Agarrado às barras de ferro da proa do navio Le Brave, Jeremy Scott exibia uma expressão amedrontada diante do fato preocupante que acabara de constatar. Seus olhos ainda fitavam o horizonte para além do mar de prata, onde enormes nuvens negras pareciam se formar rapidamente pintando o mar abaixo delas de um tom assustador de cinza.

Submisso e incapaz de desgrudar os olhos da cena aterrorizante. Jeremy sentia o coração palpitar por baixo dos inúmeros casacos que usava na tentativa inútil de afastar o frio cortante. Um calafrio intenso serpenteou por seu corpo arrepiando-o até a alma. Nós não estávamos preparados para isso, pensou.

A poucos metros dali, em uma cabine minúscula, o capitão folheava documentos estatísticos sobre a atividade pesqueira daquela região do mar de prata. Estava compenetrado nos papéis e carregava uma dureza incomum no olhar que foi substituída por uma expressão de susto quando um clarão entrou por uma pequena janela a bombordo. Dois segundos depois, um barulho grave, ensurdecedor e inconfundível soou por todo o navio como um grito de um gigante raivoso. Uma lufada de ar frio entrou pelas frestas da porta em sibilos. O capitão se levantou instintivamente deixando a papelada cair no chão e espiou por trás da janela embaçada.

Isso não está certo. Muito próximo. pensou em voz alta.

Logo após o trovão, o capitão ouviu passos fervorosos vindos da escada que dava para a cabine. Não deixou de reparar que o mar se agitara um pouco mais, reduzindo minimamente a estabilidade do navio. Batidas ruidosas na porta, seguidas por uma voz aguda e esganiçada:

Capitão Lowe! Capitão Lowe!

Entre. disse o velho firmemente, mas percebeu que a ordem havia sido vazia, considerando que Jeremy Scott já se esgueirava para dentro da cabine mal iluminada.

O Capitão Lowe percebeu que seu ajudante estava branco como leite, como se houvesse visto um fantasma.

Capitão Lowe repetiu ele, ofegante. Tem...tempestade. A previsão... Eles erraram.

Do que você está falando, meu jovem? perguntou o capitão. Respire fundo.

Jeremy tomou fôlego.

Uma tempestade está se formando rapidamente ao norte. A previsão do tempo estava errada.

O capitão já havia percebido, apesar de não fazer o menor sentido. Estavam em Agosto e as temíveis tempestades do Mar de Prata só costumavam acontecer no final de Outubro. Talvez aquilo não passasse de uma chuva de pequenas proporções.

Pode ser apenas uma nuvem passageira. Não acho que deva ser algo com que devamos nos preocup...

Antes que o capitão pronunciasse a última palavra, uma rajada de vento entrou violentamente pela porta, levando Jeremy a apertar os braços contra o próprio corpo. Os papéis do capitão agora voavam de um lado para o outro, formando círculos concêntricos naquela sala pequena e pouco iluminada. Outro clarão, e mais uma vez o barulho de trovão ecoou.

Jeremy tremia incontrolavelmente, seus lábios adquiriram um tom azulado e sua testa estava brilhante de suor, apesar do frio insuportável que fazia. O capitão estremeceu. Por um instante, seus olhos cruzaram com o do ajudante e ele pode ver com toda a clareza do mundo, um sentimento altamente contagioso no olhar daquele jovem: Medo.

Cap..pitão Lowe. disse ele enfim, trincando os dentes e apontando para o lado de fora com uma mão trêmula. O senhor precisa ver isto.

II

O Le Brave era um pesqueiro de médio porte. Fora construído por ninguém mais ninguém menos que Louis Pendleton Brave, o maior construtor de navios que o mundo já vira. Não por coincidência, bisavô de Lowe Brave. O capitão Lowe havia herdado o navio após a morte do pai há vinte anos, e desde então se dedicara a dar continuidade aos seus negócios.O ramo de pesca especializada nunca caiu no agrado de Lowe Brave. Mesmo contra a vontade, buscou forças para manter os negócios da família no mínimo, estáveis, sendo esse um dos últimos pedidos do pai antes do ataque cardíaco que o levara a óbito.

Sempre se pegava rindo sozinho ao pensar no que os seus velhos amigos da universidade diriam se soubessem o fim que havia levado: Ora, vejam só! o maior cientista de White Rock, que morre de medo de mar, larga sua vida medíocre e vai se aventurar nas selvagens águas do Mar de Prata. Quanta ironia em uma frase só.

O capitão sabia que o que sentia há uns vinte ou trinta anos atrás não era um simples medo de águas profundas. A verdade era que ele tinha uma completa aversão: Um quadro extremo de fobia desencadeado por um trauma de infância. Apesar de ter aprendido, através de anos de experiência, a controlar parcialmente o medo que tinha do mar, o capitão ainda sentia receio sempre que navegava por aquelas águas traiçoeiras. Imaginava que estaria tudo sob controle enquanto evitasse olhar fixamente através das margens do convés.

Naquela tarde, porém, o medo que sentiu atingiu-lhe de forma certeira como um soco no estômago. Maior do que sua fobia de águas profundas. Maior do que todos os medos que já sentira em toda a sua vida.

Sua vista pareceu escurecer levemente e sua boca ficou seca como um deserto ao ver a imagem que se formava a uma velocidade inacreditável bem diante dos seus olhos. Deus nos ajude, pensou.

Cortando o horizonte ao norte do Le Brave, a aproximadamente uns dois quilômetros, um furacão do tamanho de um arranha-céu rodopiava ferozmente feito um peão e parecia deslizar de forma macabra em direção ao pesqueiro. Ao redor dele, um fosso gigantesco havia se formado no mar, girando e sugando tudo ao alcance como se fosse a água de uma enorme banheira escoando pelo ralo.

Uma onda de pânico atingiu o capitão. Estamos sendo arrastados para o olho do furacão. O pensamento que teve em seguida foi tão palpável que ele quase foi capaz de sentir a pressão que exercia sobre si. Nós vamos morrer aqui. É inevitável.

O vento agora rugia como um animal selvagem, fazendo com que as velas se debatessem incessantemente.

O capitão olhou para Jeremy Scott e na mesma hora soube que seu ajudante compartilhava exatamente os mesmos pensamentos que ele. O jovem estava mortificado, não demonstrava medo, nem horror, nem sentimento algum. Era quase um estado de consciência plena. Aceitação. Ambos sabiam o que viria a seguir. Ambos sabiam que não adiantava fugir daquele destino, por mais que o desespero parecesse gritar silenciosamente dentro de cada um.

Tão jovem, pensou o capitão Lowe. Merecia uma morte mais digna e honrada do que essa.

Nesse mesmo instante, uma onda enorme atingiu o pesqueiro a estibordo. Uma barra de ferro então se soltou e destruiu um dos mastros, que por sua vez caiu com um baque estrondoso no piso de madeira do convés. Centenas de lascas de madeira explodiram ao vento, abrindo uma cratera a poucos metros de onde os dois tripulantes se encontravam. Correndo os olhos através do navio Le Brave, o capitão sentiu, além do terror incontrolável, uma pontada de tristeza. Uma herança de família. O objeto de maior estima do meu pai, transformado em escombros bem diante do meu nariz.

Tudo o que o capitão conseguia pensar naquele momento era no pai, que por mais velho que fosse, exibia sempre um olhar jovial. Você precisa cuidar do Le Brave como um filho. Dissera ele antes de morrer. É sua responsabilidade agora. Honre nossa família. Uma lágrima escorria pelo rosto de um Lowe mais jovem. Você é capaz. O capitão se encolheu ao ver o pai dar o último suspiro e dormir para sempre. Ainda ali, a imagem parecia tão nítida que aquiesceu seu coração por um momento. Eu preciso ter fé. Preciso acreditar que podemos sair daqui.

E com essas palavras ecoando em sua cabeça, praticamente inaudíveis diante do barulho causado pelo som dos trovões e da ventania iminente, o capitão tomou uma decisão.

Jeremy. gritou para o ajudante, que parecia ainda estar imerso em pensamentos. Jeremy Scott, seu desgraçado! Você quer mesmo morrer aqui sem nunca ter conhecido o calor dos braços de uma mulher? Engana-se se acha que terá chance com alguma sereia lá embaixo.

Mas, embora Jeremy estivesse ali em corpo presente, sua mente se encontrava longe. Em uma pequena cabana nas margens do populoso vilarejo de White Rock, onde uma bela moça de olhos azuis depositava orquídeas dentro de um vaso ornamentado. Ela sorria ao levar uma orquídea ao nariz. A luz do sol entrava pela janela e iluminava minúsculas partículas de poeira suspensas no ar, provocando uma visão quase transcendental, iluminava também os cabelos castanhos e ondulados que caiam suavemente até os ombros da moça. Ênia, minha querida Ênia. Nunca mais ouvirei sua voz. Eu deveria ter contado o que sentia, deveria ter vivido o amor enquanto pude. Agora é tarde

Jeremy não conseguia pensar em mais nada. Estava em um estado de êxtase profundo regido pelo subconsciente, se é que aquilo fosse possível diante da notícia de que não teria mais que algumas horas de vida. Pensou ter ouvido algo, mas a imagem de Ênia em sua beleza esplendorosa dominava seus pensamentos de forma avassaladora, sugando toda a sua atenção. De repente, sentiu uma dor lancinante no maxilar. Por um momento pensou que houvesse sido atingido por alguma lasca de madeira ou barra de ferro solta pela tempestade. Caiu, sentindo um fardo pesado se jogar sobre si logo em seguida. Confuso, precisou piscar quatro vezes para conseguir compreender o que de fato estava acontecendo.

A poucos centímetros do seu rosto, o capitão gritava palavras inicialmente incompreensíveis, que não demoraram a tomar forma no cérebro de Jeremy.

Seu desgraçado. Quer mesmo morrer aqui? Os olhos do capitão eram uma mistura de angústia e dor, medo e raiva. Me ajude a virar o navio noventa graus a estibordo.

Jeremy olhou para ele atônito. Seu capitão era conhecido nos arredores de White Rock pela sua dureza e severidade. Mas Jeremy o conhecia a ponto de saber que aquelas conversas não tinham fundamento. Nunca havia conhecido um homem com tantas virtudes na vida, incluindo a calma e a paciência, muito embora não fossem olhos calmos, tampouco pacientes que o encaravam naquele instante.

Me ajude a virar a droga do navio noventa graus a estibordo. berrou o velho homem.

Não temos escolhas, capitão. Já entramos no raio de alcance. É impossível sair agora.

O capitão era consciente de que seu ajudante estava correto, entretanto, jamais se permitiria permanecer ali de braços cruzados. Ao norte, o furacão crescia e girava tão assustador quanto se pudesse esperar. Erguia-se cada vez mais de forma imponente, como um enorme monstro do mar prestes a devorar tudo ao seu redor.

Os dois tripulantes correram pelo deque em direção a cabine do centro de comando. Com grande esforço, giraram a manivela do Le Brave noventa graus a estibordo.

Ligue os motores. Ordenou o capitão. AGORA!

Jeremy reuniu forças e puxou uma enorme alavanca localizada no centro da cabine. Em resposta, um ronco grave ecoou pelo navio, vibrando as vidraças das janelas do passadiço. Em poucos segundos, o Le Brave já estava em movimento.