A Procura Da Minha Personalidade
3 Capítulo 3
—O que foi que você aprontou pelo amor da santa Madame?
Eu não intendo os adultos, em especial minha mãe e o Sr. Emet, pelos simples fato de pedirem que as pessoas falassen sobre o que aconteceu, mesmo eles sabendo o que aconteceu.
Eu estava muito cansada e acabava de voltar da escola, mas minha mãe decidiu que devia me dar sermão. Em pleno calor que fazia no mês de Agosto em Houston, as pessoas queriam gastar as forças azucrinando as outras.
—O.k. Eu só, apenas, unicamente, somente, lancei bolinhas(talvez bolas) de papel na sala de aulas.
—E porquê você teve tal atitude?!
—Porque eu sou muito fixe?—fiz o sinal de vitória com o dedo indicador e o do meio.
—Lince você sabe que nós somos uma família muito conhecida. Mas você sabia que certas atitudes podem manchar o nosso nome? Começa com bolas de papel, depois sprays nas paredes da escola, depois faltar as aulas, bebidas alcoólicas, drogas—levantei as sobrancelhas.
—Mãe,eu-só-apenas-unicamente-somente lancei bolas de papel em uma sala de aulas. Será que é tão difícil de entender que não foi nada de mais?
—Não tente me enrolar, e só para saberes estás de castigo—disse ela com o dedo indicador a centímetros da minha cara.—Você não pode sair por aquela porta—ela apontou em direção a porta de entrada principal da casa.—Nesses três dias.
—Mãe, você não pode me colocar de castigo. Eu sou uma jovem de dezoito anos. Seria mais fácil se nos mudássemos para um hospício, não achas?
—SUBA JÁ!— levantei os braços em rendição.
A vida é mesmo um tédio. Você acaba sendo castigado por coisas minúsculas. Eu sabia que fazer o que eu fiz era um mau comportamento—pelo menos segundo a escola e minha mãe—Mas quem nunca ao menos deu risada na sala de aulas.
Eu estava nervosa e irritada com o Sr. Emet,o Sr.Adam e com a minha mãe. Aquele professor enviou para à sala do diretor as pessoas que ele bem intendeu(tudo bem que eu também estava lançando aquelas bolas de papel, mas nem, TODOS ESTAVAM LANÇANDO), o Sr. Emet me deu suspensão e a minha mãe me colocou de castigo. Ela podia baixar a bola comigo e só me dar sermão, mas não, castigo.
É óbvio que se dinheiro caísse do céu, eu estaria na minha própria mansão, com escadas de purpurina, cómodos de chocolate e neve espalhada pelo quintal. Mas não, lá estava eu, de castigo.
A parte boa de estar de castigo era que minha vida se resumia em: celular, redes sociais, computador, séries, filmes e comida. A parte má de eu estar de castigo era que: eu também amava sair por uns minutos de casa, para respirar ar puro, andar baralhadamente pelas ruas de Houston, ver gente como eu, apreciar uns tanquinhos e rir a toa.
Eu já estava com tédio, precisava ir apanhar ar e ver gente, mas como eu não podia, decidi tratar do meu futuro misterioso. Tratar do meu futuro, seria descobrir que curso eu gostaria de seguir, o que implicava eu saber dos meus gostos e o que implicava saber quem eu era.
A vida inteira as escolhas que seriam minhas eram feitas pela minha mãe, vestuário, acessórios, calçados, atividades, conhecidos, estilo de vida,etc. Mas quanto mais eu crescia, mais me sentia sufocada e baralhada.
Já que a internet tem tudo, eu decidi pesquisar “como descobrir o melhor curso para mim”,e apareceram um monte de páginas de "como descobrir o meu eu interior", e em seguida um monte de culturas e documentários, mas o que me chamou mais atenção, foi uma página que falava sobre comunidades e movimentos. Tinham artigos sobre comunidades xamanistas e movimentos hippie, punks, contracultura, hipster e mais.
Fiquei entediada com o xamanismo porque em umas das características, dizia que entrar no mundo espiritual ou descobrir uma realidade próxima a nossa e escutar os nossos sonhos, fazia parte desta comunidade. O movimentos hippie também me atraiu, pelo simples fato de terem como lema “paz e amor”, adorarem a liberação da mente e viverem em comunidade.
Em meio ao desespero, decidi que eu iria querer experimentar cada tipo de liberdade que aqueles estilos de vida que mais me interessaram dispunham. Iria começar pelo xamanismo. Pelo que eu li, era só uma questão de entrar em transe, meditar e ouvir os meus sonhos. Para entrar em transe eu precisaria de um tambor e baquetas, objectos que para uma jovem como eu, de castigo e limitada pela mãe, seriam difíceis de conseguir.
Como eu tenho problemas psicológicos causados por não sei quê, preferi acreditar que uma panela de pressão tinha o mesmo som de um tambor, e provavelmente a mesma função num ritual de transe. Também conclui que a colher de pau, teria a mesma função que as baquetas.
Aquilo estava decidido. Naqueles três dias de suspensão, eu iria tentar descobrir quem era eu, o que eu sentia, o que gostaria de fazer e como eu iria vivenciar os próximos dias, meses e anos da minha vida. Talvez foi o momento em que eu mais senti que tinha uma causa importante pela qual se preocupar, afinal de uma forma se tratava do meu futuro.
—Lili!—gritou minha mãe da parte de baixo da casa.—O almoço já está servido!
Saí lentamente da cama, coloquei o computador sobre o criado mudo, não me preocupei em calçar algo, porque eu adorava estar descalça. Assim que abri a porta, minha mãe gritou novamente:
—Lili, o que você está fazendo aí, mesmo depois de eu informar que o almoço está servido!?
E eu respondi:
—Já estou descendo mãe!
—Porquê estás descalça?
Porque eu quero, porque não sou obrigada. Não gostou? Manda vírus.
—Eu gosto de estar assim. É confortável .
—É confortável mas não é ético. Imagina num jantar de gala, você vai aparecer descalça?
Aquela repentina vontade de cantar "I don't care, I love it, I don't care"
—Mãe sinceramente, estamos em casa e só você que está incomodada com isso—falei me sentando a mesa.
—Pois é, nem?— concluiu meu pai, deixando-a chateada.
Estava tudo correndo bem no almoço, até minha mãe tocar no assunto do acontecimento na escola. Eu sabia que não ia servir de nada ela tocar naquele assunto, mas também sabia, que ela só fazia aquilo para se exibir como uma mãe preocupada.
—Bom, devo informar que Lili na companhia de seus colegas, levaram convocação e suspensão por três dias, por fazerem práticas terroristas no decorrer da aula de química. E só para deixar claro, aquele garoto estranho, filho da vampira acionista das casas publicadoras Vallmor… como é mesmo o nome dele? Deixa eu lembrar...Aiden! Está nesse grupo—revirei os olhos.
Minha mãe nunca foi com a cara de Dayse—mãe de Aiden—, e foi por isso que ela não gostava lá tanto dele. Por ter se casado com um jornalista, e ainda conviver com isso todos os dias, minha mãe se tornou numa caseira locutora problemática.
—E o que é que você chama de práticas terroristas? Já que todos sabemos que você tem uma grande arte em fazer zoom das circunstâncias, séria melhor nos esclarecer—Emily e eu demos uma risada despercebida.
—Eu? Eu sou uma madame, uma das acionistas da grande linha de lojas de grife Harper and Grace, daria ótimo papel de monge, porque eu apenas falo a verdade.
—Bom, a turma inteira estava lançando bolas de papel, aí como eu não queria ser o único alvo, eu entrei na brincadeira. E o professor simplesmente mandou para a sala do diretor, quem ele quis.
—Só isso!?
—E você pergunta, só isso?—reclamou minha mãe.—É para você como pai colocar ela nos eixos.
—No momento não estou falando contigo Harper.
OH, CHORRE RIOS DE LÁGRIMAS!
—Ouça Lili, no momento que você fez aquilo, você deve ter se sentido feliz, ou talvez na adrenalina, mas lá mais em frente, você vai se recordar e dizer “como eu me comportei mal”, assim como eu penso que você o fez. Mas mesmo assim você vai rir-se da situação em que estava lá você e seus colegas se divertindo e encrencados, assim como eu vou fazer—meu pai entrou em um ataque de gargalhadas.
Meu pai tinha razão, no momento em que uma pessoa se envolve numa brincadeira, ela não se importa com os riscos que pode estar correndo, é a típica adrenalina de se sentir feliz.
—Não posso dizer que foi um bom comportamento, mas eu tenho certeza que a maioria dos alunos faz isso, ou qualquer outra brincadeira na sala de aulas, é como um historial das coisas que os alunos fazem. Por isso não posso julgar-te e nem te aprisionar como certas pessoas fazem, e infelizmente não posso tirar-te da situação. Mas evite estar sempre envolvida em encrenca.
COMO EU AMO A SUA MANEIRA DE ME DAR SERMÃO, PAI!
—Está bem.
—Mas é tão engraçado imaginar a situação—meu pai disse rindo.—Guerra de bolas de papel, só os estudantes mesmo.
—E você? Vai deixar seu marido contribuir na formação terrorista da filha? Que por acaso é sua enteada?
—E porque eu iria me impor nas decisões dele? Meu bebé é um ótimo pai—Emily passou a mão pelo ombro do meu pai e fez um biquinho com os lábios.
—Você é mesmo, maravilhosamente fútil.
—Obrigada, ao menos sabes admitir isso, e é uma honra ser elogiada por você. Já que para elogiares alguém demora séculos—me segurei para não rir. Provavelmente ela demoraria os séculos que minha mãe demora para elogiar alguém, até descobrir o significado da palavra fútil.
—Com licença— disse eu, depois de me sentir satisfeita.
—Aonde você vai?
—Já que eu não posso colocar os pés para fora de casa, vou para o meu quarto. Ainda bem que ele fica dentro da casa, assim não me podes proibir de ir para lá.
—Eu vou para a editora—disse meu pai.
—E eu dar um passeio—disse Emily.
—Vocês não precisam falar o que vão fazer. Não sou obrigada a ouvir—disse minha mãe.
—Bom trabalho pai—ele acentiu.
Passei o resto do dia no quarto pensando nos meus planos, como eles seriam executados e eu ainda não tinha uma ideia clara da realização.
O dia passou bem devagar, o que não ajudou porque primeiro: eu estava de suspensão; segundo: tinha como bónus de suspensão, o castigo; terceiro: a lentidão da passagem do dia, só tornava mais sofredor, tedioso e deplorável o meu estado.
Eu podia simplesmente comer, mas eu não iria passar o resto do dia a comer, assistir filmes, sequestrar pessoas (era uma ideia interessante e seria mais fácil e suscetível se meus pais colaborassem em me dar sessenta mil dólares por mês).
Naquele dia dormi cedo, porque teria que acordar cedo para executar meu primeiro plano. Não realizei meu plano de fuga do jantar, e eu não era pessoa de “estou de castigo? Vou fazer drama alimentar”, eu comia em todos os momentos, era igual a voto de casamento, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, comida hoje e comida para sempre. Porque comida é para se comer.
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