A Profecia: Guerra Nos Campos De Tandara
3 Dor... Humilhação... Lágrimas... Honra...
Toda a multidão emudece diante da cena que são obrigados a ver. O rei Samir e a rainha Madelaine acorrentados sem eu próprio castelo, humilhados como cães, destronados e ainda por cima sofrendo a humilhação de aparecerem feridos e vencidos em uma batalha mortal, mostrando a todos que não foram capazes de proteger seu reino e seu povo.
Hannes e Valence continuam sorrindo ante a vitória em suas mãos, ao lado de Raffi, e Bernadette, que mantém o rei Samir e a rainha Madelaine prisioneiros. O novo rei volta sua atenção para a multidão que continua a contemplar cena tão horrenda em silêncio.
― Como podem ver, seu rei caiu! – continua Hannes – Portanto a partir deste momento eu sou o único rei de Tandara! E a partir deste momento vocês devem se curvar diante de mim!
― Não mesmo, seu patife miserável! – grita uma jovem – Eu só me curvo diante do rei Samir e da rainha Madelaine! Você não passa de um trapaceiro bastado e maldito!
Dois homens da legião Maligna de Perrin procuram a jovem no meio da multidão, mas ela, por ser de baixa estatura, se esconde facilmente no meio da multidão, que ainda se recusam a se curvar diante de Hannes, Valence e Raffi.
Hannes olha furioso para a multidão que se recusa à aceita-lo como rei. Pessoas do nível deles, sem nenhum poder, só tem que se subordinar a sua vontade, não tem que querer, agora é o rei de Tandara e ninguém pode se opor a isso. Mostrará a todos que o tempo de Samir acabou, e mostrará a força, se preciso for. Imediatamente seu olhar vai para seu inimigo derrotado, um rei acorrentado que merece uma morte humilhante na frente de todo seu povo. Porém, por mais que deseje fazer isso, não são esses os planos que tem para Samir.
Samir assiste aquela cena destroçado, não apenas perdera seu trono, como perdera sua pequena filha, um bebê que amava tanto e que teve por tão pouco tempo em seus braços. Ao menos, Elie repousaria seu espírito em honra ao lado dos espíritos de todos os reis que Tandara já teve, terá glória ao lado dos reis de outrora. Ao contrário dele, humilhado da pior forma possível. Não fora capaz de proteger sua família, não fora capaz de proteger seu reino, não fora capaz de proteger nada...
Madelaine, com seus olhos repletos de lágrimas, é incapaz de encarar a cena a sua frente... É incapaz de ter qualquer reação àquela trágica cena em que infelizmente é uma das protagonistas. Não consegue deixar de pensar naquele menino acertando com uma clava sua pobre filhinha e tirando-lhe injustamente o direito de viver... Sua pobre Elie... Que não fizera nada para merecer uma morte tão horrenda...
A rainha escuta os gritos das pessoas, que chamam por ela e Samir. Tem vontade de gritar, pedir para que parem com isso, antes que sejam mortos... Porém a voz não sai de sua garganta... A dor e a humilhação daquele momento não deixam que ela consiga proferir uma única palavra...
A cada grito da multidão por Samir e Madelaine, o ódio aumenta em Hannes, a fúria o domina! Fará com que cada um deles aprenda que ele, e não Samir é o novo e único rei de Tandara, nem que para isso tenha que impor uma lei marcial!
― Escutem, povo de Tandara! – ele proclama – Como novo rei, ordeno que se curvem neste momento diante de mim! Ou matarei neste momento Samir e Madelaine!
E para dar veracidade a suas palavras, ele saca sua espada. O brilho da lâmina reluz sobre o luar, assustando a todos os presentes. A multidão, temendo pela vida de Samir e Madelaine, acabam se submetendo a vontade de Hannes, e se curvam diante dele, que sorri satisfeito ao ver tal cena.
Ele sorri de forma cruel para seus prisioneiros, saboreando satisfeito a sua vitória. Agora era o rei de Tandara, o único e verdadeiro rei daquele mundo.
― Está vendo, Samir? – zomba Hannes – Como seu povo o ama e o idolatra? Todos estão se curvando diante de mim, o mais novo rei de Tandara! Apodreça no inferno sabendo que nunca mais terá o trono deste mundo! – e volta sua atenção para Bernadette – Pode leva-los para as masmorras.
― Sim, meu amo e senhor! – diz a maga, conduzindo os prisioneiros para dentro do castelo enquanto Hannes, Valence e Raffi observam o povo, curvados diante deles.
*****
Oliver e Nadja observam escondidos as cenas do palácio, incapazes de fazer qualquer coisa para ajudar Samir e Madelaine, pois no momento os dois não tem forças para lutar contra toda a Legião Maligna de Perrin.
Ambos estão destroçados, envergonhados por terem que assistir a este espetáculo do horror sem poder fazer absolutamente nada por seu rei e sua rainha!
― Droga!!! – diz Nadja dando um soco contra uma árvore, fazendo algumas folhas caírem com seu golpe – Droga!!! Droga!!! Droga!!! Droga!!!!
― Calma, Nadja. – Oliver tenta acalmar a amiga – Se enfurecer assim não vai adiantar de nada a esta altura do campeonato!
― E como você quer que eu fique? – diz a jovem com seu rosto encharcado por lágrimas – Você viu o que eles fizeram com o rei Samir e com a rainha Madelaine! Isso é cruel, Oliver...
― Eu sei que é cruel, Nadja. E acredite, se eu tivesse poder suficiente, estaria agora mesmo desafiando aquele Hannes que se acha o novo rei de Tandara pela liberdade de nosso único e verdadeiro rei!
― O que nós vamos fazer, Oliver? Sozinhos, não temos poder para fazer nada, fomos vencidos e tivemos que fugir de um bando de guerreiros desse Hannes, e para o rei Samir ter perdido uma batalha para ele, significa que ele realmente deve ser mais poderoso do qualquer um de nós possa imaginar...!
― Eu sei, e isso não me deixa melhor que você. A diferença é que, ao contrário de você, consigo controlar meus impulsos. Se formos descobertos, iremos ter um fim muito pior que o do rei Samir e da rainha Madelaine, pois me parece que o tal Hannes quer eles bem vivos.
― Como você chegou a esta conclusão? – pergunta Nadja, espantada pelas deduções de seu amigo.
― Porque Hannes não matou nosso rei e nossa rainha. Apenas fez ameaças, para que o povo se curvasse diante dele. Este homem quer humilhar ainda mais nosso rei e nossa rainha.
― Canalha...
Os dois observam, ainda em silêncio, Bernadette conduzir os dois prisioneiros para dentro do palácio, imaginando o que será de Samir e Madelaine a partir daquele momento, que destino cruel estaria aguardando o verdadeiro rei e a verdadeira rainha de Tandara.
Os olhos de Nadja, incapazes de conter as lágrimas teimosas que caem por seu rosto sem parar. E Oliver, prestando atenção em cada movimento, com medo serem descobertos pelos guerreiros do homem que se auto declarou rei de Tandara.
Ele escuta um barulho de passos, alguém estava se aproximando, seu instinto de guerreiro logo assume uma posição defensiva, sua mão indo diretamente para sua espada embainhada.
― Nadja, se esconda, vem vindo alguém.
A ruiva se esconde com o coração batendo descompassado em seu peito. Não queria ser capturada agora, não antes de fazer alguma coisa por seu rei e sua rainha, qualquer coisa!
Ela escuta com atenção os passos, cada vez mais próximos! Oliver prepara sua espada e está pronto para o ataque. A pessoa se aproxima, e Oliver sai para a ofensiva, dando um golpe com a espada, porém, quando ele vê uma figura de baixa estatura, com um rosto bastante juvenil, consegue parar o golpe a tempo.
― Quer me matar do coração, Sabina? – pergunta Oliver, guardando a espada de volta na bainha.
A garota coloca as mãos na cintura em sinal de protesto. E olha para Oliver com seus intensos olhos cor de caramelo, o mesmo tom seus cabelos que caem soltos e lisos até o meio de suas costas. Seu rosto branco é tomado por fraco rubor, devido à raiva.
― E eu lá ia saber que você estaria escondido neste lugar? – ela responde.
Ao ver sua amiga, Nadja sai de seu esconderijo, olhando-a com ar de reprovação. Sabina logo reconhece este tipo de olhar e seus olhos vão de Oliver a Nadja.
― Por que está me olhando deste jeito? – Sabina pergunta, cruzando os braços.
― Que tipo de loucura você pensava estar fazendo quando resolveu sair desafiando aquele homem? – pergunta Nadja, em tom de reprovação.
― E o que você queria que eu fizesse? – pergunta Sabina – Você viu o que aquele cara fez com meu rei e minha rainha? Eu só disse o que ele precisava ouvir! Só disse a verdade! Eu nunca vou me curvar diante daquele cara!
― Nós também não! – diz Oliver – Mas uma coisa é não se curvar diante daquele cara, agora outra bem diferente é sair por aí arriscando a vida ao desafiar ele!
― Está bem, senhores donos da razão, eu admito, perdi a cabeça e agi precipitadamente! – diz Sabina – Mas eu consegui dar um jeito de escapar dos guerreiros daquele cidadão que está se achando o rei de Tandara.
― Sabina, estou tão perplexa com tudo isso quanto você. – diz Nadja – Já chorei e tudo! Porém, se agirmos precipitadamente só iremos piorar a situação.
― Certo. – diz Sabina – Então vamos agir com a cabeça. Qual é o plano?
Oliver e Nadja olham perplexos para Sabina. A garota decididamente não poderia estar falando sério.
― Que plano, Sabina? – pergunta Oliver espantado, verbalizando os seus pensamentos.
― O plano de resgate, oras! – diz Sabina, começando a perder a paciência – Nós não vamos deixar o rei Samir e a rainha Madelaine para aquele louco do Hannes mata-los ou fazer coisa pior! Temos que resgatá-los!
― E você acha mesmo que só nós três temos alguma chance contra todo o batalhão do Hannes? – pergunta Nadja.
Sabina encara os dois amigos, realmente, eles não estavam raciocinando direito. Pois estavam se esquecendo de uma pessoa muito importante, que com certeza iria ajuda-los na missão de resgate do rei Samir e da Rainha Madelaine.
― Meus amigos, é claro que sozinhos não teremos chance alguma. – diz Sabina – Eu sou apressada, não burra. Mas, nós não estaremos sozinhos nesta missão de resgate, nós contaremos com a ajuda do mestre!
*****
Nos escombros do palácio, Lamar caminha com passos lentos e silenciosos, a fim de não ser ouvido por ninguém. Sabe que Hannes, Valence e Raffi estão na sacada, contemplando sua auto coroação, e que Bernadette está levando o rei Samir e a rainha Madelaine para algum lugar, provavelmente para uma das masmorras, o que significa que por um tempo tem como andar pelo palácio sem ser percebido.
O mago continua a caminhar, indo em direção ao local em que Madelaine tentara em vão proteger a pequena Elie. Precisa descobrir o que aconteceu a pequena princesa. E se apressa em direção ao cômodo.
Finalmente consegue chegar ao local, onde o sangue está respingado sobre as belas cortinas outrora brancas, mas que agora tem tons vermelho do sangue inocente que fora derramado ali.
Seus olhos fazem uma rápida varredura do local, procurando pela pequena princesa. E então seus olhos se deparam com pequeno embrulho do outro lado do salão. Com passos apressados e silenciosos, o mago vai de encontro ao embrulho, todo manchado de sangue. Seu rosto fica branco de susto ao pegar o embrulho em seus braços e ver o corpo inerte da princesa de Tandara.
― Pelos deuses... Elie... O que fizeram com você...?
Lágrimas escorrem pelo rosto do mago, enquanto segura o corpo inerte do bebê. Sabe que não pode deixar a pequena ali, para o corpo dela ser jogado como lixo aos animais selvagens. Não... Neste momento a princesa de Tandara não pode ter um enterro digno de uma princesa, mas não deixará seu corpo naquele local. Fará o melhor que estiver a seu alcance.
Ele pula da janela para os jardins, a fim de não ser vistos pelos soldados de Hannes, que estão se espalhando por todo o local, e segue rapidamente em direção a uma pequena floresta com cuidado para não ser seguido. Caminha alguns metros até chegar a nascente de um rio, o rio sagrado de Tandara, também conhecido como rio sagrado dos reis. Lendas antigas dizem que as águas destes rios tem poderes curativos, mas somente para aqueles que carregam em suas veias o sangue dos grandes reis de outrora.
Lamar beija o corpo inerte da pequena Elie.
― Qualus!* — sussurra o mago.
E sobre o rio aparece um pequeno cesto de vinho. O mago deposita o corpo do bebê ali.
― Adeus, princesa Elie. Que sua alma descanse para sempre na grande glória, ao lado das almas dos grandes reis de Tandara.
E Lamar então observa o corpo da princesa Elie caminhando sobre as águas do rio. Ele observa as águas levarem o corpo da princesa por uns cinco minutos antes de deixar o local, sabendo que ainda tem outra missão a cumprir.
*****
Bernadette conduz os prisioneiros até um dos porões do palácio, praticamente no subsolo, onde se localizam as masmorras. Eles seguem por um longo corredor escuro, iluminado por tochas de fogo. Ao fundo do corredor, a cela mais escura, sem nenhuma janela. Apenas uma grande porta de chumbo com uma pequena abertura com três grades, por onde se passam as refeições. Do lado de dentro da porta, o lugar é úmido, repleto de palhas e feno no chão.
A maga obriga o rei e a rainha, ainda com as mãos e os pés acorrentados, a entrarem na cela, e a tranca em seguida com um sorriso triunfante nos lábios.
― Acho bom vocês se acostumarem bem ao local. – diz a maga – Pois a partir deste momento este será o lar de vocês. Pelo menos até que o rei Hannes tenha piedade e resolva acabar de vez com suas vidas!
E dizendo estas palavras, a maga vai embora daquele local sem vida e de atmosfera aterrorizante.
Madelaine olha em volta daquele local, os olhos repletos de lágrimas que não consegue mais segurar, e cai de joelhos, em prantos sobre as palhas e os fenos. Ela chora... Soluça... Incapaz de conseguir conter toda a dor que invade seu coração e sua alma.
Samir senta-se em silencio sobre o feno, e faz sinal para que Madelaine deite sobre seu colo, ainda sem dizer uma única palavra. A rainha deita-se sobre o colo de seu marido, ainda chorando e soluçando sem parar. Gentilmente, Samir começa a acariciar os sedosos cabelos de sua esposa, a fim de acalmá-la, pois, no momento, é tudo que pode fazer. Já perdera tudo, e não irá perder a única coisa que ainda lhe resta. Não irá perder sua doce e amada Madelaine...
Aos poucos e sentindo o toque gentil de seu marido, Madelaine começa a se acalmar, as lágrimas ainda insistem em banhar seus belos e agora sofridos olhos azuis, mas ao menos conseguira parar de soluçar.
― Por que...? Por que tinha que acontecer algo terrível conosco, Samir...?
― Eu não sei, querida. – a voz de Samir sai um pouco trêmula – Sinceramente, não sei por que todas estas coisas aconteceram. Gostaria de ter estas respostas para lhe dar, minha amada, mas infelizmente eu não as tenho.
― Eu a vi sendo assassinada na minha frente... E não consegui fazer nada para protegê-la... Eu gostaria de ter sido mais forte... Gostaria que Elie ainda estivesse viva e em meus braços... Isso é terrível, Samir...
― Assim como eu gostaria de ter sido mais forte para defender não somente você e Elie, mas também todo nosso povo, que agora está nas mãos daquele homem com uma maldade insana e em demasia. Mas eu não pude, e estou pagando um alto preço por isso.
― Não fale assim, Samir. Você fez o que estava a seu alcance, mas infelizmente perdemos essa batalha... Perdemos nosso trono... Perdemos nossa filha...
― Sim, minha amada. Infelizmente perdemos tudo e agora pagamos o preço desta derrota. Mas, ainda temos um ao outro, e, no momento só nos resta isso, um ao outro.
― O que será de nós a partir de agora, Samir...?
― Eu não sei, minha doce Madelaine... A única coisa que sei, é que apesar de tudo, ainda tenho forças para lhe proteger. Mesmo estando neste lugar, mesmo humilhado e destronado, ainda tenho forças para dar a minha vida por você.
E, dizendo estas palavras, Samir deposita um carinhoso beijo nos cabelos de sua amada esposa, que continua chorando em seus braços.
*****
Hannes, Valence e Raffi deixam a multidão e entram no palácio que reivindicaram para si. Os três seguem diretamente para a sala do trono, o lugar mais importante do palácio. Um salão amplo, decorado com muito requinte, tem janelas amplas decoradas com belas cortinas brancas e vermelhas, que em todo seu esplendor vão até o chão. Sobre o teto grandes e luxuosos lustres de cristais e ouro puro. No chão as mais lindas peças de tapeçaria, todas apresentando tons de vermelho, combinando perfeitamente com as cortinas das janelas. Nas paredes lindos quadros com bordas de ouro puro, que retratam os reis de outrora, todos os valiosos homens que já sentaram no trono e governaram o mundo com justiça.
E no centro do salão uma pequena escadaria, composta por dez degraus, que dá para uma parede pintada em branco com um grande quadro de ouro, em que está pintado o brasão da Família Real de Tandara: um escudo clássico ogival dourado com duas espadas de prata se cruzando, e no centro das espadas a letra “T” em ouro. Segurando o escudo, dois leões de ouro usando os diademas que os reis e rainhas de Tandara usam.
E na frente do quadro com o brasão da família real dois belos tronos confeccionados de madeira e revestidos de ouro, com os assentos em veludo vermelhos. No teto, o mais lindo dos lustres, também de ouro e cristais. E no chão, sobre os tronos uma bela peça de tapeçaria branca, que se estende por toda a pequena escadaria. Este é o salão mais importante de todo o palácio.
Sentindo-se vitorioso, Hannes contempla todo o local, ao lado de sua esposa e filho, e seus olhos se recaem sobre o trono, que é seu por direito e que nunca deveria ter pertencido ao fraco do Samir.
Bernadette chega ao salão e curva-se, sorridente, para o novo rei e a nova rainha de Tandara.
― Majestade. – diz a maga, se dirigindo a Hannes – O trono de Tandara agora é seu, fique à vontade para ocupar seu lugar de direito.
― Venha comigo, Valence. – diz Hannes – Agora que finalmente sou o rei de Tandara, você é minha rainha!
Os dois sorem às escadarias e se sentam nos tronos, seus lábios exibindo sorrisos cruéis de triunfo, enquanto Raffi e Bernadette assistem as cenas satisfeitos. O novo rei de Tandara observa toda a decoração da sala do trono, e se enfurece com as pinturas dos grandes reis do passado.
― Bernadette. – chama Hannes.
― Sim, majestade. – responde à maga.
― Ordeno que você chame alguns dos soldados para retirarem estes retratos das paredes de minha sala do trono. Eles devem ser substituídos o mais rápido possível por retratos dos grandes Guerreiros da Legião Maligna de Perrin.
― Como quiser, meu rei e senhor. – diz a maga.
― Agora me responda, Bernadette, você acomodou Samir e Madelaine onde ordenei? – o sorriso de Hannes se intensifica e seu rosto assume um ar sádico ao fazer tal pergunta.
― Sim, majestade. – responde à maga – Samir e Madelaine encontram-se agora prisioneiros na cela do subsolo. A pior e de mais difícil passagem de todo o palácio.
― Perfeito. – diz Hannes de forma cruel e sádica.
Raffi encara seus pais meio emburrado, fato que não agrade Valence, ao perceber, nos olhos negros de seu filho, que algo naquele momento de puro triunfo o desagrada.
― Qual o problema, Raffi? – diz a nova Rainha – Por seu olhar, tenho a impressão de que algo o desagrada em nossa vitória.
― Sim. – diz o menino, indo direto ao ponto.
― E o que o desagrada, meu filho? – pergunta Hannes.
― Por que não mata de uma vez Samir e Madelaine? – questiona o menino – Por que você os quer vivos? Eu quero ver sangue deles sendo derramado em sacrifício pela nossa vitória!
Hannes encara seu filho por uma fração de segundos e ri de satisfação. O menino não nega ser um descendente da Legião Maligna de Perrin. Mas, apesar do sangue dos mais sanguinários e cruéis guerreiros correr em suas veias, Raffi não passa de uma criança e ainda não sabe de nada sobre a satisfação de uma vitória, e principalmente sobre a satisfação de ver os últimos descendentes da Família Real de Tandara humilhados.
― Filho, se eu assassinasse Samir e Madelaine agora, perderia toda a satisfação de vê-los humilhados por perderem tudo. – diz Hannes sorrindo de forma cruel – Eles vivos, verão humilhados, prisioneiros em seu próprio castelo tudo o que farei em Tandara a partir de agora, o que será uma vitória muito mais completa. Se mata-los agora, tudo acaba. E nunca mais verei o rosto humilhado dos dois. Não, Raffi, eu os quero muito vivos, para que eu possa humilhá-los e pisoteá-los cada dia mais.
― Isso se chama vingança, Raffi. – completa Valence – Quando você crescer, saberá melhor do que estamos falando.
― Já entendi. – diz o menino – E gostei de poder humilhar o Samir e a Madelaine a cada dia que passa. Isso pode ser mais divertido do que ver o sangue deles sendo derramando!
― Exatamente, filho. – diz Hannes – Os dois passarão o resto de seus dias prisioneiros em seu próprio castelo – Vendo-nos triunfantes e gloriosos no trono que nos pertence por direito! Em um trono que sempre deveria ter pertencido a Legião Maligna de Perrin!
*****
A madrugada já recai sobre todo o reino de Tandara, e as pessoas já voltaram para suas casas, desiludidas após a fatídica noite que culminara em uma grande desgraça. Todo o palácio está cercado por homens da Legião Malina de Perrin, que não deixam ninguém se aproximar.
Em uma caverna no meio de uma floresta, Oliver, Sabina e Nadja se aconchegam ao lado de uma pequena fogueira, a fim de se aquecerem. Era difícil passar uma madrugada em claro com frio e um vento gelado a soprar lá fora. Sem muitas alternativas, tiveram que procurar um local seguro para passarem a noite, enquanto esperam o mestre de Sabina chegar.
― O mestre está demorando. – diz a menina, com ar sonolento.
― Ele deve estar ocupado. – diz Oliver – Você parece cansada, Sabina.
― Estou com sono. – diz Sabina – Em geral, papa e mama não me permitem ficar acordada até tão tarde. Espero que eles estejam bem, assim como o rei Samir e a rainha Madelaine.
Nadja olha com pena para Sabina, percebendo como o olhar da garota parecia triste ao mencionar os pais e o rei e a rainha. Sua aparência não era das mais velhas, e tinha a impressão de que Sabina não passava de uma menina, com um ar bastante juvenil e cheia de energia. Desde que a conhecera, nunca perguntara sua idade.
― Sabina quantos anos você tem? – Nadja se viu perguntando.
― Acabei de completar quinze, na última primavera. Mas por que a pergunta?
Nadja não tem tempo de responder, pois os três escutam passos, de alguém se aproximando. Oliver e Nadja assumem posições ofensivas, enquanto Sabina fecha os olhos por uma fração de segundos, voltando a abri-los e seu rosto assume uma expressão aliviada.
― Não se preocupem. – diz Sabina – É o mestre.
― Você tem certeza? – pergunta Oliver, ainda em uma posição ofensiva.
― Ela tem a mais absoluta das certezas. – diz Lamar, entrando na caverna e se aproximando dos três.
― O senhor demorou, mestre. – observa Sabina.
― Haviam assuntos que eu precisava lidar antes de vir ao encontro de vocês. – diz Lamar, se aproximando do trio e sentando ao lado deles – E devo parabenizar a coragem de vocês, por terem enfrentado em óbvia desvantagem os guerreiros da Legião Maligna de Perrin.
― Não havia como ficarmos parados diante de tudo aquilo, senhor Lamar. – diz Oliver.
― Pena que nosso esforço foi em vão. – completa Nadja – Pois agora o rei Samir e a rainha Madelaine são prisioneiros daquele Hannes.
― Não diria que foi em vão. – diz Lamar, olhando de Nadja para Oliver, e por último seu olhar recai sobre Sabina, que cochila deitada no chão.
O mago tira sua capa e cobre a jovem impulsiva. Nadja observa com atenção o gesto do mago. Seu olhar novamente recai sobre Nadja, que o olha de forma curiosa, como se ela quisesse lhe perguntar algo, mas não sabe como abordar o assunto.
― O que quer me perguntar, Nadja? – questiona o mago.
― Sabina me parece muito jovem para ser sua aprendiz, senhor Lamar. – observa Nadja – Ela tem apenas quinze anos. Por que a escolheu para ser sua discípula?
― Porque Sabina tem um dom que muitos pensavam estar desaparecido em nosso mundo. – responde Lamar.
― Que dom ela possui? – pergunta Oliver, de repente curioso.
― Sabina possui o dom da profecia. Há exatamente cinco anos atrás, ela previu que isto aconteceria.
O mago projeta em suas mãos um pequeno globo de cristal, e faz sinal para que Oliver e Nadja observem com atenção o objeto. De dentro do globo, uma fumaça começa a se formar, cobrindo todo o interior do objeto, a fumaça começa a tomar a forma de uma criança, aparentemente com uns dez anos de idade, que os dois logo descobrem ser Sabina, mais jovem. Os olhos da menina não tem nenhuma expressão e as pupilas e a íris sumindo, a boca da menina se abre em palavras estranhas:
“Chegará o tempo em que o mal tomará o poder... Sangue real será derramado e rei e rainha serão destronados por seu pior inimigo... Serão prisioneiros sem eu próprio castelo...”
Fumaça volta a cobrir o interior do globo de cristal e Lamar o faz desaparecer com um rápido movimento de mãos.
Nadja encara o mago sem conseguir encontrar as palavras certas para dizer a ele. Não consegue conceber o que acabara de ver. A impulsiva Sabina tivera mesmo uma visão com o rei Samir e a rainha Madelaine sendo destronados... Era, no mínimo, impressionante.
― Senhor Lamar... – Nadja tenta transformar os milhões de pensamentos em sua mente em uma pergunta coerente – O senhor sabia que isto iria acontecer... E mesmo assim não fez nada para evitar?
― Isto foi há cinco anos. – diz Lamar – Naquela época, eu não imaginava que algo assim poderia vir a se tornar realidade. Esperei um dia, um mês, um ano... E nada da profecia se concretizar... Então decidi adotar Sabina como discípula e a treinar, para descobrir se o dom dela era verdadeiro ou não. Esta noite nos provou que ela de fato possui o dom da profecia, que ainda deve estar latente dentro dela. Quando vi Hannes invadir o palácio, imediatamente me lembrei da profecia de Sabina.
― Então pelo que entendi Sabina tem este dom da profecia, mas não faz ideia de que o possui. – diz Oliver.
― Exatamente. – afirma Lamar – Por isso a quero a meu lado. Com o treinamento adequado e sendo possuidora de um dom poderoso como este, ela dará uma ótima maga, daqui a alguns anos. E o modo como ela enfrentou Hannes prova que ela jamais cairá para o lado da maldade.
― Isso é verdade. – diz Nadja – Sabina é fiel a nosso rei e a nossa rainha até a morte.
― E isso trás de volta o problema que temos. – diz Oliver.
― Senhor Lamar, não podemos deixar o rei Samir e a rainha Madelaine prisioneiros por muito tempo daquele homem. – diz Nadja com lágrimas nos olhos – Eles são bons, não merecem destino tão cruel. E o que houve com a princesa Elie?
Lamar olha pesaroso para Nadja, as palavras, pela primeira vez em anos, lhe faltando. Mas, precisava contar a ela, Oliver e Sabina tudo o que havia acontecido no palácio, pois precisará da ajuda dos três para executar o ousado plano de resgate que tem em mente.
― Vou contar a vocês exatamente o que aconteceu no palácio. – diz Lamar – Mas antes preciso acordar Sabina, pois ela também precisará ouvir. E, após minha narração, contarei a vocês o plano que tenho em mente para o resgate do rei Samir e da rainha Madelaine. É arriscado, mas creio que se colaborarmos uns com os outros, há grandes chances de dar certo.
*****
Na escuridão de uma masmorra fria, úmida e de atmosfera mórbida, Samir observa a respiração leve de Madelaine enquanto ela dorme, após lágrimas e mais lágrimas derramadas. O rei deposita um leve beijo sobre os cabelos de sua rainha, contente por ela enfim conseguir dormir e não ter que pensar em tudo o que aconteceu esta noite... Ou no que os espera daqui para frente...
Não sabe o que Hannes fará com eles... Não sabe que futuro incerto lhe aguarda... Não sabe se conseguirá proteger Madelaine... Não sabe absolutamente nada... A única coisa que ainda sabe, é que a dor da humilhação ainda o consome por completo, uma forte mistura de sentimentos, entre fraqueza, incompetência, humilhação e tantos outros sentimentos... Nunca mais será o mesmo homem... Pois sua fraqueza condenara sua pequena filha a morte, e condenara a si próprio e a Madelaine a isto... Sua doce e bela esposa não merecia esta condenação... Ela não fizera nada de errado... Não ela... Não sua Madelaine... Ela não merece este sofrimento...
― Perdoe-me querida. – diz o rei com voz baixa e rouca – Por minha fraqueza você tem que passar por isso...Por minha fraqueza você está condenada a isto...
O rei escuta passos se aproximando e seu instinto imediatamente entra em estado de alerta. Pode até ser um rei caído e derrotado, mas seu instinto de guerreiro ainda vive dentro de si. E algo em seu interior lhe diz exatamente quem é que se aproxima.
Com muito cuidado, apesar das grossas correntes em seus pulsos, ele deita Madelaine sobre o feno, não quer que ela veja o que imagina que está para vir.
Uma luz repentina invade o local, fazendo com que o rei olhe para a porta da cela, que se abriu de forma abrupta e olhe diretamente nos olhos negros, frios e triunfantes de Hannes.
― Gostando de suas novas acomodações, Samir? – pergunta Hannes com um sorriso cruel e com desprezo em sua voz.
Samir apoia-se na parede para conseguir ficar de pé e encarar seu inimigo como um homem e guerreiro honrado, apesar de tudo. As grossas correntes em seus pulsos e calcanhares, além dos ferimentos causados pela batalha dificultam tal ação, com dificuldade, o rei consegue ficar de pé, e encara seu inimigo olho por olho.
Hannes não gosta nem um pouco de encarar Samir assim, prefere vê-lo caído com um cão, no chão, lugar que ele merece. Não em pé, mostrando vestígios da honra que circunda a família real de Tandara. Ele fora derrotado, perdera a batalha, perdera a coroa, e mesmo assim sua aura emana uma majestade incrível, uma majestade que ele próprio está longe de possuir. E isto faz com que seu ódio por Samir só aumente. Fará este homem perder todo o ar majestoso que possui, toda sua imponência. Parece que a derrota, o assassinato da filha, a perda da coroa e a humilhação em público não foram suficientes para ele perder sua graça e sua aura de rei.
― Não quer responder minha pergunta, rei caído? – zomba Hannes, exibindo propositalmente o diadema de Tandara em sua cabeça.
Samir continua observando o inimigo em silêncio, as profundezas de seus olhos azuis encarando as trevas dos olhos negros de Hannes. Infelizmente, no momento, seu inimigo tem todo o poder, poder para decidir sua vida, e a vida de Madelaine, a quem precisa proteger. Apesar de tudo, não se curvará jamais a este usurpador, porque Hannes não passa disso, um usurpador, que carrega em suas veias sangue de um clã há muito amaldiçoado pelos reis de outrora. E, apesar de ter perdido uma batalha e sua coroa, ainda tem em suas veias o sangue de todos os grandes reis do passado, o sangue de todos os honrosos homens que deram sua vida e seu sangue por Tandara.
― Ao menos, Hannes, eu mantenho minha honra acima de tudo. – responde o rei – Não preciso usar de nenhuma artimanha ou qualquer tipo de ameaça para conseguir com que meu povo me aceite como rei.
A máscara de frieza de Hannes cai ante o comentário de Samir, o ódio assume não apenas o rosto, como todo o corpo do descendente mais poderoso da Legião Maligna de Perrin, fazendo com que ele queira sacar sua espada e acabar de uma vez com a vida de Samir. Mas ele contém sua raiva e se mantém estático, enquanto seus músculos formigam de raiva e humilhação pela amarga verdade proferida por Samir.
Samir percebe que suas palavras tiveram um efeito maior do que o esperado em Hannes. E, apesar de sua desfavorável situação, um pequeno sorriso surge em seus lábios, sorriso este que consegue desestabilizar qualquer calma que Hannes tenta aparentar. E o rosto do usurpador assume uma tonalidade vermelha, devido à raiva.
― Você perdeu tudo, Samir. E sua vida e a de sua esposa estão agora em minhas mãos. Um desejo meu e vocês dois estão acabados. Honra não o salvará do destino que tracei para você. Aliás, a honra é algo que não serve para nada. E você deveria ter perdido sua honra no momento em que perdeu sua coroa para mim. Você não é mais o rei de Tandara para me olhar deste jeito.
― Por acaso meu olhar o perturba, Hannes? Você pode ter tirado minha filha de mim, ter lhe roubado a vida, sendo ela apenas um inocente bebê, você pode ter roubado a minha coroa, meu palácio, meu trono, você pode ter feito a mim e a Madelaine prisioneiros, mas, nada disso fará você se tornar o rei de Tandara. E esta é a verdade amarga que você terá que conviver.
Samir continua encarando Hannes como um homem, olho por olho, embora sua atual condição não seja das melhores. Seus ferimentos ardem muito e doem por não terem sido tratados com antídotos, as correntes em seus pulsos e tornozelos impedem que consiga se locomover de forma coerente e não possui qualquer arma que possa usar, mesmo sabendo que as chances de se sair bem são mínimas. Porém, olhando bem dentro dos olhos de seu inimigo conseguira perceber a verdade que sua vergonha diante de seu povo lhe impedira de enxergar. E, mesmo estando condenado a ser prisioneiro deste homem, não o deixará lhe humilhar mais ainda. Não sabendo que ainda é o trunfo que Hannes tem, para continuar sendo o rei de Tandara, como é seu desejo.
A raiva de Hannes cresce cada vez mais, assim como também cresce a vontade de pegar sua espada e cravá-la no coração daquele rei caído, que tem a ousadia de querer enfrenta-lo.
― Cale-se! – diz Hannes, sem conseguir conter a raiva e o ódio em sua voz – Você agora não passa de um prisioneiro, Samir. Não tem mais nenhuma autoridade aqui para dar ordens a mim, que sou o único rei de Tandara. Entenda de uma vez por todas que seu tempo acabou!
― Meu tempo não acabou, e você sabe disso tão bem quanto eu. Você roubou minha coroa, mas isto não o torna rei. Lá fora, há algumas horas atrás, as pessoas recusaram-se a se curvar diante de você, Hannes. Elas não te aceitaram e nem te aceitam como rei.
― Ao que me lembro, todas elas se curvaram indefesas diante de meu poder! – profere Hannes com um brilho maligno em seu olhar.
― Até onde me lembro, as pessoas se curvaram diante de você após sua ameaça de dar um fim à minha vida e a de Madelaine, e você sabe disso tão bem quanto eu. E é por este motivo que você não deu e nem dará um fim à minha vida, Hannes. Você precisa que eu esteja vivo para continuar sua chantagem com meu povo e continuar se intitulando rei. Você não é rei e nunca será! E esta é a verdade amarga que você terá que conviver pelo resto de seus dias!
Hannes não consegue segurar sua raiva e saca sua espada, apontando a arma de forma violenta para o coração do rei, que não se intimida com tal gesto.
― Se eu quiser, posso acabar com sua vida aqui e agora! Sem nenhum remorso ou arrependimento, Samir.
― Faça-o então. Fará com que eu encontre o descanso na glória da companhia dos meus antepassados. Perdi uma batalha para você, e achei por um momento que tivesse perdido minha honra, mas aqui, neste momento, apesar de tudo, começo a recuperá-la recusando-me a me curvar diante de você. Se você me matar agora, não terei motivos para me envergonhar na presença gloriosa dos reis de Tandara, sangue do meu sangue!
Sentindo cada gota de seu sangue transbordar de ódio, Hannes cospe no rosto ferido de Samir, para então empurrar o rei contra o chão, que devido a sua atual condição cai sobre o feno, e usa uma de suas mãos para limpar seu rosto.
― Farei com que cada minuto seu neste lugar seja um verdadeiro inferno, Samir!
E, dizendo estas palavras, Hannes tranca a porta da masmorra com ferocidade e deixa o local com passos pesados e apressados.
Samir olha pesaroso para Madelaine que continua dormindo e ficara alheia a tudo o que havia acontecido. A condenação de ambos estava apenas começando, e, apesar da coragem repentina que sentira ao enfrentar Hannes, teme pelo bem de Madelaine. A partir de agora, precisa encontrar forças para si próprio e para passar a ela, a fim de que se mantenham vivos no futuro cruel e sombrio que os aguardam...
*****
A luz do sol começa a surgir sobre o mundo de Tandara, trazendo um novo dia com novas esperanças para Lamar, Oliver, Nadja e Sabina. Após uma noite de vigilância, explicações e planejamentos, os quatro estão prontos para invadirem o palácio e colocarem um ousado plano de resgate em ação.
Sabina usa uma magia de ocultamento e consegue encobrir todos os rastros de que os quatro passaram a noite naquela caverna, tão próxima ao palácio. Se os homens da Legião Maligna de Perrin chegassem perto dali, nem desconfiariam que os quatro estiveram ali.
― O senhor tem certeza de que fará isto, mestre? – pergunta Sabina, preocupada – Consumirá muita energia do senhor.
― É a única chance que temos de resgatar o rei Samir e a rainha Madelaine. – diz Lamar – Temos que tentar. Não posso deixar meus amigos nas mãos de Hannes por muito mais tempo.
― Vamos tentar! – diz Oliver, obstinado – Com este plano conseguiremos entrar no palácio sem sermos notados.
― E provavelmente Hannes deve ter prendido o rei Samir e a rainha Madelaine nas masmorras do subsolo. – Nadja completa o amigo – Então tudo será uma questão de acharmos um caminho seguro até lá.
― E com a distração do mestre, será fácil. – diz Sabina.
― E então tudo será uma questão de tirarmos os dois em segurança de lá. – diz Lamar – Mas não pensem que será uma tarefa fácil, podemos encontrar obstáculos inesperados!
― Estamos prontos! – afirma Sabina – Agora vamos deixar de conversa e partir pra ação! Nosso rei e nossa rainha precisam de nossa ajuda!
― Vamos! – diz Nadja.
― Estamos prontos. – diz Oliver.
Os quatro seguem com passos leves e silenciosos até os grandes e imponentes muros do palácio real de Tandara. Observam, apreensivos, que o local está com o guarda triplicada, todos os guardas pertencentes à Legião Maligna de Perrin. Nenhum dos guardas de Samir.
― Mestre, sua vez. – diz Sabina.
Lamar fecha seus olhos, e se concentra, evocando seu poder. Uma aura poderosa começa a emanar do corpo do mago, todo seu grande poder vindo à tona naquele momento. Sabina, Oliver e Nadja sentem seus corpos estremecerem ante a demonstração de parte do poder do mago.
― Ruminatio!**
Ao evocar a magia, a aura em volta do mago começa a tomar a forma humana, até transformar-se em uma cópia fiel e perfeita de Lamar.
― Tudo pronto. – diz o Lamar verdadeiro.
― Ótimo! – diz Sabina – Operação Distração começar!
― Minha vez! – diz Nadja — Ignis cortinae!***
Labaredas de fogo saem das mãos de Nadja, indo na direção da entrada do palácio, atraindo, inevitavelmente, a atenção de todos os guardas para o local. A duplicata de Lamar se tele porta para o local e, quando os guardas da Legião Maligna veem a cópia do mago, soam o alarme, e imediatamente todos os soldados disponíveis começam a se reunir na entrada do palácio.
Os quatro companheiros olham no local e observam o caminho ficar livre para que possam entrar em segurança. Eles estão em frente a um alto muro. Lamar usa seu cajado e conjura uma escada corda e a joga no muro, a corda se enrosca no muro através do poder de Lamar e os quatro começam a subir o muro escalando-a, e tomando o máximo de cuidado para fazerem o mínimo barulho possível.
Ao fim da escalada, eles partem para a descida, ainda com a ajuda da corda conjurada por Lamar, para não fazerem barulho e assim evitarem serem descobertos. Ouvem barulho de batalha, a duplicata de Lamar fazendo estragos nos soldados da Legião Maligna.
― O senhor está bem, mestre? – pergunta Sabina, observando as gotas de suor que caem sobre o rosto de Lamar.
― Estou. – responde Lamar – Magia de duplicação exige muita energia, é apenas isso. Mas vamos, não há tempo para se preocuparem comigo agora. Temos uma missão a cumprir!
Os quatro começam a andar pelo jardim, olhando sempre por todos os lados a fim de não serem vistos por ninguém, e assim passarem despercebidos. Com a confusão que a duplicada de Lamar provoca, é fácil para eles conseguirem atravessar o extenso jardim e chegam a uma das entradas que dá para o interior do palácio. Para a sorte dos quatro, as portas encontram-se abertas.
― Esta é a entrada sul do palácio. – diz Lamar – A escolhi porque todos os guardas devem estar usando a entrada norte para irem à luta contra minha duplicata, e porque por aqui será mais rápido chegarmos às masmorras do subsolo.
― Ótimo. – diz Oliver – Vamos nessa, não podemos perder muito tempo aqui.
Furtivamente, os quatro adentram o palácio e guiados por Lamar correm em disparada em direção as escadarias que levam ao subsolo. Quando estão quase chegando às escadarias do corredor oeste, eles são cercados por quatro guerreiros da Legião Maligna de Perrin.
― Quem são vocês e o que querem aqui? – pergunta um dos guerreiros.
― Não podemos deixar que eles deem o alarme. – alerta Nadja.
― Não deixaremos. – diz Oliver, sacando sua espada e partindo para atacar um guerreiro, que se surpreende com o ataque repentino.
Lamar também saca uma espada, e com ela ataca dois guerreiros ao mesmo tempo, que se defendem como podem do ataque do mais poderoso mago de Tandara.
― Gladius ignis!**** – evoca Nadja.
E nas mãos da ruiva surge uma espada envolta em chamas, que ela usa para atacar o guerreiro que tenta desesperadamente cravar uma lança em seu coração.
O último dos guerreiros tenta correr para soar o alarme de invasão, a fim de pedir reforços. Porém o homem é cercado por Sabina.
― Não vou deixar você passar! – diz Sabina, decidida.
― E você acha que uma pirralha como você será capaz de me impedir? – zomba o guerreiro.
― Gladius lucis!***** – evoca Sabina.
E nas mãos da menina surge uma espada envolta em luz. Sem nem pensar duas vezes, Sabina parte para atacar seu adversário, que usa uma lança para se defender dos golpes da menina. Com um golpe rápido, Sabina dilacera a lança de seu adversário, transformando-as em pó. E com um rápido golpe ela acerta o coração de seu adversário com a espada de luz.
― Fique sabendo de coisa. – ela diz, enquanto observa seu inimigo cair no chão, jorrando sangue e perdendo sua vida – Não sou discípula do Mago mais poderoso que já pisou nos campos de Tandara à toa.
Oliver está um uma luta corpo a corpo contra o segundo guerreiro, espada contra lança, os dois atacando e esperando uma brecha na defesa adversária. O guerreiro do mal quer acabar com a luta, e tenta cravar a lança em um golpe arriscado no ombro de Oliver, para lhe lesar os tendões do braço. Porém, quando o guerreiro está quase acertando seu alvo, Oliver segura a ponta da lança com sua mão com toda sua força, e não se importa que seu sangue que começa a jorrar, continuando a apertar a lança.
O jovem sorri de forma vitoriosa para seu adversário.
― Você errou. – diz Oliver, usando a outra mão para cravar a espada no pulmão de seu adversário, dando fim a vida do inimigo.
Nadja continua em uma dança de golpes com seu adversário, espada contra lança em movimentos perfeitos. As armas se chocam fazendo barulho, um sem conseguir atingir o outro, só esperando a brecha para um golpe fatal.
A ruiva se concentra e aumenta a temperatura de sua espada, fazendo com que seu adversário, sinta o calor fumegante de sua arma, mas ela mesma não sente o calor anormal da arma, pois ela é descendente de uma poderosa família com a incomum habilidade de manipular o poder do fogo a sua própria vontade.
Seu adversário de desestabiliza pelo calor emanado por Nadja, e a ruiva aproveita este descuido para dar dois golpes muito rápidos, um atingindo o braço e o outro o estômago de seu inimigo, que urra de dor e cai no chão. Como último golpe, Nadja, ainda com a espada em chamas, acerta o coração de seu adversário, o sangue do guerreiro do mal jorra do local do corte, respingando no rosto da ruiva. Ela olha, satisfeita, para o inimigo que jaz morto a sua frente antes de limpar o sangue impuro que respingou em sua bela face.
Apesar de estar enfrentando a dois guerreiros, Lamar não vê dificuldade alguma em seus adversários. São guerreiros inferiores, que estão longe de serem comparados a um mago como ele. Com apenas um pensamento, Lamar transfigura seu cajado em uma espada, agora, tem duas armas em seu poder, uma para cada adversário. Matará os dois em um único golpe.
Com a espada em uma mão e o cajado transfigurado em outra espada em outra, o mago faz um rápido movimento circular, dando um giro de trezentos e sessenta graus ao mesmo tempo em que cruza as espadas e as lança, cada uma contra um inimigo, atingindo ao mesmo tempo o coração de ambos. O golpe fora tão perfeito e rápido que os inimigos nem viram o que os atingiu.
― Acabamos por aqui. – diz o Mago, fazendo com que a espada volte a sua forma original de cajado.
Correndo pelos corredores o máximo que seus pés permitem, os quatro rapidamente chegam às escadarias que dão diretamente para o subsolo do palácio. A escadaria tem formato circular, e mais de duzentos degraus, iluminados por uma sucessão de tochas. As escadarias são estreitas, de modo que só é permitida a passagem de um por vez, em fila indiana.
― Chegamos às escadarias. – diz Lamar – Estamos perto. Agora eu vou à frente, para o caso de aparecer mais algum inimigo. Sigam-me em silencio e não deixem de vigiar a reta guarda, não podemos de forma alguma ser vistos aqui. Ou colocaremos toda a operação de resgate em risco.
Com Lamar seguindo a frente, os quatro começam a descer as escararias no maior silêncio que conseguem, a fim de não colocarem o plano a perder. Sabina observa Lamar com atenção, e percebe o mago suando. Obviamente, ele estava sentindo o esforço de ter seu corpo duplicado, em breve seu físico chegaria à fadiga, e Sabina torce para que isto aconteça só depois de terem resgatado o rei Samir e a rainha Madelaine, e que rei e rainha possam fugir do palácio em segurança.
Eles terminam de descer as escadarias e chegam a um amplo corredor, com um único guarda a postos. Instintivamente Oliver leva sua mão a espada embainhada, porém Lamar faz sinal para que ele não ataque.
― Conheço este homem. – afirma Lamar.
Seguindo Lamar, os três jovens se aproximam do guarda, ainda precavidos e prontos para mais uma batalha. O guarda se volta para os três em sinal de alerta, porém quando vê Lamar sorri aliviado e corre em direção ao quarteto.
― Meu senhor Lamar. – diz o guarda – Os céus devem ter ouvido minhas preces. Não acredito no que meus olhos veem. O senhor realmente veio.
― Era só questão de tempo até que eu aparecesse. – diz Lamar. – Mas o que você faz aqui?
― Hannes... Aquele demônio prendeu meu rei e minha rainha na masmorra dos fundos, a pior de todas elas, meu senhor... Ele ameaçou matar o rei Samir e a rainha Madelaine se eu não me curvasse diante deles e obedecesse as suas ordens. Não tive escolha, estou envergonhado... Nunca mais poderei olhar com honra diante de meu rei e minha rainha.
― Como se chama, rapaz? – pergunta Lamar, de forma compassiva.
― Makan, meu senhor. – responde ele.
― Você não tem do que se envergonhar, Makan. – continua Lamar – Agora, eu preciso saber, você vai nos ajudar a chegar até onde Samir e Madelaine são mantidos prisioneiros?
― Com toda certeza, meu senhor. – responde Makan – Só não tenho as chaves da masmorra, Hannes anda com elas o tempo todo.
― Isso não é problema para nós. – observa Sabina.
―– Vamos. – diz Nadja – Não podemos perder um segundo aqui.
Guiados por Makan, os quatro rapidamente chegam às portas da masmorra e param em frente a ela. Sem perder tempo, Lamar prepara seu cajado e mira a porta do local.
― Samir, eu quero que você e Madelaine se afastem. – diz Lamar – Sei que podem me ouvir, vou explodir a porta.
― Lamar...? – a voz de Samir é de surpresa, do outro lado da porta – O que faz aqui...?
― Não há tempo para explicações. – diz o mago – Apenas afasta-se. Não podemos perder tempo. Crepitus!!!******
E do cajado do mago sai uma forte luz que explode a porta, fazendo surgir fumaça sobre os escombros. Lamar e Makan adentram a masmorra e ajudam Samir e Madelaine a sair, rei e rainha ainda com correntes em seus pulsos e seus tornozelos.
Oliver saca sua espada e com dois rápidos golpes quebra as correntes que prendem Madelaine, enquanto Lamar usa sua espada para destruir as correntes que prendem o rei.
― Meu rei e minha rainha estão bem? – pergunta Sabina.
― Não há tempo para isso agora. – diz Lamar, começando a respirar de forma ofegante – Precisamos sair deste lugar o mais rápido possível.
― Vamos. – diz Nadja. – Não podemos perder tempo.
Os sete estão prontos para tentarem sair do castelo, quando sentem mais de uma presença se aproximando das sombras do corredor.
― Então vocês acham mesmo que podem tirar Samir e Madelaine deste lugar? – pergunta Hannes, seus olhos negros brilhando como ônix de tanto ódio.
E, atrás de Hannes, Valence, Raffi e Bernadette, impedindo a passagem do grupo guiado por Lamar.
CONTINUA...
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