Notas iniciais
Pra quem leu os originais: alguma pequena coisa foram modificadas pra dar mais sentido a fatos futuors na história.

Pra quem não leu: divirtam-se

Ricardo estava sentado em um banco na sala de espera do pronto socorro. Com os braços cruzados, olhava fixamente para o chão. Na mesinha à sua frente, um copo plástico com café, que a enfermeira lhe havia oferecido, intacto.

Levantou a cabeça. Inquieto, começou a olhar para onde podia pelo canto dos olhos. Sabia que muitas pessoas não gostavam, ou odiava aquele cheiro característico que todos os hospitais tinham, mas ele daria qualquer coisa para sentir aquele cheirinho de hospital agora. Pelo menos era melhor que respirar enxofre.

Levantou, foi dar uma volta, não ia conseguir ficar parado, não naquelas circunstâncias. Caminhava pelos corredores silenciosos e inertes, o único movimento vinha de uma ou outra enfermeira que invadia algum quarto, ou saía dele.

Um grito percorreu os corredores. Um grito de terror e desespero. Um grito de alguém que chamava e suplicava desesperadamente pela vida.

Ricardo correu, um pouco desorientado, tentando encontrar a origem do grito, que reverberava nas paredes. Não foi preciso procurar muito, ele viu, andando pelo corredor, um demônio. Um ser acinzentado, de garras amareladas e olhos num vermelho intenso. Passou pelo garoto, olhou-o nos olhos, e sorriu malignamente, bafejando enxofre. Arrastava, junto dele, um homem que se debatia e gritava, e berrava, e chorava.

Quando Ricardo fez menção de ir a auxílio do homem, uma mão o deteve, apertando fortemente seu ombro. Ele olhou para trás e viu Mara, que se limitou apenas a fazer um sinal negativo com o rosto. Ela quase chegou a ser cômica com todos aqueles esparadrapos no rosto, mas sua expressão severa cortara qualquer chance de piadas e ironias. Ricardo encarou-a, embasbacado.

-Não podemos interferir. Não nessa, já está feito.

-Mas não é isso que você faz?

-Aquela alma já tem quem interceda por ela.

Ricardo olhou para trás, na direção que o demônio fora, antes de desaparecer na curva do corredor.

-Aquela coisa?!

-Não – Mara recuou um passo para perto da parede e puxou o garoto junto com ela. Então, um anjo veio, rápido como uma flecha, passou por eles, espada em punho e uma expressão tensa, sumiu na curva do corredor. Em seguida, ouviram só os barulhos e rugidos de uma luta.

Mara encostou-se na parede e, com um longo suspiro, deixou os ombros caírem.

-E é por isso que eu evito ao máximo todos os hospitais. Vamos logo pra casa.

-Antes você vai me explicar tudo! O que significa isso? Por que aquilo aconteceu e... E esse enxofre!? – Ricardo começou a elevar a voz, sem dar nenhuma atenção às enfermeiras e médicos que o olharam com censura, e sem entender do que ele estava falando.

A garota levou o dedo até os lábios e deixou escapar um “Shhh...”. Ela quase sorriu. Sim, continuava o mesmo rebelde sem causa de sempre. Ela apontou para uma grande vidraça no corredor, bem próxima deles. Ricardo fez uma cara de quem não estava entendendo nada, mas mesmo assim foi até lá.

A cena que viu era inacreditável. Atrás daquela janela ficava a U.T.I. do hospital, o lugar estava intransitável. Ao lado que quase todas as macas havia anjos, alguns rezando, uns sobre os joelhos, outros em pé, mas todos firmes e fortes, em socorro de seus respectivos protegidos. E, espalhados desordenadamente, os demônios. De tipos e formas diferentes, mas todos com os olhos cor de sangue, olhavam ansiosamente de um enfermo a outro, esperando para carregar suas almas.

Ele se aproximou do vidro para ver melhor a cena. Chegou tão perto que seu nariz estava quase tocando o vidro. Um dos anjos que estavam ajoelhados ergueu a cabeça e encarou o rapaz com seus olhos esbranquiçados. Olhou-o nos olhos e Ricardo se sentiu atraído, estava tão envolvido, que seu rosto já estava colado à vidraça, como se pudesse atravessá-la.

E então, numa fração de segundo, havia um demônio junto ao vidro. Negro, com as asas em farrapos, dava fortes pancadas na janela, fazendo Ricardo recuar até encostar-se à parede oposta, ainda tentando se recuperar do susto. Com os olhos emanando ódio, o demônio batia cada vez mais forte na vidraça, fazendo-a rachar.

Tão rápido como atacara, teve a cabeça cortada por um dos muitos anjos que lá estavam. Seu corpo se desfez em uma névoa negra, que ficou pairando rente ao teto por longos segundos, antes de desaparecer lentamente.

Ricardo aproximou-se novamente da vidraça, dessa vez com cautela, e passou os dedos levemente sobre a marca que ficou no vidro. Como assim aquela criatura havia se materializado se ele mesmo viu, segundos antes, aquela enfermeira atravessando o corpo dos anjos?

-Você sabe agora?

Ele não respondeu, nem sequer desviou o olhar do vidro. Seus dedos percorriam lentamente o caminho rachado.

-Como ele fez isso?

-Depois eu explico. Eu não esperava por isso, realmente. Mas não era bem isso que eu queria te mostrar, era aquilo.

Ela apontou para um canto da sala. Em uma das macas estava um homem rodeado de médicos. Ricardo quase deixou seus olhos saltarem.

-Exatamente. É o mesmo homem que viu sendo levado por aquele demônio. Esse é um lugar onde as almas estão fracas e vulneráveis, mais fácil capturá-las.

-E por que não podemos interferir?

-Eu ajudo almas sem eira nem beira, vagantes por aí ou aquelas que não sabem que morreram. Essas aqui nem vão vagar e muito menos achar que ainda estão vivas, são até disputadas. Já têm para onde ir, querendo ou não. Agora a gente vai embora?

***

Mara entrou em casa, jogou o boné no sofá, junto com a espada e o casaco. Depois, com um suspiro longo e sofrido, deixou seu próprio corpo desabar em uma poltrona. Começou a balançar as pernas. Elas subiam e desciam alternadamente, e os saltos de suas botas emitiam um barulho oco toda vez que se chocavam com o chão. Não ascendera a luz da sala, o que iluminava o ambiente eram as luzes da rua, que inundavam a janela, e as do corredor do sétimo andar, que entrava pela porta ainda aberta.

Ela observava o jogo de sombras no chão. Olhava, principalmente, a projetada pela luz do corredor: a de alguém encostado na soleira da porta. Respirou fundo e fez uma expressão irritada.

-Vai ficar aí mesmo?

Esperou alguns segundos. Como a resposta não veio, ela levantou e deu alguns passos encarando o chão. Subitamente, correu até a porta, puxou o garoto pelos pulsos e fê-lo sentar no sofá.

-O que foi agora? – perguntou Mara.

Ricardo cruzou os braços e encarou Mara com um olhar frio e não carregava expressão alguma no rosto. Começou a falar lentamente.

-Nada, imagina! Eu só tava aqui, falando pra mim mesmo e pensando. Sabe, o que aconteceu agora foi a gota d´água, então, como você prometeu, eu acho que eu mereço uma explicação, não? Bom... Estou aqui, esperando. Na hora que quiser, não tenha pressa.

Mara recuou alguns passos, girou nos calcanhares, entrelaçou os dedos atrás das costas, abaixou a cabeça e começou a caminhar em volta da mesinha de centro da sala.

Durante muitos minutos a cena ficou assim. Ricardo encarando os joelhos e Mara andando em círculos, ninguém falava nada. Os passos lentos de Mara enchiam a sala com batidas ocas e sonoras. Às vezes o som de motores ou buzinas vindas de longe, lá de baixo, para aliviar o silêncio, mas acabavam contribuindo para uma melodia repetitiva e angustiante, juntamente com os saltos de Mara, o que deixava Ricardo mais apreensivo ainda. De repente, Mara parou.

-Você... – começou Mara, num sussurro baixo, até demais – você viu o demônio naquela praia, não viu?

Ricardo respondia sem nem abrir a boca, limitava-se a balançar a cabeça e a emitir ruídos positivos. Tornou a fazer a mesma coisa quando ela lhe perguntou se também vira os do hospital. Mas, afinal, o que significava tudo aquilo? Por que ela estava perguntando coisas óbvias? Começou a recear sobre onde aquela conversa iria chegar.

-Então – continuou a garota voltando a andar, sempre em volta da mesinha de centro – isso quer dizer que você também viu Michael hoje à tarde, não viu? – ele não respondeu. Nem um ruído. Nem um gesto — Não fique aí calado! Você viu, não foi? – ao pronunciar esta última pergunta, sua voz tremia.

E Ricardo agradeceu pela luz estar apagada, assim, Mara não pôde ver a expressão de seu rosto, de repente, ficara com ares de bobo alegre. Sim, ele vira, e foi maravilhoso. Experimentara uma sensação inédita, foi como se toda aquela luz tivesse penetrado em seu corpo. Um bem-estar invadira-lhe o coração, e se sentiu feliz, de uma felicidade que julgava inatingível. De repente não havia mais problemas nem sofrimento, simplesmente a luz. Então, a verdade o atingiu, e esta era muito mais forte. Ele sabia exatamente o que teria de pagar por aquilo, e era algo que não podia dar.

-Bom... – falou ele temeroso – sim, eu vi sim, mas isso agora é...

-Você mentiu pra mim... – Mara se virou para ele, os olhos brilhando de lágrimas e uma nota de choro na voz.

-Mara, olha, não foi sobre isso que agente veio conversar, lembra?

-Por quê?... Só me diga isso. Não é uma pergunta difícil, é?

Ricardo levantou, saiu tudo exatamente da pior maneira possível, arriscou alguns passos e voltou a falar.

-Mara, eu acho que é melhor não continuar com isso. É, é isso mesmo, é melhor eu ir. Amanhã a gente conversa, ou depois... Quando você estiver mais calma, quem sabe. – concluiu indo em direção à porta ainda aberta.

A porta se fechou com um estrondo. Ricardo nunca vira alguém correr tão rápido como Mara correra e nem agir como agira. Ela trancou a porta e atirou a chave em qualquer canto da sala.

-Você tem que responder agora! Vai responder agora! – Mara o encarava com os olhos vermelhos de fúria, e do choro também.

-Só se antes você me explicar tudo! – o garoto já havia recuado o tanto quanto podia e atrás de si só havia a parede sólida e maciça.

-Por que... Você... Mentiu? – Ela se aproximou, as lágrimas correndo pelo seu rosto, a voz saindo com dificuldade.

-Quem deve explicações aqui é você!- explodiu Ricardo, agora achando tudo muito irritante.

-POR QUE VOCÊ MENTIU PRA MIM?!

-VOCÊ ACHA MESMO QUE TODO MUNDO QUER SER QUE NEM VOCÊ? EU VI! DESDE A HORA QUE EU TE CONHECI, VOCÊ QUASE MORREU DUAS VEZES! DUAS!! O QUE É QUE EU IA GANHAR SE EU DISSESSE QUE TAMBÉM VIA? VOCÊ IA QUERER ME LEVAR JUNTO, IA QUERER QUE EU FIZESSE ISSO TAMBÉM! POIS ADIVINHA: EU TENHO MUITO AMOR À MINHA VIDA PRA MORRER AGORA!!! – Mara não dizia nada, nem dava sinais de ração. Simplesmente ouvia, e chorava – você deve achar isso tudo muito legal. Aquela coisa do tipo “Eu sou uma caçadora de demônios! Eu saio por aí arriscando minha vida e coisa e tal... Isso é tããão divertido”. Pois adivinha de novo: EU NÃO TÔ VENDO NADA DE DIVERTIDO NISSO! E eu aposto que você se sente muito especial por isso, não é? NÃO É MESMO?

-JÁ BASTA!

A luz de novo, aquele brilho ofuscante, dessa vez mais breve, insuficiente para fazer morrer os sentimentos daqueles dois jovens, mas suficiente para abrandá-los. Michael olhava para Ricardo com um olhar sério, tão severo que fez o garoto encolher os ombros e desviar o olhar para o chão. E, só ao fazer isso, ele percebeu o que fez.

Mara estava no chão, o rosto virado para baixo, soluçando alto. Aquela visão fez toda raiva que ele ainda sentia se converter em culpa. Ele realmente não devia ter falado daquele jeito com ela, mas ela o estava irritando, ele não agüentava mais olhar ela daquele jeito, cobrando coisas dele... Acabou explodindo.

Ele simplesmente olhava e não encontrava alternativas. Olhava dela para Michael, e deste para ela novamente. O anjo lhe havia dito o que fazer simplesmente com um olhar, mas ele simplesmente não conseguia. Abaixou e fez menção de tocá-la, chegou até a estender o braço, mas encolheu-se novamente.

Ouviu um farfalhar seguido de passos leves. À sua frente, se aproximava Michael. O anjo abaixou-se, toucou Mara levemente no ombro e a chamou. Ela cessou os soluços por um instante e foi levantando lentamente. Michael sorriu para ela e estendeu-lhe a mão. Ela simplesmente atirou-se sobre ele e recomeçou a soluçar.

Ricardo abriu a boca pra falar qualquer coisa, mas o anjo ergueu a mão, num gesto de negação. Então quer dizer que agora devia ficar calado? Ricardo levantou e começou a dar voltas pela sala, que agora, graças a Michael, não estava mais escura. Viu um pontinho prateado brilhando bem ali, no canto. A chave, supôs. Foi até lá, sim, era a chave. Apanhou-a e foi andando a passos largos até a porta, sempre sob o olhar do anjo, que apesar de estar abraçado a Mara, não estava falando nada, só observando. Pôs a chave na fechadura, e deu uma volta. Depois de tudo o que aconteceu, a única coisa que queria era ir embora. Quem sabe voltaria na manhã seguinte para tentar se desculpar. Abriu a porta.

-Espera... Não... – ele ouviu a voz fraca de Mara chamando.

Ela tentava se recompor. Havia levantado. As pernas tremiam um pouco, era verdade, mas estava de pé. Limpava o rosto com as costas das mãos e estas na blusa.

-Não vai ainda, a gente tem que conversar, esqueceu? – falou ela, tentando sorrir – desculpa pela cena que eu fiz agora, é que... – ela corou um pouco – eu... Faço isso... Às vezes... – disse com outro sorriso fraco.

-Mas... eu.. – balbuciou Ricardo desconcertado, a última coisa que esperava depois de tudo o que disse para ela era um pedido de desculpas.

Mas Mara conseguia parecer ainda mais desconcertada que Ricardo. Brincava com algum detalhe de sua blusa e não erguia a cabeça, o rosto mais vermelho que nunca.

Michael assistia a tudo sorrindo, quem sabe até se divertindo. Quando finalmente percebeu que aqueles dois não conseguiriam fazer mais nada além de corar e encarar o chão, aproximou-se deles e falou alegremente:

-Ótimo, estamos chegando a um entendimento! Agora, que tal se vocês sentassem e conversassem um pouco?

Ele quase precisou pegá-los pela mão e guiá-los, mas só quase. Após alguns segundos os dois começaram a andar, sentaram, e foi tudo.

-E então? – perguntou Michael para Mara, sorrindo – você tinha que explicar alguma coisa para ele, se não estou enganado.

-É, eu tinha, mas... Já que você está aqui, é melhor você falar, sabe... Explicaria melhor que eu.

-Pois muito bem – Falou Michael se virando para Ricardo – em que posso ser útil?

Depois de ficar algum tempo brincando com os joelhos, o garoto ergueu a cabeça e olhou bem nos olhos de Michael.

Como eles fazem isso? – falou enquanto sua mão ia, timidamente, na direção do anjo e tentou tocá-lo – como você faz isso..? Eu pensei que vocês fossem só espíritos, que...

-Passasse através de paredes?

-Isso – respondeu encabulado.

-É bem simples. É graças a você. Você nos materializa. – Ricardo lançou-lhe um olhar assustado – se vocês dois não tivessem aqui eu não poderia lhe tocar, e nem você a mim.

-Quebrar vidros também?

-Você deve ter ficado realmente surpreso com aquela cena do hospital, mas é possível quebrar vidros também. Como a maioria dos aparelhos que vocês usam precisa de energia para funcionar, nós precisamos da força de pessoas como você e Mara para podermos nos materializar. É graças a essa energia que emanam que posso pegar isso, por exemplo – falou pegando uma pequena peça de porcelana de cima da mesinha de centro – então aquele demônio, se utilizando do seu dom, pôde fazer o que fez. Mas as conseqüências poderiam ter sido piores – Ricardo limitou-se a contemplar Michael, cheio de dúvidas.

-Aquela materialização era fraca, falha – Mara finalmente decidira entrar na conversa – porque havia uma barreira entre vocês.

-O vidro... Então ele queria quebrar aquela vidraça para ficar mais forte e me matar.

-Para ficar mais forte, sim. Mas não creio que ele realmente quisesse tirar sua vida.

-Tá, tudo bem, você pode até ser um anjo e entender um bocado dessas coisas, mas eu vou duvidar de você agora... Por que aquela coisa não me mataria? Ela não fica ali, de plantão, só esperando alguém morrer?

-Mas é muito burro mesmo! Tá achando mesmo que é fácil encontrar alguém como a gente? Aquele demônio pode até ser inferior, mas todo demônio, por mais inferior que seja, sabe como é difícil pessoas com o nosso dom aparecerem do nada! – Mara, pelo visto, estava totalmente recuperada, pois voltara a gritar com Ricardo.

-Como assim alguém com o nosso dom? – levantou Ricardo alterado – existem milhares de médiuns e espíritas por aí! Um a mais ou a menos não faz diferença!

A garota revirou os olhos, levantou também, chegou bem perto dele e abriu a boca para revidar, mas as mãos de Michael separaram os dois.

-Na verdade, Ricardo, ver espíritos e fantasmas é bem diferente de ver anjos e demônios. Nem todo mundo que consegue ver essas pobres almas perdidas, é capaz de nos ver.

-Ah, não?

-Claro que não, seu idiota! Se todos os demônios se materializassem toda vez que passasse perto de um médium o mundo seria um caos total!

-A questão – falou Michael calmamente – é que só quem pode nos ver são aqueles que: ou têm um poder muito forte, como no caso de Mara...

-Acho que esse não é seu caso – falou Mara cruzando os braços.

-Ou que tem uma alma praticamente igual à nossa.

Ricardo abaixou a cabeça e corou, e nem estava tão escuro assim, para passar despercebido. Mara revirou os olhos novamente.

-Ah, deixa de fazer cena! Esse também não é o seu caso! Eu nem sei por que você os vê! Michael, você... Michael?

Michael olhava atentamente para a porta. Os dois o acompanharam e fixaram o olhar na entrada do apartamento. O trinco moveu-se lentamente e abriu.

-Mara, você está aí? Por que não ascendeu a luz? Não devia ter deixado a porta aberta — A mulher ascendeu a luz e bateu o olhar em Ricardo, seu rosto se abriu num sorriso – Oh, você trouxe amigos! Nunca pensei que isso fosse acontecer!

Ricardo e Mara se entreolharam, em seguida olharam para Michael, que ergueu um pouco os ombros e deixou cair a peça de porcelana que ainda estava segurando.

O rosto da mulher foi ficando gradativamente vermelho, mais e mais. Como uma bomba prestes a explodir, e explodiu.

-Quantas... Vezes... Eu vou ter que falar sobre esses seus... Amiguinhos? Quantas vezes eu não já falei sobre o que eu acho dessas suas convençõezinhas e sobre fazê-las aqui em casa? Você sabe que eu odeio isso! – Michael aproximou-se dela e sussurrou em seu ouvido.

-Está tudo bem, acalme-se, não se preocupe.

O rosto dela aos poucos foi voltando à cor normal. – Será que você pode pedir para essas... Coisas irem embora agora?

Michael sorriu para Mara, deu de ombros novamente e, em seguida, desapareceu.

-Pronto. A “coisa” foi embora. — falou Mara irritada.

-Não fale comigo nesse tom, mocinha! Nós já conversamos muitas vezes, até demais, sobre isso – falou a mulher com o rosto retomando o tom avermelhado de antes.

-Tá, tá bom, mãe... Agora eu vou acompanhar o meu amigo aqui, que é de verdade, até a portaria – então, sem falar mais nada, e sem deixar Ricardo falar nada, puxou-o pelo braço, saiu do apartamento e deixou a porta bater atrás de si.

O silêncio foi total enquanto esperavam o elevador. Mara fingia contemplar o quadro que estava fixado na parede oposta à de sua porta e de cujo conteúdo já sabia de cor e salteado. Ricardo olhava para qualquer lugar onde a garota não entrasse em seu campo de visão.

Quando finalmente o elevador chegou, os dois entraram e continuaram sem se falar. Encaravam os pés como dois vizinhos quaisquer, alheios um do outro. Mas foi por pouco tempo.

-Então... – falou Mara quebrando o silêncio – você quer perguntar alguma coisa?

-E porque teria alguma pergunta a fazer? – questionou Ricardo um tanto surpreso.

-Ora, vamos! Eu tive minhas dúvidas, e não vejo motivo pra você também não ter as suas também.

-Bom... – começou Ricardo encabulado – já que você falou... E aquela coisa de almas boas e puras, semelhantes à dos anjos...

Mara esboçou um sorriso

-Quero dizer, se eu posso ter uma alma pura o suficiente para ver anjos, isso também não quer dizer que eu também posso ter...

-Uma negra o suficiente para ver demônios? – completou ela sorrindo – vem, eu te explico melhor.

Os dois abandonaram o elevador e foram se sentar em um banco próximo a um canteiro de flores, no pátio do edifício.

-Eu sabia que você ia me perguntar isso, essa dúvida é muito normal – ela perdeu alguns segundos fitando o nada antes de continuar – Não. Não pode. Normalmente, almas enegrecidas o suficiente só conseguem chegar nesse nível porque têm sempre um demônio por trás, em seu encalço, corrompendo essa alma, ou seja, esse estado é induzido. Geralmente, nesses casos, isso não é suficiente para ver, ou só permite ver demônios. A sua alma não foi induzida, acredite. Você chegou aqui por si mesmo, se tivesse um demônio no seu encalço, eu saberia. – Mara pegou uma flor -Sabe aquela história de que “os olhos são as janelas da alma”? É uma coisa parecida, bem parecida mesmo. Tá, tá, ok, tudo bem... Você faz o típico gênero de rebelde sem causa e tudo mais e sai por aí fazendo essas coisas todas e... Ei! Não faz essa cara, não, não to falando nenhuma mentira, viu? Enfim... Apesar de tudo dá pra ver que isso é só uma carcaça. Sabe, eu odeio ter que admitir, mas naquela hora, hoje, na praia, eu olhei bem nos seus olhos e vi que você não é bem com todo mudo acha. Além do que você me salvou e enfrentou aquele demônio, se fosse realmente como tenta mostrar, teria simplesmente fugido e me deixado morrer. Esquece essa história de que só por que você faz o que faz você tem a alma suja, tem gente que faz muito pior que você. E você nem faz aquilo com sentimento, eu tenho certeza, é mais uma encenação, eu sei, e, mais importante, você sabe. Portanto, se preocupa não. Cê pode ser um pouquinho revoltado, mas sua alma é limpinha, branca como a neve.

Quando Mara finalmente parou de falar, Ricardo olhava para ela perplexo, abobalhado, surpreso, embasbacado e ao, mesmo tempo, aliviado. Mas, apesar do discurso ter sido mais do que ele esperava, era exatamente o que queria ouvir. Ficou mais alguns segundos olhando para ela.

-Bom... Então, — falou ele levantando – acho que agora posso ficar tranqüilo. Tá na minha hora, tá ficando tarde. Até amanhã?

-Eu não vou pra aula amanhã.

-Ah... É... É até melhor. Você ainda vai sair hoje? Acho melhor não. Viu?

-Eu sei, eu sei – falou ela vagamente – parece que hoje, finalmente, eu vou ter uma noite tranqüila. Vem, eu vou com você até o portão.

Eles foram andando lentamente, passaram pela guarita e pararam ao lado de uma motocicleta. Quando Ricardo subiu na moto e deu a partida, Mara o fez parar.

-Espera! Eu esqueci uma coisa – enfiou a mão no bolso e de lá tirou um frasquinho com um líquido transparente – toma. Fica com isso

-O que é isso? – perguntou ele pegando o frasquinho e olhando-o bem de perto.

-É que... – falou ela com um ar preocupado – não tem nenhum demônio, especificamente, no seu encalço, mas tem muitos deles atrás de você.

-Como?

-Eles estão te seguindo! Não sei se eles pretendem fazer alguma coisa com você, mas só por estarem agindo assim já é estranho.

-E não é normal eles ficarem seguindo pessoas como a gente? – perguntou num sussurro, pois o porteiro já estava tentando ouvir a conversa deles.

-Bom... Isso com certeza não é normal, eu nunca os vi agir dessa maneira. Então...

Ricardo analisava novamente o frasco que Mara havia lhe entregado.

-Ooooooh sim... Entendo. Medida de precaução, não é? – inclinou um pouco a cabeça para ficar mais próximo dela, e então perguntou — Isso é água benta?

-Isso aí! Não é muito, mas é suficiente. Se precisar, atire na cara feiosa deles e saia correndo.

-Não se preocupe falou ele guardando o frasquinho e dando partida na moto novamente – eu sei me cuidar – e foi embora.

Mara olhou para cima, sabia que aquele brilho não era da lua. Ela encarou o anjo que a observava. Ela tinha cabelos compridos e escuros e os olhos esbranquiçados carregavam uma expressão serena e feliz.

-Você não acredita nele, acredita? – perguntou Mara num sussurro, para que o porteiro não a ouvisse e começasse a achar que ela estava ficando doida. O anjo sorriu para ela – sabia. Cuida bem dele viu?

Ela ficou observando enquanto ele abria as asas e voava, seguindo os passos de Ricardo. Depois voltou para dentro do prédio.

-´Noite Mara! Que que aconteceu com seu nariz?

Boa noite, seu Antônio. Isso? – perguntou ela apontando para o próprio nariz, cheio de curativos – foi um acidente, só isso. Nada de mais.

-Oh, sim. Mas também, andando naquilo... É perigoso viu?

-Quê? — perguntou Mara sem entender.

-Aquela moto!

-Ah, claro... A moto! É... Eu aprendi uma lição. Até amanhã.

Então a garota voltou ao elevador e se entregou aos seus pensamentos. Não ia sair hoje, será que aconteceria alguma coisa? Também não iria à escola amanhã, ordem médica. Não que estivesse achando ruim, era até bom, mas teria que arranjar alguma coisa para fazer durante todo esse tempo, não tem cabimento passar vinte e quatro horas perseguindo demônios, e também não era saudável, mas não a animava muito a idéia de ficar em casa. Começou a achar que iria visitar o pai no dia seguinte.

Parou defronte à porta do apartamento. Conseguira deixar a mãe com raiva. Se não fosse por Michael, não sabia o que mais poderia ter acontecido. A conversa que teria com ela a seguir não seria muito agradável. Então um odor não muito agradável lhe encheu as narinas. Abriu a porta e viu algo que desejava nunca ter que ver.

Sua mãe estava com a espada desembainhada nas mãos. Alguém lhe falava ao ouvido, um ser enegrecido de olhos escarlates. E ele sussurrava e bafejava ao ouvido dela. Esse era realmente forte, Mara não sentiu o enxofre até abrir a porta. Mas nenhum demônio, por mais forte que fosse, tinha o direito de entrar em sua casa e mexer com sua mãe.

A visão de Mara, a criatura simplesmente retorceu a boca e mostrou as presas, ao que Mara interpretou como um sorriso, e voltou sua atenção à mulher, que já havia erguido a espada.

Enfiou a mão no bolso num movimento automático, não havia nada lá. Acabar de dar o resto de água benta que tinha para Ricardo. Por que aquele tipo de coisa sempre acontecia quando ela estava sem defesas? Tinha que agir rápido. O demônio pôs as garras sobre as mãos de sua mãe e as guiou, direcionando a espada para o coração dela. Mais um movimento e tudo estaria acabado.

-MÃE! NÃO!!

Em um salto, Mara se atirou sobre a mãe, fazendo-a cair e soltar a espada, que ela pegou prontamente.

-O que você quer?

-Nossa... Ainda é preciso perguntar?– falou o demônio com a voz esganiçada — Pelo que todos dizem de você, pensei que já saberia. – e avançou contra ela.

Mara desviou a tempo, mas não conseguiu atingi-lo. Ele voltou a sussurrar no ouvido da mulher.

-Fica longe da minha mãe!

Ele fingiu não ter ouvido a garota, continuou falando – Vamos, Rosa... Eu sei, eu vejo, você não gosta do que ela faz, não se orgulha do que ela faz. Você nem pode se orgulhar mesmo, não pode nem falar pras suas amigas o que ela faz. Eu sei como parar, quer que eu diga? É tudo aquela espada... Você tem que se livrar dela... Esconder, quem sabe destruir. Se acabar com isso, ela vai ficar sem defesas, vai ser obrigada a desistir. É o ponto fraco dela. E depois vem a parte mais difícil, vai ser complicado, mas você tem que ser firme: ela não vai mais poder ver os amiguinhos dela, e muito menos aquele garoto.

E raiva de Mara crescia a cada palavra dita. Os punhos cerrados sobre o cabo da espada, o lábio inferior tremendo e a veia inferior ao seu olho direito pulsava desesperadamente, sinal de que não agüentaria muito tempo parada. O que aquela coisa queria com sua mãe, afinal? E porque estava deixando ele falar tanto? Chega de besteiras! Rapidamente, em um movimento simples, e espada estava atravessada no demônio.

-Ninguém tenta envenenar minha mãe contra mim!

-Mara... O que... – Rosa voltava lentamente do transe – eu não lembro de nada...

-Nada mãe, fica quieta aí! – depois decepou a cabeça do demônio e ficou olhando a névoa negra, que planou no teto e foi sumindo lentamente.

-Mara, o que aconteceu? – Falou a mãe dela, totalmente recuperada – por que você estava usando essa coisa aqui?

-Bom... – falou Mara abaixando a cabeça – ele veio aqui e... Eu tive que usar... Ai minha barriga, eu não devia ter me mexido tanto! – reclamou ela se encolhendo.

-Quem veio aqui? Seus amiguinhos de novo?

-Bom... Ele não é exatamente meu amigo...

-O que eu falei sobre esses seus... Mas o que aconteceu com você?! – perguntou ela finalmente notando os curativos no rosto de Mara.

-Você tem certeza que quer que eu diga?

-Oh Deus... O que eles estão fazendo com você?

-Nada de mais – Falou a garota indo até o sofá e pegando suas coisas – mas se quer saber mesmo, tem uma mancha roxa enorme na minha barriga e eu quase morri afogada.

-Como você pode dizer isso com essa naturalidade toda? Isso... Isso tem que parar agora!

-Mas não vai! – Mara começou a andar, em direção ao corredor – E... A propósito... O médico disse que não era recomendável ir pra aula nos próximos dois dias, então... Acho que amanhã vou ver o meu pai.

-Você não vai sair de casa! Nem pra isso nem pra mais nada! Pelo menos não até você ficar boa.

-Oh, sim... Claro... Mas, — lançou à mãe um olhar frio – você sabe que se acontecer alguma coisa nos próximos dias a culpa vai ser toda sua, que não me deixou ajudar, não sabe?

Sem deixar a mãe responder, Mara seguiu pelo corredor até a porta de seu quarto, que era o último do corredor. A luz vazava por baixo da porta.

-Estranho... Não lembro de ter deixado a luz acesa.

***

Notas finais
Não deixem de me dizer o que estão achando da história
XD