política. Prefiro histórias de contos de fadas e romances épicos.

—Contos de fadas não te levam a lugar nenhum, confie em mim. – Nessa deu uma piscadela, observando a próxima moça escolhida pelo príncipe e comentando com Arabella. – Péssima escolha.

—Por quê? Ela é linda! Olha os cabelos ruivos, parece a rainha Ivny. Falando nela onde está?

—Minha tia acordou um tanto indisposta. Preferiu ficar na cama. Amanhã de todo jeito ela vai acabar sabendo quem Antoine escolheu. E minha tia Ivny nunca gostou desses eventos, acha tudo pretensioso demais. Meu primo fez uma péssima escolha porque todo mundo sabe que essa moça é filha dos donos de uma empresa que concorre contra meu tio.

—Empresa?

—Sim. No tempo livre meu tio cuida de uma empresa de cristais no norte do país. Essa moça é herdeira de uma outra empresa também no norte que concorre contra meu tio pelo monopólio do comércio de cristais. Se bem que... se conheço Antoine ele casaria com ela para tramar alguma coisa e tentar comprar a empresa. – Nessa apoiou o queixo na mão, pensativa, estreitando os olhos para o casal que rodopiava no centro do salão.

—Ele só pode escolher mais uma. – Nessa comentou, olhando para Arabella, quando a quarta moça, uma nórdica de pele pálida, cabelos cor de fogo e ombros mais largos que os de Antoine, se dirigiu com ele para o centro, sob o ritmo da orquestra.

Ella não entendia porque estava tão nervosa. Sua mãe devia estar quase surtando tanto pela possibilidade de ser a última escolhida quanto pela possibilidade de Antoine escolher qualquer outra moça no salão. Arabella procurou a mãe com os olhos, e por isso não viu quando o homem de cabelos castanhos encaracolados se aproximou dela.

O cheiro veio antes de sua presença. Uma mistura de toques cítricos com algo que parecia ser folhas frescas. Nessa pigarreou para Arabella, mas ela só percebeu realmente o que acontecia quando notou a quietude do salão e todos os olhares voltados para si.

Arabella levantou a cabeça para Antoine, os rostos em uma distância respeitável.

—Quem é a senhorita? – ele perguntou, soprando o hálito quente em sua face.

—Alteza. – ela se curvou em reverência, tal qual a mãe lhe ensinara. – Meu nome é Arabella, senhor. Arabella Durmièn.

—Arabella. – ele falou como se saboreasse cada sílaba. – Que nome incomum, para uma garota de aparência incomum.

Aquilo era um elogio? Ela tentou entender antes que ele falasse, mas seus pensamentos estavam embaralhados e os sentidos entorpecidos pela descrença.

—Obrigada, eu acho. – ela agradeceu, incerta.

—Não há de que duvidar. Isso foi um elogio. Nunca conheci moça com os cabelos mais negros nem com pele mais macia. Quer dizer... – ele se atrapalhou. –... uma pele que eu imagino ser macia, é claro.

Arabella riu, aos poucos se desprendendo do nervosismo. Ou o príncipe não era um mimado egoísta criado nos maiores luxos ou ele havia falado isso para cada garota com a qual dançou por pura formalidade, apenas.

—Queira ter a honra de compartilhar uma dança comigo, senhorita Tremaine.

—Ella.

—Como disse?

—Pode me chamar de Ella, por favor Alteza. – ela curvou a cabeça, aceitando em seguida a mão esticada do príncipe.

—Perfeito. Estou ansiando por esta dança, Ella.

E os dois caminharam sob o som crescente da orquestra até o centro do salão, onde iniciaram a dança.

Notas finais
Como vocês acham que será a dança??? Já imaginaram o lindo Antoine, a elegante Ivny e o majestoso Maximilian? Contem pra mim!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.