Notas iniciais
Passando aqui para agradecer a Bree por revisar os capítulos ♥.

Aurélio se ajeitava na confortável poltrona do avião; era maravilhoso ter espaço suficiente para poder esticar suas pernas. Apesar do nervosismo presente em seu corpo, era impossível não aproveitar os benefícios da primeira classe.

Ele olha para frente, observando Camilo e Ema, que estão sentados um pouco mais à frente na fileira oposta. Os dois conversavam animadamente e isso provocou um pequeno sorriso nos lábios do homem. Eles sempre se deram bem, a amizade entre os jovens aconteceu de forma rápida e fácil. Algo que não se sucedeu entre ele e Julieta; a mulher possuía um gênio difícil e era mais reserva.

O loiro suspira ao olhar para a mulher ao seu lado. Ela folheava uma revista qualquer. O secretário volta sua atenção para o questionário da entrevista que ambos iriam fazer daqui a quatro dias na imigração americana.

— Então, essas são as perguntas que irão nos fazer... – Aurélio diz, despertando a atenção de Julieta – A boa notícia é que já sei tudo sobre você, mas a má notícia é que você terá quatro dias para saber tudo sobre mim. Então, você deve estudar e...

O homem para de falar quando a empresária arranca o questionário de suas mãos, lendo de relance algumas das perguntas que ele afirmava saber de sua vida.

— Sabe todas essas perguntas sobre mim? – Julieta fala ao olhar para loiro, que afirma e vira a cabeça para a janela arredondada do avião, contemplando o belo céu azul.

— Assustador, não é?

— Um pouco – A morena responde, voltando a ler o questionário. Ela fica em silencio até ter uma ideia – Já que sabe tanto sobre mim, me diga ao que sou alérgica?

— Camarão e a qualquer tipo de emoção. – Aurélio debocha e Julieta revira os olhos, soltando uma falsa risada.

— Que engraçado. — Ela respira fundo e lê outra pergunta – Essa é boa, tenho alguma cicatriz?

— Tenho quase certeza de que tem uma tatuagem.

— Aaah, você tem quase certeza? – Julieta retruca ao olhar para o loiro.

— Quase certeza. – Aurélio afirma, deixando de contemplar a vista e encarando a mulher ao seu lado – Há dois anos o dermatologista ligou e falou algo sobre uma sessão a laser. Eu pesquisei e descobri que serve para remover tatuagem. No entanto, você cancelou a consulta. — O loiro se pronuncia e a mulher aperta os lábios, voltando seus olhos para o questionário – O que é? Tribal? Letra Japonesa? Arame farpado?

Julieta ignora as perguntas de Aurélio e o homem, ao perceber que a mulher não iria responder, fala:

— Sabe que terá que me dizer onde ela está.

— Não, não tenho.

— Sim, porque vão me perguntar.

— Não irei dizer, pois terminamos essa pergunta. – A morena foge do assunto, fazendo outro questionamento – Em que casa moramos ou iremos morar? Essa é fácil, na minha.

— E por que não na minha?

— Porque eu moro em Central Park West, numa luxuosa cobertura. E você, provavelmente, deve morar num pequenino apartamento. – Julieta é grossa ao responder e Aurélio percebe que ela está irritada. Talvez ele tenha errado ao comentar sobre a tatuagem, deixando a chefe desconfortável com o assunto. Assim, ele prefere permanecer quieto.

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Após quase onze horas de voo e uma escala, o avião comercial pousa na pequena pista de Stika. Quando o piloto avisa que a viagem havia chegado ao fim, Aurélio libera seu cinto e olha pela janela. Avista duas mulheres, suas irmãs, e sorri levemente.

— Certo. Aqui vamos nós. – Ele sussurra.

O secretário é o primeiro a descer do avião, seguido de Ema, Camilo e Julieta. A última não estava nada contente, a viagem de Juneau a Stika foi horrível, o pequeno avião mais balançou do que tudo. Parecia que eles iriam despencar do céu a qualquer instante. Isso a deixou extremamente irritada, já que a morena possuía um pequeno medo de aviões.

Aurélio resolveu ignorar a chefe, sabia que era melhor deixa-la quieta quando estava irritada. Assim, ele aproveitou o momento para matar a saudades de suas irmãs mais velhas, Ofélia e Tenória, e abraçou fortemente as duas. Ema repetiu o gesto do pai; fazia um bom tempo que não via as tias.

— Onde está o pai? – Aurélio questiona.

— Você conhece nosso pai, está trabalhando. – Tenória responde imediatamente ao irmão.

— E resmungando! – Ofélia complementa a irmã, provocando risos em todos. – Agora, esqueça ele e nos apresente a sua garota!

O olhar de Aurélio cai sobre Camilo e Julieta, que estavam afastados, dando um pouco de privacidade a família que acabara de se encontrar. O homem faz um gesto com a cabeça, pedindo que os dois se aproximem. E assim, mãe e filho chegaram mais perto.

— Julieta e Camilo, está é minha irmã Tenória – Aurélio aponta para a mulher negra ao seu lado direito – E está é minha irmã Ofélia – Fala ao apontar para a mulher de cabelos brancos ao seu lado esquerdo.

— Olá, muito prazer em conhecê-las. – Camilo diz ao ir cumprimentar as mulheres, que comentam o quão bonito e elegante o rapaz é, deixando-o levemente sem graça.

Julieta espera a interação do filho com as irmãs de Aurélio e quando as mulheres se viram para ela, a empresária bota o seu melhor sorriso no rosto e levanta a mão para Tenória.

— Olá, prazer em conhecê-la. – A empresária diz.

— Olá, igualmente. – Tenória responde com um sorriso sincero e apertando a mão de Julieta. Ela se vira para cumprimentar Ofélia com o mesmo gesto.

— Prazer em conhec... — Julieta para de falar ao ser recebida de forma calorosa pela mulher, que a aperta em um abraço. A morena fica alguns segundos sem reação por conta do contato físico, mas tenta retribuir da melhor maneira possível.

— Prazer, Julietinha! – A mais velha das irmãs fala após o abraço e sorri. A empresária franze as sobrancelhas ao ouvir o apelido, enquanto Camilo prende o riso. O jovem estava amando ver as reações da mãe.

— Muito obrigada por permitirem que eu e meu filho participemos desse final de semana. – Julieta diz, tentando ao máximo ser simpática. Aurélio percebe seu esforço e sorri de lado.

— Que isso! Estamos felizes por recebê-los! – Ofélia fala entusiasmada – Agora, vamos levá-los para casa!

(...)

Levava cerca de trinta minutos entre o pequeno aeroporto e o centro de Stika. Para fazer esse percurso foram necessárias duas caminhonetes. Ema e Camilo resolveram ir juntos em um carro. Enquanto isso, Julieta foi no outro acompanhando Aurélio e suas irmãs.

A empresária ficou em silêncio durante todo o trajeto, deixando que Aurélio papeasse com as irmãs. Ademais, ela aproveitou a bela paisagem proporcionada pela floresta que rodeava a rodovia para se acalmar.

Ao chegarem no centro de Stika, o nome dos estabelecimentos roubou a atenção da mulher. Todas as lojas continham o sobrenome Cavalcante, era Correios Cavalcante, Loja de Departamentos Cavalcante, Cartório Cavalcante e etc.

Aquilo intrigou a mulher, que virou para perguntar a Aurélio quem seria aquela família tão influente na cidade. Entretanto, os olhos de Julieta avistaram a mala de mão do secretário, que possuía bordado “A. Cavalcante”. Seus olhos se arregalaram, a família de Aurélio era dona de todo aquele império?

— Aurélio – Ela sussurrou para o secretário ao seu lado, só que ele estava distraído olhando o movimento da cidade pela janela – Aurélio... Aurélio! – Julieta sussurra novamente, mas não consegue chamar a atenção do homem.

A empresária revira os olhos e dá um soco no braço do loiro. Aurélio pula no banco ao sentir o golpe da chefe. Essa mulher não cansa de ser louca?

— Por favor, não faça isso! – Ele pede encarando a mulher, mas logo percebe que algo está errado.

— Não me contou sobre os negócios da família, querido. — Julieta diz cinicamente, enfatizando a última parte.

— Provavelmente foi por modéstia, querida. – Ofélia responde por Aurélio e Julieta prefere ficar quieta. Ela encara o secretário, que a ignora e volta a olhar pela janela.

Após alguns minutos, Tenória estaciona o carro no cais de Stika. Todos saem do carro e Julieta se vira para trás, vendo Ema e Camilo saindo da segunda caminhonete. O jovem percebe o olhar da mãe e sorri para ela, antes de seguir Ema e ajudar a futura irmã a retirar as malas do automóvel.

Aurélio ia se dirigir para ajudar os mais jovens quando sente a mão de Julieta em seu braço.

— O que estamos fazendo? – A empresária questiona – Não deveríamos ir para um hotel?

— Cancelamos suas reservas. Família não fica no hotel. Ficarão em nossa casa. – Tenória se pronuncia, fazendo com que Julieta sorrisse falsamente.

— Que maravilha! – Ela finge falso entusiasmo e Aurélio solta uma pequena risada; sabia que sua chefe não gostaria dessa notícia. Ao notar o deboche, ela sussurra — O que? Sabia disso?!

— Sim Julieta, sabia. – Ele responde enquanto caminha para a caminhonete onde Ema e Camilo retiravam as malas.

— Papai, será que você poderia ajudar Camilo a tirar a mala de Julieta? – Ema pergunta ao ver seu pai se aproximando – Está duas vezes mais pesada que a minha.

— Claro que ajudo. – O homem mais velho diz e se posiciona ao lado do futuro enteado; os dois retiram a bagagem de Julieta e colocam no chão. Se Aurélio não tivesse pegado aquela mala, nunca ia acreditar que Julieta era pior que Ema quando o assunto se tratava em roupa. – Camilo, será que você poderia ajudar Ema com as malas? Eu ajudo a sua mãe.

— Se você insiste. – O jovem abre um belo sorriso ao ver que Aurélio se dispôs a ajudar a mãe e corre para o lado de Ema, ajudando-a com as bagagens da jovem.

Aurélio puxa a terrível mala até a chefe, que ao notar a dificuldade do homem ao levar a mala, sorri debochadamente.

— Está pesada, querido? Falei que devia entrar na academia...

Aurélio, ao ouvir o comentário sarcástico da mulher, deixa a mala ao lado dela e começa a andar em direção as irmãs.

— Aurélio, a ajude com a bagagem. – Ofélia fala.

— Adoraria, mas ela não me deixa fazer nada. – O secretário exclama fingindo preocupação – Ela gosta de fazer tudo. Uma verdadeira feminista. Vamos, querida!

Julieta o encara mortalmente ao ouvir a conversa. Ela se volta para a mala ao seu lado e com muita dificuldade consegue movimenta-la. A empresária estava completamente arrependida por usar saltos naquele momento.

Ao chegar perto de uma escada que descia até onde o barco estava parado, Aurélio entrega as bagagens para Camilo, que as coloca dentro da lancha. Quando o secretário pegou a pequena mala de mão da chefe, jogou-a para o jovem, sendo propositalmente descuidado no arremesso; Camilo não conseguiu pegar a bolsa e ela foi parar dentro da água.

— Minha bolsa! – Julieta se desespera.

— Calma, regra dos cinco segundos... – Aurélio diz e acaba levando outro soco de Julieta. O homem a encara furiosamente e está prestes a repreender a atitude da mulher quando a voz de Camilo os chama a atenção.

— Peguei! Fique tranquila mãe! – O jovem exclama, entrando no barco com a mala na mão.

— Céus... – Julieta suspira.

— Vai secar – Aurélio fala e antes que Julieta posa lhe bater novamente, o loiro começa a descer pela escada.

Julieta olha para o mar e sente seu estômago embrulhar. Seus olhos param no barco e vê seu filho conversando animadamente com Ema, Tenória e Ofélia. Todos estavam prontos, apenas aguardavam ela e Aurélio.

“Droga! “ A empresária xinga mentalmente, ela não sabia nadar e odiava mar.

— Ei! – Ela sussurra para Aurélio, que para de descer a escadinha por um momento – Eu não vou entrar nesse barco.

— Você tem que entrar. – Ele a responde e quando chega no fim da escada, olha para a chefe. Julieta continuava parada.

— Eu não sei nadar.

— Por isso o barco. – O homem exclama lentamente, como se falasse com uma criança especialmente burra, mas ao ver a mulher balançando a cabeça negativamente, suspira. – Vem. – Aurélio levanta a o braço, mostrando que ajudaria a chefe a descer as escadas – Vamos lá.

Julieta respira profundamente, tentando se acalmar. Ela foca em descer as escadas e esquecer todo o mar ao seu redor. A morena arruma a bolsa em seu braço e começa a descer as escadinhas desajeitadamente.

— Está indo bem, chefe. Leve o tempo que for preciso.

— Shiu! – Julieta pede para que Aurélio fique calado. Ela se desequilibra um pouco e o secretário se vê obrigado a ajudar mais.

— Vou te dar uma mãozinha. – Ele responde, colocando a mão na bunda de Julieta, ultrapassando todos os limites.

— Tira mão da minha bunda. Tira a g o r a! – A morena ordena, mal contendo a irritação. Aurélio retira a mão e a deixa terminar de descer as escadas.

— Pronto, você chegou! Parabéns, agora tenho 100 anos. – Aurélio brinca com a mulher, que só não o joga no mar em respeito à família do secretário.

Aurélio e Julieta entram no barco e Tenória da à partida. Julieta senta perto de Camilo, que a envolve em um abraço de lado. A empresária se permite fechar os olhos, aproveitando o cheiro do filho que tanto a acalmava.

Que Deus a proteja nessa nova aventura.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.