A Promessa

23 Capítulo 22 - O resgate: parte 1


A noite não parecia como as outras naquele lugar. Decididamente uma caminhada numa floresta escura nunca havia deixado nenhum dos três tão desconfortável. Nem mesmo a lua parecia se atrever a lançar qualquer luz naquele local. Não havia sequer uma brisa e o único som que se ouvia eram os passos dos jovens.

–Nunca quis tanto minha lanterna como nesse momento. –Resmungou Edmundo.

–O plano foi seu. –Lembrou Peter.

O moreno bufou contrariado e seguiu em silêncio. Sabia que era verdade, mas se as coisas piorassem, logo não poderia ver um palmo a frente do nariz. Infelizmente, acender uma tocha não era uma alternativa quando se quer ocultar nas sombras. Só esperava que ele fosse o único a ter pensado nisso.

Todo o consolo parecia residir no fato daquelas árvores não serem como as da Floresta Assassina. Apesar de tudo, aquela parecia ser uma floresta normal, não fosse a proximidade que tinha com a fortaleza de Duman.

De vez em quando Lúcia espiava por cima de um dos ombros, com medo de que pudesse estar sendo observada. Era inquietante saber que estava tão próxima de seu objetivo final e ao mesmo tempo não tinha certeza de nada. Evitava pensar em tudo o que poderia acontecer naquela noite, afinal eram apenas eles três contra Duman e todos os seus Seguidores.

Quando começaram a sentir uma leve inclinação no terreno, perceberam que logo estariam visíveis e foram mais devagar. Pararam antes das últimas árvores e se puseram a observar.

De perto, a fortaleza parecia se estender até quase tocar as nuvens negras de tempestade que a cobriam. Procuraram por qualquer Seguidor de Duman, mas não avistaram nenhum, o que era estranho. Na mente de todos, esperavam encontrar aquilo fortemente guardado.

O som de algo se agitando em uma árvore assustou a todos. Ouviu-se um leve farfalhar e antes que os três pudessem reagir, um pequeno pássaro se empoleirou em um galho e pareceu examiná-los. Sua penugem era de um lustroso tom negro e lembrava muito um corvo, não fosse seus olhos vermelhos e penetrantes.

Por um momento, o animal pareceu que os tinha ignorado enquanto se contorcia para limpar suas penas. Foi então que elas se eriçaram como os pelos de um gato, ele esticou o pescoço e começou a grasnar estridentemente. Era tão alto quanto uma sirene e os três tiveram certeza que tinham sido denunciados.

Assim que se viraram para correr, bolas gigantes de pelo começaram a despencar das árvores. Os garotos puxaram suas espadas e praguejaram baixo, enquanto Lúcia sentia sua espinha gelar ao estar pessoalmente diante dos Seguidores de Duman.

Em segundos, o primeiro se chocou contra Edmundo. O garoto foi lançado ao chão, mas não sem antes cravar a espada na criatura. Ele a lançou para o lado usando o escudo, já inerte, e se pôs de pé bem a tempo de acertar o segundo e ganhar um corte em sua camisa já puída, sentindo o líquido morno escorrer.

Peter também começou a desferir golpes em todos que tentavam se aproximar, obtendo também alguns cortes superficiais, enquanto mantinha Lúcia às suas costas. Mas as criaturas continuavam a aparecer em número cada vez maior.

Enquanto desviava de um daqueles seres o moreno arremessou o escudo para o loiro, que o agarrou por reflexo. No milésimo de segundo que levou para encarar Edmundo, este apenas gritou:

–Vão!

Peter sabia o que aquela simples palavra queria realmente dizer: salvem os outros. E antes que ele mesmo pudesse pensar duas vezes em quem teria que deixar para trás, virou-se na direção da fortaleza e puxou Lúcia consigo. Só teve tempo de acertar um último Seguidor antes de ser engolido pela fortaleza junto com a garota que gritava o nome do irmão.

Ela resistiu durante os primeiros minutos enquanto o garoto a arrastava. Seu rosto estava completamente molhado pelas lágrimas. Aquela era a segunda vez que Edmundo fazia isso, só que dessa vez ela sabia que o havia perdido. Nem com toda a fé que tinha no irmão poderia esperar que ele vencesse tantos de uma vez, e sozinho. Só torcia fervorosamente para que ele fosse capturado vivo.

Tentou ocupar a mente com o objetivo que havia os levado tão longe: resgatar seus outros irmãos. Com esse pensamento passou a mão livre no rosto para enxuga-lo um pouco e olhou em volta pela primeira vez.

Viu corredores passarem a sua volta como borrões, enquanto desciam cada vez mais por escadas de pedra. Compreendeu o raciocínio de Peter: se estivessem presos, deveriam estar em uma espécie de cela ou calabouço subterrâneo.

Foram descendo naquela escada em espiral, até darem de cara com um corredor cheio de portas de madeira, com pequenas viseiras com grades. Abriram todas elas, mas não encontraram ninguém. Estavam vazias.

–Essa não. –Resmungou Peter.

–E agora? –Indagou a garota.

–As torres! –Lembrou rapidamente.

Os dois disparam, agora subindo, e seus membros nunca pesaram tanto. Já estavam tão cansados, mas não podiam parar. Peter tropeçou algumas vezes, a medida que ia ficando tonto devido às voltas que a escada dava e Lúcia foi quem o arrastou dessa vez.

De volta ao térreo, tiveram que desviar dos Seguidores que estavam por lá e pegaram a primeira escada que viram. Tudo parecia tão idêntico. As mesmas paredes e escadas de pedra, com tochas ocasionalmente iluminando o caminho.

O som de trovões começou a soar cada vez mais alto e quando eles finalmente alcançaram o topo, ventava muito, mas não parecia que iria chover. Os relâmpagos eram a única coisa que proporcionava alguma claridade.

Notaram que todas as torres pareciam interligadas ali em cima e que não teria como alguém estar preso em qualquer uma delas, já que não havia portas. O desespero começava a se abater sobre ambos quando uma voz se fez ouvir:

–Ora vejam. Estão bem longe de casa, não crianças? –Debochou Duman.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.