A Profecia dos Amantes
2 O Vínculo
O chamado chegou a Mestre Tarla Kesyk quando a luz de Coruscant ainda era uma coisa indistinta além das janelas altas do Templo Jedi, dissolvida em névoa, tráfego distante e no brilho interminável de uma cidade que nunca conhecia noite verdadeira.
Ele estava no arquivo oeste, diante de uma fileira de mapas estelares antigos, comparando rotas mortas da Orla Média com registros migratórios de espécies sensíveis à Força, quando o pequeno sinal luminoso do comunicador sobre a mesa vibrou uma única vez. Não havia urgência no toque. Não havia explicação. Apenas o selo do Alto Conselho.
Tarla permaneceu imóvel por alguns segundos.
Chamados do Conselho não o inquietavam havia muito tempo. A inquietação era coisa de jovens, de Cavaleiros recém-elevados, de Padawans que ainda confundiam o peso de um olhar com julgamento e a demora de uma resposta com reprovação. Ele tinha cento e cinquenta anos padrão, e a maior parte dos seres humanos que cruzavam seu caminho o tomaria por um homem de quarenta, talvez quarenta e cinco, se fossem generosos com a prata discreta que corria por alguns fios de seu cabelo longo e apareciam na barba. Para sua espécie, aquilo não era estranho. Para os keshtaret, o tempo se movia como se a vida obedecesse a invernos mais longos, como se o corpo lembrasse os ciclos de Keshtara: as três luas lentas, os montes gelados sob céus violetas, os lagos escuros e imóveis como vidro negro, e as Luzes Dançantes cruzando a imensidão escura em ondas de rosa, dourado e verde.
Ele quase não se lembrava do frio.
Essa era uma das crueldades pequenas que a memória lhe concedia. Lembrava-se da cor das Luzes sobre a neve. Lembrava-se do contorno do rosto de Maree, sua mãe, embora as cartas semanais que ela ainda escrevia tivessem envelhecido mais do que a lembrança. Lembrava-se da voz do pai, Vinis, grave e paciente, dizendo que os lagos tinham congelado cedo naquele ano e que agora os luviivi ficariam mais territoriais. Lembrava-se das histórias sobre Elyria, a irmã que nascera muito depois de sua partida e que agora já era crescida embora ele jamais tivesse tocado sua mão. Mas o frio, o verdadeiro frio de Keshtara, aquele que mordia os pulmões e tornava cada respiração uma promessa… Esse havia se tornado menos que uma lembrança. Apenas uma ideia, talvez.
Fora levado ao Templo havia cento e vinte anos. Tinha trinta anos padrão, mas era uma criança aos olhos dos seus, pequeno de corpo, lento em certas compreensões, ainda preso à idade física e mental que os humanos associariam a oito anos. O Conselho da época o recebera como recebia todos os younglings raros: com reverência, cautela e a certeza tranquila de que a Ordem saberia moldar aquilo que a Força entregava.
Tarla acreditara nisso por muito tempo.
Ainda acreditava, na maioria dos dias.
Mas as memórias, ainda lúcidas, às vezes contradiziam certezas.
Ao atravessar os corredores altos do Templo, seu manto claro roçou o piso polido sem pressa. Ele era alto mesmo entre espécies de constituição alongada, um metro e noventa e quatro de serenidade aparente, ombros amplos sob túnicas de tecido cru e mantos de lã leve, o cabelo castanho com alguns fios prateados solto até abaixo dos ombros. Seus olhos verdes, levemente caídos nos cantos, davam ao rosto uma expressão de mansidão permanente, quase melancólica, que muitos confundiam com indulgência. Mas não ão era indulgência. Nem perto disso. Era apenas o modo como seu rosto havia sido feito. Tarla podia ser firme como pedra de montanha, e poucos lembravam que o diplomata que ele se tornara fora aprendiz de um dos melhores Mestres com técnicas militares.
E Tarla aprendia bem demais.
Quando as portas da sala do Alto Conselho se abriram diante dele, a luz da manhã entrou por trás das torres de Coruscant como uma lâmina dourada, atravessando o círculo de assentos elevados na torre. Mestre Yoda estava em seu lugar, pequeno e antigo como uma raiz exposta do próprio Templo. Mestre Yaddle, serena e silenciosa, observava a sala com olhos que pareciam guardar mais perguntas do que respostas. Mestre Oppo Rancisis repousava enrolado em sua cadeira, as mãos dobradas diante de si, e por um instante Tarla sentiu (como sempre sentia diante dele) a sombra distante de sua juventude. Mestre Tyvokka, imenso, coberto pela presença grave dos wookiees e por uma autoridade que não precisava de palavras, ocupava outro assento. Mestre Dookan, para surpresa de Tarla, estava de pé junto a uma das janelas, o perfil nobre recortado contra a cidade, as mãos unidas às costas, a postura impecável demais para parecer repouso. Havia outros Mestres presentes, não apenas o Conselho, mas a atenção de Tarla se prendeu primeiro aos rostos que conhecia melhor, depois ao espaço vazio no centro da câmara.
Não.
Não vazio.
Havia alguém ali.
Uma jovem.
Ela era pequena a ponto de parecer quase engolida pela vastidão circular da sala. Teria pouco mais de um metro e meio, talvez um metro e cinquenta e três, pensou Tarla com precisão involuntária, e a diferença entre eles era tão grande que parecia ter sido desenhada para constranger qualquer tentativa de equilíbrio visual. Tinha os cabelos longos, negros, ondulados e selvagens, caindo ao redor do rosto e dos ombros como se pente algum tivesse conseguido domá-los. Os olhos eram grandes, desproporcionalmente expressivos, de um tom avelã profundo, e havia neles algo que fez Tarla pensar nos Fathiers que vira uma vez em registros de corrida: criaturas belas, velozes, assustadas e prontas para fugir antes mesmo de entenderem a intenção da mão que se aproximava. A pele dela era pálida, embora não como a palidez delicada de quem fora poupada do sol, mas como a palidez dura de quem vivera sob céus hostis, poeira fria e dias sem ternura. Ainda usava roupas que claramente eram de Catadora: camadas escuras, gastas, ajustadas por cintos práticos demais para qualquer estética do Templo, tecido marcado por uso, uma única luva gasta, fivelas, botas pesadas, uma capa que parecia ter conhecido lama, cinza, metal oxidado e noites ao relento. Por baixo, porém, o corpo era cheio e curvilíneo, algo completamente inesperado ao levar em consideração o restante do estado dela – não parecia alguém que vinha de um planeta hostil, onde os nativos tinham à mostra mais ossos do que carne. Havia nela uma beleza selvagem, quase desconfortável de se perceber naquele salão feito de disciplina, linhas limpas e silêncio, com a bochecha marcada por uma linha borrada de poeira escura que talvez tivesse não apenas sobrevivido à tentativa de ser limpa com as costas da mão, mas alargada e aumentada.
E havia a Força.
Tarla parou antes que qualquer Mestre falasse.
Qualquer outro teria franzido o cenho. Talvez parecido suspreso. Mas, em Tarla, as expressões precisavam de muita emoção por trás para mostrar no rosto.
A assinatura dela não se apresentava como as assinaturas costumavam se apresentar. Em younglings, a Força vinha como uma chama instável; em Padawans, como água aprendendo a encontrar leito; em Cavaleiros, como uma nota sustentada por vontade e treino; em Mestres, como uma paisagem completa. Naquela jovem, porém, a Força parecia chegar através de uma tempestade violenta. Havia uma estática ao redor dela, uma interferência áspera, quase atmosférica, como se o próprio ar do planeta de origem tivesse entrado em sua carne e se recusasse a soltá-la. Não era escuridão. Definitivamente não era corrupção. Era ruído. Uma brutalidade ambiental ainda colada ao campo vivo dela, mascarando a assinatura como neblina carregada de eletricidade, estalando.
Mas por baixo...
Por baixo, algo brilhava.
Não como uma vela. Não como lâmina. Como uma estrela vista através de nuvens pesadas, distante, imensa, impossível de apagar.
Soterrada.
- Mestre Kesyk. — Disse Yoda, inclinando a cabeça. — Chamado, você foi. Por vir, agradecemos.
Tarla curvou-se primeiro ao Conselho, e depois, com a mesma medida de respeito, à jovem no centro da sala.
Ela percebeu que o gesto era para ela, e o corpo reagiu antes do rosto. Os ombros enrijeceram, os dedos se fecharam em torno da beira da própria capa como quem leva a mão a um bolso com algo escondido, o peso mudou quase imperceptivelmente para a perna de trás. O olhar dela passou por ele, depois pela porta, depois pela distância até a janela, depois pelas mãos dele. Ela estava calculando rotas de fuga. Ângulos. Altura. Alcance. Pontos vulneráveis. A Força ao redor dela estalou como gelo fino sobre lago escuro.
Tarla não avançou, desviando o olhar para o Conselho.
- Mestres. — Disse ele, a voz baixa, macia, carregada por um sotaque antigo que sobrevivera aos anos no Templo como sobrevivem certas canções de infância. — Recebi o chamado.
Mestre Dookan voltou o rosto para ele. Havia avaliação em seus olhos. Não era frieza, não exatamente, mas a precisão austera de alguém que preferia verdades desconfortáveis a consolos inúteis.
- Mestre Kesyk, esta é Rum'ea Olphen. – Ele indicou a jovem com a mão. – Chegou há três dias ao Templo, trazida por uma equipe de reconhecimento da Orla Exterior. Vem de Kyrmora.
Tarla buscou o nome na memória e encontrou apenas silêncio.
Kyrmora.
Nenhuma rota lhe veio à mente. Nenhum tratado. Nenhuma batalha. Nenhum registro diplomático lembrado das aulas antigas. Nenhuma missão. Era raro que um planeta habitado escapasse inteiramente ao tecido de mapas que um Jedi de sua idade carregava dentro de si, especialmente de um acadêmico. Raro, mas não impossível. A galáxia era grande o bastante para humilhar qualquer arquivo.
- Não conheço esse planeta. — Admitiu Tarla, após alguns segundos tentando puxar qualquer menção ao nome na memória vasta.
A jovem não disse nada, mas o queixo dela se ergueu apenas uma fração, como se estivesse acostumada a ouvir aquela ignorância como insulto.
- Poucos conhecem. — Disse Yaddle, suavemente. — Sua atmosfera interfere com varreduras, comunicações e navegação de aproximação. Tempestades eletromagnéticas constantes. Naves caem com certa frequência, tendo todos os sistemas desligados sem aviso prévio. Ninguém consegue prever quando a atmosfera ficará violenta, nem mesmo os nativos. Solo instável. Ecossistemas agressivos. Colônias quebradas. Gerações isoladas.
- A assinatura dela na Força permaneceu escondida por isso. — Completou Oppo, e a voz de seu antigo Mestre fez Tarla voltar os olhos a ele. — A atmosfera brutal e estática de Kyrmora a mascarou por vinte anos. Sentíamos ecos, às vezes, mas nada que pudesse ser localizado com segurança. Nada que sobrevivesse ao ruído.
Rum'ea virou o rosto apenas o suficiente para olhar Oppo de lado.
- Vocês falam como se eu fosse uma transmissão defeituosa. — Disse ela.
Foi a primeira vez que Tarla ouviu sua voz. Era mais baixa do que ele esperava, rouca nas bordas, como se tivesse sido usada pouco para pedir e muito para resistir. Não havia reverência nela. Não havia medo institucional. Também não havia insolência simples. Havia uma faca escondida sob cada palavra, uma espécie de prontidão amarga e uma resignação dura.
Tyvokka emitiu um som grave, não exatamente uma risada, mas algo que suavizou por um instante a tensão da sala. Dookan, porém, não se moveu.
- Falamos de fenômenos, não de valor pessoal. — Respondeu ele.
A mão de Rum'ea se fechou com mais força.
Tarla sentiu o movimento antes de vê-lo. Não pela visão. Pela Força. A estática ao redor dela saltou, abriu pontas, estalou, expandiu, e por baixo daquilo veio uma coisa clara, rápida, dolorosa: não ataque, não raiva, mas medo. Medo real. Medo de homem. Não de Dookan especificamente (“não aindax”, pensou Tarla com certa graça que não tinha realmente graça), não de Tyvokka por ser grande e talvez sequer pertencente à categoria "homem", mas de uma ameaça geral que a mente dela aprendera a reconhecer antes da razão. A suavidade não a acalmava. A suavidade, na verdade, a fazia travar. Uma voz masculina baixa, educada, gentil, podia ser pior do que um grito, porque o corpo dela parecia ter aprendido que muitas armadilhas começavam com brandura antes de se fecharem.
Tarla respirou devagar.
E então aconteceu.
Não houve som. Não houve luz. Nenhuma das cadeiras se moveu, nenhum dos Mestres ergueu a cabeça, nenhum sensor oculto do Templo registrou coisa alguma. Ainda assim, entre um batimento e outro, a Força abriu algo em silêncio.
Não foi como tocar uma mente durante uma técnica ensinada em meditação. Tampouco foi como enviar uma impressão a um aliado em combate. Foi mais antigo, mais íntimo e mais estranho. Uma porta que não deveria existir se abriu sem dobradiças. Tarla sentiu a presença de Rum'ea não diante dele, mas ao lado de seu próprio pensamento, abrupta, desconfiada, luminosa sob ruído e cheia de lâminas erguidas.
Ela arregalou os olhos.
Quem está aí?
O pensamento dela não veio em palavras perfeitamente formadas, mas Tarla o compreendeu como se tivesse sido falado dentro de uma sala pequena. Havia pânico, e fúria imediata por ter demonstrado pânico. Vários pensamentos corriam. Lembranças passavam rápido.
Tarla manteve o rosto imóvel.
Tarla Kesyk, respondeu, também sem mover os lábios. Não estou invadindo você.
O olhar dela se fixou nele com força. As pupilas pareciam maiores, como um animal selvagem percebendo que estava encurralado.
Mentira.
Eu também acharia que é.
Saia.
Da sala?
De onde quer que você esteja que me faça ouvir você dentro da minha cabeça.
Não sei como.
Então aprenda. Rápido.
O quase humor da resposta, mesmo envolto em ameaça, teria feito outro homem sorrir. Tarla não sorriu. Ele sabia que Rum’ea teria interpretado sorriso como triunfo, condescendência ou isca. Em vez disso, desviou levemente o olhar, não em submissão teatral, mas para diminuir a pressão direta entre eles. Olhou então para os Mestres.
Yoda observava os dois.
Não. Observava a sala. Observava a respiração de cada um, talvez a maré da Força. Mas não o vínculo. Tarla sentiu isso com uma certeza impossível e um estranhamento surpreso. O caminho entre ele e Rum'ea estava oculto, não por habilidade dela, nem por disciplina dele, mas por algo maior, por uma camada de silêncio que a própria Força parecia colocar ao redor dos dois. Como neve fresca cobrindo pegadas antes que alguém pudesse lê-las.
Eles sabem? Rum'ea perguntou, percebendo o estranhamento dele.
Não.
Como você sabe?
Porque Mestre Yoda teria olhado diferente.
Houve uma pausa mental, cheia de estática, enquanto os pensamentos tentavam lembrar dos nomes que lhe foram ditos quando ela entrou na sala.
O pequeno verde?
Tarla quase perdeu a serenidade.
Sim. O pequeno verde.
O pequeno verde macho ou o pequeno verde fêmea?
Macho.
Ah.
- Mestre Kesyk. — Disse Oppo, quebrando o silêncio, e Tarla ergueu os olhos. — O Conselho debateu longamente a situação de Rum'ea Olphen. Sua idade tornaria a aceitação formal no treinamento Jedi incomum em qualquer circunstância. As condições de sua vida antes da chegada tornam a situação ainda mais delicada. Ela não pode ser tratada como alguém que cresceu no Templo desde youngling. Não pode ser simplesmente inserida entre iniciados. Tampouco seria prudente deixá-la sem orientação.
- Faz sentido. — Disse Tarla.
Rum'ea não olhou para ele ao ouvir sua voz em alto e bom som novamente, mas a reação dela veio pelo vínculo como uma mão procurando uma parede no escuro. Estranhamente, o toque era gentil.
Sua voz é realmente um pouco diferente fora da cabeça.
Isso é ruim?
Não sei. Ainda não decidi.
Yaddle inclinou-se um pouco para frente.
- A Força nela é forte. Crua, ferida pelo ambiente, mas forte. Há instinto. Há resistência. Há uma sensibilidade incomum para perigo, intenção e sobrevivência. Mas há medo também. Medo profundo.
Rum'ea olhou para Yaddle com uma espécie de traição contida.
- Eu estou na mesma sala que vocês. — Disse ela. — Podem falar comigo, não sobre mim.
O silêncio que se seguiu não foi de reprovação. Foi algo mais difícil: reconhecimento.
Yoda assentiu devagar.
- Correta, você está.
Dookan observou a jovem por um instante, e sua expressão mudou quase nada.
- Então falaremos com você diretamente. O Conselho considera que você deve ser treinada. Não como uma criança do Templo, porque já não é uma. Não como uma prisioneira, porque não o é. Não como uma ameaça, embora sua falta de treinamento possa tornar-se perigosa para você e para outros. A proposta diante de nós é estabelecer um vínculo formal de Mestre e Padawan.
Rum'ea ficou imóvel demais.
O pânico não apareceu no rosto dela de maneira óbvia. Não havia lágrimas, nem súplica, nem recuo dramático. Mas Tarla sentiu quando o corpo dela se transformou em cela. O ar desapareceu primeiro. Depois, veio a matemática desesperada: quantos homens havia na sala, quem estava mais perto da porta, quantos passos até a saída, se conseguiria quebrar o nariz de alguém baixo com o joelho, morder uma mão, arranhar olhos, chutar uma articulação. Imagens soltas, não desejos. Planos de sobrevivência. De fuga. A palavra "Mestre" não era neutra para ela. A palavra "pertencer" era pior.
E então veio, pelo vínculo, afiada e pequena:
Não.
Tarla não respondeu de imediato, deixando os pensamentos dela passarem como água sobre pedra lisa.
Não, não, não, não.
Do lado de fora, ela apenas respirava, rígida. A boca havia se tornado uma linha fina em seu rosto.
Oppo olhou para Tarla com uma gravidade que nele pesava mais do que qualquer ordem.
- Mestre Kesyk, desejamos que aceite Rum'ea Olphen como sua Padawan.
A sala pareceu distanciar-se de Tarla.
Setenta anos.
O número não passou por ele como cálculo; passou como rosto. Um menino de quatorze anos, mãos pequenas tentando parecer firmes ao ajustar o sabre no cinto, trança de Padawan presa com cuidado excessivo, sorriso contido de quem queria que o Mestre visse coragem e não expectativa, a faixa na cintura que ele sempre precisava ajustar porque o menino a colocava torta instintivamente. Kairn. A missão. A chuva ácida naquele mundo sem importância. O erro de leitura. Coragem demais. Compaixão demais. Vontade de salvar demais. Três segundos de atraso. O corpo leve demais em seus braços. Catorze anos. Um Padawan que confiara nele para voltar, mesmo tendo desobedecido uma ordem direta do Mestre. Oito vidas salvas em troca da dele.
Tarla não aceitara outro Padawan desde então.
Primeiro, se isolou em Ossus. Pediu realocação temporária, trabalhando com gente de menos e silêncio demais, e o “temporário” durou 15 anos. Depois, voltara.
O Conselho soubera não pedir. Oppo soubera não pedir. Yoda, que raramente aceitava a palavra "nunca" sem examiná-la por todos os lados, deixara o silêncio permanecer. Cavaleiros vieram e foram. Alguns viraram Mestres. Outros viraram lembrança. Iniciados cresceram. Guerras pequenas nasceram, consumiram sistemas e foram registradas em arquivos pequenos demais para a dor dos nomes perdidos que continham. E Tarla ensinara em salas, aconselhara missões, negociara rendições, curara medos, enterrara amigos, mas nunca mais caminhara com uma trança de Padawan ao seu lado.
Rum'ea o fitou, o olhar um pouco mais curioso agora.
Talvez tivesse sentido algo. Não a lembrança inteira, pois Tarla não a entregou (ou pelo menos não achou que entregou). Mas o peso dela, sim.
Você também tem medo, ela disse.
Tenho.
A resposta pareceu surpreendê-la mais do que qualquer explicação teria feito. Aparentemente, honestidade em um Jedi era uma surpresa.
Não.
Não em um Jedi.
Em um homem.
… Medo de mim?
Por você.
Isso é uma frase bonita para dizer que não confia em mim.
Não. É uma frase simples para dizer que eu ainda lembro o que é perder alguém que estava sob meus cuidados.
A estática dela recuou um quase nada, não por confiança, mas por desorientação. Era como se a própria estática não soubesse o que fazer.
Tyvokka falou pela primeira vez em uma sequência grave de shyriiwook, profunda o suficiente para vibrar no peito de Tarla, e a cadência da língua pareceu preencher a sala com casca de árvore, vento e distância.
- Mestre Tyvokka lembra — Traduziu Yaddle em voz baixa, embora muitos ali não precisassem, mas porque Rum’ea, que fizera uma careta ofendida aos sons, claramente não entendera nada. — que pares de Mestre e Padawan entre sexos opostos não são impossíveis, mas exigem discernimento, sobretudo em casos de idade incomum, trauma e adaptação tardia.
Rum'ea ouviu aquilo e o pânico se tornou mais gelado.
O rosto dela não mudou, mas a mente gritou:
Não. Não com um homem. Não vou dormir onde ele possa entrar. Não vou ficar de costas. Não vou deixar ele tocar em mim. Eu arranco sangue se ele tentar.
Tarla baixou as mãos lentamente, mantendo-as visíveis, dedos relaxados, palmas sem ameaça. Não olhou para o Conselho ao responder; olhou para ela, mas não direto demais.
- Mestres. Antes que eu responda, acredito que há algo que Rum'ea Olphen deve ouvir.
Dookan ergueu ligeiramente uma sobrancelha.
- Prossiga.
Tarla respirou uma vez. A lembrança de Keshtara veio de súbito, inesperada e clara: o lago sob três luas, sua mãe falando das Tainsilvërä, das histórias dos keshtaret que entregavam o coração uma única vez na vida à sua Ailunë — não por voto moral ou proibição, mas porque a própria espécie deles reconhecia o amor romântico e o desejo como um alinhamento raro, absoluto, nascido apenas sob o céu natal, quando as luzes rosa, douradas e verdes cruzavam o gelo e a alma escolhia sem retorno. Para os de fora, talvez tudo isso parecesse superstição. Para Tarla, era apenas verdade herdada.
- Entre meu povo — Disse ele, devagar. — vínculos românticos não se formam como se formam em muitas espécies da República. Os keshtaret amam dessa maneira uma única vez. Desejam apenas uma única vez. E apenas sob as Luzes Dançantes de Keshtara. Não voltei ao meu planeta desde que fui trazido ao Templo, há cento e vinte anos.
Rum'ea estreitou os olhos, desconfiada, porque parecia bom demais para ser verdade.
O Conselho permaneceu em silêncio.
- Isso não significa que sejamos incapazes de ternura. — Continuou Tarla. — Ou cuidado. Ou afeto. Ou lealdade. Significa apenas que não há, em mim, a possibilidade que talvez a preocupe. Não por disciplina. Não por virtude. Por natureza. Em palavras mais diretas: não sinto qualquer desejo, qualquer fome, qualquer intenção romântica que não seja com alguém que ainda não encontrei, que talvez nunca encontre e que, ainda assim, só poderia ser revelada sob uma condição específica no céu de um planeta específico na Orla Média.
Você está dizendo isso para eles ou para mim? ela perguntou.
Para você. Eles já sabem.
Então porque dizer em voz alta?
Para que não pareça segredo.
Ela não respondeu, mas a mente dela parou de correr por meio segundo.
Yoda apoiou as mãos no cajado.
- Verdadeiro, o que diz Mestre Kesyk é. Conhecida do Conselho, a natureza dos keshtaret é.
Dookan, sempre preciso, acrescentou:
- Ainda assim, Mestre Kesyk, a ausência de risco romântico não elimina as demais dificuldades. Ela desativou três droides e conseguiu esconder partes que removeu deles no manto, arranhou o rosto de um curador, e estava na metade de um procedimento moralmente duvidoso e surpreendentemente eficaz para abrir uma porta restrita com nada além de uma adaga. Rum’ea claramente não confia na Ordem. Não confia em hierarquias. E sua relação com autoridade é, pelo que observamos, combativa.
- Autoridade me encontrou tarde demais para fingir que é sagrada. — Disse Rum'ea.
Yaddle não desviou o olhar dela.
- Talvez isso a proteja de algumas ilusões.
A frase pousou na sala com uma delicadeza inesperada. Mesmo Dookan pareceu considerá-la sem refutar, e isso era significativo.
Tarla deu um passo — apenas um, lento — e parou antes que a distância se tornasse ameaça. Rum'ea percebeu a medida. Ele soube que ela percebeu porque o olhar dela caiu brevemente para os pés dele, depois para o espaço que ainda havia entre ambos, e os pensamentos dela encheram de cálculos rápidos, variáveis, leitura assustada mas eficiente de intenção.
- Rum'ea Olphen. — Disse ele em voz alta. — Se o Conselho me pede que a aceite, eu aceitarei apenas se você compreender uma coisa. Ser minha Padawan não significará que me pertence. Não significará que deve abandonar sua vontade em minha mão. Não significará que sua obediência vale mais do que sua consciência. Haverá disciplina, claro. Haverá regras. Haverá treinamento, estudo, silêncio quando o silêncio for necessário e resposta quando a resposta for exigida. Mas eu não serei seu dono.
A palavra “dono” fez algo tremer dentro dela.
Não para fora. Para dentro.
A Força sob a estática brilhou, e por um breve instante Tarla conseguiu ver melhor a estrela sem tanta interferência. Era feroz. Bela. Faminta de céu.
Todos dizem isso antes, ela murmurou no vínculo. Ninguém usa essa palavra, mas todos querem ser.
Eu não quero.
Porque é Jedi?
Porque já enterrei uma criança que confiou em mim. Porque tive um Mestre que me ensinou que guiar não é possuir. Porque minha mãe ainda me escreve toda semana embora eu não veja o rosto dela há cento e vinte anos. Porque meu pai me conta sobre lagos que talvez eu nunca mais toque e já não lembro mais da sensação. Porque minha irmã me chama de irmão em cartas, mesmo sem nunca ter ouvido minha voz fora de uma gravação. Nada que importa de verdade para mim nasceu de posse.
Rum'ea ficou em silêncio.
Pela primeira vez desde que ele entrara, ela pareceu não encontrar resposta pronta.
Oppo observava Tarla com uma expressão que teria parecido neutra a qualquer outro. Tarla, porém, conhecia seu antigo Mestre. Havia uma tristeza branda ali, e orgulho também, por Tarla finalmente ter dito “sim” a outro aprendiz.
- Rum'ea, — Disse Oppo — o Conselho não ignora sua resistência. Nem sua idade. Nem a violência do mundo de onde veio. Se houver treinamento, ele exigirá consentimento e adaptação. Mas a Força a trouxe ao Templo, e sua presença nela não é pequena. Sem instrução, o que a protegeu em Kyrmora pode feri-la em outros mundos. Ferir outras pessoas.
- E se eu disser não? — Perguntou ela, com um sorriso pequeno no rosto que não significava alegria alguma.
Yoda respondeu antes dos outros.
- Forçada, não será.
Rum'ea o encarou, procurando mentira.
- Então o quê? Vocês simplesmente me deixariam ir?
A pergunta era simples demais para ser simples. Havia nela ruas sem nome, noites escondidas, fome, perseguição, talvez anos aprendendo que portas abertas eram apenas outra forma de armadilha. O Conselho inteiro sentiu a densidade daquilo, porque todos os Mestres ali eram, por falta de uma palavra melhor, realmente poderosos e competentes, embora não conseguissem perceber vínculo.
- Ir, sim. — Disse Yoda. — Mas sem ajuda, não desejaríamos que fosse. Caminhos, ofereceríamos. Escolha, sua seria.
Rum'ea respirou pelo nariz. A mão direita dela relaxou, depois se fechou de novo, como se relaxar fosse descuido.
Eles mentem? ela perguntou a Tarla.
Ele poderia ter dito que não. Poderia ter escolhido a resposta devota, institucional, esperada. Mas o vínculo entre eles era novo demais e antigo demais para sobreviver a uma mentira inaugural. Parecia errado.
Além disso, Tarla era conhecido exatamente por não mentir se a situação não exigisse isso dele.
Eles acreditam no que dizem.
Não foi isso que eu perguntei.
Eu sei.
Os olhos dela se fixaram nele.
E você?
Eu o quê?
Você mente?
Às vezes.
A surpresa dela veio como um clarão.
Agora?
Não.
O canto da boca de Rum'ea quase se moveu. Quase. Não chegou a ser sorriso. Talvez apenas o corpo dela lembrando, de modo remoto e distante, que expressões mais suaves ainda existiam.
Dookan deu um passo para longe da janela.
- Mestre Kesyk, sua resposta? Não porque o Conselho pediu, mas pelo seu discernimento.
Tarla olhou para Oppo sem pensar.
Por um instante, o Alto Conselho desapareceu, e ele voltou a ser apenas um Padawan diante do Mestre serpentino que o havia ensinado a pensar antes de erguer o sabre, a escutar antes de interpretar, a desconfiar do medo quando ele se vestia de prudência – e que, ao mesmo tempo, o havia lapidado para ser um guerreiro impecável quando necessário. Oppo não disse nada. Não precisava. O passado entre eles era longo o bastante para conter a pergunta claramente, mesmo coberta de silêncio.
Tarla voltou-se para Rum'ea.
A jovem de Kyrmora parecia pequena no centro do Conselho, mas não frágil. Nada nela era frágil. Ela era sobrevivente de um mundo que escondera sua estrela sob estática, e talvez fosse por isso que a Força a havia trazido ali: não para ser polida até perder as arestas, mas para aprender que lâmina alguma precisava cortar tudo que se aproximava.
Eu não vou tocar em você sem pedir, disse ele pelo vínculo. Não vou ficar atrás de você se puder evitar. Não vou fechar portas sem avisar. Não vou exigir que confie em mim antes que eu mereça. E, se algum dia minha voz suave a fizer procurar uma saída, eu esperarei até que encontre uma.
A resposta dela demorou.
Isso é ridículo.
Provavelmente.
Você é alto demais.
Já me disseram.
Eu posso chutar seu joelho antes de você sacar o sabre.
Eu acredito.
E morder.
Também acredito.
E arrancar seus olhos se você entrar no meu quarto.
Não entrarei.
- Creio que, mais uma vez, estamos ignorando a parte mais importante da sala. – Tarla fez uma leve mesura para os Mestres. – Minha resposta é irrelevante se a dela for uma negativa. A escolha, como os Mestres já tão eloquentemente apontaram, é de Rum’ea.
Rum'ea sustentou o olhar nele por um tempo longo. Bem mais longo que o normal. Depois, bem devagar, virou-se para o Conselho.
- Eu não aceito coleira. — Disse ela em voz alta.
Yaddle inclinou a cabeça.
- Ninguém lhe ofereceu uma.
- Ninguém nunca oferece. Só coloca no pescoço do outro. — Rum'ea olhou para Tarla de novo. — E se eu aceitar... Eu posso mudar de ideia.
Tarla assentiu.
- Pode.
- E se eu fugir?
- Eu a encontrarei se estiver em perigo, mas não a caçarei por orgulho ferido.
- E se eu quebrar alguma coisa?
- Vai depender bastante do que quebrou.
Dessa vez, o quase sorriso dela foi um pouco mais real, mas desapareceu depressa, como uma criatura selvagem recuando para dentro da mata.
Você até que é meio engraçado às vezes.
Agradeço. Esse é um elogio que não ouço com frequência.
Consigo imaginar o por quê.
Yoda observou os dois por um momento longo demais e, ainda assim, não viu o que havia entre eles. Tarla sentiu a proteção da Força ao redor do vínculo como sentia, em lembranças antigas, as Luzes Dançantes de Keshtara escondendo estrelas menores sob seu brilho. O Conselho via uma escolha difícil, uma jovem ferida, um Mestre relutante e a possibilidade de treinamento, mão via a ponte mental. Não via a estrela tocando o gelo. Tarla ficava cada vez mais curioso.
- Então, Mestre Kesyk? — perguntou Yoda. – Responder, Rum’ea respondeu. O que agora responde você?
Tarla curvou a cabeça. A Força havia colocado algo peculiar demais em suas mãos para recusar por luto, medo, resistência, resignação, auto-proteção ou capricho.
- Aceito Rum'ea Olphen como minha Padawan, se ela aceitar caminhar comigo.
A palavra Padawan não pareceu suavizar a sala. Pareceu torná-la mais pesada.
Mais verdadeira.
Rum'ea permaneceu parada, pequena, pálida, envolta em roupas de Catadora que pareciam uma afronta viva ao mármore impecável do Templo. Seus olhos grandes passaram por Yoda, Yaddle, Dookan, Tyvokka, Oppo, pelos outros Mestres, pela porta, pelas janelas, pelas mãos de Tarla, pelo espaço entre eles — ela ainda estava pronta para fugir. Ainda estava pronta para ferir. Ainda estava pronta para talvez não sobreviver ao que todos chamavam de salvação, mas não sem lutar antes.
Se você mentiu, ela disse apenas para ele, eu vou saber.
Espero que saiba.
E se eu odiar você?
Então treinaremos com honestidade.
Rum'ea ergueu o queixo.
- Eu aceito. — Disse em voz alta.
Nenhum sino soou. Nenhuma visão tomou a sala. Nenhuma das três luas de Keshtara apareceu no céu de Coruscant, e nenhuma Luz Dançante atravessou o Conselho em rosa, dourado e verde. Ainda assim, para Tarla, houve uma mudança quase imperceptível na Força, como o primeiro estalo de um lago congelado antes da primavera, como se algo antigo tivesse ouvido uma palavra esperada havia muito tempo.
Estranho.
Oppo fechou os olhos por um breve instante, parecendo anormalmente aliviado.
Yaddle sorriu com a tristeza de quem sabia que aquele seria um caminho árduo.
Dookan observou em silêncio, talvez já avaliando consequências que ninguém mais desejava nomear.
Yoda apoiou as duas mãos no cajado e bateu a ponta no chão, grave.
- Então decidido está. Mestre Tarla Kesyk, Padawan Rum'ea Olphen. Com ambos, que a Força esteja.
Rum'ea estremeceu ao ouvir o título antes do nome, e Tarla sentiu a onda de desconforto atravessar o vínculo. Não corrigiu o Conselho. Não ali. Não ainda. Haveria tempo para descobrir quais palavras ela suportava, quais a feriam, quais poderiam um dia se tornar abrigo.
Quando as portas se abriram para que saíssem, Tarla deu passagem primeiro a ela. Rum'ea, porém, não se moveu de imediato.
Você vai andar atrás de mim?
Posso andar ao seu lado.
Ela olhou para a largura da porta, calculou o espaço entre o corpo dele e a parede, depois franziu a testa.
Como? Você ocupa metade do corredor.
Tentarei ocupar menos.
Isso é ridículo e possivelmente impossível.
Talvez. Mas posso tentar.
Ela passou por ele com cautela, sem lhe dar as costas por completo até o último instante possível. Tarla esperou. Quando entrou no corredor ao lado dela, manteve distância suficiente para que a respiração dela não mudasse. O Templo se estendia à frente, luminoso, antigo e cheio de regras que Rum'ea ainda não conhecia e talvez jamais aceitasse sem luta. Isso Tarla já sabia. Já esperava.
A jovem olhou de lado para ele, os cabelos negros caindo sobre os ombros, pelas costas, os olhos avelã cheios de desconfiança sob os cílios escuros. Caminharam em silêncio por algum tempo.
- Eu tenho que usar essas roupas marrons?
Tarla considerou a pergunta com a solenidade de uma negociação diplomática.
- Eventualmente.
Ela fez uma careta.
Eu odeio marrom.
Há tons piores.
Isso era para ajudar?
Ainda estou decidindo.
Pela primeira vez, o sorriso dela apareceu de verdade, pequeno, rápido e perigoso como uma faísca no escuro. Durou menos de um segundo.
Mas Tarla viu.
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