A Quimera
2 Quem é Ethan?
Notas iniciais
Ethan tem 16 anos e está terminando o segundo ano do ensino médio. Ele estuda em uma ETEC na cidade de São Paulo, onde ele vive desde que nasceu. Era um domingo ensolarado de Setembro, o tempo estava úmido e agradável, um ótimo dia para sair com os amigos e por isso agora Ethan estava em um trem da linha azul indo para a Liberdade, o ponto de encontro dos fãs da cultura japonesa e um dos bairros japoneses mais famosos da cidade. Ao sair da estação, ele encontrou dois de seus amigos já o esperando. Uma garota baixinha de cabelos castanhos encaracolados, bem magrinha com olhos verdes e um garoto alto de cabelo preto penteado para o lado com gel, de olhos castanhos e cansados. Eram Nando e Júlia, amigos de Ethan desde o primeiro ano, agora eles eram praticamente irmãos.
– Oi gente, — Ethan os cumprimentou rapidamente — ficaram esperando muito tempo?
– Na verdade nós acabamos de chegar. — Respondeu Júlia com um sorriso.
– A gente se encontrou na estação. — Nando acrescentou cumprimentando Ethan com um sorriso e um aperto de mão.
– Oi! Cheguei gente!!!
Ethan olhou para trás para ver quem era mesmo não sendo realmente necessário, uma garota de estatura média com os cabelos vermelhos e os olhos castanhos vinha andando das catracas na direção deles com um largo sorriso no rosto.
– Desculpa a demora, acordei atrasada. — Ela cumprimentou com um beijo no rosto cada um dos amigos.
– Tudo bem, Helena, pelo menos você tá aqui. — Disse Ethan com um sorriso. — Agora só falta o Leo e a Rafaella.
– Eles disseram que iam vir juntos já que os dois moram perto da linha vermelha. — Júlia parou por um segundo e pegou o celular no bolso, quase ao mesmo tempo que os amigos. — Parece que eles já estão na Sé, não vai demorar muito para eles chegarem.
Por algum tempo os amigos ficaram ali na frente conversando sobre como fora a viagem até ali. Sempre aconteciam histórias engraçadas nos trens e nos ônibus. Naquele momento Nando estava contando que uma senhora começou a puxar assunto com ele no ônibus, dizia que o filho dela tinha comprado uma televisão nova e quando chegou em casa não tinha nada na caixa.
– Como alguém leva uma caixa sem peso nenhum pra casa achando que tem uma televisão dentro? É cada uma que eu escuto.
Todos estavam ouvindo e rindo quando eles ouviram uma voz feminina atrás deles.
– Yo! Qual é a piada? — Rafaella, uma garota da mesma estatura de Helena, cabelos castanhos com mechas verdes na franja e olhos castanhos vinha para cumprimentá-los sorrindo e acenando.
– Realmente parece ser muito engraçado. — Respondeu Leo dando uma risada. Ele era um garoto magro mas com os braços fortes, cabelos loiros e olhos azuis. Junto com Ethan era o único que não usava óculos, apesar de que ele precisava para enxergar de longe.
Passados os cumprimentos o grupo se dirigiu para fora da estação e na direção do shopping. Lá eles compraram camisetas, colares, mangás e outras coisas. Logo que saíram foram comer na Subway onde brincaram, fizeram barulho e se divertiram. Na estação eles se despediram, alguns indo para a Sé, outros para a Luz e Ethan foi sozinho pela linha azul até chegar na estação Carandiru onde ele pegou um ônibus até a Vila Maria, bairro onde ele morava.
Assim que ele desceu no ponto, caminhou um pouco até um sobrado bem bonito, de paredes laranjas com um portão branco e um carro no estacionamento. Era uma Hilux preta, grande e bonita, o carro do pai dele. Ele abriu o portão e andou pelo estacionamento de piso branco desenhado até a porta de casa, que ele abriu sem precisar da chave já que seus pais e provavelmente sua irmã mais velha estavam por lá. Eles eram uma família quase comum. Seu pai se chamava Marcos e trabalhava como chefe da empresa que ele herdara do avô de Ethan, sua mãe era Eleonor, trabalhava como professora de filosofia na USP. Sua irmã, Sarah era 4 anos mais velha que ele, estava namorando um cara legal e trabalhava no Banco da Caixa.
Ethan passou pela sala bem rápido, deu um ligeiro “oi” para os seus pais que estavam sentados no sofá e foi direto para o seu quarto. Lá ele trancou a porta, fechou as cortinas e acendeu a luz como sempre fazia. Ligou o computador e olhou a hora no relógio que ficava na cabeceira da cama. Cinco e meia, pelas contas ele tinha ficado umas cinco horas com os amigos, um passeio divertido como sempre, que parecia apenas lembrá-lo que no dia seguinte tinha aula. Cansado, Ethan se sentou na cadeira do computador, ela nunca chegou a ter as costas encaixadas, era só o banco com uma almofada em cima, logo ele se deixou relaxar. O abdômen saiu e tomou o lugar da cintura enquanto as oito pernas tomavam o lugar das outras duas, ele tirou as lentes de contato e deixou os outros olhos se abrirem, assim que ele terminou sua “transformação” ele soltou um suspiro aliviado. Era bom poder se libertar da prisão que era aquele corpo humano.
Ethan na verdade era descendente de um dos experimentos que haviam fugido; desde que ele nasceu ele tinha esse corpo em forma de aranha, os cabelos pretos continuavam, mas brotavam outros dois pares de olhos negros sem pupila, ele tinha quatro pernas finas e compridas, provando que era um aracnídeo, os dedos ficavam ligeiramente mais compridos se formando na ponta como garras, o abdômen era completamente preto com pequenos losangos vermelhos na parte de cima formando uma curta linha e na parte de baixo se via o desenho de uma ampulheta vermelha. As vezes Ethan imaginava como seria se seus amigos descobrissem sobre ele, todos eles eram humanos normais e apenas Ethan era diferente, ele sabia que uma hora ou outra teria que contar pra eles quem ele realmente era. Sem querer continuar pensando nesse assunto decidiu ir jogar.
Depois de um tempo que se pareceram apenas minutos, o garoto ouviu uma batida na porta.
– Pode entrar!
– Filho? — Marcus parecia contente como sempre, com um sorriso estampado no rosto que fazia rugas ao lado de seus olhos. — Sua mãe está chamando para jantar.
– Ta, vou desligar e já desço.
Assim o pai dele saiu do quarto e Ethan ficou sozinho novamente. No momento que terminou a partida, deixou o computador em modo de espera e foi para a cozinha. Quando chegou, seu pai e sua irmã já estavam sentados na mesa, enquanto sua mãe tirava uma bela lasanha do forno. Passado o jantar era a vez do menino lavar a louça e só quando ele terminou e finalmente podia voltar para o computador, sua irmã apareceu.
– Vamos sair.
– O que? Pra onde?
– Vamos ao parque, o Trote, precisamos caminhar um pouco.
Mesmo não querendo sair, Ethan era quase que obrigado a ir, ele não utilizava suas pernas de aranha o tempo todo e por isso ele precisava caminhar sempre pra que ele não perdesse o costume de usá-las.
Assim que chegaram ao parque os irmãos foram para um lado mais distante para não chamar a atenção. Enquanto eles caminhavam Sarah decidiu fazer o que já pretendia desde o começo, conversar.
– Então… — Ela decidiu ir direto ao assunto. — Quando vai contar sobre você para os seus amigos?
– Hein?
– Eu praticamente conheço a vida pessoal de todos os seus amigos de tanto que você fala deles, parece uma menina com o primeiro namorado.
– Eu sei, eu sei, vou contar, mas eu preciso de coragem pra fazer isso. — Fitando o chão ele continuou. — Eu ainda tenho medo de como vão reagir.
– Bem, se eles não quiserem continuar a ser seus amigos então nunca foram de verdade.
Ethan pegou no bolso do seu casaco seu celular e olhou o pequeno símbolo do What’s App no canto superior da tela. Talvez sua irmã estivesse certa, ele precisava fazer alguma coisa, não podia continuar se escondendo. Ele desbloqueou o celular e clicou no ícone, na conversa Nando tinha acabado de mandar a imagem que dizia, “vida real? Nunca ouvi falar desse server” o que acabou tirando dele um sorriso. Assim ele mandou uma mensagem onde se lia, “tenho que conversar com vocês amanhã, depois da aula”.
É claro que milhares de mensagens começaram a ser enviadas pelo seus amigos no mesmo instante, um monte de “o que houve”, “tá tudo bem?”, “cara, o que ta acontecendo?”, mas Ethan preferiu ignorar e decidiu que era melhor deixar pra falar disso amanhã, até que ele sentiu o celular vibrar de novo, mas a mensagem não vinha do grupo. Era uma mensagem pessoal. Nando tinha enviado algo como “vai contar pra eles?”. O garoto nem se importava mais com o fato de ser tão bem conhecido pelo amigo. Antigamente Nando morava perto de Ethan, até que a quimera teve que se mudar por que os vizinhos estavam começando a desconfiar de que ele era "diferente", mas antes disso ele tinha ficado lá por volta de quatro anos e durante esse tempo a dupla tinha estudado na mesma sala da quinta até a oitava série. Até hoje Ethan não sabia direito como o amigo tinha descoberto sobre ele ser uma quimera, mas a amizade deles só se fortaleceu depois disso. Mesmo separados pela mudança conseguiram entrar na mesma escola e fazer o ensino médio juntos.
Agora Ethan sabia que não poderia evitar a conversa. Sabia também que pelo menos tinha que assegurar Nando de que estava tudo bem, ele tinha certeza que se ficasse quieto, o garoto viria de sabe se lá onde até a casa dele só para ter certeza que está tudo bem. Por isso, Ethan enviou uma mensagem dizendo simplesmente “sim” sabendo que não teria resposta.
– E ai? Falou com eles? — Sua irmã que estava o observando o tempo todo decidiu finalmente falar quando ele bloqueou o celular.
– Sim, vou contar pra eles amanhã. Espero que dê tudo certo. — Ele disse estalando os dedos. Uma mania que tinha quando estava nervoso.
– Vai dar sim, não se preocupe com nada, afinal eles são seus amigos, se você não puder confiar neles em quem vai?
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