A Proposta
1 Reencontro
Notas iniciais
Era tarde. O imponente juiz, John Epley, traçava o costumeiro caminho para fora do tribunal. Virou na terceira rua a esquerda, andando paralelamente ao bosque. Continuou andando, até chegar numa pequena trilha, ladrilhada por pedrinhas, o levando para junto com as árvores. Chegou aos bancos de pedra. Pareciam ser posicionados aleatoriamente, mas estavam estrategicamente colocados abaixo de grandes salgueiros, evitando que se acumulasse neve sobre eles no inverno. Estavam cobertos de musgo, mas não se importou. Sentou-se em um deles e retirou um cachimbo do bolso interno do paletó. Acendeu-o e começou a fumar.
John tinha cerca de 40 anos, porém aparentava 30. Estava em forma e gostava de praticar esportes, principalmenta lacrosse, com alguns colegas de trabalho. Ele era alto, possuía cabelos castanhos sempre bem penteados e seus olhos eram de um tom verde-amarelado. Usava sempre roupas e sapatos das melhores marcas. Afinal, seu emprego permitia esse luxo.
John estremeceu quando um vento gélido passou. As folhas secas que caíram dos caravalhos farfalhavam pelo chão ladrilhado.
Um galho se quebrou exatamente no local oposto em que o juiz estava. Ele retirou seu cachimbo e observou atentamente. Apertou seus olhos míopes contra uma pequena neblina que se formava.
“ Devo estar imaginando coisas”, pensou. Retirou o jornal daquela manhã de dentro de sua maleta. Fechou-a com cuidado, pois tinha um significado especial a seus olhos.
Começou a ler, calmamente, as reportagens, até que uma em particular chamou sua atenção.
“Criança Desaparecida
O filho do casal Hopkins desapareceu nesta terça-feira. De acordo com Sr. Hopkins, ele havia colocado a criança (Víctor, 5) para dormir como de costume, às 21 horas. Na manhã seguinte, a criança havia desaparecido. 'Não há nenhuma pista que possa nos levar ao suspeito' afirma o inspetor Chand Loker. 'o quarto estava intacto, nenhuma pegada, fio de cabelo. Seja quem for que tenha sequestrado a criança, não era um amador.' A polícia recusou-se a dar mais informações.”
John parou de ler subitamente quando ouviu um estalo, no mesmo local que o anterior. Havia um homem com um revólver engatilhado, mirado em sua cabeça.
– Ora, ora, ora. – disse o homem. – Se não é o famoso juiz, John Epley.
O homem aparentava ter cerca de 60 anos. Ele possuía cabelos cinzas e uma barba por fazer. Seu rosto era esquelético, do tipo de pessoa que não era muito bem alimentada. Possuía um queixo fino, ressaltando seu rosto. Seus olhos eram de um tom negro, profundamente intrigantes.
– O que você quer? – perguntou John, assutado.
– Ora, John, nunca pergunte apressadamente a um assassino o que ele quer. Além de transparecer o seu medo, explicar o plano todo vai deixar o tal assassino um tanto... vamos dizer, entediado. E cá entre nós, não queremos ver um assassino entediado.
– É dinheiro? — perguntou John, prontamente. — Me dê um número, eu pago o que for!
O velho deu olhar de desapontamente para o juiz.
– Às vezes sinto vergonha de viver em um mundo tão capitalista como esse. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Não se pensa em nada mais esses dias. — ele balançou a cabeça, em um sinal de reprovação. — Para quê? Comprar bolsas caras e poder dormir em lençóis de seda? Não, não, o que eu quero é muito mais valioso que dinheiro. — o velho abriu um sorriso doentio. — Eu quero meu orgulho.
John não entendeu o desejo do velho. "Por que ele acha que posso ajuda-lo com isso?", pensou.
– Orgulho? – peguntou o juiz com um olhar confuso.
– É, John, orgulho. O orgulho que você retirou de mim. – o velho abriu um sorriso maníaco. – Ora, John, não vá dizer que não está me reconhecendo. Rude da sua parte. — o velho balançou a cabeças, como se estivesse reprovando o comportamente de John novamente. — Mas creio que mudei. Esses anos na cadeia não me fizeram bem, não é mesmo, John?
O juiz arregalou os olhos.
– Não... não pode ser... você... você... — ele balbuciou.
O velho parecia estar se divertindo com a situação.
– Eu o que, John? Continue, por favor.
– Você deveria estar morto!
– E você também. – o velho disse, olhando para o revólver, que continuava apontado firmemente para a cabeça de John. – Desde o momento em que você aqui, tive uma vontade imensa de lhe dar um tiro. Mas tive que me conter. Afinal, você ainda pode ser útil para mim.
John continuava a olhar para o rosto do velho, horrorizado. O modo que ele falava sobre cometer assassinatos tão calmamente lhe dava arrepios na espinha.
– Como você conseguiu?
– Seja mais claro.
– Como você conseguiu retornar dos mortos?
– Ah, isso. Sinto que vou lhe desapontar meu caro amigo, mas não há modo de “retornar dos mortos”. Sua querida Mary vai continuar no mesmo local. — o velho pareceu se divertir no efeito em que a menção de Mary causou em John. – Ainda não consegue se perdoar? Porque, bem, por mais que os outros tentem te consolar e digam que não foi sua culpa, ela realmente foi. — os olhos de John começaram a lacremejar. — Mas não, eu nunca morri. Ás vezes é bem fácil falsificar uma morte. Principalmente quando se tem um colega de cela suicida e ninguém acha necessário procurar dois corpos em meio aos destroços de uma explosão. Enfim, deixe-me explicar para você. Meu colega de cela, Carter, muito simpático a propósito, tinha sérios surtos de bipolaridade. Um dia, conseguiu entrar na enfermaria e pegou alguns frascos de remédios. Ele conseguiu formar uma pequena bomba, porém grande o suficiente para destruir a cela inteira. Eu não estava no banheiro quando ocorreu a explosão, e aproveitei a distração dos guardas para fugir. — ele ab Não foi difícil, só bastou entrar nos vestiários e pegar um uniforme.riu um sorriso, como se estivesse lembrando desse momento. — Depois, foi só sair normalmente pela porta da frente. Ninguém nunca se deu ao trabalho por procurar pelo meu corpo. Afinal, quem se importa com o infame Julius Crop?
John ficou em silencio analisando a situação. A tal explosão, que matou Carter Black e Julius Crop ocorrera dois anos atrás. Por que o velho só viera atrás dele agora?
– Por que está me contando tudo isso? – perguntou John, cautelosamente.
O velho olhou para o juiz com um brilho em seus grandes olhos negros.
– Ainda sonha com Mary a noite, não?
John novamente se sobressaltou com a menção de Mary. Seus olhos começaram a ficar vermelhos e grossas lágrimas caiam pelo seu rosto. O velho nem se mexeu quando John começou a berrar.
– VOCÊ SABE COMO É? VOCÊ POR ACASO SABE QUAL É SENSAÇÃO DE PERDER SUA FILHA DE CINCO ANOS POR UM PSICOPATA LOUCO QUE AINDA FOGE DA PRISÃO PARA TERMINAR O SERVIÇO? SABE? – o velho abriu um sorriso – VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DO QUÃO HORRÍVEL É PERDER A MELHOR COISA DE SUA VIDA! SEU BASTARDO DOENTE! — John parou de gritar para retomar o folego. Agora soluçava descontroladamente. -Você não sabe... não sabe...
O velho observou o juiz com certo interesse e começou a bater palmas lentamente.
– Muito bom John. Muito bom mesmo. – o rosto de John estava encharcado e suas faces vermelhas de tanto gritar. – Somente uma coisa que não entendi: por que acha que matei sua filha?
A voz de John pareceu falhar.
– Porque você é um psicopata louco e doentio! Todas as provas apontavam para você! – John parecia mais tentar se convencer do que convencer o velho.
Julius abriu um sorriso irônico.
– Todas as provas, John? – o juiz pareceu vacilar – Não havia nada a mais? Nenhum documento, ou uma foto talvez, que pudesse nos levar ao verdadeiro assassino? – John não respondeu. – Parece que a sua dignidade valia mais do que a vida de crianças inocentes. — o velho abriu um sorriso cruel. — Todas elas morreram por sua causa John. Inclusive Mary.
As pernas do juiz começaram a fraquejar.
– Não... não... aquele foto não mudaria nada, nada... não havia nada que poderia nos levar ao assassino... você é o assassino...
– Ora, me poupe, John. Tanto eu quanto você sabemos que não sou o verdadeiro vilão. Você só achou que seria mais conveniente para a sua incrível carreira como juiz se conseguisse fechar o caso do sequestro de crianças enviando o infame Julius Crop para a cadeia.
John se sentou no chão e abraçou suas pernas, como uma criança, começando a soluçar descontroladamente. Julius observou o famoso juiz perdendo toda sua dignidade na sua frente. Guardou o revolver dentro de seu casaco gasto.
John levantou a cabeça lentamente, seus olhos banhados de lágrimas.
– Se você não vai me matar – disse o juiz com a voz rouca – por que está me torturando mentalmente desse jeito?
– Ah, isso? Isso foi só uma pequena vingança por ter me mandado para a cadeia. — Julius disse, dando um sorrisinho. — Na verdade, eu preciso de você.
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