A Proposta

2 Capítulo Dois - Y


Este ano, pela primeira vez, estava fazendo o cursinho pré-vestibular de manhã. Sempre fiz a noite, já que estava no ensino médio e depois trabalhava.

Queria me focar totalmente desta vez, pois havia combinado com meus pais de que seria a minha ultima tentativa para a federal e, se não conseguisse, prestaria vestibular para uma instituição particular e trabalharia para ajudar a pagar a mensalidade que, convenhamos, é cara para cacete.

Depois da discussão que tivemos essa manhã, limitei-me a colocar uma calça jeans rasgada, uma regata qualquer e me enfiei dentro de um moletom vermelho e surrado de Harvard. Como consegui? Fiz um intercâmbio de seis meses em New York e Ben, o chefe da família que me recebeu, me deu de presente quando soube que era meu sonho estudar lá. Impossível? Talvez, mas agradeci o incentivo.

Tive que pegar um ônibus, metrô e mais dez minutos de caminhada para chegar ao cursinho. Diferente do período noturno, ninguém ficava do lado de fora batendo papo, feliz da vida. Assim como eu, a maioria dos estudantes chegavam mortos e só começariam a despertar totalmente depois do intervalo.

No entanto, devido a situação na minha casa, cheguei totalmente alerta e preocupada. Não tinha a menor ideia do que fazer para conseguir convencer meu pai de que Bárbara viraria uma dona de casa sustentada pelo marido.

Não tinha absolutamente nada contra donas de casa, só não é o ideal das mulheres modernas, né? O que quero dizer é que eu foco na minha independência, enquanto minha gêmea insiste em depender cada vez mais de um macho.

Nada contra machos, mas viver para eles? Não era para mim.

Joguei-me numa carteira mais no fundo da sala, nunca fazia isso, mas precisava pensar em uma maneira de me livrar do problema que papai me metera mais cedo. Soltei o cabelo só para passar os dedos por minha franja e prendê-lo num rabo de cavalo alto. Que na verdade nem era um rabo, estava mais para um cotoco, já que meu cabelo estava chegando na altura dos ombros. Neste instante Marcelo e Giovana, meus amigos, entraram na sala de aula e, percebendo que eu não estava no lugar usual, correram até onde eu estava e se sentaram ao meu lado.

— O que aconteceu? — Giovana perguntou, desconfiada.

— Bom dia para você também. — resmunguei.

— Saí dessa Bia, não existe “bom dia” entre nós. Todos as manhãs são péssimas, lembra? Você quem diz isso. — Marcelo me lembrou de mau humor.

Percebi que estava agindo diferente, pois já tinha esgotado toda a minha dose de indignação em casa. Detestava a mudança de rotina e, para completar, inventei de me sentar no fundo da sala, mesmo sendo míope.

Suspirei procurando a caixa do meu óculos na bolsa e os coloquei.

— É verdade... Nenhum dia começa bom, mas hoje foi o recorde universal de encheção de saco lá em casa. — reclamei e num movimento quase ensaiado, Marcelo e Giovana se inclinaram em minha direção para ouvir melhor o que eu diria.

— Babi levou o namorado para casa de novo? — Marcelo perguntou — Por que lembro que da ultima vez você ficou uma fera, amiga. Sério, acho que nunca te vi tão brava.

Cruzei os braços sobre a carteira e abaixei a cabeça, sem saber se compartilharia com os meus colegas. Consegui ouvir pessoas arrastando cadeiras ao nosso redor e, pela movimentação, provavelmente o professor estava chegando. Decidi levantar a cabeça e me preparar para estudar.

Tinha todo um ritual para iniciar os meus momentos de estudo: tinha que abrir o livro ou apostila, o caderno de anotações e, em seguida, posicionar minhas canetas preta e rosa, além da minha lapiseira, todas com a ponta virada para cima. Tinha ciência que era um comportamento obsessivo e compulsivo, mas não tinha tempo para curar essas coisas. Depois de organizar minhas coisas, finalmente me espreguicei e decidi falar sobre o ocorrido.

— Não. Dessa vez não foi o namoradinho meloso. — esclareci — Bárbara arrumou um emprego e, não sei como, convenceu meu pai a dar um carro para ela como prêmio. Acreditam? — perguntei retoricamente.

— Amiga, que babado... — Marcelo comentou. E, não sei se faz alguma diferença, mas ele era gay assumidíssimo.

— Não faz sentido Bia, seu pai e a Bárbara se detestam, não se suportam! — Giovana disse sem acreditar e ergui os ombros sem ter o que contestar. Era tão verdade que até minha colega de cursinho sabia.

— Foi o que eu falei e ainda fiz questão de lembrá-lo de que a inútil da minha irmã nunca parou em nenhum trabalho. Ao menos consegui abrir os olhos dele para a bobagem que ele estava prestes a fazer. — contei indignada, gesticulando negativamente com a cabeça.

— Então não entendi... Se você colocou juízo na cabeça dele, por que está assim alterada? — Giovana perguntou e eu revirei os olhos. Só de lembrar me dava vontade de esganar a Bárbara.

— Por que, de alguma maneira sobrenatural, minha irmã conseguiu colocar na cabeça do meu pai que eu era incapaz de encontrar um namorado. E pior, fez um acordo com meu pai: se ela ficar seis meses no trabalho ganhará o carro de qualquer maneira. O problema mesmo foi quando ela, gentilmente, sugeriu que eu deveria namorar por dois meses para ganhar o meu carro. E meu pai aceitou. Simples assim. — contei praticamente engasgando com cada palavra.

Era tão ridículo que parecia coisa de novela.

O silêncio que se seguiu depois disso foi meio constrangedor e tive que encarar cada um dos meus amigos, eles trocavam olhares de hesitação e eu não compreendi muito bem. Ergui a sobrancelha com raiva e os encarei, aguardando algum tipo de manifestação.

— Então, linda, você sabe que nós te adoramos e achamos essa sua fase rebelde ótima. Mas sejamos sinceros, você não conseguiria arrumar um namorado na situação atual. — Marcelo admitiu pisando em ovos, mas concordou que eu era incapaz de arrumar um homem para trocar saliva.

Belo amigo.

— Claro que conseguiria, não tem muito segredo nisso. — respondi, porém, ao encarar suas expressões de pena me senti um pouco insegura. — Tem? — perguntei e os dois ergueram os ombros, apenas reforçando o que meu pai e minha irmã pensavam sobre mim: que eu não tinha nenhum atrativo físico ou afetivo para conseguir um mero namorado.

Mordi o lábio para não gritar de raiva. Estava me sentindo meio Bárbara e isso era desesperador.

— Vamos tentar pensar positivo, okay? Marcelo e eu vamos te ajudar, se quiser. — Giovana garantiu e concordei rapidamente.

— Mas é claro que eu quero. Gente vocês não entendem o quanto essa garota é insuportável e mimada, ela tem tudo o que quer sem fazer nenhum esforço. Não vou facilitar as coisas para ela, não mesmo! — reclamei. — O difícil vai ser encontrar alguém para... Namorar comigo. — sussurrei com certo nojo da palavra.

— Não precisa inventar toda essa história, se quer me pedir em namoro tenha um pouco mais de coragem. — uma voz masculina ,que não era a de Marcelo, falou literalmente na minha orelha.

Dei um pulo de susto e olhei para trás, dando de cara com um desses pseudo-hipsters de barba viking. Enruguei o nariz de nojo e ergui uma sobrancelha.

— Como é? — perguntei olhando o ser humano, se é que podemos chamar assim. Ele coçou a barba teatralmente e estalou a língua.

— Do nada a nerdzinha senta na minha frente e começa a contar uma história totalmente propícia para eu demonstrar algum interesse. Bela tática, pena que é um tanto covarde. — explicou ironicamente e desejei, por meio segundo, ser surda e não ouvir tanta merda num dia só.

Sorri, não tão calorosamente assim, e tentei não mandá-lo a merda.

— Você não teve nenhuma instrução na sua casa? Sabia que ouvir a conversa dos outros é falta de educação? — perguntei e sem esperar por uma resposta me virei para frente, ignorando-o abertamente.

— Mas eu não tive culpa, pois vocês falam tão alto que é capaz até do porteiro ter ouvido. E fica tranquila, se você pedir com jeitinho, eu aceito sua proposta. — o fulaninho disse e revirei os olhos para não me matar. — Sério, se precisar de um namorado com essa urgência, que seja eu o sortudo, afinal você deve estar precisando.

Meu sangue subiu de uma tal forma que estava começando a ver as coisas meio avermelhadas. Virei-me para trás e senti as mãos de Marcelo e Giovana me segurando, mas nem me levantei. Tentei manter a expressão mais vazia o possível.

— Eu odeio quem se intromete na minha vida e, se por um acaso, você teve a infelicidade de ouvir as coisas que eu falei, vou sugerir que as esqueça. E você, realmente, é a ultima pessoa no universo que eu pediria em namoro, mesmo que fosse um fake. Fui clara? — perguntei e ele concordou com um gesto debochado.

— Cristalina. — respondeu.

Revirei os olhos e me virei para frente, decidida a apagar a sequencia de horrores que havia acontecido antes das dez horas da manhã.

— Aí que chato! — reclamei. — Inconveniente.

Meus amigos concordaram com uns resmungos e depois de alguns minutos o professor entrou e eu literalmente me desliguei desse mundo de aberrações e foquei na única coisa que me interessava no momento: entrar na universidade federal de medicina.

Finalmente o intervalo chegou e alonguei o pescoço até sentir os ossos estalarem. Meus colegas e eu fomos até a lanchonete e eu me limitei a comprar um café, já não tinha comido, mas tinha perdido o apetite logo cedo.

Depois de Marcelo e Giovana pegarem seus lanches, fomos para o lado de fora do estabelecimento e nos sentamos numa mureta que tinha em frente as catracas.

Assoprei bem meu café antes de tomar. Depois de um longo período de silêncio enquanto eles comiam, finalmente Marcelo decidiu falar.

— Bia, você ao menos tem algum boy na geladeira? Fica mais fácil... — comentou e Giovana concordou com um aceno. Enruguei a testa.

— Que merda seria "ter um boy na geladeira"? — perguntei e o rapaz magricelo e loiro revirou os olhos.

— Desculpa ser tão sincero, mas sua irmã está certa, você não serve pra coisa. — respondeu e eu não soube o que dizer. Realmente não entendia dessas coisas.

— Você vai jogar na minha cara ou vai me ajudar de alguma maneira? Por que de gente pra me ferrar já basta minha irmã. — retruquei.

— Fica calma, Docinho. Eu prometo que vamos ajudar! — Giovana garantiu. E sim, ela me chamava de Docinho por causa de As Meninas Superpoderosas. — Ter um "boy na geladeira" é uma expressão que a gente usa pra dizer que tem alguém no papo, alguém que se você chamar pra sair aceita na hora. Entendeu? — explicou. Concordei devagar com um gesto.

— Você tem algum? — Marcelo perguntou. Pensei um pouco.

— Bom... Acho que o Vinicius se enquadra. — chutei o único nome que veio em minha cabeça.

— Quem é Vinicius? — Giovana perguntou e Marcelo estalou a língua em deboche.

— Aquele menino chato que vivia atrás dela no início do ano... Um que usava o mesmo boné todos os dias e fedia a C.C. — Marcelo disse e bati a palma da mão na testa.

Era aquele menino! Não podia acreditar que eu mesma o tenha sugerido, eu o detestava.

— Esse não, pelo amor de Deus! — Giovana pediu. — Tem que ter algum outro... Vamos pensar melhor, alguém que não feda, que seja bonitinho e que aceite namorar contigo... — todos nós refletimos um pouco.

— E que seja inteligente, também. — completei.

— Não tem como alguém inteligente aceitar essa loucura, Beatriz. Acorda. — Marcelo fez questão de me lembrar e bufei, até porque nem eu sabia o porque aceitara aquela maldita proposta.

— Então não tem ninguém... Não conheço ninguém que aceite, poderia ser você, Marcelo, mas meu pai sabe que você é gay, então não conta. — refleti.

Quando fui beber meu café de novo ele já estava frio. Suspirei percebendo o quanto tudo estava dando errado naquele dia.

— Então só temos uma opção, Bia. — Giovana disse. Marcelo e eu a encaramos esperançosos. — Vamos a alguma festa e você vai arrumar alguém por lá. — disse e ela e Marcelo deram um highfive barulhento.

É o que?

Arrumar alguém? Numa festa? Só faltava eles comprarem o dote de alguém para mim. Era o fim da picada, realmente.

— Não sei se é uma boa ideia... Não gosto muito de festas. — tentei mudar o rumo da conversa, mas eles pareciam decididos, coisa que nem eu estava.

— Roupa nova, uma boa arrumada nesse cabelo e sobrancelhas, umas quatro doses de tequila e então você vai ter uma lista de pretendentes pra escolher. — Giovana enumerou cada etapa usando um dedo da mão. Fiquei ligeiramente assustada.

Roupa? Cabelo? Tequila?

— Você está maluca? — gritei e meus amigos riram.

— Deixa de ser antissocial! — Marcelo respondeu.

— Não sou antissocial eu só-

— “Tenho mais o que fazer”. — Os dois me interromperam e completaram a frase, exatamente como eu faria. Revirei os olhos e os dois riram.

— Ai, quer saber? — disse me levantando, meus amigos esperaram ansiosos — Vamos fazer isso, eu tenho que provar, não só pra minha família, mas para vocês também que consigo um mero namorado. — concluí e Giovana sorriu.

— É assim que se fala, garota! — comemorou.

Já estava cheia dessa história, mas não poderia ser tão difícil assim, certo? Era só comprar uma roupa que mostrasse metade da minha bunda, arrumar o cabelo como a Taylor Swift e fingir ser superficial.

Tudo bem fácil.

Notas finais
E então, estão gostando da história? O próximo capítulo logo logo sairá, o que vocês acham que acontecerá? Beijinhos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.