A Profecia
6 CAPÍTULO VI
Notas iniciais
- NÃO! — o grito de vovó faz a sala tremer, e me deixa gélida e assustada com sua reação a uma simples brincadeira.
- Vó, eu estava só brincando.
- Então brinque de outra coisa — ela diz tentando se acalmar.
Não consigo dizer mais nada. Nem para acalma-la de uma vez, nem para convencê-la de que era de fato brincadeira. Mas e se não fosse? E se eu realmente quisesse visitar um outro Universo? Imagine quantas belezas devem haver nele.
- Eu fui designada para garantir que ninguém o atravesse — ela continua — sou a Guardiã.
- Espera. Guardiã? Aquela coisa que você dizia para mim e para Andre quando éramos pequenos?
Ela respira fundo.
- Eu precisava preparar o inconsciente de vocês. Porque um dia, os dois terão que assumir meu papel.
- SEU PAPEL? — comecei a me irritar profundamente — EU TINHA 10 ANOS E ANDRÉ TINHA APENAS 5. O QUE VOCÊ ESPERAVA?
- Helena...
- SABIA QUE É POR ISSO QUE QUASE NÃO VISITAMOS A SENHORA? POR CAUSA DESSAS ESQUISITICES. VOCÊ ASSUSTAVA ELE, VOCÊ ME ASSUSTAVA!
- Sinto muito por isso, minha querida — ela diz fraca — mas é o meu papel avisá-los de certa forma. Entende?
Respiro fundo.
- Entendo, vó!
- Temos que sair daqui agora — ela diz olhando em volta da câmara, como se ela fosse nos engolir.
- Por que?
- O ciclo... É hoje. Meio-dia.
- Que ciclo?
Ela abriu a boca para falar, mas sua voz foi interrompida pela badalada de um relógio.
Isso não era possível. Não havia nenhuma igreja pela vizinhança, nem esses relógios com sinos.
Vem a segunda badalada. E eu fico completamente desligada. Posso ver vovó gritar, mas ela está muda. Não consigo ouvi-la. Ela parece preocupada.
A terceira badalada. Ainda não ouço a vovó e o quarto está ficando escuro.
Quarta badalada. Vovó está chorando, não a ouço de jeito nenhum. Tem um buraco negro no espelho, onde deveria estar o vidro.
Quinta, sexta. O quarto está mais escuro. O buraco está ainda maior. Vovó ainda está muda.
Sétima e oitava badalada. Posso ver um céu escuro e estrelado em volta do espelho, ele crescia pela escuridão do quarto. Como se eu estivesse no espaço cideral. Vovó tenta agarrar meu braço, ela não consegue. Por que?
Nona e décima. Meus olhos estão ficando escuros. Quase não enxergo vovó batendo nas paredes escuras. Não consigo ouvir o que ela diz.
Décima primeira badalada. Vejo minhas mãos, estão desaparecendo.
E chega, por fim, a décima segunda badalada. E minha audição volta num estalo. Mas sinto algo me puxando para trás, onde está o espelho.
Só ouço vovó gritar meu nome, antes da escuridão me engolir de vez.
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Acordo num lugar escuro e úmido. Com paredes de mármore preto, pelo o que posso sentir. O espelho exatamente igual o da minha avó está atrás de mim, sem o buraco negro.
Grito pela vovó, querendo que ela respondesse. Mas nada acontece, só ouço o meu eco pela pequena sala.
Me encolho no canto e choro. Não encontro nada a fazer além disso. Tento me proteger do frio, mas não tenho sucesso.
Começo a ouvir passos se aproximarem. Passos que ecoavam por todo o lugar. Mas eu não poderia saber de onde vinha, a sala não possuía portas.
Do outro lado do mármore, ouço uma voz masculina:
- Quem está aí?
- Helena! — grito.
- De onde você é?
Eu já responderia "Rio de Janeiro", mas lembrei que ali não ahvia Rio de Janeiro.
- Sou da Terra!
Silêncio. Tive medo de que ele fosse embora e me deixasse aqui para morrer. Mas ao contrário, um homem de meia-idade atravessa a parede. Tinha a pele branca e luminosa (que parecia brilhar), e os cabelos eram brancos e possuíam um brilho prateado como a lua.
Sua expressão era sombria.
- O que quer aqui?
- Não quero nada. Eu nem queria estar aqui, na verdade.
Eu o avalio um momento.
- Você é um elfo?
- Um o quê?
- Deixa.
- Bom — ele diz — meu nome é Sollun. Eu sou o Guardião do Espelho.
- Prazer. Você poderia me dizer... Onde estou?
- Está em Nitha. O quarto planeta de dois sistemas solares.
- Vocês têm dois sóis? — pergunto me levantando.
Ele sorri.
- Tem que ver quando os dois se põem. Agora venha, tenho que te levar lá para cima. A não ser que queira continuar aqui.
- Não — respondo imeditamente — me leve!
- Muito bem.
- Como vou sair? — pergunto hesitante, olhando a parede dura a minha frente.
- Basta só andar em direção a parede. Relaxe, eu abri a porta.
Não entendi nada. Faz fiz o que ele fez. Atravessei a parede e fui parar num lindo vale, com árvores que pareciam brilhar com o sol, e construções belíssimas de granito e mármore, flores se encontravam aqui e ali. Era incrível.
- Estou em Valfenda? — pergunto admirada.
Sollun me olha com o cenho franzido, como se eu fosse um alien. Ah, esqueci. Eu era um alien!
- Não — ele diz ainda estranhando — você está na Aldeia Primeira.
- Que nome criativo — murmuro — são quantas Aldeias?
- 10. Mas preferimos dizer que são 9.
- Por que?
Ele olha para os lados, como se certificasse que ninguém o ouvisse. Ele chega perto e fala bem baixinho:
- Não sei se sou a pessoa certa para lhe contar... Mas, digamos que a Aldeia Décima não é um lugar agradável de viver.
- E por que não?
Ele hesita. Mas continua:
- Todo o Mal que pode existir em Nitha está concentrado nela. Todas as criaturas perversas saem da Floresta Negra, e ela fica colada com a Aldeia Décima. Os habitantes de lá não são pessoas nada boas... Acho que nem são pessoas. Mas acredite, Helena, não quer visitar a Aldeia Décima, pode ser a última coisa que fará em vida.
Fico em silêncio, enquanto o sigo.
- Onde você está me levando? — pergunto.
- Para o Castelo. Acho que o Governante vai querer falar com você.
- Eu quero ir embora, Sollun!
- Querida Helena, só irá embora no próximo ciclo.
- O que é um ciclo?
- Acho que equivale a.... Um ano terráqueo!
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