A Quietude Falaz

ou

Eu, numa Crisálida.

Eugênio Passos.

***

A propósito dum mote inopinado de Virgílio, um dos meus amigalhões.

***

Dedicado a Alice, filha de idílico nome, a cujo pai devo o dito mote.

***

"(...) os sátiros farão aí suas danças."

(Is. 13, 21.)

***

Mote:

Quem me vê quieto, parado, calado, garante que eu não sei sambar...

***

Não, sambar não o sei:

Esse bamboleio áfrico,

Esse requebro atávico,

Sequer ensaiar tentei.

Mas, às cadências que me faltam aos músculos,

Não se me furta o espírito:

Irrequieto e algarávico,

Amante de Euterpe, de Terpsícore enamorado,

Pula e mexe, rodopia e salta;

Fala e grita, canta e gargalha.

E a alma, que se me soprou às narinas,

Com Éolo mancomunada é:

As paixões, que me insuflam os pensamentos,

Torvelinham-me os anseios e aos ímpetos remoinham].

Sim, a crisálida em que me encerro

Quieta, parada e calada jaz;

O lepidóptero, porém, em que me enlevo

Volteia e adeja, cinético ás.

A quem me vê quieto, parado, calado, garanto que sou falaz.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!