A Rainha Branca
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Obrigada Hades, pela betagem
Mara acordou radiante naquela manhã. Estava alegre e disposta, nem parecia que havia dormido apenas duas horas naquela noite. Era bom acordar daquele jeito, há tempos Mara não se sentia tão bem ao acordar. Tomou banho e se vestiu sem muita pressa, ficou mais tempo que o normal secando e penteando os cabelos e até arrumou a cama quando acabou de se arrumar.
Pegou a espada sob a cama. Enquanto a olhava, lembranças da noite passada lhe vinham à memória e seu sorriso só aumentava. Finalmente guardou a espada no guarda-roupa, escondida embaixo de uma pilha de roupas mal dobradas e foi para a cozinha.
-Bom dia, bom dia, bom dia! – Mara cumprimentou a mãe, que já estava sentada à mesa, assistindo televisão – Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que nada que você diga vai mudar o meu humor hoje!
-Eu não disse nada! – reclamou a mulher.
-Mas vai falar que eu sei – replicou Mara sorrindo enquanto abria a geladeira.
Depois de examinar a geladeira e chegar à conclusão de que não queria nada de lá, sentou e pegou um pouco de café e um sanduíche que sua mãe havia feito. Então pegou o controle da televisão para mudar o canal e percebeu que já estava no noticiário.
-Nãããããão... – exclamou dando um sorriso irônico – Você, mamãe... Você está vendo o jornal e não as fofocas?! Mas hoje o dia promete, eh?
Rosa cruzou os braços.
-Como se isso fosse uma grande coisa...
-Sendo você – declarou Mara bebendo um gole de café – claro que é! Mas não se preocupe, eu estou tão feliz hoje que eu vou colocar no canal mais fútil que tem pra você assistir, ta? – e começou a mudar os canais da TV.
-Ah, mas que filhinha mais amável que você é, não? – a mãe respondeu com o mesmo sarcasmo com que Mara lhe falara – Mas... Mara – voltou a falar, agora sem o sarcasmo – eu queria falar com você...
-Sim? – questionou Mara dando mais atenção ao sanduíche que à própria mãe.
-É que eu vi uma matéria no jornal e...
-Não fui eu – declarou Mara enquanto comia o último pedaço do sanduíche.
-Mas você nem sabe o que é!
-Não interessa. Não fui eu... – pegou uma fatia de presunto – Eu não faço nada que apareça no jornal – falou erguendo a fatia de presunto acima da cabeça.
-Ah, é? E o que você fez ontem, eu posso saber?
Mara parou de se mover. A boca aberta, o rosto virado para cima, pronta para abocanhar o presunto que ainda matinha erguido. Comeu logo o presunto antes de começar a falar.
-Você quer mesmo saber?
-Tenho a impressão de que não deveria, mas eu quero sim.
-Nesse caso... Se você quer mesmo saber – começou Mara enquanto abria um pedaço de pão francês – eu saí. Com o Ricardo. Nós fomos caçar e foi muito divertido. E eu espero que possamos fazer isso de novo logo, logo. – acrescentou colocando duas fatias de queijo no pão.
-Mesmo? Hmm... Devo supor que isso é uma coisa boa.
-Como? – perguntou Mara ainda com a boca cheia – Desde quando você acha isso bom? E você não acredita quando eu digo que a senhora está estranha hoje...
-É que pelo menos esse garoto é de verdade.
-O Michael é muito real, se é disso que você está falando, viu?! – Mara revidou agressiva.
-Tá, tudo bem... Mas não é sobre isso que eu quero falar. Você tem alguma coisa a ver com a garota da passarela?
-E por que raios eu teria?
-Você sumiu na noite em que ela pulou, então...
-E desde quando você se interessa por isso?
-É que eu só estava pensando... Como você gosta de matar as pessoas, então...
-Pode parar por aí! – Reclamou Mara enquanto bebia o último gole de café da xícara – Eu falei que nada do que você dissesse iria me irritar, então é bom você não falar mais nada. Outra coisa, qual foi o programa de fofocas que disse que a garota que se jogou da plataforma era uma das que fizeram a brincadeira do copo no topo daquele prédio?
-Nenhum... Nenhum mesmo! – respondeu a mulher sem jeito. Estava tão óbvio assim?
-Olha... Tudo bem se você não admitir. Mas eu sei que foi isso, sim – declarou levantando.
Mara andou até a porta da cozinha e depois se virou para a mãe, que ainda estava sentada, imóvel, se perguntando como Mara percebera tão rápido como ela havia descoberto tudo sobre aquilo.
-Quer saber como eu descobri? – perguntou a garota fazendo a mãe quase pular da cadeira de susto – Simples: nenhum jornal falaria disso com tanto sensacionalismo a ponto de despertar interesse em você. Portanto, só pode ter sido alguma dessas porcarias que a senhora perde tempo assistindo.
-Não é perda de tempo! – defendeu-se a mulher ofendida.
-Sei que não... – replicou Mara saindo da cozinha – E caçar os demônios que acabam com a vida das pessoas é um trabalho totalmente e completamente inútil – ecoou a voz dela vinda do corredor.
-Pelo menos o que eu faço não pode me matar! – vociferou Rosa para a porta da cozinha.
Mara estava tão alegre, tão tranqüila e fazia tudo com tanta calma, que saiu de casa atrasada e perdeu o ônibus. Teve que esperar pelo próximo e, conseqüentemente, acabou perdendo a primeira aula.
***
Mara estava diante do grande espelho do banheiro feminino. Ajeitava os cabelos sem pressa alguma enquanto esperava para assistir as próximas aulas. Então viu, através do espelho, Michael aparecer atrás dela.
-O que você está fazendo aqui? – perguntou surpresa.
-Como assim o que estou fazendo aqui?
-Isso aqui é um banheiro feminino! E se é feminino é só para mulheres. Você é uma mulher por acaso?
-Ora, mas que coisa... Você sabe que ninguém pode me ver mesmo...
-Quem garante? Além do mais, eu te vejo e isso é suficiente. Agora meia-volta – disse apontando para a porta.
-Mara, você está...
-Não estou nada! Você é um garoto e está no banheiro feminino!
-Mara, anjos não têm...
-Então você usa o banheiro dos anjos sem sexo – disse o empurrando para a saída – xô, xô...! Eu quero minha privacidade.
-Tá, tá bom... Entendi, eu saio. – respondeu Michael contrafeito – Mas você tá que tá hoje, hein? – resmungou antes de desaparecer.
A garota voltou a se encarar no grande espelho e se segurou para não dar uma gargalhada, era realmente divertido implicar com ele de vez em quando. Era bem verdade que às vezes ele levava tudo muito a sério e ficava realmente com raiva, mas talvez ele já estivesse acostumado com as brincadeiras dela.
Já havia acabado o que estava fazendo, mas decidiu ficar mais alguns minutos no banheiro, por pura implicância.
Quando Mara finalmente saiu do banheiro, Michael estava encostado na parede ao lado da porta, com os braços cruzados e uma expressão fechada no rosto. Não resistiu a fazer mais uma brincadeira com ele. Colocou a cabeça para fora e olhou bem para os dois lados do corredor para ter certeza de que estavam desertos. Então ficou em pé na frente do anjo.
-Oh, meu Deeeus, ficou com raiva foi? – falou como se estivesse falando com um bebê e então alcançou seu rosto e apertou suas bochechas – tão bonitinho quando fica com raiva! Mas não fica assim não, tá? Titia te compra um sorvete depois.
E ele segurou os pulsos dela e os ergueu no ar enquanto ela ria compulsivamente e disse qualquer coisa que Mara ignorou. Quando ela finalmente parou de rir, ele voltou a falar.
-Já acabou?
-Hmmm... Deixa ver – pensou ela com um rosto sorridente – acho que já – alargou o sorriso.
Como Michael não falou mais nada, Mara começou a andar pelo corredor vazio. Ele a acompanhou silenciosamente. Após muitos passos, Michael quebrou o silêncio.
-Você está tão vaidosa hoje... Isso tudo é para o Ricardo?
-Não, é pra você. – ela se virou para ele e deu uma piscadela – Gostou, amor?
-Mara, você quer parar?!
-Foi você quem começou!
Ela ia gritar qualquer outra coisa, mas calou-se subitamente ao avistar a velha faxineira no final do corredor.
Quando teve certeza que a velha havia ido embora, Michael voltou a falar.
-Natã veio falar comigo há pouco.
-Foi? E o que ele queria?
-Dar um recado.
-Um recado? – Mara parou de andar e se virou para ele.
-Sim, ele disse que Ricardo ficará longe por uns tempos. A mãe o mandou para a fazenda da avó, no interior do estado, até que ele parasse com essa “loucura”.
-Como é?! Mas isso não é loucura! – berrou.
-Não. Não é não. Loucura é falar sozinha pelos corredores da escola. Vai sermelhor pra vocêse você não se exaltar.
-Mas...
-Mas não há nada que possamos fazer. Ela está fazendo o que julga ser melhor para ele. A partir de agora está por conta dele.
Mara ficou emburrada durante o resto do dia.
Não só durante o dia, mas durante toda a semana. De repente tudo se tornou mais chato, o colégio estava horrivelmente chato e cansativo e até sua mãe ficara mais irritante. E sair à noite para caçar também se tornou terrivelmente chato, como se ela não tivesse feito isso sozinha até algumas semanas atrás.
E durante aquela semana e as seguintes a vida de Mara se resumia em apenas uma palavra: tédio.
No decorrer de algumas semanas a partir do dia em que Ricardo se ausentara para alguns pode não ter ocorrido nada de interessante, mas para Mara houve uma enorme mudança.
A questão foi justamente o que não aconteceu na cidade. De repente tudo ficou calmo e parado, os demônios simplesmente desapareceram da cidade. Mara passava as noites vagando por ruas desertas e ficava fora de casa menos tempo a cada noite, até que não saiu mais de casa, o que não queria dizer que não estivesse preocupada.
É como se eles estivessem se escondendo por algum motivo ou até mesmo ido embora. Mas aquilo não era normal, em todos os cantos do mundo existem demônios; Alguns demais, alguns de menos, mas nunca sem nenhum, faz parte do equilíbrio entre as forças.
Mas por quê? E como? Eles não podem ter simplesmente desaparecido! E também não podem ter decidido voltar para o inferno por conta própria, isso seria a última coisa que passaria pela cabeça deles. Então o que poderia ter acontecido para que eles sumissem de circulação tão rápido?
***
Madrugada de sábado.
Jonas acabar de deixar o bar onde estava bebendo com os amigos. Talvez não estivesse sóbrio o suficiente para dirigir, por isso não estava correndo muito com o carro. Dirigia sem pressa de chegar em casa, apreciava as ruas, desertas àquela hora, observava cada detalhe dos prédios.
Até que parou em frente a um determinado prédio, e começou a refletir enquanto o observava. Era realmente incrível como as pessoas esqueciam rápido das coisas. Em seu trabalho como jornalista, ele cobriu, há alguns meses atrás e naquele mesmo prédio, o caso de uma garotinha que havia caído do topo do edifício. Foi um alvoroço: curiosos, jornalistas, polícia, especialistas... Todas as atenções se voltaram para lá: para ela, a garota que morreu, e a amiga dela, que ficou visivelmente perturbada. Muitos psicólogos e psiquiatras se ofereceram para ajudá-la e hoje ela acabou enfiada em um manicômio qualquer... E é só até aí que vai o interesse das pessoas.
São todos hipócritas.
E houve também o caso das duas outras amigas dela que também morreram. Dois suicídios. E mais curiosos, e mais jornalistas, e mais confusão...Então as pessoas começaram a acreditar que tudo aconteceu por causa daquela brincadeira estúpida que elas estavam fazendo naquele dia trágico.
Aquilo tudo é besteira, repetia para si mesmo. Isso não existe, todos esses joguinhos sobrenaturais são uma farsa, todo mundo sabe disso. Mas era tudo passado, já faz algum tempo e ninguém lembra mais do ocorrido.
Acelerou o carro e seguiu seu caminho.
Estava mais distraído que nunca, olhava para todos os lados menos para a frente. E não olhou até sentir um baque, um impacto no carro. Havia atropelado alguém.
Colocou a cabeça para fora da janela e olhou adiante. Parecia ser uma mulher, estava de branco e seu corpo estava inerte no chão. Ele ajeitou-se no banco e pensou, pensou e pensou.
Olhou novamente para o corpo no chão. Será que não seria melhor fugir? Ninguém viu, ele não tinha nada a perder. Mas e se...? Será que alguma câmera de vigilância havia gravado aquela cena? Decidiu ajudá-la. Como ficaria a imagem dele se descobrissem que ele negara ajuda a uma vítima de atropelamento?
Então desceu do carro. Mas quando olhou para o local onde a mulher deveria estar desmaiada, viu que não havia nada lá. Esfregou os olhos e olhou novamente. Nada.
Jonas riu-se enquanto voltava para o carro. Talvez tivesse bebido demais e agora estava começando a ver coisas, só podia ser isso. A melhor coisa a se fazer naquele momento seria voltar para casa e dormir. Acomodou-se melhor no banco do motorista e se deu ao luxo de fechar os olhos por alguns instantes, devido à sonolência que já aumentava.
Finalmente abriu os olhos e ligou o motor. E quando olhou para a frente, deu um pulo. Lá estava ela de novo. Estava de joelhos sobre o capô do carro, o corpo inclinado para baixo, em sua direção, uma das mãos dela estava sobre o vidro do carro e a outra estava apoiada, também, no capô do carro. O rosto estava tão perto do vidro que seu nariz quase encostava nele.
Muito assustado, ele saiu novamente do automóvel, sem parar de encará-la, e só aí pôde observá-la melhor. Era muito jovem, uma garota ainda. O rosto atraente estava emoldurado pelos seus longos cabelos escuros, ela usava um vestido branco e longo e sua face carregava um olhar enigmático.
-Você está bem? – ele perguntou, se aproximando mais dela.
Ela não falou nada, apenas o fitou com seus olhos misteriosos, sorriu e estendeu-lhe a mão.
Aquele olhar... E de repente sentiu-se estranhamente atraído por ele, e sem que percebesse seus pés começaram a se mover na direção dela. E se aproximava mais e mais, perto demais, rostos muito próximos... A mão dela tocou o rosto dele e ele sentiu um calafrio percorrer sua espinha, ela era fria até demais, como a morte. Tentou recuar, mas seu corpo não se movia mais. Seus olhos não conseguiam desviar dos dela, seus pés não o obedeciam.
Foi tomado pelo medo, pelo terror. Não sabia dizer a partir de que momento, mas repentinamente os olhos dela tomaram um brilho vil e se tornaram puro reflexo da maldade; o sorriso deixara de ser enigmático e agora era maligno. Mas seus pés, não apenas eles, mas seu corpo todo se recusava a obedecê-lo e continuava a se aproximar dela.
O sorriso da garota aumentou e deixou à mostra seus dentes alvos e impecáveis. Então ela segurou o rosto de Jonas e começou a erguer lentamente o rosto dele. Em um último impulso de desespero tentou correr, mas tudo o que conseguiu foi um desequilíbrio que a fez segurar seu braço com força. Ele sentia que ia perder o braço se ela apertasse com mais força.
-Shh... Vai ficar tudo bem, não se preocupe – ela falou com uma voz serena.
Aquela voz não condizia com a realidade. Ela falava com um tom calmo, tranqüilo... Quase feliz. Não parecia que a pessoa que estava falando estivesse a ponto de desmembrar alguém. Era uma voz suave e convidativa, como o canto da sereia.
Ao simples som daquelas palavras, todo o terror e o desespero que havia em Jonas desapareceram totalmente, ele acatou as palavras dela e de repente tudo estava realmente bem. Sua mente foi tomada por uma estranha ausência de sentimentos e os olhos outrora aterrorizados estavam vazios agora, como se tivessem entrado em estado de transe.
-Muito bem – disse ela sorrindo, como se estivesse falando com seu animalzinho de estimação – não se mova agora.
E Jonas se deixou envolver pelos braços dela sem esboçar nenhum movimento. Ela passou as mãos em volta dos ombros dele possessivamente.
-Hoje é seu dia de sorte – sussurrou ao ouvido dele.
-Dia de sorte... – ele repetiu enquanto sentia os lábios frios dela roçarem sua pele. Fora fisgado pelo canto da sereia.
Notas finais
Eu não tava os meus melhores dias quando escrevi ele..
feliz ano novo!!
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