A RUNA BRANCA DE ODIN
6 CAPÍTULO CINCO: Listen to your heart ...
Notas iniciais

“Quando um machado descera certeiro sobre o seu escudo, em sua primeira batalha, a surpresa veio acompanhada do choque e da dor. Seu braço sentira a vibração que se estendeu por todo o seu corpo até chegar a sua mente, enviando a resposta básica que se resumia na assimilação do golpe, duramente, recebido.
Assimilar e revidar... Duas forças distintas que deviam se unir para uma resposta favorável e que significavam a diferença entre vida e morte, vitória e derrota.
Tinha sido assim que enfrentara o inimigo e, mesmo inexperiente, aquele instante o levara a compreender que a mente de um homem podia ser sua aliada ou sua pior inimiga...
O homem deve ter domínio de si mesmo, para tornar-se senhor do seu destino e comandante de sua alma, como dizia Wird, a runa branca de Odin.”
Estranho como uma situação do passado pudesse ser revivida, apenas ao ouvir aquelas palavras... “não serei seu amante, nem agora e nem nunca”.
Hades escutou a voz firme, encarando Minos nos olhos, mas foi o leve tremor nos lábios dele que chamou a sua atenção. A rebeldia do jovem o excitava, outro fator contraditório que buscava compreender em si. Não tolerava desobediência, mas desde que o conhecera, os desafios constantes que ele empreendia, alimentava o interesse que tinha por ele.
Não esperava que ele aceitasse o papel de amante, assim, tão fácil. Não ele. Minos não bajulava, nem precisava do status que muitos buscavam em uma relação com o jarl do clã. Grande parte de seus ex-amantes eram guerreiros cuja única intenção era batalhar, saquear e viver os prazeres da vida. Nenhum deles tinha grandes expectativas quanto a si mesmo. Minos era diferente, ele sabia quem era e desejava deixar sua marca no mundo.
Entretanto, a forma agressiva com que ele recusou dizia mais do que, simplesmente, demonstrar sua rebeldia juvenil. A paixão com que ele se entregava não era fingida e, apesar da inexperiência, havia nele um erotismo natural e poderoso que jamais encontrara em outro. Minos não sabia jogar ou seduzir. Sabia ser ele mesmo e temia perder-se nessa entrega violenta que sempre acontecia quando estavam juntos. Podia compreender isso, porque, no fundo, era exatamente assim que se sentia também. Jamais vivenciara uma paixão capaz de tirá-lo do eixo e jamais se deixara arrebatar pelas emoções. No entanto, a sombra de algo profundo e instigante pairava sobre si sempre que fodia com Minos, alertando-o para mudanças que pareciam levá-lo para um caminho sem volta...
Calmamente, Hades se levantou da cama e o fitou.
Minos se obrigou a respirar, enquanto encarava Hades. Os olhos cinzentos do jarl continham o tom de uma tempestade eminente, porém surpreendentemente, ele deu um meio sorriso. O ato enviou mais um golpe ao seu estômago e Minos resolveu deixar o aposento. Hades exercia aquele estranho fascínio que ora o deixava louco para senti-lo em seu corpo, ora o fazia desejar estapeá-lo até tirar-lhe do rosto aquela expressão fria misturada com arrogância.
Assim que Minos vestiu as roupas de qualquer jeito e deu um passo, Hades movimentou-se pelo aposento, nu e completamente à vontade com seu corpo. Aproximando-se do jovem, ele o fitou no fundo dos olhos.
– Coma, primeiro antes de ir. – disse, calmamente, mas com aquela entonação que parecia mais uma ordem que um convite.
Mesmo que já tivesse feito sexo com Hades e o visto sair do lago, Minos sentia um estremecer interno com a visão dele a sua frente. O peito nu, a barriga dura e lisa, cheia de músculos forjados no combate, as coxas fortes, o sexo poderoso...
A luz das velas destacava todos os contornos e ângulos daquele corpo e isso o fez engolir em seco. Primeiro, porque Hades mexia consigo e temia ficar, novamente, excitado. Segundo, porque ele continuava olhando-o daquele jeito estranho e intenso que ameaçava seu orgulho e a sua decisão de não ser mais uma marionete sexual do jarl.
– Não, obrigado. É melhor eu ir.
Hades o segurou pelo queixo e Minos engasgou com o movimento inesperado que continha certa rudeza. Os olhos se encontraram e ambos não se atreviam a piscar ou respirar. Havia uma tensão envolta em desejo, uma tempestade sujeita a raios e trovões, como se Thor os tivesse levado para os seus domínios.
– Pode não querer ser meu amante, mas vai comer antes de deixar este quarto. Sou seu jarl e você será respeitoso comigo. – disse Hades.
Minos pensou em retrucar, mas ficou em silêncio. O tom de voz e o olhar incisivo de Hades não era algo que se podia ignorar sem riscos. Não desejava infringir seus limites e perder o respeito que havia conquistado. Mas, por que ele fazia questão da sua companhia mesmo depois do que ele dissera?
As canecas de hidromel que jaziam sobre a mesa foram pegas e trazidas por Hades. Calmamente, ele cortou dois pedaços de carne e recheou dois pães, estendendo um para Minos, enquanto se sentava, ainda nu, e começava a comer, calmamente.
– Coma. – disse o jarl.
Franzindo o cenho, Minos também sentou e quando colocou o pão na boca, deu-se conta que estava com muita fome. Controlou-se para não demonstrar, mas passados alguns minutos ele comia avidamente e bebia mais uma caneca de hidromel.
Hades elevou uma sobrancelha, enquanto mastigava.
– Para quem não estava com fome...
Com a boca cheia, Minos deu um meio sorriso.
– Eu não estou, mas meu estômago está.
Hades balançou a cabeça, porém seu olhar não era frio. O cinza profundo dos seus olhos pareceu aquecer mesmo que ele estivesse tão sério como era de costume.
– Você é uma contradição, Minos.
O jovem sorriu largo, desta vez, e o jarl desejou memorizar aquele sorriso, aquela espontaneidade e força que admirava.
– Nós dois somos. – disse Minos.
Os olhares se encontraram num misto de desafio e sentimento. Então Hades fez algo inédito e, pela primeira vez, em seus trinta anos, soltou uma gargalhada fazendo Minos arregalar os olhos.
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Lune estava no pátio e poucas pessoas circulavam ali. Nuvens escuras tornavam o céu noturno ainda mais negro. O vento forte fustigava as árvores e também as plantações, enquanto os animais já tinham sido recolhidos.
Alheio a tudo aquilo, o guerreiro mordia uma folha de capim sentindo o corpo dolorido, mas tão pleno que ele não conseguia lembrar-se de ter se sentido assim algum dia.
Um raio riscou o céu, seguido de uma trovoada. Thor e seu martelo, murmurou para si mesmo, porém era em Odin que pensava naquele instante, porque a história do deus adquirira um novo significado para si.
“Contava-se que, para adquirir sabedoria, Odin o Deus dos deuses, ficou dependurado de cabeça para baixo na árvore sagrada Yggdrasil em Asgard, por nove dias e nove noites, sofrendo todas as provações mortais e, embora fosse imortal sentia muita dor e usou da própria espada para verter seu sangue, derramando-o sobre a terra em troca do conhecimento.
E quando sua resistência parecia minar-se e a dor tornou-se tão grande, veio a iluminação. Ele avistou as runas no chão, desvendou seus mistérios e os revelou aos mortais.”
O sacrifício de Odin sempre fora um dos mistérios mais cultuados e agora Lune compreendia que era preciso deixar o passado para trás e abrir-se para novas escolhas. Escolhas que o fariam sentir-se um novo homem. Estaria preparado para tal mudança?
Aiacos chegou por trás e o abraçou.
– Queria passar a noite ao seu lado, mas não vou forçar nada. – disse o moreno.
Lune sorriu com uma facilidade que, dias atrás, lhe seria impossível.
– Tem certeza? Gostei de foder com você, mas isso entre nós é recente.
– Eu sei. – disse Aiacos com um suspiro. – mas para mim é como se eu, finalmente, tivesse adentrado o Valhala sem precisar morrer em combate.
Lune fitou-lhe o rosto bonito e viril. Mais uma vez aquela emoção ao encarar aqueles olhos...
– Quer voltar ao estábulo?
Aiacos sorriu.
– O que você acha? – perguntou ele olhando para baixo, onde uma poderosa ereção já era bastante evidente sob a calça.
Duas horas antes...
A tocha que iluminava o pátio projetava sua luz bruxuleante no interior do estábulo e também nos corpos que se encontravam nus e entregues um ao outro.
Aiacos tomou o rosto de Lune entre as mãos e sorriu, antes de beijá-lo de forma ardente. Depois, puxou-o para cima do seu corpo, certificando-se que era ele mesmo ali, com o homem que desejava de um jeito que beirava a insanidade...
Lune não conseguiu deixar de olhar aquele corpo poderoso sendo revelado com tanta naturalidade. Observou as cicatrizes, a pele firme, os músculos desenhados, a energia selvagem e, ao mesmo tempo, uma aura civilizada que parecia impregnada em todos os recantos daquele homem...
Os mamilos do jovem formigaram, enquanto enrijeciam sob o ataque das mãos de Aiacos. Ele fechou os olhos enquanto o guerreiro ia trilhando cada centímetro de sua pele com a ponta dos dedos. Todos os seus sentidos eram despertados com uma intensidade e gentileza que jamais esperara de um homem e, no entanto, aquilo era real.
Ofegante, Lune entreabriu os lábios, os sentidos entrando em ebulição, o calor assolando-o como se estivesse próximo do fogo das cerimônias de Sumbel. Aiacos aproximou a boca daqueles lábios que puxavam o ar e tomou-os num beijo lento e profundo. Seus lábios roçavam os de Lune, sua língua lambia, provocava, buscava sentir tudo, enquanto seu corpo roçava o dele, de uma forma urgente.
Os dois Ficaram um tempo naquela deliciosa troca de carícias, algo desconhecido para Lune cuja experiência se reduzia ao sexo direto, sem maiores preâmbulos e na maioria das vezes, feito de forma bruta.
Aiacos mordiscou-lhe o lábio inferior, depositando breves beijos ali, enquanto se insinuava mais, deixando que Lune sentisse a sua ereção.
O coração de Lune batia feito um tambor e o de Aiacos também. O guerreiro passou a mão sobre as costelas de Lune, sentindo a elasticidade da pele e dos músculos, o ritmo das batidas do coração dele, a expansão do tórax com a respiração.
Então, em meio aos beijos quentes e molhados Aiacos sussurrou rente aos lábios entreabertos:
– Abra os olhos...
Lune abriu-os devagar e corou ao ver o ardor explícito nos olhos de Aiacos, a cor aprofundada dos lábios que haviam mostrado uma habilidade incrível no ato de dar prazer. Compreendeu de imediato, o real sentido da palavra luxúria e viu, na profundidade daqueles olhos, um sentimento jamais vivenciado com outros.
– Eu quero te foder... muito. Mas, eu preciso saber se você quer. De verdade.
Reflexões e considerações não faziam parte do mundo de Lune. Ele nascera belo e descobrira que a beleza tinha um preço. Ou se tornava um guerreiro respeitado e dispunha do seu corpo como bem lhe aprouvesse ou seria tratado como uma cadela e abusado pelos mais fortes. No mundo dos vikings a força era uma das moedas de troca mais preciosas e a sorte de pertencer ao clã de Hades, uma benção que sempre agradecera aos deuses e que agora conseguia ver com uma clareza que chegava a doer.
– Eu quero. – disse Lune e, pela primeira vez, tinha consciência de cada palavra e das implicações.
Aiacos sorriu e a expressão nos seus olhos escuros tornou-se ainda mais quente. Sem que ele mesmo soubesse, o desejo de Lune por ele despertara um sentimento mais profundo que, simplesmente, de possuí-lo. Uma emoção encheu seu peito, uma emoção tão forte que suspendeu sua respiração e o fez sentir as batidas do seu coração em todo o corpo.
Ele curvou-se sobre Lune e beijou-o, novamente, de uma forma apaixonada, insana, erótica... O jovem apertou-o em seus braços, devolvendo as carícias que o guerreiro lhe fizera, acariciou as nádegas redondas com vontade e levou a mão ao falo túrgido que roçava em suas coxas, sentindo toda a extensão do sexo intumescido e pulsante que estava tão rijo quanto uma rocha.
Aiacos gemeu quando Lune agarrou seu membro com força, aumentando-lhe a rigidez e a pulsação intensa. A mão calejada pelo manejo da espada acolhia com habilidade, fazendo transbordar o desejo e demonstrando em atos o que ele dissera instantes atrás...
Aproveitando a ousadia dele, Aiacos gentilmente, tocou o rosto de Lune com as pontas dos dedos, um gesto terno que surpreendeu o jovem guerreiro. Atento a expressão de surpresa e deleite, Aiacos continuou, percorrendo uma trilha pelo pescoço, descendo e tocando um dos mamilos, enquanto circundava o outro com a ponta da língua numa carícia torturante, arrancando gemidos estrangulados do outro.
Lune sorriu, umedecendo os lábios com a língua, o olhar queimando de desejo.
– Eu nunca beijei tanto...
O guerreiro sorriu, acariciando o rosto belo com uma devoção amorosa.
– Eu também não, mas esses seus lábios me enlouquecem.
Fitando aqueles olhos, Lune percorreu o corpo de Aiacos. A luz do fogo deixava a pele do guerreiro da cor dourada e a cena fazia Lune querer unir seu corpo àquela nudez divina, como se Aiacos fosse uma das inúmeras entidades míticas que percorriam a noite e adentravam as choupanas trazendo alegria e muito prazer...
Ficaram um longo tempo explorando o corpo um do outro até chegar ao limite daquela tensão que crescia, inundando os sexos e pedindo para ser saciada.
Então, vendo que a sua exploração fazia Lune se contorcer, Aiacos desceu a mão para a junção entre as pernas dele. Provocou-o roçando, massageando, até introduzir os dedos na entrada de forma lenta e cuidadosa, preparando-o para penetração.
Quando sentiu que era o momento, Aiacos posicionou-se e antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Lune segurou seu membro e o guiou para dentro de seu corpo.
Com um gemido abafado, Aiacos aprofundou-se dentro do corpo convidativo de Lune, sentindo tanto prazer que achou que ia morrer... Ficou parado, sentindo o acolhimento quente no interior aveludado e estreito, até Lune incentivá-lo a se mover com o rosto afogueado, gemendo e movendo os quadris, acolhendo-o mais fundo e mais enérgico dentro de si.
Aiacos movia-se de encontro ao corpo do amante. Sua carne, seu corpo e seus sentidos físicos buscavam aquela união plena, o gozo, o descontrole. A cada estocada, sentia um prazer brutal, ambos sincronizados na voragem do desejo.
A luz fraca e dourada acentuou a fina camada de suor dos corpos, revelando o movimento dos músculos, acolhendo os ofegos...
E então, quando o prazer cobrou seu tributo, ambos gritaram, chegando ao orgasmo, juntos. Estremecendo e arfando até tudo terminar.
Aiacos ainda movia-se para dentro de Lune, sentindo verter seu sêmen no corpo do guerreiro quando ele o puxou para um beijo permeado de ofegos trêmulos.
– Eu poderia morrer agora e teria valido a pena... – murmurou Aiacos beijando Lune nos lábios, nos olhos e fazendo cócegas embaixo das axilas.
O belo guerreiro riu, coisa que não fazia frequentemente, e sussurrou que Aiacos tinha o pau mais gostoso que ele já tinha experimentado.
Ambos riram e se deixaram embalar pela gostosa sonolência que o forte orgasmo provocara. Sem aviso, Aiacos aconchegou Lune contra o peito, envolvendo os braços ao seu redor. Sem saber por que, lágrimas surgiram nos olhos violáceos, enquanto as mãos grandes de Aiacos lhe acariciavam as costas.
– Você está bem? – murmurou Aiacos e havia um tom íntimo na voz profunda, um tom de satisfação e posse.
– Estou. – disse Lune com os olhos fechados para que as lágrimas ficassem retidas.
Ficaram deitados em silêncio sobre o cobertor estendido no feno macio. Lune com a cabeça aninhada contra o pescoço de Aiacos, enquanto ele o puxava para bem perto de si. O jovem podia sentir o ritmo forte das batidas do coração do companheiro de luta, a expansão do tórax a cada respiração e o aroma do sexo permanecendo entre eles. Sorriu em meio às lágrimas emocionadas e suspirou, sentindo que seu corpo e seu coração jamais esqueceriam aquele momento.
Enquanto isso, Aiacos pensava que Lune era muito mais do que ele pensava. Tê-lo em seus braços e sentir-se daquele jeito só confirmava que estava perdidamente apaixonado e lutaria por aquele amor.
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Pandora havia confraternizado com Radamanthys e descobrira que o guerreiro tinha uma mente tão sagaz quanto a força de sua espada. Os dois riram e conversaram bebendo hidromel. Porém, depois de um tempo ela se sentiu exausta e resolveu se recolher, embora desejasse ficar no salão e continuar a sentir aquele clima amistoso, tão diferente da crueza da batalha.
Radamanthys a observava e percebia que ela estava cansada.
– Acho que vou me recolher, senhora... quer dizer, Pandora.
Ela sorriu, achando engraçado a forma com que ele ficava desconcertado na sua presença.
– Eu também vou. Nossa luta drenou boa parte da minha energia. Mais uma vez, agradeço a sua dedicação.
– Como eu disse antes, eu a respeito. – respondeu ele, também sorrindo.
Despedindo-se dele e verificando que Hades não estava no salão, Pandora se recolheu. No caminho para os seus aposentos, encontrou Minos que deixava o quarto de Hades e sorriu. Seu irmão não perdia tempo...
Seu quarto estava silencioso, muito diferente da algazarra do salão. Depois de se despir, ela se deitou, mas deixou a vela acesa. Bocejando, puxou a coberta até o queixo e relaxou. O cansaço e o hidromel contribuíram para que ela pegasse no sono quase de imediato. Entretanto, a partir daí, seu mundo mudou...
Ela estava feliz indo ao encontro do homem com quem iria se casar. Ele a esperava no grande salão, o perfume das flores preenchia o ar...
O noivo virou-se e sorriu, deixando-a ansiosa para que a cerimônia começasse. Os olhos dele eram dourados e fitavam-na com tanto amor que ela sentiu o coração disparar.
– Radamanthys... — ela murmurou e caminhou depressa na direção dele.
Entretanto, quando ela chegou perto, tudo mudou. Era Sweyn que vinha na sua direção com um olhar cobiçoso. Ele era bem mais velho e bastante alto. O cabelo loiro estava trançado e a barba era farta. Os olhos pequenos e de um azul claro fitavam-na com um brilho malicioso, enquanto ele pagava ao seu pai doze onças de prata.
A cerimônia foi rápida, Sweyn elevou sua espada e recitou toda a linhagem de seu clã, exaltando a casta dos guerreiros e sábios. Thor foi invocado para abençoar a fertilidade da noiva com seu mjöllnir.
Nem bem a festa terminou, ele arrastou-a para o leito conjugal. Ela queria gritar que não era com ele que queria casar, mas ninguém ali parecia notar seu desespero.
No quarto, ele tirou a roupa e sorriu de um jeito que fez seu estômago se contrair.
– Tire a roupa ou prefere que eu faça isso? – disse ele de forma agressiva.
Ela hesitou com as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo, procurando forças para suportar aquilo. O olhar dele mudou da luxúria para a ira e ele puxou-a pelos cabelos, desfazendo o penteado do casamento e arrancando um grito de dor.
– Quando eu disser para fazer algo, faça! – gritou ele e a trouxe para junto de si, beijando-a com violência e lhe machucando os lábios delicados.
Após forçar aquele ato, ele afastou a boca para respirar, revelando os dentes manchados.
– Vire-se.
– Não...
Um urro, seguido de um forte tapa no rosto a fez cair sobre a cama. Sangrando, ela teve as vestes rasgadas e se viu sendo amarrada com um cinto de couro e, em seguida, virada de costas.
– Não faça isso... – disse ela.
A resposta veio com mais um tapa forte e, em seguida, um puxão violento trazendo mais dor. Sweyn encostou-se ao seu corpo, a barriga peluda foi sentida roçando em suas costas e uma palmada estalou em suas nádegas. Ele riu, satisfeito, antes de penetrá-la com força e sem nenhum cuidado. Ela gritou e ele gemeu.
Arfando e gemendo ele movia os quadris com força, arrancando lágrimas e gritos de dor. Quando tudo acabou e ele desabou sobre a cama, ela implorou por força, conseguindo livrar-se das amarras. Seus olhos encontraram a espada dele, que jazia junto à mesa. Mesmo ferida, ela foi até lá, pegou a espada e não teve dúvidas. Aproximou-se da cama e chamou por Sweyn. Quando ele abriu os olhos, ela moveu a espada de modo desajeitado, mas ainda assim de modo certeiro.
Sweyn levou a mão ao peito, onde ela cravara a espada.
–Você... Você me matou...
Pandora se sentou de repente com o coração batendo na garganta, olhando para as sombras no quarto, sentindo o grito preso em sua garganta, pedindo para escapar. Fazia muito tempo que não sonhava com aquilo, assim como também não se sentia afetada pela presença de um homem.
Radamanthys era o oposto de Sweyn. Respeitoso, forte, íntegro, ele despertava nela uma admiração e desejo, uma vontade de sentir como era ser amada.
Não conseguiria dormir, então envolveu o corpo em um xale e foi até a janela. As tochas que iluminavam o pátio logo se apagariam com o vento forte. Fechou os olhos e sentiu o ar frio no rosto. Quando os abriu, novamente, viu uma silhueta solitária caminhando na direção do lago. Devia ser o vigia fazendo a ronda.
Resolveu dar uma volta também, talvez pudesse se sentar, se o vento não estivesse tão forte. Pegou a adaga e desceu as escadas sem pegar nenhuma tocha para iluminar o caminho externo. Sabia o caminho de cor, pois logo após ter matado Sweyn, passara muitas noites insone e fizera aquele mesmo caminho muitas e muitas noites.
O vento havia amainado, mas estava frio. Cumprimentou o vigia e seguiu na direção do lago. Quando chegou próximo a uma pedra, teve um sobressalto. Quem estaria ali àquela hora? Os homens não costumavam ir ali.
– Quem está aí? – perguntou ela levando a mão ao cabo da adaga que trazia sempre consigo.
Radamanthys resolvera andar um pouco. Apesar de beber mais hidromel do que costumava, ainda estava inquieto e eufórico por Pandora ter aceitado a sua aproximação. Apertou o pequeno instrumento que trazia consigo, pronto para começar a tocar quando ouviu a voz dela.
– Sou eu.
– Radamanthys?
– Sim, eu estou cansado, mas acho que o sono me abandonou.
Pandora sorriu.
– Eu também me sinto assim. — disse ela notando que ele tinha algo em mãos.
– Ah, vejo que notou. Isso é uma pequena flauta que Minos fez para mim. Eu, às vezes, toco um pouco, ajuda a relaxar.
– Então toque.
Radamanthys colocou a flauta nos lábios e começou a tocar. A música em um tom agudo se espalhou no ar, dançando no vento. Pandora fechou os olhos e se deixou envolver pela suavidade da melodia. Quando ele terminou, ela tocou-lhe a mão.
– Obrigada... – disse ela e, pela primeira vez, Radamanthys sentiu uma doce vulnerabilidade no toque gentil.
– O prazer foi meu. – respondeu o guerreiro cobrindo a mão dela com a sua.
Nenhum dos dois planejara aquilo e para ambos, a emoção daquele ato simples tomou uma proporção inesperada. Radamanthys tomou a mão delicada a sua e beijou-lhe os dedos. Ao contrário do esperado, Pandora não recolheu a mão.
O guerreiro puxou-a para perto de si e então ergueu-lhe a cabeça para que ela o encarasse e afastou uma mecha de cabelos negros que insistia em ocultar-lhe o rosto. Em seguida, tocou com suavidade a face alva, fazendo-a estremecer em resposta. Os dedos delicados subiram pelos braços musculosos e os olhos violáceos cravaram-se nos dele, mesmo que não conseguisse visualizar muita coisa com a luz enfraquecida das tochas ao longe.
– Eu nunca estive com um homem por vontade própria e... matei o homem que meu pai me deu em casamento, porque ele me violentou. Sou assombrada por este passado, mas não quero morrer sem saber... sem saber como é estar com um homem.
Radamanthys fitou-a com ternura e desejo.
– Eu nunca estive com uma mulher como você.
Pandora fechou os olhos e entreabriu os lábios. Radamanthys se inclinou para perto e roçou sua boca na dela. Aquele não seria um beijo de possessão ou desejo desenfreado. Ele a convidaria para se juntar a ele e mostraria que um homem podia ser cuidadoso com uma mulher.
Os lábios quentes e suaves sobre os seus fez Pandora perder-se na voragem desconhecida do desejo. De repente, todo o controle que ela tinha sob o seu corpo começava a evanescer, sequestrando a sua respiração e roubando-lhe os pensamentos.
Agora, os braços fortes a envolviam e o beijo se aprofundava, fazendo-a sentir a língua de Radamanthys na sua. Seu coração se acelerou, seu corpo foi tomado pelo calor e uma umidade estranha insinuou-se entre as suas coxas, criando uma sensação de formigamento nos seios e no baixo ventre, e então... o medo!
Com um solavanco, Pandora se soltou, empurrando-o e sentiu que ele a soltava com mais facilidade do que ela esperava. Era irracional, mas ela não conseguia deter aquela sensação que vinha minar o prazer que sentia.
Os dois estavam ofegantes com as testas encostadas. Pandora se preparou, esperando que ele protestasse ou a agarrasse novamente, forçando-a voltar a beijá-lo. Em vez disso, Radamanthys tornou a tocá-la no rosto com delicadeza. Ela o olhou confusa, a respiração pesada...
– Desculpe, não sei o que deu em mim. – disse ela sentindo o rosto quente.
– Eu é que peço desculpas. – falou Radamanthys ajeitando o xale em volta dos ombros dela.
– Não está bravo?
O guerreiro sorriu.
– Nunca, minha senhora.
– Não sou sua senhora. – disse ela rindo aliviada.
– É sim... Você é senhora do meu coração e quando eu for merecedor do seu, eu lhe mostrarei todo o prazer que um homem deve dar a sua mulher. Por enquanto, vamos nos conhecer melhor e eu vou acompanhá-la de volta para casa. – disse Radamanthys estendendo a mão.
Completamente admirada pela atitude de Radamanthys, Pandora aceitou a mão forte e os dois caminharam de mãos dadas. Não pairava nenhum desconforto entre eles e quando o guerreiro despediu-se dela com um respeitoso beijo no rosto, após deixá-la na porta, Pandora soube que existiam homens de verdade e pensou em fazer oferendas à Freya, ao invés de permanecer fiel à Hela...
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