Seja lá o que Rafael tenha pensado ao me colocar lado a lado com Regininha em um voo de quatorze horas, tenho certeza de que ele não levou em consideração o inferno que seria para mim passar por todo este tormento!

Se Regininha não fosse uma pessoa tão teimosa, certamente eu teria amado esta viagem, mas não, a bichinha sabe ser teimosa quando quer e, isso significa que ela passou toda esta maldita viagem fazendo o possível e o impossível para me ignorar por completo. O que, obviamente, não foi nada bom para mim, principalmente quando cada pequena célula de meu corpo está mais do que consciente da presença dela.

Essa mulher me afeta demais!

Me afeta mais do que qualquer outra mulher na face da terra!

E, é exatamente por este motivo que esta viagem simplesmente está se tornando um verdadeiro inferno para mim, porque só de olhar para ela, sinto os meus nervos à flor da pele. Tenho vontade de conversar com ela, descobrir o que de fato eu fiz para ela me odiar tanto e, quem sabe, encontrar uma forma de me desculpar com ela para voltarmos a ter aquela relação que tínhamos até três anos atrás, mas, infelizmente, Regininha é teimosa demais e, me ignorou por completo praticamente a viagem inteira.

E, é por isso mesmo que não vejo a hora deste avião pousar em Nova Délhi, para que eu possa ir para meu hotel descansar e me preparar para a minha apresentação na conferência sobre o aquecimento global.

E, só Deus sabe como eu quero chegar logo a Índia, só para me ver livre deste tormento que é estar ao lado de Regininha e ser completamente ignorado por ela.

Deus, como essa mulher sabe ser teimosa quando ela quer!

Como essa mulher mexe comigo como nenhuma outra é capa de fazer!

Só de olhar para ela, eu sinto o meu sangue começar a fervilhar em minhas veias!

A aeromoça dá o aviso para colocarmos os cintos de segurança e nos prepararmos para o pouso, o que para mim é um alívio, já que não terei de estar lado a lado com Regininha e sentir a indiferença dela.

Coloco o cinto de segurança, desligo o celular e vejo Regininha fazer o mesmo. O avião faz o seu pouso e, em pouco tempo, escutamos a aeromoça avisar que já podemos deixar a aeronave.

Tanto eu como Regininha parecemos ter a mesma ideia, pois, resolvemos esperar os outros passageiros saíram para só então fazermos menção de nos levantarmos.

― Por que você não vai na frente? – Regininha me pergunta, com seu humor ácido quando ela se dirige a mim.

― Pelo mesmo motivo que você, ao que parece, você ainda não foi. – eu respondo, dando de ombros – Prefiro esperar que os outros passageiros saiam primeiro, assim o avião fica mais vazio.

― Você está fazendo de propósito, não é mesmo? – ela me encara com impaciência.

― O que exatamente eu estou fazendo de propósito? – a encaro com um olhar interrogativo.

― Você sabe muito bem, Edan! – Regininha me responde, com raiva em sua voz – Não se faça de desentendido!

― Acontece que eu não estou me fazendo de desentendido, minha cara! – eu respondo no mesmo tom de voz que ela – Estou apenas esperando o avião esvaziar um pouco, pois, eu simplesmente não gosto de sair no meio do tumulto!

― Eu duvido muito que seja só isso!

― Pois você pode duvidar o quanto quiser, minha cara, pois, eu não me importo nem um pouco!

― E ainda por cima é grosso!

― Perdoe-me, minha cara, mas, quem está sendo grossa aqui é você! Eu sempre a tratei com todo o respeito do mundo, Regininha! Ao contrário de você, minha cara, que parece não saber me tratar com o mínimo de educação!

Minhas palavras parecem causar algum dano em Regininha, pois, vejo a fisionomia dela mudar, seus olhos, tão cheios de ira, parecem ser transpassados por uma sombra de tristeza, o que me faz ficar ainda mais curioso para saber o que houve com ela, para que ela mudasse tanto.

Ver os olhos dela carregados de tanta tristeza mexe com algo dentro de mim, que faz com que eu me sinta mal, pois, de todas as pessoas que eu conheço, Regininha é, sem a menor sombra de dúvidas, quem eu não quero ver triste!

― Regininha, me desculpe por isso. – falo com sinceridade – Eu juro que não tive a intenção de dizer nada assim!

― Não tem problema. – ela diz, a voz triste – Eu realmente não esperava menos de alguém com o seu sobrenome, Edan!

Não entendi muito bem o que ela quis dizer com essas palavras, mas, no momento, elas realmente não me importam nem um pouco.

Olho ao meu redor e vejo que o avião já está bem vazio, o que significa que, já é hora de me levantar.

Ao mesmo tempo, Regininha e eu nos levantamos de nossos assentos, pegamos nossas bagagens de mão e deixamos o avião, indo em direção a esteira para pegarmos a nossas malas para, finalmente, deixarmos o aeroporto e, cada um de nós irmos para o nosso hotel, e, eu enfim possa descansar dessa viagem estressante, e, bem longe de Regininha, que foi o principal motivo para eu não ter feito uma boa viagem.

Saímos juntos do Aeroporto Internacional Indira Gandhi e, vemos que a saída está completamente lotada de pessoas, o que significa que, terei uma grande dificuldade em encontrar um táxi que me leve a meu hotel.

― Vai ser difícil conseguir um taxi com todo esse tumulto. – falo, mais para mim mesmo do que para a qualquer outra pessoa.

E, minhas suspeitas se mostram certas, pois, tanto eu quanto Regininha, que também parece estar esperando por um taxi, não conseguimos nenhum.

― Nossa, mas que demora! – eu ouço ela comentando.

― Em que hotel você fez a reserva? – eu questiono.

― Por que você quer saber? – ao invés de me responder, ela simplesmente me faz outra pergunta.

― Porque se for perto do hotel em que tenho a minha reserva, podemos dividir um taxi assim que conseguirmos um. E, antes que você venha com qualquer objeção por dividir um carro comigo por alguns momentos, estivemos em um voo lado a lado por quatorze horas, uma hora a mais ou a menos não fará qualquer diferença, Regininha.

Ante minhas palavras, ela parece considerar um pouco, para então dizer:

― Taj Palace, New Delhi.

Que coincidência, Rafael. Penso, com ironia.

Minha cara deve ter revelado muito, porque, em seguida, ouço Regininha me dizer:

― Não me diga que você...

― Sim. – não perco tempo em responder.

― Rafael! – ela diz, com raiva.

― Foi exatamente o que eu pensei!

― Só porque estou cansada, vou aceitar sua sugestão. Mas, por favor, não tente puxar assunto comigo, está bem?

Como estou casando e estressado desta bendita viagem, apenas faço um aceno afirmativo com a cabeça, dizendo a ela que farei exatamente como ela quer.

Ainda esperamos uns dez minutos por um taxi, até finalmente conseguirmos um, para enfim seguirmos para o Taj Palace, New Delhi. A viagem transcorre no mais absoluto dos silêncios, cada um de nós com seus próprios pensamentos.

E, quando finalmente chegamos ao hotel, cada um de nós segue com suas malas até a recepção. A recepcionista, assim que nos vê, não perde tempo em dizer:

― Em que posso ajuda-los?

― Por favor, tenho uma reserva no nome de Edan Vasconcellos e outra no nome de Regina Villa Lobos. – não perco tempo em dizer.

― Um momento que vou verificar, senhor. – diz prontamente a recepcionista.

Ela começa a mexer no computador por alguns minutos, para então voltar a me encarar e em seguida dizer:

― Ahá sim, encontrei. Tem uma suíte reservada para o senhor Edan Vasconcellos e a senhorita Regina Villa Lobos.

― O que?! – eu e Regininha dizemos ao mesmo tempo.