A Profecia: Guerra Nos Campos De Tandara
5 Fracasso
O olhar de Samir recai desesperado sobre Madelaine, enquanto junta o que restou de suas forças para conseguir ficar de pé. Oliver deixa sua espada cair ao chão, enquanto Nadja com apenas um pensamento faz sua espada em chamas desaparecer. Lamar observa Bernadette sorrindo ironicamente para ele enquanto usa seu cajado apenas para se manter de pé, e não mais para atacar sua inimiga. A única que ainda mantém a arma nas mãos é Sabina, que continua apontando sua espada de luz para Raffi, porém seus olhos procuram incertos os olhos de seu mestre, sem saber direito o que fazer.
Hannes olha impaciente a hesitação de Sabina, e seus olhos negros como ônix se enchem de ódio enquanto ele aperta a lâmina da espada contra o pescoço de Madelaine, provocando propositalmente um pequeno corte no pescoço da rainha e fazendo com que o sangue dela comece a manchar a lâmina de sua espada.
― Façam o que eu mando. – diz Hannes – Se não quiserem que eu corte o pescoço dela. Depressa, menina, largue a sua arma.
Com os olhos cheios de lágrimas, Sabina continua a olhar para seu mestre, em busca de uma resposta. Com pesar, Lamar faz sinal para que ela solta a espada.
― Mas mestre... – diz a menina em tom de súplica.
― Não temos escolha. – responda Lamar com pesar.
― Mas... – Sabina não consegue segurar suas lágrimas.
― Menina, largue a espada. – pede Samir – É a vida de Madelaine que está em risco.
― Sabina. – diz Nadja – Como o Lamar disse não temos escolha. Este homem não está brincando, querida. Ele matará a rainha Madelaine se não fizermos o que ele manda.
― Droga! – chora Sabina enquanto faz a espada de luz desaparecer, libertando Raffi de sua armadilha.
Raffi rapidamente se afasta de Sabina, e vai para perto de seu pai, que ainda mantém a lâmina de sua espada pressionada contra o pescoço de Madelaine. Lágrimas amagas caem pelo rosto da rainha, enquanto sente a dor e falta de ar provocado pela espada de seu inimigo.
Com os olhos marejados pelas lágrimas, ela olha para seu amado Samir, totalmente paralisado por ela estar em perigo, Lamar e seus amigos, que sacrificaram tanto a fim de libertar a ela e a seu marido. E, no entanto, tudo estava dando errado.
― Samir... – diz a rainha com seu coração transpassado de dor – Não se importe comigo... Por favor... Fuja... Vá com Lamar... Salve-se...!
Ouvir a rainha suplicar para que seu marido fuja dali aumenta ainda mais a raiva de Hannes, e faz com que o usurpador tenha mais vontade de dar uma lição a ela. Seu olhar encontra o de Valence, que entende o que o marido está pensando.
A usurpadora anda calmamente até onde a lança de Raffi está caída no chão, e pega a arma, sob os olhares paralisados de Samir e dos outros. Após pegar a lança, a rainha volta para sua posição, ao lado de Hannes e de seu filho.
― Mate-a, mãe. – pede Raffi – Quero ver o sangue dessa falsa rainha se esvaindo de seu corpo sem vida!
Hannes e Valence sorriem ante o comentário do filho, enquanto Bernadette se aproxima dos três. A lâmina da espada de Hannes cada vez mais fundo no pescoço de Madelaine.
― Não podemos matá-la agora, Raffi. – diz Valence, com um sorriso triunfante em seu rosto – Por mais que a ideia me atraia, ainda é cedo para isso. Aprecie como eu e seu pai nosso momento de triunfo.
― Covardes! – diz Sabina com lágrimas de frustração marejando de seus olhos – Vocês não passam de covardes sem honra! Por que não lutam como homens ao invés de se portarem feito ratos?
― Não fale, menina! – pede Samir – Não podemos fazer nada enquanto ele mantém Madelaine como refém.
― É bom que tenha entendido isso, rei caído. – zomba Hannes.
Samir sofre ao ver sua doce Madelaine nas mãos de seu inimigo, precisa encontrar uma forma de salvá-la e coloca-la em segurança o mais rápido possível. Precisa livrá-la das mãos maléficas de Hannes, nem que isso lhe custe à vida.
― O que quer para libertar Madelaine? – Samir verbaliza os seus pensamentos.
Hannes sorri em triunfo, fora mais fácil do que ele havia imaginado.
― Rendam-se, ou a mato agora! – diz Hannes.
― Não faça o que ele quer Samir... – Madelaine suplica em meio às lágrimas – Fuja... Salve-se...!
― Como posso fugir e me salvar e deixá-la para a morte? – pergunta Samir – Você é minha vida, Madelaine, eu jamais me perdoaria se fosse tão covarde a este ponto.
Valence se irrita com as palavras de Samir, palavras de um homem que perdera tudo e que se agarra a única coisa que ainda lhe resta, a vida. Com toda sua força, ela aperta a lança de seu filho em suas mãos.
― Nós não demos permissão para vocês falarem! – diz Raffi – Pai, mãe, mate-os de uma vez para que ninguém mais questione o nosso poder! Eu quero vê-los mortos!
Lamar e Samir se encaram por uma pequena fração de segundos, totalmente incapazes de agir. Sem um plano formado e sabendo que a vida de Madelaine está em risco, à única coisa que podem fazer é se submeterem as chantagens de Hannes e Valence.
― Me desculpe, Samir. – a voz de Lamar é de puro pesar – As coisas não saíram como eu havia planejado.
― Não há o que desculpar, Lamar. – diz Samir, e então volta sua atenção para o homem que mantém sua esposa como refém – O que quer para soltar Madelaine, Hannes?
Ao ouvir as palavras de Samir, o usurpador sorri com um prazer quase demoníaco, seu sorriso é acompanhado pelo de Valence, Raffi e Bernadette. Agora sim, sua vitória está completa. Mostrará a este rei caído que seu tempo como regente de Tandara acabou.
― Rendam-se, todos. – diz o usurpador, cada palavra que sai de sua boca carregada de veneno – E então eu pouparei a vida desta mulher.
― Então é isto...? – questiona Sabina em meio às lágrimas – Toda nossa luta foi em vão...?
― Cale-se pirralha! – diz Raffi, perdendo a paciência – Ou eu mando o meu pai e a minha mãe matar esta mulher!
Sabina quer esquecer a razão e acabar com Raffi com suas próprias mãos, porém é impedida por Nadja, que a segura com força, impedindo que a aprendiz de Lamar faça alguma bobagem e coloque em maior risco a vida da rainha Madelaine.
― Não faça isso, Sabina! – diz Nadja, enquanto a segura – Você irá se arrepender se o fizer.
Com lágrimas nos olhos, Sabina percebe que Nadja tem razão, e tenta se acalmar, apesar da grande ira que invade seu corpo ao olhar para aquele menino que é pura maldade.
Hannes observa com seu sorriso demoníaco e totalmente satisfeito as expressões de derrota de seus inimigos, especialmente a de Samir, o pesadelo do rei caído está apenas começando, porém ele não ainda não faz ideia disto.
― E então, Samir? – diz Hannes em tom de deboche – Qual é a sua resposta? Irá se render ou deixará que eu mate sua esposa? Já perdeu a filha, quer perder a esposa também?
As palavras de Hannes são como o mais poderoso veneno aos ouvidos de Samir, fazendo-o lembrar amargamente de como fora fraco, ao não conseguir proteger sua filhinha da morte... E agora se sente totalmente humilhado por não ter conseguido proteger sua doce Madelaine, fazendo com que se sinta cada vez mais humilhado. Não tem escolha, a não ser fazer o que seu inimigo manda, se quiser ter alguma chance de salvar a vida de sua esposa.
― Eu me rendo. – Samir quase não consegue proferir em voz alta as palavras, porém, para salvar a vida de Madelaine, fora obrigado a dizê-las.
Hannes começa a gargalhar de prazer, enquanto encara totalmente satisfeito a expressão de derrota de Samir. É assim que gosta de ver o rei caído, totalmente humilhado e desistindo de tudo e se rendendo por livre e espontânea pressão.
― Samir... – Madelaine suplica, desesperada – Não faça isso... Não se importe comigo... Fuja... Salve sua vida... Por favor...!
Valence não aguenta ouvir as súplicas da rainha caída, e, em uma movimento que pega a todos desprevenidos, usa a lança que tem nas mãos e a crava no abdômen de Madelaine, fazendo a rainha gritar de dor enquanto começa a perder uma grande quantidade de sangue no local onde fora golpeada.
― MADELAINE!!!! – grita Samir, começando a se desesperar ao ver sua esposa ferida.
― Isto é para você aprender a ficar calada. – diz Valence, para a verdadeira rainha.
Madelaine perde os sentidos devido à dor e a profundidade do golpe recebido, E Hannes joga o corpo da rainha longe, e se preparando para atacar a seus inimigos.
Lamar prepara seu cajado, incerto quanto ao que fazer. Embora não queira assumir, sabe que esta batalha já está perdida, que jamais conseguirão sair dali com Samir e Madelaine em segurança.
Samir corre em direção ao local onde o corpo inconsciente de sua esposa está caído, e o abraça, rasga um pedaço de sua roupa e tenta em vão estancar o sangue de Madelaine que não para de cair.
― Resista, Madelaine... – sussurra o verdadeiro rei ao corpo desfalecido de sua esposa.
Hannes, Valence e Bernadette apontam suas armas para rei e rainha, enquanto os três sorriem de forma fria e vitoriosa para Lamar, Oliver, Sabina e Nadja.
― Se vocês se atreverem a pegar em suas armas, estes dois morrem agora! – diz Bernadette.
― Vão! – ordena Samir – Não se preocupem conosco, apenas salvem-se, Lamar irá cuidar bem de vocês.
― Mas majestade... – Nadja tenta argumentar.
― Sem mais. – diz Samir – Se vocês ainda têm alguma consideração para comigo e Madelaine, fujam e salvem suas vidas!
Os olhos de Lamar encontram os de Samir por um momento, e o mago percebe os sentimentos de seu melhor amigo, que decidiu se sacrificar não apenas pela esposa, como também por ele, Nadja, Oliver e Sabina. A admiração que Lamar sente por Samir aumenta ainda mais.
― Temos que ir. – diz o mago por fim.
― O que? Assim? Sem lutar? – diz Sabina – Isso está errado!
― Não temos escolha! – diz Lamar – Um dia, quando for mais velha irá entender, Sabina!
― Não vou deixar que fujam. – diz Bernadette.
A maga das trevas deixa sua posição e faz surgir em sua mão uma lança negra, ao mesmo tempo em que tenta atacar Lamar e seus companheiros. Para dar tempo de eles fugirem, Makan se lança contra Bernadette com toda sua fúria, mas não é suficiente para impedir a maga, que crava a lança diretamente no coração de seu adversário, dando um fim à sua vida.
E enquanto o corpo de Makan jaz sem vida ao chão, Lamar usa seu cajado e faz aparecer uma forte luz, que transporta a ele, Oliver, Sabina e Nadja dela. Queria poder levar Samir e Madelaine junto, mas não estava suficientemente perto dos dois para fazê-lo, e ainda não se recuperara da duplicação. Estava fraco demais para fazer qualquer outra coisa.
A luz criada por Lamar desaparece, e com ela o mago e seus amigos, só restando naquele local Hannes, Valence, Raffi, Bernadette, Samir, Madelaine e o corpo sem vida Makan.
― E agora, Samir. – diz Hannes com um sorriso frio como o maior dos ice Berg – Farei com que você pague pelo que aconteceu aqui.
*****
Lamar e os outros voltam para a caverna que estão usando como esconderijo, em seus corações a dor e a frustração de terem falhado em sua missão. Sabina e Nadja estão abraçadas, ambas sem conseguir conter as lágrimas amargas que insistem em cair de seus olhos.
Por sua vez, Oliver não deixa de olhar para Lamar, que está sentado em uma pedra sem conseguir dizer uma única palavra.
― Lamar... – Oliver diz com uma voz muito baixa – Eu sinto muito... Se ao menos eu fosse mais forte...
― Não é culpa sua. – diz Lamar, encarando os três jovens que se sentem impotentes e derrotados – Aliás, não é culpa nossa, o plano tinha falhas, e as coisas aconteceram de um modo que nenhum de nós pode evitar.
― Mestre, e agora? – pergunta Sabina – O que vai acontecer com o rei Samir e a rainha Madelaine?
― Eles viverão grandes provações daqui para frente, creio eu. – diz Lamar – Pois Hannes precisa dos dois vivos para chantagear o povo e ser aceito como rei.
― Que os céus os protejam. – diz Nadja, mas para si mesma do que para os outros.
Nadja começa a sentir o corpo de Sabina ficar frio.
― Sabina, o que há...? – pergunta Nadja ao sentir o corpo da menina cada vez mais gelado.
Lamar e Oliver encaram Sabina, e veem a menina com um olhar distante, como se estivesse fora da realidade, seu olhar perde totalmente a expressão.
― O que está acontecendo? – pergunta Oliver.
― Silêncio e prestem bastante atenção. – ordena Lamar.
Sabina parece estar totalmente fora da realidade, e de sua boca começam a sair palavras que nem parecem ser proferidas pela menina:
― “Chegou o tempo em que o mundo de Tandara conhecerá seu pior pesadelo. Mortes, dor, sofrimento e usurpação. O verdadeiro rei sofrerá junto com seu povo. Tempos negros e de trevas aguardam este mundo, sem qualquer esperança de salvação.”
*****
Samir e Madelaine voltaram à cela da qual haviam fugido, pois Bernadette usara sua magia para consertar a porta que havia sido destruída por Lamar. O rei deita Madelaine ainda inconsciente na palha, e olha o ferimento dela, que parara de sangrar. Em seus pensamentos pede aos céus para que poupem a vida de sua bela Madelaine.
Sabe que é egoísmo pedir aos céus que a poupem e que ela viva a seu lado uma vida incerta e de muitos sofrimentos, mas, não conseguirá suportar sem sua vida a seu lado, e Madelaine é sua vida.
― Não morra, minha querida... Eu lhe suplico... Não me deixe, Madelaine...
O verdadeiro rei escuta barulhos vindo da porta de sua cela, e vê uma luz invadindo aquele cômodo escuro, ele se prepara para mais um embate contra Hannes, mas suspira aliviado ao ver um de seus guardas entrar naquele lugar, trazendo água fresca, pedaços de pão, queijo a ataduras.
― Perdão, majestade. – diz o guarda depositando aos pés de Samir a bandeja – Mas não posso fazer mais nada pelo senhor e pela rainha Madelaine. Aquele homem é louco, ameaçou matar o senhor e a rainha caso não me curvasse diante dele! Não tive escolha, prefiro me sujar a permitir que ele mate o senhor ou a rainha. E posso vir aqui escondido, pelo menos para trazer comida e ataduras para suas feridas, meu rei.
― Eu agradeço, rapaz. – responde Samir, esforçando-se para sorrir em agradecimento – Mas não quero que se arrisque por minha causa.
― Não vou deixar meu rei e minha rainha a própria sorte. Posso estar sendo obrigado a me curvar diante daquele usurpador, mas são vocês que tem minha lealdade e meu respeito. O senhor é meu rei e Madelaine é minha rainha!
― Agradeço as suas palavras.
― Agora eu preciso ir, majestade. Não é bom que aquele homem saiba que estive aqui. Voltarei assim que possível.
E dizendo estas palavras, o guarda deixa Samir. Assim que se vê sozinho Samir pega as ataduras deixadas pelo guarda, e começa a cuidar das feridas de sua esposa.
*****
A luz do sol traz um novo dia e, longe das terras do palácio real, as águas do rio sagrado de Tandara continuam a correr, e uma mulher humilde, de cabelos castanhos e lisos que caem em cascata sobre suas costas. Olhos com o mesmo tom acastanhados de seus cabelos, trajando um vestido muito simples, de camponesa. A mulher olha para as águas do rio, e vê um cesto se aproximando. Ela ergue um pouco a saia do vestido e entra na água, para então abrir o cesto e dar de cara com uma linda bebezinha de cabelinhos negros e olhos de um azul cristalino. O cesto está até sua metade tomado por águas, e a bebê tem sua roupinha manchada de sangue, a mulher pega a criança em seus braços, sem conseguir entender o que se passa.
Os cabelos negros e os olhos daquele bebê a fazem lembra de alguém, mas ela não consegue distinguir. Ela percebe o sangue na roupinha ensopada do bebê, e seu olhar recai sobre uma pequena corrente de prata com um pingente de uma estrela de oito pontas, que a neném segura em suas pequenas mãozinhas.
Sua face se espanta em assombro quando ela reconhece o objeto e percebe quem é o bebê que segura em seus braços.
― Pelos céus! – ela sussurra, sua voz evidenciando seu espanto – Este bebê é a princesa Elie...!
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