—Lili! Lili! Acorda Lili!

Despertei com os gritos da minha mãe chamando pelo meu nome, sendo realista era assim que eu acordava em todos os sábados. Eu não merecia acordar tão cedo em pleno sábado e muito menos pela voz que minha mãe emitia quando ficava irritada, parecia que uma ferra estava me caçando, ninguém merece.

Levantei-me da cama, permaneci alguns segundos em pé, e quando eu mais esperava cai sobre ela e voltei a para as lindas nuvens.

—Lince Alice Vallmor, eu já falei para você acordar, desse jeito vamos chegar atrasadas!—berrou ela abrindo a porta do meu quarto e entrando apressada. Ficou parada na porta olhando para a imagem assustadora que eu trasmito logo pela manhã e continuou com seu discurso, mas com uma voz mais calma, como de uma professora de aulas de etiquetas: —Uma verdadeira dama não deve chegar atrasada à compromissos.

—Uma verdadeira dama não grita
com os outros em plenas cinco horas da manhã—murmurei sobre a almofada.

—O que você falou?!

Quando eu menos esperava, tive uma queda e a minha cara embateu-se contra o chão. Não imaginei que ela ouvisse. Como sempre.

—Nada. Eu falei que… você é muito linda e… diva… e… cautelosa. Bem disposta também—disse eu ainda com sono me correndo nas veias.—E só isso—ela arqueou as sobrancelhas.

—Levanta as tuas nádegas imediatamente desse chão!—vociferou ela apontando o dedo para o chão.

—Tudo bem, já vou, só um momento—ela cruzou os braços me esperando levantar.— Ah, será que podes sair antes que eu levante?—ela ergueu a sobrancelha.— É que fica um pouco constrangedor eu levantar-me na sua presença— menti falando lentamente.

—Que filha mais estranha a que eu tenho—ela fechou a porta e eu voltei a sonecar, estendi-me no chão e já estava quase caindo num profundo sono, até minha mãe surgir novamente do além e gritar:

—Eu já falei para você acordar e ir se arrumar!—levantei-me na velocidade da luz e sentei na cama ainda desarrumada, como se um furacão tivesse dormido nela.

—Eu quero te ver entrando no banheiro, vai logo!

—Está bem, só deixa eu arru...

—Não me enrola menina porque eu e você sabemos que quem arruma todos os quartos é a empregada. Vai logo!

Corri para o banheiro e fiz minha higiene sem pressa alguma, atitude que a deixou aborrecida. Após isso, desci para tomar o pequeno almoço para saírmos de casa. Ela detestava chegar atrasada aos seus compromissos por culpa das pessoas, e era bem provável que ela matasse quem fizesse isso, mas como filha dela eu não iria ser morta por isso—pelo menos é o que eu pensava—, ultimamente eu a aborrecia propositadamente.

Minha mãe decidiu que todos os sábados, deveríamos ir a um orientador particular.O orientador ao qual ela me arrastava pertencia ao circulo de velhas amizades da família dela, um homem com entroncamentos na cara, uma floresta amazónica em volta da boca e que parecia ser o filho do papai noel.

Em seu escritório haviam manuais de guias de carreira, para que eu escolhesse o curso que devia seguir. Realmente não era eu quem me dedicava a tentar escolher, porque minha mãe fazia uma lista de cursos ao gosto dela e eu teria que escolher de entre eles.

—Bom Lince, vamos começar?—assenti com a cabeça.—O que você gostaria de fazer no futuro?

—Sinceramente não sei.

—O que queres dizer com "não sei"?

—O senhor "não sabe"? "Sei", é a conjugação do verbo "saber" na primeira pessoa do singular no presente do indicativo segundo a...

—Basta, deu para perceber.

Suspirei.

—Quais são suas matérias favoritas?

—Eu não tenho matéria. favorita—coloquei meus braços cruzados sobre a mesa.

—Hum…hum—minha mãe limpou a garganta, e eu voltei a colocar meus braços sobre as pernas, mas não pude evitar revirar os olhos.

—Lince—disse o orientador chamando minha atenção com um manual de cursos na mão—O que você acha de linguística?

—O que é que eu vou fazer com um monte de línguas?

—Bom, você poderia ser intérprete.

—Hmmm, não gosto da ideia, eu gastaria muita saliva com isso.

Ele manteve a sua cara séria e continuou:

—E contabilidade?

—Meu sonho nunca foi contar dinheiro alheio. Até porque já é doloroso não ter o meu para contar.

—É assim que você raciocina? Um contabilista é responsável pelo
controle do movimento financeiro de empresas, toda a movimentação de ganhos gastos e ofertas. Essa profissão exige conhecimentos que passam por campos de outras ciências. Você tem ideia de quais são?— respondi não com a cabeça, afinal nem ouvi metade do que ele disse.—Jurídicas, comerciais, administrativas e muitas outras. Fiz-te perceber?

—Eu só acho que não me sairia bem nesse curso, e até posso dar-te um exemplo. Na semana passada, mamãe deu-me 100 dólares para a mimha refeição na escola por uma semana. Acontece que o dinheiro acabou em três dias—minha mãe fez um olhar de soslaio, olhar de quem queria transformar-me em cinza, não por eu ter gasto rapidamente a quantia, mas com o que eu gastei, ou seja doces, chocolates, sorvetes.

Dei de ombros, ela tinha que saber que nem todos nasceram para ter corpo da modelo da Victoria secret's. Foi nisso que deu. A conversa devia ser orientador e eu, mas foi orientador, eu e uma intrusa que responde como minha mãe, e daí aconteceu que ouviu o que não devia.

—Então, o senhor acha que uma pessoa que gasta 100 dólares que tinham finalidade de uma semana, em três dias, é capaz de contabilizar o dinheiro dos outros? Eu só não quero acabar presa por falir uma empresa.

—Hm, direito?

—O quê? —ergui a sobrancelha.

—O que pensas a cerca da área de direito?

—Bom, direito envolve criminalidade, e quanto mais longe do crime eu ficar, menos risco de sequestro eu tenho.

AÍ VEM O SERMÃO DO VOVÔ MATUSALÉM.

—Deixa eu explicar-te algo.— não, não deixo, cala boca!— A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é
quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando
encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do
coletivo. Não somos melhores, nem
piores, somos iguais. Melhor é a causa pela qual lutamos. Tudo
que nos rodeia possui algum sentido jurídico.

— Mas nesse momento a luta de escolher um curso, não é do coletivo, é minha.

O orientador era uma pessoa com a voz tão calma, que a sua fala parecia uma canção de ninar. Até cheguei a sentir uma pontada no coração por ele gastar seu tempo comigo, eu não queria estar ali, não adiantava em nada.

—E o que você acha de turismo?—falou minha mãe.

—Eu acho que é um bom curso—comecei, o que fez ela abrir um sorriso e afastar as suas costas da cadeira.—mas não, obrigada—ela revirou os olhos e voltou na sua posição ereta.

—E que área você pretende seguir? Deixa eu adivinhar. Medicina?!—perguntou ela fingindo entusiasmo.

—Isso é tão maravilhoso mãe, como você descobriu? É muito bom saber que você conhece sua filha—imitei o falso entusiasmo dela.

—Você quer fazer medicina? Lili que bom, então está tudo resolvido.

—Claro…que não—disse eu a fazendo bufar.

—Cinema?—Continuou o orientador.

—Interpretar meu estilo de vida é o suficiente.

—E que estilo de vida é que você tem?
—Sim, que estilo de vida é que você tem?—repetiu minha mãe.

—O.k. Esqueçam o que eu disse—minha mãe soprava se leque e na outra mão segurava um dos manuais de guia de carreira.

O Sr. Beckam— o orientador— me entregou um manual e disse "Dê uma vista de olhos". E foi o que eu fiz, folhear as páginas, apreciar os símbolos e folhear as páginas, afinal ele disse "dê uma vista de olhos" e não "leia".

—Lince ainda não encontrou o curso dos sonhos, mas nós iremos tentar no próximo sábado com uma nova lista de cursos— disse minha mãe ao orientador.

Talvez eu fosse culpada daquelas rondas todas porque sempre que o orientador tentava falar comigo, eu respondia o contrário do que deveria.
Eu não sabia o que fazer, mas eu tinha a certeza que não precisava de um orientador, ele praticamente era manipulado pela minha mãe.

—Tudo bem, então, vemo-nos no próximo sábado.

Depois que saimos daquele lugar, passamos por variadas lojas e casas de "amigas" da minha mãe, o que levou quase todo dia e só depois disso ela decidiu que devíamos retornar à casa.

Ela gostava que as coisas fossem perfeitas aos seus olhos, como o pouco uso de calças, muito uso de sapatos de salto, postura e boas amizades, ou seja, amizades que te levam ao topo.

Nessa política de que os opostos se atraem, teve como exemplo o casamento dos meus pais. Eles podiam não ser tão opostos, porque meu pai tinha os mesmos gostos de música que a sua ex-esposa, mas em uma coisa ele é diferente, no carácter.

Meu pai nunca faria uma lista de cursos para mim e muito menos iria me obrigar a usar certo tipo de roupa ou escutar certo tipo de música, para ele as pessoas são felizes de meios diferentes. Tanto que casou com alguém que é feliz a viver a vida dos outros. ARAZOU PAPAI!

Mas isso já não fazia mais o caso, porque eles já estavam separados a quase três anos, mas como minha mãe era uma pessoa de grandes desejos e ricos interesses, preferiu continuar a viver com seu ex-marido e aturar a actual esposa dele.

Meu pai também não era nenhum ingénuo, ele se divertia pelo fato de irritar a ex-esposa e a esposa e fazer com que houvesse discussões entre elas. Devo admitir que era muito engraçado.

Assim que chegamos a casa, eu fui direto para sala de estar, deduzi que meu pai estivesse lá, e acertei. Já eram 4:20 da tarde.

—Boa tarde pai —sentei-me ao lado dele.

—Olá minha rainha—disse ele tentando me abraçar e depositar um beijo na minha testa.

—Espera até sua esposa ouvir isso— gargalhamos.

—Falando de mim?—minha madrasta entrou como se estivesse desfilando em uma passarela.

—Se o fato dele—apontei para meu pai.—me chamar de "minha rainha" é falar sobre ti? Sim nós estávamos falando de você.

—Huu, isso foi doloroso—disse ela colocando a mão no peito e depois inclinou o corpo colocando a cara dela próxima a do esposo e disse: — bebé, vou dar umas voltas com as minhas amigas, não me esperem para jantar, beijinho—deu um selinho no meu pai e saiu do mesmo jeito que entrou.

—Caramba, como você consegue isso?
—O quê? Viver com a ex. e a atual? Fácil, imagine que você tem dois sapatos com vida, um velho e outro novo, você vai manter o velho no armário porque ele já foi seu favorito um dia, mas você não vai usá-lo, porque ele já não serve e já não faz mais o seu tipo, e se ele ver que você esta usando muito o novo, vai ficar incomodado por ter sido trocado e vai sempre tentar rebaixa-lo—ele riu e eu perguntei:

—Qual é a graça?— perguntei sem intender nada.

—Lilo, sapatos não sentem ciúmes—ele gargalhou e eu apenas o observei. Tem piadas que só as pessoas que as vivenciam sabem a graça.

—Espera aí, você está pensando em deixar sua esposa? Pai!

—Lilo minha princesa, daqui a uns quinze anos, seu pai já não vai ser o mesmo pegador e charmoso de sempre, então é melhor eu aproveitar a época do—ele cruzou as pernas de uma forma feminina e disse com uma voz calma e fina:—“ ai como ele é charmoso e com ar de responsável”.

—E se todas essa suas paixões decidem ficar para sempre nessa casa, você vai fazer o quê?

—Formar um império de ex-mulheres e enriquecer com isso—piscou o olho para mim e dessa vez eu gargalhei.

—Como foi com o Sr. Beicon?

—É Beckam pai, e aconteceu o mesmo de sempre. Assim como um pequeno conflito sobre gostos e desgostos.

—Mas você sabe que cedo ou tarde, terá de descobrir o que quer fazer na vida. Você já tem dezoito anos e no próximo ano, entrará na faculdade.

—Eu sei papai. Mas eu preciso de espaço, e não de sufoco, que é o que a mamãe sempre me deu.

—Ah, a sua mãe é assim, e você já sabe qual é sempre a resposta dela.

—“Devemos nos preocupar cedo com o futuro!”— dissemos em uníssono e gargalhando, mas fomos logo interrompidos.

—De que tanto riem?—perguntou minha mãe entrando na sala com uma chávena cheia de chá gelado.

—Isso te interessa?

—William, William, William, você sempre educado!—ela levou a xícara a boca: —Hmmm, maravilhoso.

—Obrigada, senhorita—minha mãe fez cara de tédio. Meu pai sabia que ela odiava de ser chamada assim.

—Eu já vou saindo, vejo que estou sobrando. Sou muito nova para presenciar essas coisas.

—Você já é maior de idade e precisa escolher um curso urgente—bufei ignorando o comentário. Chegava a ser surpreendente a maneira como minha mãe sempre procura uma maneira de acabar com o clima de conforto.

Levantei-me para ir à cozinha praticar meu desporto favorito, comer. Comecei com um simples hamburger, e mais um, e no fim foram três hamburgers, duas fatias de bolo de chocolate, uma tosta de atum e duas latas de refrigerante. Contando que não iria comparecer ao jantar, tudo certo.

Estava me sentindo muito melhor, por onde a minha mãe me levou só comi alimentos verdes, quase sai correndo pelo péssimo cardápio que habitava naquelas casas, e que infelizmente dava voltas pela minha.

Depois de reembolsar o meu amigo estômago por ter aguentado a manhã e a tarde toda com pouca porção de comida, fui para meu quarto me desmontar. Tomei banho, vesti o meu pijama com desenhos de pizza e decidi assistir filmes.

Optei por comédia, para alegrar um pouco a minha noite. Escolhi como o primeiro da lista “Ace Ventura: detetive animal”. Tem filmes que uma pessoa não se cansa de assistir, talvez pelo facto de eu ter pré-mortes de tanto rir, é que eu gostava desse. Apaguei a luz para estar num ambiente próprio de cinema e cliquei no play.

Quando chegou a parte mais animada do filme, ouvi passos no corredor e se aproximavam ao meu quarto.
Em movimentos ninjas que eu aperfeiçoei durante muitos anos de prática, fechei a tela do computador, lancei-o debaixo da cama, peguei no celular e lancei-o na poltrona que ficava em frente a minha cama e por fim enrolei-me no edredom. Ainda bem que eu sempre apagava a luz. Salva pelo cinema particular caseiro.

—Lili, o jantar está na mesa e temos que estar lá todos para comer juntos—permaneci em silêncio, sem exagerar com roncos ou ruídos respiratórios.

—Lili por favor, eu sei que tens o computador debaixo da almofada—disse ela levantando a almofada extra, e não encontrando nada.—E o celular na mão.—ela levantou meu braço e deixou-o cair de volta na cama após não encontrar nada.—E embalagens de doces e chocolates cobertos pelo edredom.—ela descobriu o meu corpo e depois lançou o edredom de volta sobre o meu corpo.

Ela ficou procurando provas que indicavam que eu estava acordada—como das outras vezes que ela me apanhou em flagrante— mas não achou nada, o que a levou a sair do meu quarto. Com o passar do tempo eu fui aprendendo que um criminoso não usa os mesmos métodos duas ou mais vezes (não que eu fosse uma, mas a teoria servia).

—Tuts, tuts, tuts, aham, vai Lili, aham, vai Lili— festejei baixinho rodando os meus braços para a mesma direção.—Lili você é a melhor—cochichei e gargalhei em silêncio.

Voltei a pegar no computador e continuei a minha seção de cinema caseiro particular e noturno.

Notas finais

Oi gente, aqui é a vossa querida deusa do nilo, ClioPatra, que está falando.

Gente, os primeiros capítulos da história, são uma introdução da vida da Lince, não demora muito até a história realmente avançar, e mexer com as vossas estruturas kakakaka

Para você que está lendo isso, a gente está namorando! Se reclamar, vamos casar!

Bjs :-* Com todo ódio da ClioPatra .

Ops. Brinks. Todo amor. Vos amo. VOS AMO TÁ?