No terceiro dia, Qui-Gon apareceu com algo embrulhado em papel rosa. Isso, por si só, já teria sido suficiente para Rum’ea desconfiar.

Ela estava sentada em uma das mesas laterais dos arquivos, não porque Tarla a tivesse autorizado a “trabalhar normalmente” (ele não autorizara), mas porque “descanso” e “permanecer trancada no quarto encarando a própria existência” eram coisas diferentes, e Rum’ea decidira que, se estava proibida de treino físico, ao menos poderia ler sentada, com uma compressa térmica escondida sob as camadas das vestes e um datapad apoiado sobre o colo. Tarla, irritantemente, permitira — com condições. Uma delas era que ela comesse. Outra era que tomasse água. A terceira era que não tentasse transformar “sentada” em “subindo em prateleiras para alcançar registros superiores”.

Ela ainda considerava a terceira uma censura desnecessária.

A dor havia melhorado, mas não desaparecido. Continuava ali, baixa e quente, contraindo-se em ondas que a deixavam mais irritada do que fraca. O vínculo com Tarla estava diferente desde aquela madrugada: não fechado, mas filtrado. Havia agora uma espécie de porta interna entre eles, feita na imagem mental daquela madeira branca de Sinisära com veios azulados, trancada por dentro quando Rum’ea precisava que o corpo fosse só seu. Tarla permanecia do outro lado, presente, mas não atravessava a dor inteira sem permissão. Isso a acalmava e a incomodava ao mesmo tempo.

Foi nesse estado — dolorida, envergonhada, teimosa e tentando fingir que não estava se dobrando por dentro — que ela viu Qui-Gon Jinn se aproximar.

Ele vinha com o passo tranquilo de sempre, cabelos castanhos caindo perto dos ombros, expressão serena e aquele ar de quem poderia estar indo salvar uma missão ou observar um musgo reagir à música com a mesma atenção – ele daria a mesma importância a ambos. Nas mãos, trazia um pequeno embrulho retangular, cuidadosamente fechado em papel rosa-claro.

… Rosa?

Rum’ea olhou para o pacote antes de olhar para ele.

— Cavaleiro Jinn. — Disse, desconfiada.

— Padawan Olphen. — Respondeu Qui-Gon, parando diante da mesa com uma inclinação leve de cabeça. — Trouxe isto para você.

Ela encarou o objeto. O papel rosa tinha uma textura fina, quase encerada, e estava dobrado com mais delicadeza do que o necessário para qualquer coisa funcional. Não parecia equipamento. Não parecia registro. Não parecia planta, o que já era uma mudança considerável nos padrões de Qui-Gon. Rum’ea estendeu a mão devagar, recebeu o pacote e pesou-o na palma.

Era leve.

Tinha cheiro doce.

Ela franziu a testa.

Tarla.

A resposta veio pelo vínculo com a prontidão discreta de quem, apesar de estar a três corredores de distância, já aprendera que o nome dele dito assim raramente precedia algo simples.

Sim?

Qui-Gon me entregou uma coisa embrulhada em papel rosa.

Houve uma pausa.

Isso é preocupante por causa do papel ou por causa do Cavaleiro Jinn?

Os dois.

O que é?

Rum’ea virou o pacote, cheirou com cuidado e tentou identificar a forma sob o papel.

Não sei.

Poderia perguntar diretamente a ele.

Claro. E parecer que eu venho de um buraco galático.

Correndo o risco de literalidade, Kyrmora é-

Tarla.

Sim. Perdão.

A coisa que ele me deu.

Descreva.

Um bloco pequeno. Cheira doce. Meio amargo também. Duro, mas não muito. Embalado como se fosse... Presente.

Tarla demorou uma fração de segundo.

Pelo que está descrevendo, parece chocolate.

Rum’ea ficou imóvel.

Chocolate.

Ela sabia o que era por definição. Havia lido sobre isso em arquivos culturais, visto menções em registros de comércio, ouvido younglings comentarem no refeitório com a alegria ofensiva de quem crescia sabendo que coisas doces simplesmente existiam. Não foi o desconhecimento em si que a travou.

Foi a associação.

Tarla.

Sim.

Flores e chocolate.

Outra pausa.

Dessa vez, o silêncio de Tarla tinha uma textura muito específica: o silêncio de alguém que também percebeu o problema e preferiria, por elegância, estar em uma reunião administrativa apenas para fugir do assunto sem parecer que fugia.

Em muitas culturas, chocolate e flores podem compor um rito inicial de cortejo, disse ele com cuidado.

Rum’ea apertou o pacote com força demais e imediatamente afrouxou os dedos para não quebrar nada dentro.

Ele já me deu flores.

Sim.

De Keshtara.

Sim.

Agora chocolate.

Sim.

Em papel rosa.

Também sim.

Tarla, isso não faz sentido. Isso é algum rito de cortejo ou é só Qui-Gon sendo estranho?

Tarla deixou passar uma sombra de humor muito leve, mas ainda assim perceptível.

Ainda é o Cavaleiro Jinn.

Isso não ajudava.

Nunca ajudava.

Rum’ea ergueu os olhos para o Cavaleiro, que permanecia diante dela com uma calma genuína, não parecendo particularmente consciente de ter acionado um debate cultural, emocional e possivelmente ritualístico envolvendo flores de Keshtara, chocolate e papel rosa. Ele apenas observava o pacote nas mãos dela com uma satisfação tranquila, como se a entrega já tivesse sido, por si só, correta.

Porém… Talvez ajude com as cólicas, acrescentou Tarla.

O mundo de Rum’ea parou. A estática no vínculo estalou tão alto que, por um segundo, ela quase derrubou o chocolate.

Você acha que ele sabe?

A pergunta veio em pânico puro. Não irritação ou qualquer vergonha disfarçada. Pânico. A porta interna do vínculo quase se fechou de uma vez, e Tarla respondeu antes que ela se trancasse por completo.

Provavelmente não.

Provavelmente?

Rum’ea, respire.

Não me mande respirar agora.

Então apenas me escute. O Cavaleiro Jinn é perceptivo, mas não invasivo. É possível que tenha sentido que sua presença estava diferente. Cansada. Dolorida. Isso não significa que saiba o motivo.

Ela segurou o pacote contra o peito com uma mão e apertou a borda da mesa com a outra.

E se souber?

A resposta de Tarla veio mais baixa.

Então teria trazido algo que acreditou poder confortar, sem expor você. Ainda assim, não creio que saiba.

Rum’ea tentou engolir a vergonha. Ela desceu como pedra.

Qui-Gon inclinou um pouco a cabeça, percebendo apenas a superfície da hesitação.

— A Força em você parecia amarga hoje. — Disse ele, com a simplicidade absolutamente inaceitável de quem achava que aquilo explicava tudo. — Então pensei que o chocolate ajudaria.

Rum’ea olhou para ele.

Depois para o pacote.

Depois de volta para ele.

“A Força em você parecia amarga”.

Não “você está doente?”. Não “aconteceu algo?”. Não “por que está estranha?”. Não “eu sei”. Apenas aquela frase tipicamente dele, meio botânica, meio mística e inteiramente absurda, que conseguia ser invasiva e respeitosa ao mesmo tempo porque não abria a porta — apenas indicava que percebera a cor da luz escapando por baixo dela.

Pelo vínculo, Tarla foi irritantemente calmo.

Viu? Cavaleiro Jinn sendo Cavaleiro Jinn.

Rum’ea quase rosnou mentalmente.

Isso não deveria ser uma categoria explicativa válida!

E, ainda assim, é.

Ela olhou para o chocolate outra vez.

— Eu não sabia que a Força tinha gosto. — Disse em voz alta, porque precisava dizer alguma coisa.

Qui-Gon sorriu de leve.

— Não exatamente gosto. Mais uma textura. Ou talvez uma cor com peso. Hoje a sua parecia amarga nas bordas.

Rum’ea estreitou os olhos.

— Isso é uma coisa normal de se dizer?

— Provavelmente não.

— Você sabe disso e diz mesmo assim?

— Sim.

Ela ficou sem resposta por um segundo, o que era uma das coisas mais irritantes que Qui-Gon conseguia fazer sem esforço.

Devagar, abriu o papel rosa.

Dentro havia pequenos quadrados escuros, brilhantes, separados por linhas finas. O cheiro subiu mais nítido agora: doce, sim, mas também profundo, levemente amargo, quente de um jeito que não vinha da temperatura. Rum’ea pegou um pedaço com cuidado. Observou como se fosse uma peça rara retirada de uma carcaça de nave. Depois levou à boca.

O chocolate derreteu na língua.

Ela ficou imóvel.

Era... Estranho.

Doce demais no primeiro instante, depois amargo, depois macio, depois alguma coisa no fundo que parecia escura e reconfortante. Não era como frutas, nem como pão, nem como as barras energéticas do Templo. Não exigia mastigar para provar que era comida. Apenas desaparecia devagar, como se tivesse sido feito para convencer o corpo de que ele podia receber algo sem lutar antes.

Rum’ea não percebeu que fechou os olhos por meio segundo.

Qui-Gon percebeu.

Tarla também, pelo vínculo.

Nenhum dos dois comentou.

— Obrigada. — Disse ela, abrindo os olhos, um pouco rouca demais para a própria irritação.

Qui-Gon inclinou a cabeça.

— Fico contente que tenha aceitado.

Rum’ea olhou para os quadrados restantes.

Em Kyrmora, algo doce raramente era compartilhado sem cálculo. No Templo, ainda era difícil aceitar comida como gesto simples. Mas Qui-Gon estava ali, com aquela expressão de árvore de primavera que se satisfez porque uma criatura estranha aceitou luz indireta e água na base, e talvez fosse por isso que ela fez o que fez.

Quebrou outro pedaço.

Estendeu a ele.

— Quer?

Qui-Gon pareceu levemente surpreso, mas a surpresa veio coberta por uma alegria discreta e muito gentil. Ele aceitou o pedaço com cuidado, os dedos tocando o chocolate sem tocar nos dela.

— Obrigado.

Rum’ea observou enquanto ele comia.

— Você trouxe para mim e agora está comendo.

— Você ofereceu.

— Ainda assim.

— Isso torna o gesto compartilhado.

Ela franziu a testa.

— Isso é mais alguma coisa da Força?

— Talvez seja apenas chocolate.

Pelo vínculo, Tarla permitiu-se uma pequena onda de diversão.

Um desenvolvimento diplomático promissor.

Não use a palavra diplomático para chocolate, respondeu Rum’ea imediatamente.

Anotado.

E não conte a ninguém.

Que o Cavaleiro Jinn trouxe chocolate?

Que eu gostei.

Naturalmente.

Ela sabia que ele estava sorrindo em algum lugar. Podia sentir.

Qui-Gon, sem saber exatamente a outra metade da conversa, apontou com delicadeza para o pacote.

— Me disseram que este é menos doce do que o comum. Achei que talvez algo muito açucarado pudesse ser desagradável.

Rum’ea olhou para ele de novo.

— Você perguntou?

— Sim.

— Para quem?

— Uma das cozinheiras do refeitório. Ela parece saber muito sobre chocolate e pouco sobre plantas de sombra.

— Por que você perguntou sobre plantas de sombra a uma cozinheira?

Qui-Gon considerou a pergunta.

— Porque ela tinha uma perto da janela.

Rum’ea ficou em silêncio. Depois, baixou os olhos para o chocolate e quebrou outro pedacinho.

— Você é muito estranho.

— Já me disseram.

— Eu disse.

— Sim. Mas não só você.

Ela quase sorriu.

Dessa vez, quando comeu o terceiro pedaço, a dor não desapareceu. Chocolate não era magia, apesar de Qui-Gon provavelmente acreditar que algumas coisas doces tinham relação suspeita com a vontade da Força. Mas algo no corpo dela pareceu aceitar o gesto. O calor no ventre continuava, a vergonha ainda morava sob as costelas, a porta do vínculo com Tarla seguia parcialmente fechada para proteger o que era íntimo demais e, ainda assim, ali estava ela: sentada nos arquivos, com chocolate em papel rosa, recebendo um presente de alguém que dizia que sua Força parecia amarga e oferecendo de volta um pedaço porque, aparentemente, essa era uma coisa que pessoas faziam quando não estavam tentando sobreviver a cada mordida do mundo.

Qui-Gon aceitou outro pedacinho quando ela ofereceu com delicadeza. Sem pressa. Sem transformar o gesto em mais nada.

Rum’ea decidiu que, por enquanto, “ainda é Qui-Gon” talvez fosse a única explicação possível para aquele Cavaleiro estranho.