Sempre fui o tipo de pessoa que esperava demais da vida. Estimava. Acreditava que a qualquer momento a vida me faria uma surpresa, me mudaria por completo — e que fosse para melhor. Em nenhum ponto da minha vida isso realmente aconteceu, e ninguém além de mim esperava que fosse acontecer. Mesmo assim eu esperei. Eu sempre esperei em vão. Até aquele dia.

Minhas mãos subiram pelo pescoço, procurando o nó por dentro, coçava. Queria gritar mesmo que não conseguisse emitir merda alguma. Eu precisava gritar. Minha irmã estava desaparecida. Não pode-, não podia ser verdade. Se não fosse pelas mãos fortes do policial a minha porta a me segurar e me guiar para o sofá da minha casa, eu estaria no chão, espatifado. Imaginando que eles — os policiais — estavam confusos, não sabendo se me levavam a um hospital ou me guiavam na minha própria casa – tendo depois que permanecer para me proteger e questionar – me levantei, com calma pra não cair novamente.

— Me- me desculpe, mas pode repetir?

UM MÊS ANTES

Perdi as contas de quantas vezes falei a Astrid que “era a última vez que eu jogava”. Eu repetia, repetia e repetia. Que fracasso! Eu perdia em todos os jogos. Como vencer esta merda? Faltava pouco pra todo meu dinheiro acabar naquela aposta em Vegas, quando finalmente arranquei poucos dólares do senhor-roubador. Levantei as notas que faziam cinquenta dólares e sorri assumindo meu desastre e saindo dali, eu não ganharia mais que aquilo mesmo. Imaginei o que faria agora, Poker? Oh! Aquelas máquinas em que tínhamos que fazer uma linha de figuras iguais, é... Eu sempre quis ir num daquele, mas a verdade é que só sabia manejar dados, nem mesmo baralho eu era bom, mas bem, aquilo era realmente e puramente sorte... puxar a alavanca e veremos...

— Evy! Evy! Mas que bosta, venha já aqui! Temos que ir embora. ETHAN EVANNIE GILLIES, não se atreva a puxar esta alavanca.

— Mas-que-saco. – Disse pausadamente. Astrid aparecera entre a multidão de pessoas dos clubes de Las Vegas, me puxando pelo braço, antes que eu colocasse o dinheiro na máquina. – Você fica o dia todo perdida na boate e o mínimo que posso fazer quando venho com você, é jogar!

— Não era nem pra estar aqui. – Sua mão me puxava entre as pessoas e eu não sabia se ela se referia a mim ou a ela mesma. Astrid parecia... desesperada, amedrontada. Eu nunca a vi assim. – Vamos logo.

Sua pressa me irritava, ao mesmo tempo, intrigava. Se ela fugia, fugia de quê?

Correndo, chegamos em menos de um minuto ao ponto de táxi, onde Karl nos esperava em seu carro (“- E aí, Karl.” Cumprimentei batendo em sua mão enquanto entrava).

— Chicago. Agora! – Ela praticamente gritou a última parte com urgência para que entendesse “Perigo, precisamos fugir o mais rápido possível”.

Astrid se perdia nas últimas visões que tinha da iluminada cidade. Eu, por outro lado, só queria saber uma coisa “O que, de tão grave, havia acontecido com minha irmã pra fazê-la mudar de cor?”

Talvez eu tivesse perdido metade da noite me perguntando o que acontecera de fato. Não quis nem me atrevi a perguntar a Astrid, perguntar só traria raiva à minha irmã, e não teria respostas. Como sempre eu precisava descobrir por conta própria. Mais tarde, quando já madrugava, eu me levantei da minha cama. O meu quarto era o maior da casa, afinal eu era o único que precisava “manter as aparências”. Astrid ficava no quarto ao lado do meu no pequeno apartamento, sem fazer questão de trazer ninguém para casa. As vezes ela ficava vários dias fora e eu era um menor desacompanhado, até ano passado pelo menos onde completei dezoito anos e já podia dirigir no Brasil.

Com passadas leves saí do quarto para que o piso de madeira não rangesse e me denunciasse. O corredor estava vazio e escuro, o que salvava era a pouca luz que atravessava a janela do meu quarto e vinha até metade do corredor. Eu diria que não tinha com o que me preocupar, se Astrid não estava na soleira da minha porta, então havia saído. Ela costumava me vigiar por horas antes de cair no sono, andar como um fantasma condenado pela casa. Arrisquei alguns pulos e finalmente parei onde queria. O quarto de Astrid era bem menor que o meu, tendo pouco espaço pra andar graças a cama de casal e o guarda-roupa. Estava em total breu, pois não tinha janela como o meu. Tateei a parede pelo interruptor e acendi a luz, correndo para o guarda roupa e revirando as demais gavetas e blusas da minha irmã, quando ouvi o barulho de uma arma sendo destravada às minhas costas.

— Que merda você está fazendo?

A voz era doce, açucarada, mas carregava uma carga de cansaço, culpa e até medo. Eu reconhecia isso, eu tinha uma empatia pelos outros. Talvez fosse mesmo um dom sobrenatural.

— Astrid! — Eu me virei pra encarar minha irmã furiosa. — ASTRID! — Ergui as mãos numa tentativa de proteger minha visão da minha irmã de lingerie.

— Não tente desfaçar, seu idiota. Da próxima... eu atiro. — Astrid me cercou e abaixou meus braços, fazendo com que olhasse para seu rosto cansado e deprimido.

— Pode guardar isso... — Apontei para a arma ainda nas mãos dela. — Por favor?

Ela bufou, mas obedeceu jogando a arma sobre a cama. Acompanhei admirado aquela coisa brilhante cair e quicar sobre a cama macia.

— O que é? — Perguntei, novamente me referindo a arma.

— Uma pistola. Nada comparada com o que Keane tem. — Sorriu maliciosa, logo se arrependendo de pronunciar aquele nome.

— Está tudo bem. Depois de todo esse tempo, pensei que confiava em mim. — Despejei o que me afligia, sentando-me sobre a cama da minha irmã, tentando conter o constrangimento por estar apenas de bermudão e minha irmã de lingerie. Essas visões deveriam ser proibidas por lei!

— Evy. Evy, é complicado. O que estou fazendo... não é certo, você sabe, precisa se manter o máximo afastado possível.

— Não, Tid. O que você faz está relacionado com nosso avô, meu avô! Você está se arriscando. Keane e os outros. Acha mesmo que pode confiar neles? — Segurei seu ombro quando ela se sentou ao meu lado, fitando os pés.

— Eu tenho que confiar, Evy. Desculpa, mas é tarde. Vá dormir — Ela se levantou e saiu, o celular, antes escondido na mão que não segurava a arma, agora estava em sua orelha. Keane. Eu sabia que era ele, embora não o conhecia pessoalmente. Eu sabia que essa era minha deixa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.