Notas iniciais
"Cheiro de Infância?
Lençóis no varal,
Inda úmidos, doces,
Pendurando lembranças."

-Francismar Prestes Leal

Baseado em fatos reais.

Todas as crianças cantavam animadas, era um domingo daqueles lotados, o sol já ia embora e a noite caía sobre a vizinhança.

Era tempo daqueles que as crianças ainda cantavam em fila o hino nacional e algumas cantigas de boas vindas assim que chegavam no colégio para mais um dia letivo.

Mas, voltamos ao domingo...

Era quase noite, chamaremos a quase noite de "noitinha", e lá estava a princesa que usava chinelos. Não era uma chinesa cheia de roupas ou alguma japonesa perdida por acaso na vizinhança, era a garotinha mais animada do bairro, do tipo "Maria- João".

"Um dia você aprende, que menina brinca com menina, e menino brinca com menino" era a frase típica das "mocinhas" comportadas que tinham quase tudo, menos graça. Elas não brincavam.

Usavam suas roupas bonitas e suas botinhas, tinham bonecas grandes quase do tamanho delas; que também usavam roupas bonitas e botinhas.

"Você não usa botinhas, Princesa?"

"Talvez eu não goste muito!" ela pensava.

"Talvez eu não queira ter uma boneca dessas, tão grande, eu me assustaria a noite com esses olhos me olhando..."

Era coisa inevitável querer brincar de pique-esconde, mãe da rua, elefante colorido e outras brincadeiras mais divertidas que o treinamento camuflado de serviçal dona de casa, que as mocinhas comportadas brincavam.

A mais forte da dor era aquela do joelho ralado na hora do banho, em que uma perna ficava em baixo do chuveiro e a outra fora ou o cansaço que dava no pega-pega, daqueles que até doía o pulmão.

Princesa não fazia comidinha e nem tinha panelinhas ou brinquedos rosa. Não podia ter.

Era uma princesa, princesa sempre suja de barro ou areia, suja de brincadeira, cabelo bagunçado que era o vento quem arrumava, sem botinhas mas que usava, chinelos.

"Eles são mais práticos..." ela sempre dizia assim que os jogava no chão, calçava e saia correndo.

E tinha razão.

Chinelo todo mundo tinha e tem, joelho ralado também, roupa suja com toda certeza, vontade de brincar de verdade até as mocinhas tinham e o sorriso no rosto era só consequência.

Ela era princesa, não dessas que você vê nos desenhos, era mais divertida, era linda.

E naquele domingo animado, ela usava chinelos.

Estava sempre esperta e sempre se lembrava de quebrar aquele "tabu" que pra ela não significava nada.

Menina brinca com meninas e com quem mais der vontade de brincar. E o sorriso no rosto era só consequência.

Notas finais
"Amizade de infância é terreno precioso, é garimpar até o fundo da memória e encontrar um tesouro que jamais estará à venda, por maior que seja o seu valor..."

-Penélope Duplat

A seguir, "A descoberta" e outros contos de férias.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.