A RUNA BRANCA DE ODIN
5 CAPÍTULO QUATRO - Difícil escolha...
Notas iniciais
Hades retornou ao lugar onde havia possuído Minos. De dia, a paisagem austera o fez refletir sobre o ato impulsivo e inédito para si. Nenhum de seus amantes anteriores causara aquela sensação que Minos despertara, como se todos os demônios o enfeitiçassem fazendo-o apagar da memória toda e qualquer vontade de foder com outro. Disse a si mesmo que era questão de tempo, que logo o desejo enfraqueceria...
– Pai!
O chamado de Alone o fez voltar-se, de imediato. O menino corria na sua direção trazendo a espada que fora forjada por Rorik.
– Já está pronto? – perguntou o jarl.
– Sim! – a resposta imediata do menino veio carregada de entusiasmo.
A promessa de treinarem juntos tinha de ser cumprida. Hades sinalizou para o filho e ambos se dirigiram ao campo de treinamento, onde os guerreiros já haviam começado suas atividades.
Suados, Pandora e Radamanthys se encaravam. Já fazia horas que eles estavam lutando sob o olhar atento dos guerreiros e também de Shina que esfregava as têmporas na ilusão de afastar a terrível ressaca proveniente do hidromel.
Apesar de esguia, Pandora era forte. Ossos e tendões se curvavam à sua vontade e ela erguia a espada, que devia ter metade do seu peso, com facilidade. Radamanthys aparava os golpes e revidava com força, sem subestimar a mulher chamada de Valquíria.
As investidas dela refletiam uma paixão pela batalha que, de alguma forma, repercutiu fisicamente em Radamanthys. Ele obrigou-se a manter a guarda e o autocontrole, antes que ficasse evidente que aquele combate o excitava.
Girando o braço no alto, o guerreiro atacou, mas Pandora ergueu a espada e virou de lado, bloqueando o movimento e arrancando um urro dos espectadores. Foi um ato inteligente, porém exigiu dela uma força que já estava menor devido ao tempo em que ambos estavam treinando e também pelos excessos da noite.
Atento, Radamanthys aproveitou para usar o corpo e empurrá-la alavancando a própria força contra a espada fazendo-a perder o ataque, embora a lâmina dela tivesse tocado o seu peitoral.
Ofegando, Pandora atacou, novamente, e as lâminas colidiram, aproximando os corpos.
Radamanthys quase se perdeu naqueles olhos que pareciam um poço escuro de infinitos segredos e também nas curvas do corpo feminino coberto pela cota de malha. Ele podia ver o rosto delicado com mais detalhes, os ângulos esculpidos como o fio da espada que ela empunhava. Os cílios longos e desenhados lhe encimavam os olhos como uma cortina sensual ocultando promessas...
– Quer se render agora? – questionou ela erguendo uma adaga e tocando o pescoço de Radamanthys.
O guerreiro não se abalou. Continuou encarando-a, enquanto sentia a pressão da lâmina afiada.
– Eu nunca me rendo. – respondeu ele, também com uma adaga encostada nas costas delicadas.
Os olhos violáceos que ele julgara terem brilhado ao achar-se vencedora, se estreitaram. Num primeiro momento, pareceu que ela estava furiosa e o estriparia ao menor movimento da sua parte. Mas, logo em seguida, os lábios delicados se abriram em um sorriso e Radamanthys descobriu que poderia perder mil vezes, se ela lhe sorrisse assim.
– Lutou forte e me exigiu bastante. Vamos considerar esse combate empatado.
Radamanthys ergueu as sobrancelhas, abriu os braços e executou uma leve mesura.
– Mais uma vez, me sinto honrado, senhora.
Pandora olhou-o com o cenho franzido, como que o analisando. Então, embainhou a espada e estendeu a mão na direção do guerreiro.
– Pode me chamar, apenas, de Pandora.
Embora já tivesse vivenciado a paixão, Radamanthys não estava preparado para a emoção que o tomou de assalto ao ver Pandora sorrir e estender-lhe a mão sem a resistência habitual que ela estendia a todos. Apertou com força e controlou-se para manter uma expressão neutra, mesmo que interiormente desejasse pular e gritar.
– Sim, senhora... quero dizer, Pandora.
– Venha, vamos beber uma caneca de hidromel. – disse ela.
O guerreiro sorriu e foi a vez de Pandora sentir um arrepio ao encarar aqueles olhos dourados.
Os dois passaram por Hades e Alone que acabavam de chegar. O menino sorriu para Pandora e ela piscou o olho.
– Não dê trégua ao seu pai. – disse ela.
Alone olhou em volta, vendo outros guerreiros lutando sob as instruções de Aldebaran. Hades posicionou-se no centro do campo e desembainhou a espada. Seu olhar cravou-se nos olhos ansiosos do menino.
Lembrando-se das instruções de Aldebaran, Alone segurou a espada pesada com as duas mãos e manteve as pernas afastadas, distribuindo o peso e se preparando para atacar. Hades fez o primeiro movimento e Alone defendeu, mantendo os olhos fixos na espada do pai, mas logo se lembrou de que devia sempre manter a atenção nos olhos do adversário e não em sua arma.
Com um grito de guerra, o menino atacou com força, procurando uma maneira de fazer Hades baixar a guarda. No entanto, todos os movimentos que empreendia eram bloqueados e, embora Hades estivesse controlando sua força, atacava firme, fazendo-o sentir, duplamente o peso do aço.
Elevando a espada acima da cabeça e descendo-a em um movimento espiralado, Alone tentou, mais uma vez furar o bloqueio do pai. O ato exigiu muita força e , quando ele baixou os braços, sentiu-os tremer pelo esforço. No entanto, mesmo cansado e ofegante, ele continuou para o orgulho de Hades.
O jarl atacou fazendo surgir faíscas azuladas do contato violento entre as duas lâminas. O menino cerrou os dentes e gritou, estocando e avançando com o rosto vermelho e banhado em suor. Ele continuava atacando mesmo quando sentia uma forte dor no lado direito do corpo e os pulmões arderem como se respirasse fogo.
Durante uma das tentativas, Hades bateu forte na espada do menino, fazendo-a ser lançada para longe. Alone olhou a trajetória com frustração, porém seu pai tocou-o no ombro e encarou-o dentro dos olhos.
– Nunca deixe a raiva dominá-lo.
O menino não escondeu o desapontamento, porém assentiu com um movimento de cabeça e foi pegar a espada. Quando se abaixou, foi pego de surpresa e erguido no ar. Ele gritou de um jeito estridente, mas logo começou a rir, quando os mesmos braços que o tinham agarrado o viraram de cabeça para baixo.
– Foi uma luta e tanto, você cresceu muito em combate – disse Hades. – Mas, além de controlar a raiva, nunca dê as costas ao inimigo.
Alone relaxou, o semblante antes sério voltou a ser vivaz, quando seu pai o colocou, novamente de pé.
– Minos! – gritou o menino ao vê-lo saindo do galpão de carpintaria. – Você me viu lutar? Eu perdi, mas... isso só mostra que tenho que treinar mais, como disse meu pai.
Minos fixou os olhos no menino, olhando para Hades, rapidamente, que o encarou menos sério que o habitual.
– Eu estava trabalhando, mas poderá me contar o que fez, mais tarde.
– É verdade! Vamos começar com as lições hoje. – falou o menino e o jarl notou que ele estava, igualmente, entusiasmado em aprender.
– Bem, então nos encontraremos na hora combinada. Tenho de voltar ao trabalho. – disse Minos cumprimentando Hades e deixando-os sozinhos.
Antes que o jarl falasse algo, Alone fitou-o.
– Obrigado, pai.
– Pelo quê? – perguntou Hades franzindo o cenho.
– Por ter trazido Minos. – ele fez uma pausa e olhou sério nos olhos de Hades. — Eu agora tenho um amigo.
– Têm vários meninos da sua idade que podem ser seus amigos.
– A maioria me acha esquisito. – respondeu o garoto com um suspiro. – Bem, vou me apresentar ao mestre Aldebaran. – disse ele correndo para a lateral do campo.
Hades pensou na resposta do filho e tornou a olhar na direção da carpintaria. Sua infância também fora solitária, tendo a irmã como única companhia. Por isso, o laço entre eles se estreitara tão forte como os rochedos que cercavam aquele lugar, os dois carregavam o estigma de serem filhos de Ares e de terem sido abandonados pela mãe.
De repente, ocorreu-lhe que mais crianças poderiam aprender a ler e escrever. Seu clã não seria formado por guerreiros ignorantes e o futuro poderia ser bastante diferente, unindo força bélica com conhecimento. Estava conjecturando quando Shina se aproximou, segurando a cabeça.
– Alone fez progressos, ele será um grande guerreiro. – disse ela apertando a parte interna dos olhos.
– Sim, ele será.
– Ele gosta desse tal Minos, assim como você...
Hades contraiu o maxilar e encarou Shina. Ela sorriu.
– Se olhar feio matasse, você já tinha acabado com meio mundo. Só falei aquilo que eu percebo. O rapaz passou a noite com você, todos já sabem.
– Guarde sua língua ou ficará sem ela. – disse Hades.
– Por Odin, não seja assim tão severo. Minha língua tem muitas utilidades, não posso perdê-la. – falou ela deixando escapar uma gargalhada.
Hades inspirou.
– Então mantenha sua língua distante de mexericos. Espero que seus guerreiros estejam preparados, vamos para Lindsfarne na próxima lua nova.
Shina ficou séria e fixou o olhar nas nuvens que formavam desenhos no céu. Lembrou-se da volva que encontrara em uma de suas viagens, os olhos esbranquiçados da vidente eram cegos para o mundo presente, e despertos para o futuro. Ela havia previsto sangue e morte, mas também riquezas e mudanças em sua vida. Não temia a morte, apenas pedia aos deuses que a encontrasse no campo de batalha e que tivesse a honra de foder com uma das Valquírias de Odin já que em vida não tivera o mérito de amar e ser correspondida.
– Eles estão prontos, assim como eu. – disse ela inspirando fundo.
– Ótimo. À noite mande seu espião aos meus aposentos, quero falar com ele. – disse Hades e olhou na direção da carpintaria, antes de deixar a guerreira.
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O ambiente dentro do galpão estava abafado. Toras de carvalho estavam sendo cortadas e polidas para a construção de um drakkar para o jarl. Halfdan estudava o sistema de fazer com que o navio andasse para trás, dispensando a necessidade de virar a embarcação caso precisassem fugir do inimigo. Minos opinava, enquanto lixava uma tora de carvalho e os dois faziam anotações simbólicas em qualquer superfície que estivesse à mão. Em meio às ocupações surgia o rosto de Hades tomando Alone nos braços. Sentiu-se feliz pelo menino. Hades podia ser severo e distante, mas amava o filho. Diferente de Guilty, sempre perverso, até mesmo com os filhos de quem dizia gostar.
As horas passaram rapidamente e logo Minos foi encontrar Alone para começar com as lições de leitura e escrita.
O menino franzia o cenho para os símbolos escritos na areia. Estavam na praia, sentados em uma rocha e a areia servia como suporte para escrever.
– Esses símbolos são diferentes das runas. – falou Alone coçando a cabeça.
– É latim. Aprendendo este idioma, poderá ler os livros que seu pai falou e muitos outros.
Alone encarou-o, os olhos expressando um misto de curiosidade e constrangimento.
– É mais difícil que manejar a espada.
Minos percebeu que era muita coisa para Alone então pensou em um método que não fosse mais um peso para o menino.
– Vamos fazer assim, por hoje, vamos escrever o seu nome em latim para que veja como fica. Amanhã vamos aprender de um jeito diferente.
– Um jeito diferente?
– Sim. – disse Minos e já sabia o que fazer.
– Bem, agora é a minha vez! – disse Alone e Minos franziu o cenho de forma interrogativa.
– Vou mostrar como manejar uma adaga. Eu ouvi que Lune tentou atacar você. Não pode ficar desprotegido. Eu não gosto daquela borboleta assassina, mas admito que ele é um dos melhores guerreiros do meu pai e não dá para facilitar com ele. – disse o menino retirando uma adaga do cinto.
Minos elevou uma sobrancelha.
– Borboleta assassina?
O menino deu de ombros com um sorrisinho malicioso.
– Eu não sou indefeso, sei me defender e tenho noção em manejar uma espada. – disse Minos.
Alone olhou para o braço que Minos havia quebrado.
– A adaga é uma arma mais apropriada para alguém como você.
– Alguém como eu? O que quer dizer com isso?
– Você usa mais a cabeça que o corpo. Suas habilidades são outras. Se tentar manejar uma espada vai acabar forçando demais.
O modo tranquilo como Alone disse aquilo fez Minos perceber que, apesar de ter apenas nove anos, Alone era maduro e observador. E sim, ele aprendera a usar a espada com Radamanthys, mas teria que praticar muito para ficar num nível razoável...
– Está bem, mostre-me.
– Primeiro, feche os olhos e estenda a mão. – disse o menino.
Minos obedeceu e sentiu quando Alone colocou a adaga na palma da sua mão, sentindo o cabo de couro da arma.
– Agora, sinta o peso dela, o eixo da força do cabo e da lâmina. Consegue?
A arma se equilibrava na palma da sua mão, de modo que, depois de algum tempo, parecia uma extensão de si.
– Eu não sinto, propriamente, um peso, mas uma falta dele. – disse Minos.
– Muito bem. – disse o menino colocando o dedo na base do polegar direito de Minos. – Essa falta é o segredo para atacar com rapidez. Tem que sentir a leveza da adaga de modo que possa usá-la a curta ou longa distância sem alertar o inimigo. E não pode levantá-la muito ou ficará na linha dos olhos e será percebida.
Abrindo os olhos, Minos encarou Alone com surpresa. Não parecia um garoto de nove anos ali, e sim, um instrutor adulto e bastante seguro do que ensinava. Ele será um guerreiro formidável!
– Veja, vou mostrar. – disse o menino pegando outra adaga presa na altura da panturrilha.
Um zunido cortou o ar e o movimento rápido escapou-lhe aos olhos. Minos ficou boquiaberto com a destreza do menino ao ver a adaga cravar-se no tronco da árvore solitária que crescia nos rochedos. Tentou imitá-lo, mas para sua surpresa, a adaga lançada cravou-se no chão, ao invés de seguir em frente.
Alone sorriu.
– Você pega o jeito. Faça de novo.
Minos lançou novamente, e de novo, e de novo, até que depois de muitos lançamentos a adaga encontrou seu destino junto da que fora atirada por Alone.
– Isso! Você pegou o jeito, agora é só praticar. – falou o menino.
– Posso descansar, agora? – perguntou Minos.
– Sim, continuamos amanhã. – respondeu Alone com uma expressão orgulhosa.
O jovem sorriu e estendeu a mão ao menino que não hesitou em pegá-la. Os dois andaram lado a lado, conversando e rindo.
A noite veio rápida e o salão voltou a ficar cheio e barulhento. Shina já tinha esquecido a dor de cabeça e bebia um grande chifre com hidromel, desafiando, novamente, os homens para uma queda de braço.
Hades olhou em volta e não viu Minos. Todos estavam ali, menos ele. Franziu o cenho e sinalizou para Ingrid que já começava a servir as mesas. A mulher enxugou o suor da testa e foi ter com o jarl.
Em seus aposentos, Minos estava deitado no colchão, olhando para o teto alto. Já havia se banhado e seu estômago roncava, mas ele não tinha vontade de ir até o salão. Comeria algo na cozinha, mais tarde. No exato momento, procurava algo para se distrair e não pensar no que Hades estaria fazendo e se Lune estaria ao seu lado com aquele sorrisinho idiota. De dia, havia tido tanto trabalho que sua mente se fixara em outras coisas, mesmo depois de ter encontrado o jarl. Entretanto, ao cair da noite, seus pensamentos voltaram à cena dos dois deixando o salão juntos. Será que Hades o tinha fodido?
De repente, ouviu a porta se abrir e não deu atenção. Provavelmente seria um dos seus companheiros de quarto.
– O jarl mandou chamar você, ele quer vê-lo em seus aposentos. — disse Ingrid.
A voz rouca da matrona o fez levantar-se do colchão.
– Diga a Hades que eu já estou dormindo.
– Olhe aqui, eu tenho muito que fazer do que ficar de leva e traz. Levante esta bunda daí e vá logo ver o que jarl deseja.
– Inferno! — Minos suspirou, exasperado, mas obedeceu.
Ao chegar aos aposentos de Hades, hesitou antes de bater. O que diria a ele? Sentia-se mais perturbado que gostaria de admitir, mas não era da sua natureza recuar. Bateu e esperou. Talvez ele nem esteja mais aí, pensou.
Porém, depois de algum tempo, ouviu o som abafado de vozes e, em seguida, a porta pesada se abriu. Um homem alto e loiro deixou o aposento com uma expressão amigável.
– Boa noite. – disse ele.
Minos respondeu e olhou para dentro do aposento.
– Entre. – disse Hades olhando-o parado ali.
Uma leve expressão de perplexidade dominou o rosto de Minos ao ver a mesa posta com uma travessa de carne, alguns pães e uma jarra que devia conter hidromel.
– O que é tão urgente para interromper o seu jantar a dois? – perguntou Minos com um tom sarcástico.
Hades fitou-o. Minos ainda vestia as roupas que emprestara a ele, o cabelo preso em duas longas tranças nas laterais da cabeça e o restante solto caía-lhe abaixo da altura dos ombros. À luz das velas, percebeu o vinco de desagrado no rosto jovem e algo, dentro de si, exultou. Ele está irritado por ter visto outro homem saindo deste quarto.
– Sente-se.
– Estou bem de pé.
Um brilho genuíno de desafio flamejou nos olhos cinzentos de Hades, porém ele serviu duas canecas de hidromel e estendeu uma na direção de Minos.
O jovem olhou a caneca, pensando se aceitava ou não e seu estômago roncou alto, chamando a atenção do jarl.
– Você ainda não comeu.
– Não estou com fome. – mentiu Minos e a resposta lhe pareceu tão patética que ele temeu que Hades gargalhasse. Isto é, se ele demonstrasse algum humor.
– Talvez você deseje outra coisa... – disse Hades soltando ambas as canecas sobre a mesa.
Minos abriu a boca para responder, mas não teve tempo de formular a frase. Os lábios de Hades colaram-se aos dele com uma avidez que prescindia de palavras. Ele o beijou com força, lambendo e mordiscando aqueles lábios macios e desenhados, enquanto insinuava as coxas grossas entre as pernas do jovem, trazendo o corpo dele de encontro ao seu.
Acolhendo aquela língua em sua boca, Minos viu-se perdido em um redemoinho de sensações que tentara subjugar e, quando Hades aprofundou ainda mais aquele beijo, sentiu-se levado por um crescente de desejo primitivo, um desejo que só era despertado por aquele homem.
O calor e a rigidez dos corpos viris se derramavam através das camadas de roupas que os separavam. Os sentidos famintos de Hades pareciam uni-los na carne e nas sutilezas desconhecidas dos sentimentos secretos, que se escondiam naquela ânsia voraz. O desejo era gigantesco, quase sufocante e, mesmo assim, quando as bocas se separaram eles se olharam por segundos mágicos, permeados pela densidade e carregados de êxtase e vontade...
Hades o puxou pela mão, rumando em direção à cama. As roupas foram despidas com pressa, atiçando o prazer de roçar as peles nuas e saudosas da noite anterior... Olhavam-se, enquanto as mãos tomavam posse da pele, dos ossos, uma sintonia rude que virava Midgard de cabeça para baixo e ainda assim tudo parecia encaixado, certo, perfeito...
Minos gemeu junto aos lábios ofegantes do jarl, o olhar incandescente. Excitado, Hades invadiu-lhe, novamente a boca, lambendo, mordendo, sugando... O jovem inspirou profundamente e estremeceu ao impacto da pele fria contra o ardor da sua. As coxas musculosas se abriram para ensanduichar as dele. Hades envolveu-lhe a nádega despida, atraindo-o contra o membro rígido de desejo que possuía a maciez de uma capa de veludo recobrindo aço.
Pensamentos fugazes dançavam na mente de um e de outro, mas ambos se entregaram por completo, querendo mais, ansiando pelas mãos possessivas que despertavam seus corpos... Minos vagava num prazer revivido, como se a sua pele estivesse impregnada daquele toque, daquele deleite que chegava a ser doloroso.
Sentindo toda a ânsia do jovem, Hades desceu os lábios no corpo alvo, roçando-os e mordiscando cada pedacinho de pele até chegar à ereção e aspirar-lhe o cheiro, passar a língua no falo pulsante, senti-lo túrgido e deliciosamente úmido, para em seguida colocá-lo todo na boca quente, criando um ritmo forte e cadenciado.
Minos arregalou os olhos, afundando a cabeça no amarfanhado da cama, perdendo o controle dos movimentos do corpo e gemendo alto. Moveu os quadris, fazendo amor com a boca que o fazia arder em desespero, sentindo a pressão em sua virilha...
Por Odin! Era só o que conseguia pensar, enquanto mordia o lábio inferior, prestes a vivenciar o orgasmo arrebatador...
O clímax veio, arrasando qualquer noção do que quer que fosse e Minos derramou-se na boca do outro, soltando um gemido rouco.
Hades sorveu todo o gozo, impregnando-se do gosto e do cheiro, sentindo prazer em ver a expressão lânguida de Minos e surpreso com ato inédito para si. Nunca tinha feito aquilo em um amante. Era sempre ele o beneficiado e, no entanto, havia gostado da sensação poderosa de ter Minos daquele jeito.
O jarl levantou-se e foi puxado com violência de encontro a boca sedenta de Minos, a língua do jovem guerreiro buscando a sua, para sentir-se nele, o corpo ainda quente e convulso do orgasmo intenso...
Beijaram-se, enlouquecidamente milhares de vezes até Hades continuar com sua dominação prazerosa, segurando as mãos de Minos sobre a cabeça, prendendo-as nas suas, enquanto seu corpo deslizava sobre o dele, sua língua continuando a entrar e sair da boca do jovem, fazendo-o gemer e estremecer...
Hades mordia o lábio inferior, enquanto deslizava a mão pelo peito de Minos. Os mamilos do jovem formigaram, enquanto enrijeciam e faziam com que ele arqueasse o corpo, desejando mais contato, indo de encontro à mão do jarl.
Como na sua primeira noite, Minos fechou os olhos enquanto o pescoço, os braços, os mamilos e o abdome iam sendo despertados com uma intensidade voraz... Seu coração estava loucamente disparado e o de Hades também.
A mão forte do jarl vagava sobre as costelas, sentindo a textura da pele e a elasticidade dos músculos, o ritmo das batidas do coração de Minos, a respiração ofegante...
Beijaram-se, novamente, paixão e erotismo na comunhão das línguas e na sede que parecia nunca ser aplacada. Minos apertava Hades em seus braços, acariciava as nádegas redondas com vontade e levava a mão ao falo túrgido que roçava em seu corpo sentindo toda a extensão do sexo intumescido e a sua pulsação. O jarl gemeu quando Minos seguiu com a exploração, massageando ao redor, aumentando-lhe a rigidez e a pulsação intensa. A mão sempre ansiosa do jovem causando-lhe uma furiosa reação de desejo.
A respiração de Minos tornou-se entrecortada e, imerso na agonia do desejo, ele abriu-se para Hades dando acesso total ao seu corpo. Desejou que ele o possuísse como na primeira vez em que tinham feito sexo. Não disse nada, apenas olhou-o... Agora podia fitar aqueles olhos cuja frieza cedia à luxúria.. As coxas se afastaram e Hades mergulhou entre elas, compreendendo a rendição daquele que o deixava desatinado... Desceu a mão para a junção entre as pernas dele. Provocou-o roçando, massageando, até introduzir os dedos na entrada pulsante de forma lenta e circular.
Minos fechou os olhos quando todos os seus sentidos centralizaram na mão de Hades e no que ele estava fazendo. Era diferente, uma carícia interna que diminuía a dor e despertava o prazer...
Inalou profundamente quando se sentiu tocado em um determinado ponto. Seu corpo inteiro parecia em suspenso e então ele movimentou os quadris, seu corpo instintivamente procurando, seguindo o movimento dos dedos do jarl. Um gemido escapou de sua garganta e uma onda de prazer o percorreu. Esperou que Hades repetisse o movimento, mas em vez disso, ele retirou os dedos e se encaixou entre as suas pernas, o membro viril sondando a entrada enquanto ele movia os quadris lenta e prazerosamente... Ali, à luz das velas, podia ver as expressões do rosto de Minos, os lábios entreabertos, sentir-lhe os ofegos rentes ao rosto...
Hades apossava-se do corpo esguio, masturbando-o, lambendo-o, levando-o ao deleite extremo e fazendo-o ansiar pela posse total, única. E quando sentiu que as mãos de Minos se fechavam com força em sua carne, olhou-o nos olhos e o penetrou, lenta e profundamente. Você é meu.
Minos ofegou... Um gemido longo escapou de seus lábios, e ele apertou Hades junto a si e, em seus olhos nublados de desejo mostrou ao guerreiro o quanto o queria. O jarl começou a estocar devagar, subindo e descendo numa cadência lenta, enquanto buscava a boca de Minos para beijar, lamber-lhe os lábios voluptuosamente para só então se enterrar com força, sentindo a resposta do jovem em suas costas, as mãos segurando suas nádegas para forçá-lo a ir mais fundo dentro de si.
Projetando o corpo para cima, ao mesmo tempo em que puxava Hades, ainda mais, para si, Minos desencadeava um desejo selvagem fazendo com que o jarl se surpreendesse com as exigências do próprio corpo. Ele quase saiu de dentro de Minos para projetar-se mais forte, golpeando-o nas profundezas, arrancando gemidos roucos, fazendo-o se contorcer sob o seu corpo, enquanto ele próprio gemia entrecortado e era tomado pelos tremores que antecediam ao gozo.
Minos agora se movia junto, tomado por uma febre insuportável e uma sensação de que estava se dissolvendo e, ao mesmo tempo, sentia seu corpo ser varrido pelo prazer feroz que o cavalgava sem piedade...
Gemendo e arfando, ele gozou, assim que se sentiu preenchido até o fundo com uma última estocada forte. O suor verteu por todos os poros de seu corpo e o nome de Hades escapou-lhe da garganta como um clamor repetido na mesma cadência dos últimos estertores do orgasmo.
Ainda arfante, buscou a boca do jarl, ensandecido em sentir-lhe o ofego do gozo em seus lábios, tocar a língua experiente, que o fazia delirar...
Um grunhido soou na garganta de Hades, como se tivesse esperado muito tempo para ser liberado. O controle dele se rompeu e ele segurou os quadris de Minos com ambas às mãos, puxando-o para si, enquanto investia dentro dele com força. Num último movimento profundo, inclinou a cabeça para trás, o pescoço estendido com a força do clímax, os dentes cerrados...
Minos sentiu o líquido quente da liberação tão fundo dentro de si como se Hades estivesse trespassando-o com seu gozo. O suor escorria pela face e lhe cobria o corpo todo quando Hades deixou-se desabar sobre o seu corpo.
Sem pensar, Minos abraçou-o com força, ainda tremendo pela violência do clímax que varrera seu corpo e seu coração. Os olhos acinzentados de Hades se encontravam cerrados e a expressão do rosto bonito havia relaxado consideravelmente. Por fim, o jarl rolou para o lado e se deitou de costas, saciado.
Minos se deteve no rosto afogueado e belo daquele homem cuja paixão o marcara no corpo e na alma, tocando-o nos lábios e fazendo-o franzir o cenho numa demonstração clara que seu coração era um território fechado.
Não se apaixone por ele! A voz em sua mente fez Minos recolher a mão e deixar a cama.
No entanto, surpreendentemente, Hades o segurou pelo pulso interrompendo o movimento, os olhos ardentes fixos nos seus. Nenhum amante ficava em seus aposentos, após o sexo e nenhum amante o fizera sentir-se assim, pleno, sedento, poderoso, contraditório... Deveria deixá-lo ir, era assim que devia ser.
– Você ainda não comeu. – disse ele soltando Minos, devagar.
Minos olhou para a comida, percebendo que nada fora tocado. Seria uma idiotice pensar que a mesa posta era para...
– Pensei que estivesse esperando o seu amante. – as palavras saíram duras, como se fossem um escudo perfeito capaz de protegê-lo de suas emoções contraditórias.
Hades fitou-o daquele jeito que parecia deixá-lo totalmente nu, embora ele o estivesse.
– Você está aqui, não está?
A frase retumbou em seus ouvidos, como se estivesse dentro de um sonho. Hades o desejava e foder com ele era como um vício adquirido desde a primeira vez. Ele havia entregado o corpo e se aceitasse ser amante de Hades, se enredaria em seus próprios sentimentos como Jormundgand, porque seu corpo ansiava e seu coração se aquecia cada vez que ficavam juntos.
“O jarl é um homem de desejos fortes e não esconde isso, mas seu coração jamais foi tocado. Todos que foram seus amantes nunca reclamaram do sexo e tiveram muito prazer, mas nenhum permaneceu em sua vida. Lune, agora, é passado, mas você também o será.” O eco longínquo da voz de Ingrid, em suas lembranças, arrematou o turbilhão em sua mente e em seu peito.
– Estou, mas não serei seu amante, nem agora e nem nunca. – a resposta saiu firme, embora seu estômago estivesse contraído, não só pela fome, mas por constatar que se apaixonara por quem não devia.
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