Bea estava deitada no jardim que separava a Casa de Gêmeos da de Touro, com as mãos atrás da cabeça e os pés cruzados, observando o céu azul intenso do Santuário. Já se passara tempo suficiente desde sua chegada para que a ideia de “isso é só um sonho” começasse a dar lugar a outra mais perigosa: “talvez eu esteja mesmo vivendo aqui agora.”


Saga insistia em treinos quase diários, e seu cosmo começava a responder de forma mais clara. Não com explosões poderosas, como os cavaleiros de ouro, mas com uma presença constante, intuitiva. Parecia ter um jeito próprio de funcionar, como se respondesse à empatia e ao instinto — algo que Saga achava “incomum, mas promissor”.


Apesar disso, ela ainda não usava armadura. E, sinceramente, não sentia pressa. Estava ocupada demais com… digamos… a sociabilidade.


— Ei, professora, está perdida em pensamentos outra vez? — veio a voz sedutora de Milo, interrompendo a paz solar.


Bea sentou-se com um sorriso, os olhos acompanhando o escorpião dourado se aproximando com seu típico andar felino e charmoso demais para o próprio bem.


— Só me adaptando ao fato de que a vida agora envolve armaduras, cosmos e olhares intensos no meio da tarde.


— Você se adapta bem. E rápido — disse ele, sentando ao lado dela, com aquele olhar de “vou te desestabilizar e você vai gostar”.


— Claro, sobrevivi a alunos perguntando se a girafa é parente do dinossauro. Isso aqui não me assusta tanto.


Milo riu. Um riso sincero. Ela gostava disso nele. O flerte era evidente, mas não era sujo. Ele fazia questão de olhá-la nos olhos — coisa que Afrodite nunca fazia, a não ser para julgá-la.


— E o que você acha de mim? Estou na sua lista de adaptações difíceis ou fáceis?


Bea sorriu de canto.


— Você é como escorpião mesmo. Bonito, mas se não tomar cuidado… é picada certa.


Antes que Milo pudesse responder com outra provocação, uma voz fria e lírica se aproximou, cortando o ar como um perfume enjoativo.


— Ora, ora. E eu pensando que o Santuário era um lugar de treinamento, não de paquera descarada no jardim.


Afrodite de Peixes, em toda sua glória irritante, apareceu. Cabelos azulados perfeitamente penteados, armadura polida até refletir o sol, olhos semicerrados de desprezo bem calculado.


Bea não se levantou. Apenas ergueu uma sobrancelha.


— Está com ciúmes, Afrodite? Porque se quiser se sentar com a gente, prometo não morder. Já o Milo…


Milo disfarçou o riso. Afrodite bufou, mas manteve o ar de superioridade.


— Só estou curioso em saber que tipo de treinamento Saga está oferecendo. Porque até agora, tudo que vi foi você rindo alto demais, flertando com todo mundo e… atrapalhando o perfume natural das flores.


Bea se levantou, agora de frente pra ele, braços cruzados.


— Quer mesmo falar sobre perfume, florzinha? Porque sua arrogância fede mais que suas rosas.


Shun apareceu, como sempre, no momento certo para evitar que o Santuário fosse reduzido a pó por uma briga verbal que provavelmente acabaria em espinhos literais.


— Gente, calma… Bea, Afrodite, vamos manter o clima agradável, sim? Bea, queria te mostrar uma coisa nos jardins.


Ela respirou fundo, lançando um último olhar cortante para Afrodite, e seguiu com Shun. Enquanto se afastavam, ouviu Milo cochichar algo para o pisciano:


— Você está se queimando, flor. Ela morde melhor do que você espeta.


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Os jardins que Shun cuida aos fundos da Casa de Virgem, eram como outro mundo dentro do Santuário — pacíficos, cheios de vida e energia suave. Lá, ele cuidava de plantas, flores, até algumas ervas medicinais. E, naquele dia, mostrou a Bea uma pequena planta alienígena que ele dizia ter encontrado nas fronteiras de Jamiel.


— É estranho… desde que você chegou, parece que as flores daqui ficaram mais agitadas — disse ele, analisando os brotos que se inclinavam discretamente na direção dela.


— Deve ser minha aura de caos — respondeu, brincando, mas com um fundo de verdade.


Shun sorriu e a olhou com carinho.


— Na verdade, acho que é porque você é viva. Autêntica. Aqui tudo é muito… rígido. Você bagunça as coisas. E isso é bom.


Bea ficou sem resposta por um segundo. Era fácil se sentir “diferente demais” naquele lugar, entre deuses em treinamento. Mas com Shun, sentia-se aceita. Ele via nela não uma intrusa — mas uma novidade.


— Obrigada, Shun. Você é um dos poucos aqui que não me faz sentir que tô constantemente numa prova do ENEM espiritual.


— Acha mesmo que não está? — disse uma voz inesperada. Bea virou-se e viu Shaka de Virgem parado sob uma cerejeira, com aquele ar de sabedoria que dava nos nervos.


— Olha quem chegou — murmurou Bea, revirando os olhos.


Shaka a ignorou com classe.


— É perigoso apegar-se demais à leveza. O Santuário é um lugar de disciplina. Não de risos ou vínculos.


Bea cruzou os braços.


— Não se preocupe, Buda de Armadura. Prometo não rir perto de você. A não ser que caia de cara na própria arrogância.


Shun arregalou os olhos, murmurando um tímido "Bea...", mas Shaka só deu um pequeno sorriso enigmático e se retirou, como se a provocação fosse um incenso agradável.


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Naquela noite, deitada na cama de pedra polida que Saga mandara adaptar com almofadas, Bea fitava o teto, os dedos traçando padrões imaginários no ar. Sentia-se… preenchida, pela primeira vez em muito tempo. Confusa, sim. Mas viva.


A saudade batia em ondas. O latido de uma de suas cachorras parecia ecoar na memória. Será que seus pais estavam procurando por ela? Será que alguém acreditava em desaparecimentos cósmicos?


Ela fechou os olhos e uma lágrima escorreu, silenciosa.


— Está tudo bem, Bea — murmurou para si mesma. — Você só… caiu no meio do impossível.


Do lado de fora, escondido entre as sombras das árvores no jardim de gêmeos, Afrodite observava a luz fraca do quarto. Seus dedos acariciavam uma pétala de rosa entreaberta.


— Ridícula — murmurou. — Como alguém tão barulhenta… pode fazer silêncio aqui dentro?



A rosa se fechou. E ele se foi, antes que qualquer sentimento começasse a incomodar demais.