A Profecia

30 CAPÍTULO XXX


Notas iniciais
Maior capítulo que já fiz!!! Com muito carinho, hein!

HELENA

O medo crescia quanto mais nos aproximávamos do Castelo Décimo. Quase não consegui respirar quando estávamos frente a frente a ele. Todas as coisas nas quais temi toda a vida voltavam como num filme antigo. Inclusive meu maior medo atual: perder Zyah.

A área em volta do Castelo estava em ruínas, como se tivesse sido queimada. As árvores estavam mortas e aos pedaços, assim como as casas. Havia alguns esqueletos aqui e ali. Mas maioria deve ter virado pó.

Subimos as escadas de mármore negro. Estalando um som tenso a cada pé que pisava. Quando todos subiram os degraus, as Portas se abrem sozinhas.

— Péssima ideia – murmura o amigo de Faya, Liu.

— Sempre foi uma péssima ideia – digo.

Entro lado a lado a Zyah nos Salões escuros do Castelo Décimo.

Quando colocamos os pés dentro da sala, tochas de fogo nas paredes se acendem sozinhas. Iluminando o grande salão de paredes negras até o fim.

A Sala era enorme e estava incrivelmente vazia.

Vazia exceto pelo enorme espelho prateado no centro... E por uma Cyra moribunda caída no chão.

Zyah corre até ela. Nós o seguimos, desconfiados da armadilha.

Cyra estava pálida, muito pálida. Não aguentava falar com Zyah, tampouco respirar. Ela olhou para cada guerreiro em volta dela, as armaduras brilhantes fazendo seus olhos recuarem. Ela reuniu força para dizer uma única frase:

— Deviam ter ido embora.

Nesse momento, Ysill entra na sala.

— Olá, Herdeiros!

Espadas são desembainhadas e postas ameaçadoramente na direção do Governante.

— O que você fez com minha irmã?

— Relaxe, Zyah. Ela vai viver. Se a Guardiã e eu fizermos um acordo.

Dou um passo a frente.

— O que você quer de mim? – pergunto.

— Você sabe! Abra o Portal.

— Ela não pode atravessar! Já deixou Nitha e não pode voltar...

— Quem vai atravessar sou eu! – ele grita, depois exibe um sorriso – mas não depois da minha vingança. A Besta vai despertar, assim que você, Helena, tocar o Sino Décimo.

— Não faça isso! – grita Faya.

Olho para ele com tanto ódio que não sei explicar em uma folha de papel. Ele ainda sorria, mas os olhos eram frios e melancolia e ódio. — Por que você não toca? – pergunto.

— O Sino é poderoso, e único. Assim como o Espelho, só posso invoca-lo uma vez por ciclo. Mas, ao contrário do Espelho, não significa que outro Habitante não possa.

— Mas Helena não é habitante – ouço Drei (ou seria Droi?) dizer atrás de nós — ela é Guardiã! Não teria poder nenhum aqui!

O sorriso de Ysill aumenta de forma maligna. Ele estala os dedos. Soldados vêm na forma informe de uma sombra, os mesmos que vi na Aldeia Sexta. Eles prendem cada um dos guerreiros presentes com correntes negras.

Todos, exceto um. O tão famoso Espião. Fraco e ferido a apenas segundos atrás, numa fantasia perfeita. Todo meu corpo tremeu ao vê-lo levantar-se.

Ao ver Cyra levantar-se.

- CYRA? – pergunta Zyah debatendo-se nas correntes – Cyra, o que está fazendo?

- Garantindo meu poder! – ela responde – coisa que eu nunca teria na Aldeia Primeira. Pois tudo vai até você. Tudo!

Ela caminha até Ysill e entrega um pacote azul marinho a este.

- Sua visita à Aldeia Quarta foi de sucesso pelo visto...

- Muito sucesso. Mas precisa ser usado logo. Senão a Besta não despertará a tempo.

Ysill se vira para mim.

- Vamos, querida neta? Não quero perder mais nenhum mínimo segundo. E seus amigos também não...

Ouço os Guardiões sussurrarem duvidosos. Querida neta. Eu devo ser uma traição para eles pior do que Cyra. Só por causa do sangue que corre por minhas veias.

Posso ouvir Lyra me chamar de traidora. Droi e Drei concordarem com ela. Olho de relance para trás e vejo maioria dos rostos que me eram tão queridos, decepcionados e magoados.

- Onde está o Sino? – pergunto a Ysill.

O Governante Décimo sorri e aponta o dedo indicador para cima. Levanto a cabeça. Um enorme sino negro detalhes vermelhos estava preso ao teto que antes parecia tão fraco. Ysill aponta com o queixo para uma escada em espiral no canto da sala.

- Damas primeiro.

- O que é a Besta? – pergunto.

- Eu. – mas quem responde não é Ysill, é Cyra. Olho assustada para a garota tão inocente que agora exibia um sorriso sarcástico e cruel.

Como em câmera lenta, Ysill entrega o pacote azul para ela. Cyra derrama o pó negro que saiu de lá no próprio rosto, de olhos fechados como se tomasse o melhor banho de sua vida. Quando ela os abriu, estavam completamente negros.

- Sabe, Helena, as vezes me sinto mais Décima do que você – a voz dela começa a mudar, para algo mais sombrio... Mas gélido – por favor, toque o Sino. Para que a mudança seja permanente.

Não entendo o que ela diz. Mas a pele dela começa a escurecer, como se sombras e cinzas começassem a grudar em sua pele pálida. Os olhos exibem uma aura vermelha por dentro da imensidão negra. Algo inexplicavelmente assustador.

- Ande Helena! – diz Ysill – ou vou mandar Hy esfaquear seu amiguinho em poucos segundos.

Ouço o grito de Zyah. As correntes estavam se tornando mais apertadas. A faca negra do soldado de sombra estava a centímetros do pescoço de Zyah.

Subo as escadas.

Pense nas conversas, Helena! Pense na vovó. Suas falas loucas de quando eu era menor se passam pela minha memória.

“O meu poder e o do seu avô são muito fortes”. “Mas são inúteis perto das outras Aldeias unidas”.

O que o Capitão Reyn havia dito? “O Fundador Décimo foi derrotado pelo poder dos Outros Fundadores”.

Havia algo que eu podia fazer.

Olho para Zyah. Ele implorava com os olhos para que eu não fizesse o que Ysill mandava. Levanto o dedo mindinho e faço uma pequena chama negra com ele. Imploro para que ele entenda o que quero dizer.

A confirmação é uma chama prateada em seu dedo menor.

Abro um mínimo e imperceptível sorriso.

- Exército Décimo! – grita Ysill – temos uma nova batalha.

Milhões de soldados-sombra entram na Sala. Junto deles algumas criaturas que achei que só existissem na mitologia ou em contos de fada: um Minotauro, alguns Trolls e quatro Quimeras. E até mesmo guerreiros “humanos”. Todos assustadores e poderosos.

Olho para os outros Herdeiros. Zyah não conseguiria convencê-los a me ajudar. Não depois do que descobriram sobre mim. Só me restava bater aquele maldito sino para que todos eles não fossem mortos.

Ysill olhava para mim fixamente.

- Bata o sino, Helena – ouço sua voz no fundo da minha mente – ou farei você invoca-lo contra a vontade.

Eu sei que ele era capaz disso. Bastava me fazer tropeçar e BUM! As doze badaladas do sino começam.

A pele de Cyra começou a virar rocha... Não. Não era rocha. Era carvão. Carvão que começava a rachar, e no meio das lacunas que as rachaduras faziam, uma luz alaranjada brilhava. Fogo. Fogo no lugar de sangue.

Eu estou frente a frente ao sino. A transformação de Cyra estava se completando. Bastava que eu tocasse no objeto preto à minha frente para que toda a Nitha fosse condenada, e a Besta imortal.

Então uma pequena luz dourada chama minha atenção.

Viro os olhos para os Herdeiros. Faya olhava para mim. O dedo mínimo levantado, exibindo uma luz dourada. Ao lado dela, Liu também exibia sua confirmação.

Outra luz brilha. Uma chama pequena e verde. Imperceptível para Ysill, que desfrutava da “vitória”. Mas para os desesperados, como eu estava, qualquer mínima luz no canto da sala é um sinal de esperança. E Wai-Zi proporcionava essa esperança.

A próxima chama a brilhar é branca. E os olhos brancos e brilhantes que me observavam com confiança eram os de Wuley.

Uma chama laranja brilha. Atrás dela uma multicolorida. Meu sorriso aumenta um pouco quando consigo ver Droi e Drei olhando para mim com a confirmação. Eu estava errada. Eles entendiam.

A próxima luz é azul. E os olhos azuis que me oferecem confiança são os de Ley. Incentivando-me a sair de perto daquele maldito sino.

Faltava só uma luz, para que o plano fosse posto em ação. A luz mais poderosa e relutante que já presenciei todos os anos em Nitha. A luz da Aldeia Sétima.

Olho para Lyra. Implorando que compreenda. Que nos ajude. Seus olhos roxos me encaram sem expressão alguma. Mas seu dedo mínimo levanta bem lentamente. E uma chama púrpura se acende nele.

O plano fora confirmado.

Ande com isso, Helena Rodriguez, grita a voz de Ysill em minha cabeça, quer que seus doces amigos morram?

Olhe para cima, Ysill.

Ysill olha para mim. Meu dedo ardia com a chama negra que brilhava nele. Então, bem ao lado de Ysill, uma luz dourada explode. Queimando todos os guerreiros-sombra que prendiam meus amigos com correntes.

Ysill leva um susto. E eu desço as escadas para me juntar a eles.

- Maldita fada do verão – cospe Ysill. Atrás dele, Cyra completava sua dolorosa transformação. Precisávamos acabar com aquele exército o mais rápido possível.

- Poupe seus xingamentos para quando for morrer – diz Liu.

- Vocês não vão impedir a Besta. Ela vai destruir Nitha, mesmo que por apenas alguns minutos...

- Pode apostar que não.

Uma flecha prateada a travessa a Sala, acertando a testa do enorme Minotauro, que tombou morto no chão de mármore preto.

- Bom trabalho, Zyah – ouço Ley dizer baixo.

Ysill estala os dedos. Os guerreiros décimos vieram correndo num grande estrondo. Eram muitos para nós...

Dois guerreiros de pele pálida e armaduras negras se aproximaram, erguendo as espadas. Matar-me-iam em questão de segundos. Desviando de ambos os golpes, enfiei as duas adagas, uma em cada coração.

Outra explosão de luz dourada. Faya estava usando bastante seus poderes de fadinha! Ela e Liu explodiam os guerreiros-sombra do outro lado do Salão.

Wai-Zi matava como uma máquina de guerra, usando apenas a katana e invocando algumas plantas venenosas que brotavam do chão. Um poder que deveria ser da Aldeia dela.

Zyah atirava flechas prateadas sem descansar, e sua quantidade nunca diminuía tampouco acabava.

Então me vi de cara a cara com um enorme bicho estranho. Um animal de três cabeças: Uma cabeça de leão, outra cabeça de cabra e a outra cabeça (a do meio) era de dragão. Seu rabo era de serpente. Uma Quimera.

Ela vomitou chamas ardentes em minha direção. Consegue atingir meu braço direito antes que eu rolasse para longe. Grito de dor. Invisto contra a fera e lanço a adaga, que corta seu rabo de serpente.

Uso magia para puxar a adaga de volta, como uma corda negra.

A Quimera ruge bem alto. Vem correndo na minha direção e dá um grande salto. Deslizo para baixo de sua barriga e rasgo ela a media que a Quimera passa. Sangue caía no meu rosto como uma torneira!

A quimera cai morta no chão.

- HELENA ABAIXA – ouço Zyah gritar.

Deito no chão e assisto milhões de flechas passarem sobre minha cabeça. Derrubando mais uma quimera que investiria contra mim.

Levanto.

- Obrigada!

Zyah sorri.

Continuou enfiando a adaga em qualquer um que passasse na frente, entrando meio que em piloto automático. Acho que no geral esfaqueei seis guerreiros mortais, feri mais uma quimera e matei um cão de três cabeças.

Eu não conseguia lutar com os guerreiros-sombra. Precisava de magia para mata-los e quando eu tentava usar magia para isso, ela os fortalecia ao invés de fazer o contrário.

Um grito é ouvido. Viro os olhos para o outro lado do salão, onde Ley tombava no chão, com uma espada atravessada no peito. Corri até onde ele estava e lancei a adaga na testa do guerreiro que o ferira.

- Ley?

- Helena...

Arranco a espada de seu peito. Ele cospe sangue e acaba engasgando.

- Chame... Faya... – ele implora.

- Ley, você não vai morrer, tá legal?

- Só... Chame ela.

Viro e meus olhos procuram Faya, desesperados.

- FAYA! FAYA!

A fada vem correndo até onde eu estava, o rosto perfeito sujo de sangue, mas ainda sim impecável. Ela se ajoelha ao lado de Ley, chorando.

- Ley... – ela consegue dizer em meio aos soluços.

Enquanto isso eu lutava com mais dois guerreiros mortais. Desvio do golpe de um, e rasgo a jugular do outro. Abaixo quando a espada do guerreiro tenta me decapitar e enfio a adaga em sua barriga.

Eu estou lutando com pelo menos uns três guerreiros enquanto Ley e Faya tem um momento de despedida romântico e melancólico.

Uma luz vermelha explode a uns metros de distância. E lembro que a Aldeia que possui o símbolo vermelho é só uma. A Aldeia Quinta.

- SYR! – grito.

O garotinho de 11 anos aparece em meu campo de visão, vestindo armadura vermelha e lutando com soldados-sombra. Ele olha para mim e acena. Então ele vê Ley, e vem correndo. Matando qualquer guerreiro que se colocava em sua frente com raios de chama vermelha.

Ele chega.

- O que houve com ele? – pergunta quando eu acabei de enfiar a adaga em um guerreiro qualquer.

- Espada. Guerreiro. Décimo.

Um cachorro preto com olhos vermelhos rosna bem na minha frente. Me lanço contra ele, corpo a corpo, e rolamos pelo Salão. Um tentando arrancar o coração do outro fora.

Ele prende as longas unhas negras em meu braço, ficando em cima de mim e prendendo-me ao chão. Sua baba, que escorria de sua boca, era sangue ao invés de saliva. Não havia como eu me mover. Eu iria morrer, certamente!

Então recorro à magia décima.

- Kares tre yr tuah. Leku y Darin. Kyra fre dy duah.

Eu não gostaria de traduzir o que eu havia dito. Pois coisas décimas são tão sombrias que mesmo traduzidas ao papel podem causar a maior das polêmicas e o pior dos temores.

O cachorro começou a ganir de dor. Suas unhas afrouxaram-se do meu braço e consegui me libertar. Quando levanto, ele está se retorcendo no chão. Torturado por minhas palavras. E quando tento parar o sofrimento não consigo.

E eu enfio a adaga em seu peito de uma vez.

- Você o condenou à pior das torturas antes da morte – diz uma voz ao meu lado.

- Sinto muito, Syr – digo para o pequeno Herdeiro Quinto.

- Ley está morto.

- Também sinto por isso.

Ele respira fundo.

- Eu vim aqui sozinho. Não sei se meus pais me seguiram... Mas gostaria que tivessem. A situação está fugindo do controle.

Olho de relance para ele. Estava assustado. E isso me fazia querer protege-lo mais, pois sua semelhança com André era tão grande que eu quase o chamara assim.

- Devemos unir nossas forças – diz Syr – só assim podemos vencer...

Um barulho enorme silencia todo o salão. Amigos e inimigos. Um enorme monstro havia se erguido no meio dele. Um monstro feito de pedra vulcânica, lava e sombras.

A Besta havia finalmente se erguido.

Notas finais
LUTO: Ley.