A Prisioneira
1 Prólogo
O vento frio atravessava-me e fazia-me estremecer. Era tão frenético e insensível que podia senti-lo cortar a pele do meu rosto à medida que aumentava a velocidade das minhas pernas para qualquer lugar avante. Às minhas costas os raios de sol se apagavam com o fim da tarde, morrendo em riachos pintados de cor laranja cintilante.
Um pântano nefasto a minha dianteira me esperava. Sob a luz minguada do sol que partia, transcorri à vegetação arbustiva que impetuosa me abraçou, apresentando-me à grandeza de seus arvoredos e convencendo-me definitivamente da minha certeza pelo medo que começava a crescer por todas as partes do meu corpo. Esta mesma luz, que desaparecia por completo, mostrou-me que ao continuar sem ela me perderia. Sobrou tempo apenas para me fazer menção a um manto de águas paradas a alguns quilômetros a diante e soube que depois dele, não conseguiria continuar.
A noite definitivamente caíra, mais rapidamente ainda, dentro daquele terreno coberto de águas rasas. Perdendo toda a referência que ganhara, freei sem sucesso à beira do manto, o qual ouviu um grito desesperado saltar da minha garganta, ecoando assustadoramente por todos os ângulos quando caí afundando-me a poucos centímetros nas águas densas que banhavam a vegetação. Levantei-me sentindo o vestido encharcar-se. O frio que antes cortava o meu rosto, agora fazia o mesmo com todo o meu corpo. Reatei sentindo de volta a terra firme que sustentara meus últimos passos antes de cair e dali rastejei-me para longe das águas que de tão gélidas, queimavam.
A adrenalina pulsava em cada célula do meu corpo. Esquivei-me tentando tomar o caminho de volta, agora a passos indecisos, exaltados pelo medo, cegos pela escuridão, diferentes dos que, apesar do medo, rápidos corriam antes decididos a uma linha reta. Meu peito arfava e percebi que minha força era fraca diante a solidão. Estava desolada e o meu medo impedia de ver o que ansiava. Metade de mim era silêncio, mas a outra era grito. Queria ser ouvida para que a prece viesse me resgatar, mas não podia gritar, não podia pedir socorro em meio a um pântano desconhecido tomado por ruídos e almas despovoadas.
Levei as mãos à boca a fim de abafar um gemido de pavor. Não havia mais nada a perder. Já estava perdida. A noite era minha nova dona. Ela me tomara e queria se aventurar comigo por caminhos indefinidos. Deixara neste momento de ser minha conselheira, como costumava ser, ajudando-me reencontrar minhas ideias e passou a conduzir-me por labirintos que me afligia enquanto o frio ressecava a minha pele.
O silêncio era ensurdecedor. Dentro mim, vozes e sentimentos chocavam-se e a garota desencorajada, sozinha e desprotegida no pântano não tinha rebrilho para se proteger. Depois de conhecer a escuridão, definitivamente não temia mais a morte. Corri sem nenhum sentido, ainda com o peito arfante. O desespero demoraria a ir embora, até mesmo depois que a luz aparecesse. Se ela aparecesse. Outro grito. A noite sabia do meu rumo incomum e não abriria as portas de seu labirinto até me ver exausta. Ela se alimentaria do meu cansaço tirando-me ao mesmo tempo do meu sono tranquilo. Mesmo desvairando-se, forcei-me para buscar um caminho. Um caminho de luz.
Precisava sair daquele pântano viva, então o caminho para a luz começou desesperado e instintivo. Mandava a terrível sensação de morrer ali embora. Precisava depressa de um modo para encontrar-me. Fiz de conta que ainda respirava e voei rumo a um ponto de luz qualquer. Meu coração batia forte e este fato comprovava minha presença viva na terra. Bem viva. Foi quando meu rosto atordoado descortinou a lua cheia que se escondia por de trás de galhos e folhas de algumas das mil árvores que riscavam o céu escuro, revelando seus feixes brancos e brilhantes. Pude sentir que respirava de verdade. A morte ainda não chegara para mim. Havia encontrado a luz.
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